domingo, 12 de abril de 2026

Durante o tempo da Ota

 | Ventor 28.04.24

Fizemos uma recruta terrível no inverno de 1966. Não vale a pena falar aqui da recruta, do curso de telecomunicações, do estágio e de todas as peripécias relacionadas com esses 14 meses ou à volta disso. Só isso dava para escrever uma bíblia do meu mau e bom comportamento como me dizia o Major Tomás.

Depois de tudo isso ter acabado, escolhemos os nosso destinos. O meu destino foi o Grupo GDACI em Monsanto, pois havia três. Monsanto, em Lisboa, Montejunto, na mesma serra, na serra da Estrela e outro lá pelo Porto.

Do GDACI (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção), éramos distribuídos pelo Estado Maior da Força Aérea e pelas várias Direcções da Força Aérea. A mim tocou-me a DSCTA (Direcção dos Serviços de Comunicações e Tráfego Aéreo) na Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa. Por ali andei cerca de 8 meses e utilizava um Tele-impressora. Quer isso dizer que quando fui mobilizado para Moçambique já estava quase esquecido do código Morse.

Mas quando parti, deixei nessa direcção grandes amigos. Os, à altura, major Mota Martins, o major Costa, o Cap. Valdaque e outros cujos nomes perdi nas brumas do tempo.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Quase de abalada

| Ventor 28.04.24

Agora sim! África à Vista. Estava na DSCTA e fui mobilizado a 1ª vez para a Guiné, a Sub-Região Aérea da Guiné e Cabo Verde. Mas toda a gente sabia que eu queri era ser mobilizado para Moçambique. Chegou o Cap. Mota Santos com a mensagem na mão, muito triste porque não era para onde eu queria. Fui desmobilizado e algum tempo depois voltei a ser mobilizado para a Base Aérea 9, em Luanda, Angola. O Cap. Mota Santos já vinha mis satisfeito porque Luanda seria melhor para mim.

Voltei a ser desmobilizado e mais tarde, fim de Novembro, princípios de Dezembro, voltei a ser mobilizado para Moçambique.

Agora é que é! Eu que estudava tudo o que se relacionava com Moçambique, estava preparado para colocar pés no ar ou no mar e ala que se faz tarde.

E pronto! Estou quase a colocar os pés em Moçambique e onde exactamente eu queria - o Niassa. Daqui em diante vou contar-vos a minha história por Moçambique e pela mãe Negra. Mama Sumé!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Hienas em Nova Freixo

| Ventor 19.04.24

Hiena espertalhona

Vocês não sabem, mas ele julga que uns quantos dos meus antepassados, na velha Nova Freixo (actual Cuamba), não o comeram porque cheirava a cerveja e a whisky. Francamente, a mim, custa-me a acreditar que fosse por isso. Nós, as hienas, quando atacamos, começamos com umas ladeiinhas (nhe, nhe, nhe, nhe ... ) para ver se os animais fogem, mas este animal a que chamamos Ventor não fugiu e isso fê-las pensar que a coisa não seria fácil. A chefe não se atreveu a desencadear as hostilidades porque cada vez que o Ventor caía, virava-se de repente e ameaçava-as e, tal como o Ventor diz, elas só pensavam em fugir retirando. 

E cada vez que o Ventor se reencaminhava para a base, elas voltavam a querer atropela-lo. Seja como for a chefe do grupo acabou por desistir e concluiu que os animais de duas patas têm a carne podre, até para hienas.

Se quiserem ler a história está, para exemplo em Hienas em Nova Freixo.

A Senhora da Lângua

| Ventor 09.04.20

Morta pela ilusão do calor que lhe dava vida, e ...

Eu sei que o Ventor ainda hoje lamenta alguns bocados da sua passagem por Moçambique e este é um deles. Mas também em locais tão longe do mundo e escondidos na selva ou quase, como se haviam de entreter? Caminhar, caminhar, caminhar ... e nem todos gostavam disso! A vida deles não era só defenderem-se dos "turras" e continuarem a levantar-se todos os dias. Era necessário continuarem a levantar-se todos os dias mas, continuar, também, a viver a vida!

«Esta é mais uma história verdadeira passada comigo e com Companheiros de Guerra.

Todas as histórias começam com: "era uma vez" ou, "once upon a time"!

Faz muito anos, nas longínquas "lânguas" de Marrupa, quatro marmanjos nascidos neste belo jardim, à beira mar plantado, decidiram ir à caça numa das mais belas terras de África - Marrupa, que significa, em linguagem indígena, Desterro. Não é o Desterro de Belém, não! É mesmo um Desterro na selva!

Partimos direitos à "picada", não no fim ou no princípio, mas no meio de algures, que nos poderia levar até ao fim do mundo, mas logo saímos dela, penetrando num matagal sem fim! Tomamos posições e, como sempre, lá continuava eu na ponta esquerda. Tinha sempre a direita protegida e a esquerda era comigo e, por vezes, as situações tornavam-se bem difíceis!

Neste caso, foi a mim que calhou enfrentar uma grande queimada que partira da lângua para o meu lado e à direita da lângua, para fugirem à queimada, partiam os outros três amigos.

Mas eu tinha tendência para me afastar e a queimada começou a empurrar-me para fora dela, pois apesar de tentar fugir aos matos queimados, já estava pior que um carvoeiro. De repente, enquanto magicava como sair daquela, sem ficar isolado, ouço gritar: "Ventor! ..." Pensei que estavam aflitos, pois de outra maneira não gritavam! Desato numa correria louca sobre o outeiro queimado direito à lângua e lá do alto, vejo lá no fundo, os três com as armas em riste! Mas lá, o mato e o capim não tinham ardido e eu só os via do peito para cima e cada vez mais corria perante o espectáculo da estupefacção daquelas três caras alarmadas!

Quando me viram, gritaram para ter calma e eu, como não tinha ouvido nenhum tiro, achei que, se calhar, encontraram alguém ferido ou, então, deram cabo de algum "turra", à coronhada!


AM 62 - Aeródromo de Manobras 62, Marrupa, em 1968

Bem, à medida que me aproximava e nada via, ouvi um deles dar um tiro. Pum!!! No vale parecia que toda a selva se desmoronava! Pum !!! Outro! Aproximei-me e vejo o que não imaginava! Uma jibóia com 4,70 metros, o que para nós a tornava colossal! Deu-lhe os dois tiros porque, segundo eles diziam, estava a levantar-se em tom ameaçador! Tinha os dois tiros de G-3 na cabeça. Um no centro e outro mais ao lado. Fazia pena ver a bicha ali, estirada, sem razão aparente e eu não gostei nada que ela tivesse sido morta, ali, fora do seu buraco, pois o aquecimento da queimada tinha atirado com ela, cá para fora, como se tivesse havido por ali, um bafo de Primavera.

Mas o mal estava feito! Agora era pega-la e leva-la até ao Aeródromo, como troféu!

Peguei num punhal do mato e cortei um arbusto que o meu amigo Rafael, um Macua de Marrupa, me tinha ensinado como fazer uma corda na selva com a sub-casca de árvore ou arbusto. Atei aquela fitinha em volta da cabeça da jibóia e a um pau; nesse instante, ela levantou aquela cabeçorra a espirrar terror e sangue contra mim e eu só tive tempo de lhe tentar esmagar a cabeça com o tacão da bota. Só parei quando achei que estava bem esmagada, não fosse fazer uma tentativa igual imanada de um terror inimaginável!


Uma boa constritora tirada da Wikipédia

Dei os nós cegos à fita tirada do arbusto e comecei a arrasta-la. Era bem pesada e tivemos que nos revezar para a levar de rastos até à base. Fomos pelo corta-mato até à pista e custou-nos bastante, pois estávamos muito longe. Quando cheguei à pista com ela sempre a fungar sangue e terror, olhei bem os olhos mortíferos do animal e achei que ela se recusava a morrer! Eram cinco horas locais quando chegamos e estavam os pretos civis a abandonar o trabalho que realizavam para os nossos serviços de infra-estruturas.

Pedi a um deles para lhe cortar a cabeça com uma catana mas, o gajo disparou numa correria louca, e outro, e outro e ainda mais outro! Todos fugiam, até que um, bem mais atrevido, se aproximou com uma catana e lhe deu o golpe de misericórdia, cortando-lhe a cabeça. Era uma jibóia média mas já metia muito respeito a qualquer e preparava-se para ser a grande senhora das "lânguas" de Marrupa.

Ainda hoje lamento a morte daquela bela "rapariga" que com dois tiros de G-3 na cabeça, tão valentemente tentou insurgir-se contra a morte e contra os seus carrascos.

Dia das Inspecções para a FAP

| Ventor 28.04.24

Veio o dia das inspecções, 17 de Janeiro de 1966. À medida que sabiam que eu tinha optado pela Força Aérea, as críticas foram subindo de tom.

Entre os que se opunham, foi a Força Aérea que pagou. Os aviões não prestam, está tudo velho, estão ligados por arames, é muito provável que vás mas já não voltes, etç.

Mas em Monsanto foi o diabo! Debaixo do chão, embrulhados em betão (até nos diziam que aquilo era à prova da bomba atómica). Mas o pior foi o frio! Ficamos em cuecas o dia todo. Só nos vestimos para almoçar e depois para o jantar e ir embora. Havia um tipo do Porto mal dos ouvidos e fizeram-lhe uma lavagem. Gritou perdidamente.

No meu caso, um capitão médico, verificou que eu tinha tido um reumático quando era pequenino mas que não me preocupasse porque aquele nunca mais se repetia. E muitos outros, na inspecção, tiveram uma série de problemas. No fim formamos dois grupos. Um grupo A, pequeno, onde eu pertencia e um grupo B bem maior.

Chegou lá um tenente e uns sargentos que apareceram depois do jantar com umas pastas cheias de papéis e começaram a tirar nabos da púcara. Diz um: "entraram todos juntos e agora vão sair daqui em dois grupos. Um dos grupos vai receber guia de marcha para a Base Aérea 2 e o outro recebe guia de marcha para casa".

"Ora vamos lá ver como isto fica".

Eu comecei logo a pensar qual dos dois grupos iria para a Base Aérea 2. Eu pertencia ao grupo mais pequeno e pelo que se passara com o tipo dos ouvidos esfrangalhados pela cera e outras coisas, concluí que a minha guia de marcha seria para casa. 

Chegou a hora das certezas. "Grupo A, venham receber a guia de marcha para a Base Aérea 2 (Ota). Grupo B, venham receber a guia de marcha para casa.

Eu já me estava a ficar nas tintas mas mal recebi a ordem de marcha para a Ota, percebi logo que eu estava mesmo com muita vontade de ir para a Força Aérea. E fui!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Foram 52 meses de Força Aérea

| Ventor 28.04.24

Foram 52 meses da minha caminhada na Força Aérea Portuguesa. Ia fazer 20 anos.

Estudei, em contra relógio, como maior, num externato chamado Eça de Queiroz, onde joje fica o edifício sede da Caixa Gera de Depósitos, em Lisboa. Ali conheci alguma rapaziada que perdi com o tempo. Havia um rapaz que tinha desaparecido por não se apresentar às aulas. Enfim, disse para os meus botões: deve ter desistido.

Cerca de um ano e tal depois, encontrei-o na Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa e perguntei-lhe: porque desististe? E que raio de farda é essa que trazes vestida?

Ele disse-me que tinha ido para a Força Aérea e que foi tirar um curso de especialistas na Base Aérea 2, na Ota. Bla, bla, bla, ... despedimo-nos, até sempre. Nunca mais o vi. Mas comecei a magicar na Força Aérea. Ele já estava mobilizado, para África e vestia aquela farda cor café com leite que punha muitas moças malucas.

No mês de novembro de 1965 passei na rua Newton, em Lisboa, onde estava intalado um gabinete de recutamento da Força Aérea. Entrei e fui perguntar como aquilo era. Fui atendido por um Sargento que me explicou o essencial da engrenagem. Disse-lhe: eu faço 20 anos em Janeiro que bem, posso inscrever-me? Pode. Se quiser pode fazê-lo já. A Força Aérea só aceita voluntários.

Também ainda não dei o nome para o exército, quero dizer que estou a transgredir, o que posso fazer? Nada, mas pode esquecer que eles existem, nós tratamos dessa parte.

Inscrevi-me. Recebi instruções para dar o primeiro passo. Fazer um raio X no Chile e entregá-lo lá para a inscrição ser aceite.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabra

O Escorpião

| Ventor 18.07.18

Fez anos uns dias atrás, no mês de Julho de 1968, exactamente há 50 anos - meio século!

Eu tinha chegado a Marrupa três meses atrás e planeavam-se umas boas operações sobre o rio Lugenda e seus arredores. O então capitão piloto aviador, Mantovani, deslocou-se a Marrupa para serem planeadas as ditas cujas e acabou por dormir lá, não regressando no mesmo dia a Nova Freixo. Senta-mo-nos em frente à janela do posto de rádio, numas cadeiras e tínhamos as pernas por cima da regueira que apanhava as águas residuais das chuvas e as pingueiras que viriam do telhado do edifício. Porém, o dia estava lindo e nós falávamos sobre assuntos diversos e, na ordem do dia estava a hipótese de sofrermos um eventual ataque à morteirada.

Enfim, conversas diversas sobre a guerra, os «turras», a eventualidade de mais um operador de comunicações para nos ajudar durante esses 15 dias de operações e outras banalidades.

De repente passa por baixo das nossas pernas, vindo da minha esquerda, na tal "vala" das águas, um escorpião negro como esse em baixo.

Um escorpião negro

Quando olho o escorpião todo despachadinho, disse: o meu inimigo anda por aqui e bem dentro do arame farpado, assim como este, as mambas, as melgas, etç. Mas esses não usam morteiros! O capitão Mantovani, levantou a perna, já o escorpião tinha passado por mim e ia-lhe espetar com o tacão em cima. «Não o mate, deixe-o ir à vida dele»!

Ele ficou com a perna no ar a olhar o escorpião e disse: "metem respeito estes gajos"! Não é que não o matou! Levantei-me, peguei no escorpião com um ramo seco, fui em direcção do nosso bar, o Calhambeque, cheguei ao arame farpado e mandei o escorpião lá para fora.


Escorpião predominante em Marrupa

Quando voltei para junto dele, disse-me: "gabo-lhe a paciência, salvar o escorpião". Salvamos - disse eu! Era extraordinário aquele homem. Se fosse outro, nem que fosse só para me chatear, teria, só com um golpe, esmagado o escorpião mas não o fez. Por isso, e muito mais, ele continua vivo no meu coração.

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...