domingo, 12 de abril de 2026

O Escorpião

| Ventor 18.07.18

Fez anos uns dias atrás, no mês de Julho de 1968, exactamente há 50 anos - meio século!

Eu tinha chegado a Marrupa três meses atrás e planeavam-se umas boas operações sobre o rio Lugenda e seus arredores. O então capitão piloto aviador, Mantovani, deslocou-se a Marrupa para serem planeadas as ditas cujas e acabou por dormir lá, não regressando no mesmo dia a Nova Freixo. Senta-mo-nos em frente à janela do posto de rádio, numas cadeiras e tínhamos as pernas por cima da regueira que apanhava as águas residuais das chuvas e as pingueiras que viriam do telhado do edifício. Porém, o dia estava lindo e nós falávamos sobre assuntos diversos e, na ordem do dia estava a hipótese de sofrermos um eventual ataque à morteirada.

Enfim, conversas diversas sobre a guerra, os «turras», a eventualidade de mais um operador de comunicações para nos ajudar durante esses 15 dias de operações e outras banalidades.

De repente passa por baixo das nossas pernas, vindo da minha esquerda, na tal "vala" das águas, um escorpião negro como esse em baixo.

Um escorpião negro

Quando olho o escorpião todo despachadinho, disse: o meu inimigo anda por aqui e bem dentro do arame farpado, assim como este, as mambas, as melgas, etç. Mas esses não usam morteiros! O capitão Mantovani, levantou a perna, já o escorpião tinha passado por mim e ia-lhe espetar com o tacão em cima. «Não o mate, deixe-o ir à vida dele»!

Ele ficou com a perna no ar a olhar o escorpião e disse: "metem respeito estes gajos"! Não é que não o matou! Levantei-me, peguei no escorpião com um ramo seco, fui em direcção do nosso bar, o Calhambeque, cheguei ao arame farpado e mandei o escorpião lá para fora.


Escorpião predominante em Marrupa

Quando voltei para junto dele, disse-me: "gabo-lhe a paciência, salvar o escorpião". Salvamos - disse eu! Era extraordinário aquele homem. Se fosse outro, nem que fosse só para me chatear, teria, só com um golpe, esmagado o escorpião mas não o fez. Por isso, e muito mais, ele continua vivo no meu coração.

Natal de 1969, em Vila Cabral

 | Ventor 01.03.20

Era uma vez no Niassa.

Na antevéspera de Natal de 1969, no dia 23 de Dezembro, estávamos nós mergulhados numa grande trovoada sobre o AM61. Faz hoje 49 anos este acontecimento que nunca esqueço.

Com a ajuda de Celine Dion, deixo aqui para todas as mulheres de Vila Cabral desse Natal de 1969, os meus votos de Boas Festas, pelo menos para todas que por cá andam, 49 anos depois e espero que sejam muitas

Este saco com que o Pai Natal anda hoje por aí a distribuir prendas, talvez seja o mesmo que nos levou o bolo rei, em Vila Cabral

Os raios e os trovões eram por demais e, de repente, começamos a ouvir cair morteirada para os lados de Nova Madeira, relativamente perto de Vila Cabral e da Força Aérea. Aquela morteirada misturada com o ribombar dos trovões, transformou Vila Cabral numa cidade em pé de guerra e amedrontada. Um capitão que comandava uma companhia que tinha chegado do mato, um ou dois dias antes, estava a beber uma cerveja no café Planalto. Ao ouvir a morteirada correu para o seu batalhão, alertou a sua companhia gritando: “a Força Aérea está a ser atacada, tudo para as berliers”!

Os seus homens vestiram-se e calçaram-se conforme puderam (acabando de o fazer nos seus transportes), pegando as suas armas sempre a correr e atravessando Vila Cabral a toda a velocidade. Eu estava de serviço no Posto de Rádio e, ao ouvir aquela malta entrar pelo AM61 dentro, saí para ajudar a estacionar as viaturas e perguntar o porquê de todo aquele aparato. O tal capitão contou-me tudo e, entretanto, chegou junto de nós mais meia companhia dos comandos que estavam ali perto de nós. Metade ficou para defenderem “a sua casa”, a outra metade foi juntar-se a nós para nos ajudarem a defender a nossa. Todos estavam convictos que o ataque de morteirada caía sobre a Força Aérea e era necessário juntarmos forças para a defesa.

Eu estava todo molhado como um pintainho e o telefone no posto de rádio tocava. Entrei e atendi. Era uma senhora de Vila Cabral que perguntava apenas isto: «vocês estão a ser atacados»? “Não minha senhora aqui ainda não caiu morteirada nenhuma”! «Mas nós estamos a ouvir as explosões e o barulho dos morteiros vem daí»! Fui informando aquela senhora e outras do que se passava mas não acreditavam em mim. Achavam que eu mentia para as acalmar mas eu só dizia a verdade. Não havia, nem tiros de balas na Força Aérea, em Vila Cabral e muito menos tiros de morteiros. Não sabia como lidar com a incredibilidade que elas tinham da minha informação, pois pensavam tratar-se apenas de uma mentira. Mas era a pura verdade.

«Aguemtem-se, que amanhã, as mulheres de Vila Cabral, vão fazer o melhor bolo-rei do mundo para o vosso Natal»

Noite de Natal de 1969, a noite seguinte, lá estou eu a comer o tal melhor bolo rei do mundo

Aqui, o nosso amigo açoriano, Leão, coloca um pouco da cerveja que tinha na garrafa para regar mais um pouco o meu bolo rei. As minhas botas de água, as tais que algum tempo antes me defenderam as pernas das garras da águia enorme que me queria despedaçar aos bocadinhos. Mas teve azar! Ficamos agarrados um ao outro. Ela agarrou-me uma perna com as garras e eu fui-lhe esmagando a cabeça com a outra bota a sufoca-la. Eram as botas da minha salvação! O Sargento Dias nem acreditava no que estava a ver

No dia seguinte, junto ao belo pinheiro que eu roubei ao Engenheiro, grande chefão das florestas do Niassa, que não mo quis dar, comemos o tal bolo rei que seria o melhor do mundo. E então não é que era! Não pelo bolo rei, mas pelo amor com que foi feito. E assim, Trovões, Relâmpagos, Morteiros, Exército, Comandos, Força Aérea e Mulheres de Vila Cabral e o seu bolo rei, estivemos todos unidos no mesmo combate.

Agapornis - os inseparáveis do Niassa

| Ventor 06.08.18

Isso mesmo! Coisas lindas. Uma espécie de mini-papagaios a que chamam - os inseparáveis do Niassa. E é assim que eu lhes prefiro chamar. Os inseparáveis do Niassa.

Eles têm cerca de 15 cm de comprimento e nem sei se são periquitos ou são papagaios, pois já lhes ouvi chamar as duas coisas. Mas sejam eles o que forem, sei que são penudos, lindos e amorosos.

E mais importante ainda, eu tenho uma história com eles - a história dos agapornis, os meus primeiros amigos de Marrupa.

Agapornis - os inseparáveis do Niassa

Um dia, a 06.04.1968, cheguei a Marupa, cerca do meio dia. Fui visitar o Bar, o edifício do Comando, o Posto de Rádio, cumprimentar amigos e almoçar. Quando dei pela fé era noite e fui jantar. Quando me quiseram fazer a cama, pedi para me colocarem um colchão no chão no topo da camarata, afastado das camas da rapaziada. Não era necessário montar a cama, nem sequer, rebocar o colchão. Um colchão e uma manta azul mas creio que ainda colocaram os lençóis.

Quando começava a dormir, recebi uma visita inesperada. Havia um tipo que tinha uma ratazana branca e, sem pedir licença, ela foi ter comigo. Quando senti os bigodes do rato, debaixo do meu queixo, agarrei a manta com as duas mãos, dei-lhe um safanão e mandei o rato pelo ar para os fundos da camarata. Ouvi uma voz: «o gajo matou-me o rato»! Mas não matei nada. Tudo amainou e o desgraçado do rato não se deve ter achado nada meu amigo. Mas a culpa foi dele!

No dia seguinte instalamos a minha cama onde eu queria - no Posto de Rádio. Sentei-me na cadeira de trabalho, procurei sintonizar os emissores e os receptores o melhor possível, comuniquei com Nova Freixo, Nampula e Vila Cabral e senti que estava operacional, eu e as máquinas.

São uma beleza e adoram-se uns aos outros e os donos

Num ápice e sem dar por isso, senti algo pousado nos meus ombros e a brincarem com os meus caracóis. Eram dois bichinhos desses. Dois penudos. Virei-me para o meu companheiro Melo, um cabo-verdiano que depois de Moçambique nunca mais vi e disse: "o que é isto pá! De onde apareceram estas coisas"? «São os meus periquitos, deixa-os andar que são nossos amigos».

Não sabia como chamar-lhes e eis os agopornis

Fiz uma festa aos periquitos e eles todos encantados, saíram pela janela fora e atravessaram o arame farpado para o mato. Foram comer ao mato porque, dentro de algum tempo, lá estavam eles à fossanga nos meus caracóis e ver se lhes tocava alguma gludice. E assim foi durante alguns dias até desaparecerem. Hoje descobri o nome oficial desses periquitos ou papagaios e por isso os coloco aqui, os meus amigos agapornis. E hoje percebi, também, porque lhes chamam os inseparáveis do Niassa. Porque eles foram umas belezas que iam para o mato e voltavam para estar connosco no posto de rádio durante dias. Depois desapareceram para sempre. Devem ter ido tratar da vida deles nessa bela terra que era deles também.

O Ventor e a Águia

 | Ventor 03.09.15

A águia que queria matar o Ventor, em Vila Cabral, 1969.

Num dia bonito, cheio de sol, eu e o Sargento Dias resolvemos ir à caça de perdizes para fazermos uma caminhada naqueles belos outeiros com zonas cheias de capim. As perdizes saíram do chão e voaram para a nossa esquerda. Disse ao Sargento Dias para ir pela direita que eu iria pela esquerda do local onde as perdizes tinham pousado para as fazer voar para o lado dele.

Uma ilustração da descrição da espécie

Subi um morro onde o capim me dava pelo peito e pelos ombros, ficando, praticamente, apenas com a cabeça de fora. Na minha vertical esvoaçavam, em circo, um grade grupo de aves de rapina, especialmente, abutres e algumas águias. Mandei o Goldfinger e a Leoa pela minha esquerda e o Bolinhas, um cão pequenote, ficou junto de mim. Daquele grupo de rapináceas, destacou-se uma águia que voou quase na vertical, em minha direcção. Enviei um tiro de caçadeira browning, uma semi-automática de 5 tiros. Ela desceu mais e a alta velocidade. Enviei um segundo tiro e ela desce mais. O objectivo dos tiros era espantar a águia mas ela não se atormentou. Ao terceiro tiro, na defesa do Bolinhas, já lhe arranquei algumas penas. Como ela não desarmava, enviei-lhe o quarto tiro e parti-lhe uma asa.

A águia desviou de direcção. Esqueceu o Bolinhas e atacou-me a mim. Não ia ter tempo para lhe apontar o 5º tiro. Levantei a arma em posição de defesa, esperando a oportunidade de lhe dar o 5º tiro e mata-la mas não me deu tempo.

Quase me cobriu com aquele grande manto das suas asas mas, com o cano da arma, desviei-a de mim para a minha frente, caindo a meus pés e agarrando-me uma perna cravando aquelas garras enormes na minha perna esquerda protegida por umas botas de água com borracha e lona. Ela segurou-me a perna e eu coloquei-lhe a outra bota sobre o pescoço. Enquanto ela me tentava furar a bota eu tentava asfixia-la com a outra bota sobre o pescoço, calcando sempre.

Quando o Sargento Dias chegou espavorido junto de mim porque imaginara algo diferente, pois os tiros que eu dera não eram de quem faz fogo sobre perdizes, olhou e não via nada devido ao capim, perguntou-me: "que raio de tiros foram esses"?

Chegue aqui. Quando ele viu a águia com as duas garras cravadas na bota pergunta: "e se ela fura a porra da bota! Não lhe pode dar outro tiro"? Mais um tempinho e a águia estava morta.


Esta é a águia negra africana ou águia de Verreaux. Tirei da Wikipédia esta foto carregada por Orlica. É a águia mais parecida com aquela que matei em Vila Cabral, em 1969

Esta águia é uma grande águia que vai de 75 a 96 cm da ponta do bico à ponta da cauda. Os machos pesam entre 3 a 4 kg mais ou menos e as fêmeas entre 3 a 7 kg. Tem uma envergadura de asas de 1,80 a 2,30 m.

A que eu matei, pisava-lhe a ponta de uma asa com um sapato e o meu braço esticado não chegava à ponta da outra asa. Imaginem esse bicho a alta velocidade a aproximar-se da vossa cabeça! Com um peso razoável e com as penas da cabeça todas eriçadas, tornando-a maior, o impacto dela no cano da minha arma àquela velocidade, acho que o que me safou foi ela ter a asa partida. O estupor da águia foi mesmo suicida!l

Era uma vez no Niassa

 | Ventor 22.02.14

Um dia em Marrupa, no Norte de Moçambique, Distrito do Niassa.

Um dia, saído do AB6, em Nova Freixo, cheguei a Marrupa, num T6. Era 6 de Abril de 1968. Já não tenho a certeza quem foi o Piloto. Mas, tenho a certeza que, durante algum tempo, me ia adaptando a Marrupa, especialmente à selva "savánica" em volta e as suas lânguas. Primeiro acompanhado e, como as companhias começaram a falhar (andar não era bom para todos), ia caminhando apenas só, com os nossos rafeiros. Os meus amigos Zorba, Diana e Bolinhas.

Preparado para tudo que eventualmente desse e viesse de fora da cerca do arame farpado, resolvi fazer uma limpeza da secretária do Posto de Rádio onde trabalhávamos. Comecei por retirar todos os papéis ali deixados pelos meus antecessores, colocando no cesto dos papéis os que não tinham interesse e arrumando todos aqueles que teriam justificação. Entre eles estavam alguns que nos ensinavam muito sobre as populações de Moçambique, especialmente as do Norte: Macuas-Lomués, Makondes e os Ajaúas do Niassa, outros que nos proibiam de cantar certas canções como, por exemplo, o Hino do Lunho.

Contava-se ali, também, a história da morte do Tenente Malaquias, cujo indicativo de guerra seria Ana, o nome, se a memória não me falha da sua filhota. Não me recordo bem disso, pois ele teria sido abatido no ano anterior (Outono?) de 1967. Portanto, muito tempo antes de eu chegar a Marrupa.


Da esquerda para a direita, Capitão Filipe Rolando Borges Mantovani, General Ramalho Eanes, então a cumprir comissão em Tenente Valadim, Tenente Malaquias, não recordo o nome da quarta personagem. Pelo perfil, faz-me lembrar o Ícaro, mais tarde, Comadante do 747 da TAP que levou a minha mãe na sua primeira viagem para os Estados Unidos
Hoje lembrei-me de recordar e homenagear estes homens.
Para todos que permanecem entre nós e para todos aqueles que nos deixaram mais cedo, lá ou cá, presto aqui a minha homenagem e, especialmente, ao Capitão Mantovani a quem sempre considerei um amigo. Ele foi morto na Guiné, em 1973, cerca de três anos depois de nos despedirmos, em Nova Freixo. Recebi, então, a notícia da sua morte, na primeira página do Diário de Notícias, numa manhã de 1973. Sentei-me numa mesa do velho café Monumental, coloquei o jornal sobre a mesa e deparei-me com a sua primeira página onde aparecia a fotografia do então Major Mantovani.

Major da FAP, Filipe Rolando Borges Mantovani, morto em combate na Guiné. A guerra continua a fazer-nos chorar.

General Melo Egídio

| Ventor 07.12.11

... o Governador. O governador do distrito do Niassa, no norte de Moçambique e o Governador Geral de Macau, mais tarde.

Um dia cheguei a Moçambique, segui o rumo e tudo correu como eu queria. Fui parar ao Niassa, Nova Freixo, mais precisamente, AB6 - Aeródromo Base 6. Isso aconteceu no ano de 1968 e a 31 de Janeiro, cerca da meia noite, cheguei a Nova Freixo. Dois meses, em Nova Freixo e rumei a Marrupa ("terra do Desterro", significado indígena de Marrupa) logo de seguida. Por ali, com intervalo de cerca de meio mês, estive oito meses e meio.

Foi em Marrupa que ouvi falar desse homem. Um militar que seria, na altura, Coronel - O Coronel Melo Egídio, Governador Civil do Distrito do Niassa.

Um dia, na minha caminhada por Marrupa, no Aeródromo de Manobras 62 (AM 62), de manhã cedo, estava o meu amigo "Louco da Malásia" de serviço, no Posto de Rádio e eu, dormindo! O dia acordou com uma grande trovoada sobre Marrupa. Na sequência da azáfama do dia anterior, eu dormia e, de repente, senti que o Posto de Rádio da Força Aérea iria abaixo ou ardia!

Um grupo de militares invadiu o Posto de Rádio. O burburinho deles, juntou-se à pedalada dos relâmpagos e dos trovões. Tudo aquilo se tornava insuportável. Eu, que até era bom rapaz, pelo menos fazia por isso, comecei a sentir-me chateado. Sem reparar quem estava, pedi ao meu amigo Louco da Malásia para desligar os equipamentos. Ele assim procedeu mas a pressão sobre ele era muito grande! Um grupo de militares achava que o homem não falhava e que chegaria, mesmo no meio da trovoada! No meio da balbúrdia acabei por acordar e virei-me para o outro lado. Mas a algazarra foi aumentando e eu, sem mais nem menos, metido no meio dela, sem justa causa. Pelos fios que desciam das antenas, desciam também os relâmpagos e o Posto de Rádio parecia incendiar-se.

Por fim, ouvi uma voz dirigida ao Louco da Malásia: "que está você aqui a fazer? Você não está de serviço? Ligue essa merda, senão os homens ainda morrem e nós não sabemos"! O Louco da Malásia que, também era bom rapaz, cedeu e fez a vontade aos cabeças do ar condicionado do Sector Echo, ligando os emissores e chamando Vila Cabral. Um relâmpago endiabrado penetra junto dos fios. Parecia que nos queria destruir o Posto de Rádio e eu não queria o Posto de Rádio destruído. O meu sono sumiu. Endiabrei! Levantei-me, com calma, em slipes, passei no meio dos cabeças de ouro do Sector Echo, espreitei pela janela e, ... sem mais, dirigi o dedo grande do meu pé direito, ao botão geral dos equipamentos de rádio, pressionei e disse: "só gente que não percebe nada disto, julga que um avião entra hoje, em Marrupa, enquanto as circunstâncias se mantiverem. «Chegaste a enviar a informação meteorológica para Vila Cabral»? "Sim, mas já não me chegaram a informar se o avião iria decolar". «Se descolou, quando tiver a área de Marrupa à vista, foge logo para trás».

Virei-me para o meu amigo Louco e disse: «não ligas mais esta coisa, hoje, enquanto eu não te disser, ouviste! E que está esta malta aqui a fazer? Todos lá para fora»! Era fora do Posto de Rádio, abrigados pelo telheiro, que eles deviam guardar, se as houvesse, as comunicações. Ficamos só eu e o Louco da Malásia. Por fim, mais tarde, os nossos amigos do Sector Echo, acabaram por abalar. Chegaram à conclusão que eu tinha razão e desandaram. Pensaram que o avião nunca mais chegaria, como não chegou! Seria impossível e ainda bem para todos, eles e nós!

Soube, na sequência dessa pequena escaramuça, que o Senhor Governador Civil do Niassa, teria informado que, naquele dia, iria fazer uma visita à bela terra do DESTERRO - Marrupa!

Dias depois, fui informado pelo meu Comandante, em Nova Freixo, que havia uma queixa do Comandante do Sector Echo, enviada para Nampula, contra mim e queria saber pela minha boca o que se tinha passado. Disse-lhe que não sabia de nada, tinha de se "esmerar" para me fazer compreender o porquê, pois nunca tivera qualquer mal entendido com o comandante do Sector Echo. Então, o meu comandante lá veio com o meu aparecimento  no meio do Staff de Marrupa em "trajes menores"! Percebi tudo mas, o ataque daquele Maralhal, contra o Fox, saiu baldado. Eu apenas defendi os equipamentos contra casmurros precipitados, dos quais nem vi galões.

Algum tempo de felicidade, nas escaramuças da guerra, com a minha cegonha

Mais tarde, apareci em Vila Cabral e, podem crer, vim a conhecer o Senhor Governador Civil, Melo Egídio e, se alguém tiver dúvidas, podem crer que tivemos sempre um relacionamento exemplar. Para ele, eu era o Ok, OK, ... porque lhe resolvia alguns problemas da sua malta civil, sempre que possível, especialmente, nos transportes para o Hospital de Nampula.

Poderia falar muito sobre esses tempos do Niassa e bastante sobre esse homem que me pareceu muito querido das populações desse Distrito.

Esse homem, o Governador do Distrito do Niassa, em Moçambique, que veio a ser Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas e Governador de Macau e que, por determinação do Senhor da Esfera ou das Parcas, nos deixou hoje, merece toda a minha consideração e votos de simpatia pelo pouco tempo de convivência que tivemos no Niassa, em Vila Cabral. O sorriso dele cativava.

Deixo aqui os meus pêsames a toda a sua família, especialmente, à sua filha Paula, que melhor conheci, se é que ainda existe, neste nosso mundo, neste nosso Planeta Azul.

Que Deus o tenha a seu lado, Senhor General.

Francisco Daniel Rocho

 | Ventor 03.09.11

... um combatente!


Francisco Daniel Roxo - Comandante das Milícias, em Vila Cabral, no Distrito do Niassa
Nas minhas caminhadas por Marrupa, no ano de 1968, comecei a ouvir falar deste homem e das várias histórias que se contavam dele. Acredito que, a sua vida de caçador ou a sua inocência de homem simples, o tornassem num temerário. Afinal, isso entranha-se em nós, quando caminhamos no mato e, mais ainda, quando estamos preparados para tudo, até para morrer.
 
Não sei se alguém sabe como vivemos a vida quando estamos preparados para morrer. Eu já passei por isso e não é por acaso que caminhava quilómetros sozinho nos matos de África, especialmente, em Marrupa, e também em Vila Cabral, sem pensar no amanhã! Hoje, não o faria! Isto era no tempo em que o medo não existia no meu cérebro. Posso acreditar que alguns de vós tenha passado por isso pois, certamente, eu não serei excepção a esse estado de espírito.
Nem eu, nem o Daniel Roxo!
Eu sei que ele não tinha medo. Ele dizia que hoje era hoje e, o amanhã, logo se via. Era assim que eu pensava. Tal e qual! Mas depois da minha passagem de 8 meses e meio por Marrupa e pelos seus matos envolventes ao AM62, quantas vezes só, com os rafeiros, amigos a valer, em caminhadas sem fim, algumas vezes perdido de noite, em busca de verylights que me indicassem o caminho para o Aeródromo e, quantas vezes, sem bússola nem verylights, dava sempre com a porta! Ainda hoje, quando penso nisso, parece-me que até cheiro o mato. Aquele cheiro a bravo, nesse mato selvagem. Uma vez matei um bicho sobre uma árvore, quando descia uma lângua a oeste de Marrupa e, no regresso, a pestilência, a bichos bravos, era enorme. Os cães, quatro com a cachorrinha Diana (filha da Leoa de Vila Cabral) que, tanto gostava de ir comigo que andava quase sempre com ela ao colo.
Quando cheguei ao local, já só havia restos de pelo do bicho e o medo dos cães era enorme! Parei, na margem direita da lângua e fui mudando os cartuchos, na Browning, para caça grossa. Os cães pisavam-me os tornozelos e quase não me podia mexer. Limitei-me a ficar ali, durante algum tempo, recuando uns metros até à árvore mais próxima, sempre a olhar o capim intenso à minha frente. Os cães continuavam enroscados em volta das minhas pernas a ganir e eu não tirava os olhos da zona do capim e das árvores a seguir, para onde eles olhavam e do pelo do Zorba, todo eriçado sobre o lombo.
 
Dei tempo ao animal ou animais que cheiravam a bravo, ali perto e assustavam os cães, para se decidirem a tomar a iniciativa. O chumbo grosso estava ali à espera deles. Mas nada. Por fim, decidi eu. Bummm! Meti outro cartucho! Observei tudo à minha volta e nada! Decidi pôr-me a caminho. O tiro pareceu-me algo de extraordinário. Não vi mexer o capim, não vi nada fugir. Os cães amainaram e, lentamente foram-se afastando das minhas pernas. A Diana pediu-me colo e eu disse-lhe que não. Tinha de fazer um esforcinho e eu olhar para trás e para os lados para defender o meu pelo e o deles. Nunca mais houve problemas até ao AM62. Tive receio durante algum tempo de que as coisas nos corressem mal para mim e para os cães mas, não havia vaga para guardar os medos. Concluí que os animais tinham lá estado e se afastaram à minha aproximação. No dia seguinte, lá estávamos outra vez, e sós!
 
Recordando os meus receios ou medos, recordo também, como viveria a cabeça do Daniel Roxo com os seus medos do dia. Vou contar-vos o único medo em que o cacei!
Um dia, lá cheguei eu a Vila Cabral, nos princípios de Julho de 1969. Quis logo conhecer a cidade e lá fomos quatro marmanjos com esse objectivo. Vimos aquela represa, lá em baixo, entre os pinheiros e iniciamos uma caminhada até lá. Chegamos junto da água, reparamos nas suas margens e, como o tempo apertava, decidimos voltar ao AM61. Mal iniciamos a subida da picada, já um pouco afastados da represa, ouvimos tiros e as balas a zunir junto dos ouvidos e a baterem no chão, junto de nós. Não tínhamos uma única arma e ficamos ali, de rojos e ainda vi uma bala levantar o pó, bem junto da minha cabeça! O fogo calou-se e nós reiniciamos a caminhada. Pelo caminho pensei que, se quisessem matar-nos, já o teriam feito. Não ouvimos nem mais um tiro!
 
Chegamos à Pista de Vila Cabral, a malta cheia de sede, dirigiu-se para o Bar. Eu aguardei uma viatura tipo militar, um jipe a alta velocidade, direita a mim, e um tipo espavorido a saltar dele.
«Vocês souberam o que fizeram? Vocês sabiam o risco que corriam e foram para uma zona de reserva onde não se pode entrar sem a minha autorização? Eu espeto-lhe um murro nesses cornos que dou cabo de si»! Eu, estupefacto, vejo aquele gajo fardado à militar com o punho no ar, a ameaçar-me e, ... "calma aí amigo, explique-se melhor que não estou a perceber nada»! «Não está? ...Eu sou transmontano», ... eu faço, eu aconteço, eu, ... "Olhe, sabe um coisa? O senhor é transmontano, eu sou minhoto e parte-me os cornos uma merda! Não sei quem o senhor é, e estou-me nas tintas para o seu camuflado. Para me dar um murro nos cornos é preciso que eu deixe ou julga que vou ficar aqui à espera, de braços cruzados"?!
 
A partir dali, acabou a nossa guerra a dois. Explicou-me toda a engrenagem e que, as suas milícias podiam ter-nos morto enquanto treinavam situações de fogo e que tivemos sorte por o comandante do grupo de atiradores ter-se apercebido da nossa presença e terem cessado o fogo. Não fosse isso e saíamos de lá como passadores!
A partir desse desentendimento, fomos beber uma bazuca e ficamos amigos mas, nunca mais me esqueci do Daniel Roxo. Ele é o tal homem que tinha entrado no café Planalto e pediu uma cerveja. Bebeu o primeiro gole de cerveja, ouviu tiros, algures junto da cidade, pousou a garrafa e disse para o gajo do balcão: «guarda-me aí a garrafa que ainda venho beber a cerveja fria" e, lá partiu no jipe à procura dos tiros!
 
Outra peripécia do Roxo foi num voo de Revis, numa DO-27, bem perto de Vila Cabral. A nossa DO-27, o Roxo e o Comandante de Operações do Sector Alpha, um Major porreiro! Eu estava de serviço e, de repente, só ouvia o Roxo a mandar vir com o avião e com a FAP. «A Força Aérea não presta, manda para aqui esta merda desarmada. Nem uma G-3! Assim não podemos fazer nada. Mas que porra! O piloto do DO transmitia-me tudo e perguntou-me se os T-6 podiam actuar. Chamei o Comandante do AM, aviões para o ar e zás! Combinamos um nível de voo para a Do, de maneira a que os T-6 entrassem ao ataque por baixo. O Roxo transfigurou-se quando viu os T-6 lançar os rocketes a atacar forte e feio as posições dos nossos amigos de estimação. Quando regressaram, saiu da DO-27, correu para mim a abraçar-me e só dava louvores à Força Aérea. Foi uma mudança radical. Creio que quem comandou esse ataque foi o Ícaro. O Roxo correu para o Jipe, voltou-se para nós e disse: «Agora vai ser comigo»!
Tantos anos já passaram - 42 anos! Cuidado com a cegonha!!!! Foram danças como esta, as mais lindas que fiz até hoje
Tenho outras situações em que o Roxo era mencionado em locais que nem lá estava. Uma vez o Comandante do Sector Alpha disse ao Capitão que partiu com a sua companhia em socorro da Força Aérea, cerca da meia-noite, nas vésperas do natal de 1969, que esse ataque era das milícias do Roxo e eu que sabia onde andava o Roxo, nessa altura, tirei o telefone das mãos desse capitão e fui eu que fiz a guerra com esse Comandante que, afinal só temia o medo dos civis de Vila Cabral e ficou com uma vontade de me triturar mas não passou disso. Tenho isso mais desenvolvido por aí, num post, e tenho ainda nos ouvidos, as vozes das mulheres de Vila Cabral a pedirem-me, pelo telefone, para resistirmos que iríamos ter um Natal cheio do melhor bolo rei do mundo. Giro, não é? Não foi por falta de vontade que o bolo rei não veio a ser o melhor do mundo!
Mas, anos depois, voltei a saber do Roxo mais uma vez! Quando passava numa Av. de Lisboa, vi um jornal e, em toda ou quase toda a 1ª página, estava escrita uma frase: «adeus Comandante» e vinha lá uma foto como essa.
Era um jornal reaccionário ou até super, que se chamava Rua. Mas eu comprei-o! Foi assim que tive conhecimento da morte do Francisco Daniel Roxo. Tive conhecimento, através desse jornal, da sua morte e tive uma guerra com os meus amigos comunistas e da extrema esquerda que, então, pululavam na minha empresa. Felizmente, tinha tanto medo deles como tinha então das hienas de Marrupa e de Nova Freixo.
E, em resumo, para aqueles que não sabem, dizia o jornal que o Daniel Roxo morreu numa escaramuça entre a Frelimo e a Renamo e, também, segundo o jornal, o homem que se dizia imune às bazukas, foi trucidado por uma.
Este post destina-se a recordar um homem de quem muitos não gostaram mas, que eu vejo, apenas, como mais um dos nossos parceiros de tempos conturbados na nossa caminhada africana. Deixo-lhe aqui a minha homenagem.
PS. Posteriormente, vim a saber que o Francisco Daniel Roxo morreu no sul de Angola, em combate contra cubanos e o MPLA, conforme os comentários a este foto e no Blog - Rio dos Bons Sinais.

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...