domingo, 12 de abril de 2026

General Melo Egídio

| Ventor 07.12.11

... o Governador. O governador do distrito do Niassa, no norte de Moçambique e o Governador Geral de Macau, mais tarde.

Um dia cheguei a Moçambique, segui o rumo e tudo correu como eu queria. Fui parar ao Niassa, Nova Freixo, mais precisamente, AB6 - Aeródromo Base 6. Isso aconteceu no ano de 1968 e a 31 de Janeiro, cerca da meia noite, cheguei a Nova Freixo. Dois meses, em Nova Freixo e rumei a Marrupa ("terra do Desterro", significado indígena de Marrupa) logo de seguida. Por ali, com intervalo de cerca de meio mês, estive oito meses e meio.

Foi em Marrupa que ouvi falar desse homem. Um militar que seria, na altura, Coronel - O Coronel Melo Egídio, Governador Civil do Distrito do Niassa.

Um dia, na minha caminhada por Marrupa, no Aeródromo de Manobras 62 (AM 62), de manhã cedo, estava o meu amigo "Louco da Malásia" de serviço, no Posto de Rádio e eu, dormindo! O dia acordou com uma grande trovoada sobre Marrupa. Na sequência da azáfama do dia anterior, eu dormia e, de repente, senti que o Posto de Rádio da Força Aérea iria abaixo ou ardia!

Um grupo de militares invadiu o Posto de Rádio. O burburinho deles, juntou-se à pedalada dos relâmpagos e dos trovões. Tudo aquilo se tornava insuportável. Eu, que até era bom rapaz, pelo menos fazia por isso, comecei a sentir-me chateado. Sem reparar quem estava, pedi ao meu amigo Louco da Malásia para desligar os equipamentos. Ele assim procedeu mas a pressão sobre ele era muito grande! Um grupo de militares achava que o homem não falhava e que chegaria, mesmo no meio da trovoada! No meio da balbúrdia acabei por acordar e virei-me para o outro lado. Mas a algazarra foi aumentando e eu, sem mais nem menos, metido no meio dela, sem justa causa. Pelos fios que desciam das antenas, desciam também os relâmpagos e o Posto de Rádio parecia incendiar-se.

Por fim, ouvi uma voz dirigida ao Louco da Malásia: "que está você aqui a fazer? Você não está de serviço? Ligue essa merda, senão os homens ainda morrem e nós não sabemos"! O Louco da Malásia que, também era bom rapaz, cedeu e fez a vontade aos cabeças do ar condicionado do Sector Echo, ligando os emissores e chamando Vila Cabral. Um relâmpago endiabrado penetra junto dos fios. Parecia que nos queria destruir o Posto de Rádio e eu não queria o Posto de Rádio destruído. O meu sono sumiu. Endiabrei! Levantei-me, com calma, em slipes, passei no meio dos cabeças de ouro do Sector Echo, espreitei pela janela e, ... sem mais, dirigi o dedo grande do meu pé direito, ao botão geral dos equipamentos de rádio, pressionei e disse: "só gente que não percebe nada disto, julga que um avião entra hoje, em Marrupa, enquanto as circunstâncias se mantiverem. «Chegaste a enviar a informação meteorológica para Vila Cabral»? "Sim, mas já não me chegaram a informar se o avião iria decolar". «Se descolou, quando tiver a área de Marrupa à vista, foge logo para trás».

Virei-me para o meu amigo Louco e disse: «não ligas mais esta coisa, hoje, enquanto eu não te disser, ouviste! E que está esta malta aqui a fazer? Todos lá para fora»! Era fora do Posto de Rádio, abrigados pelo telheiro, que eles deviam guardar, se as houvesse, as comunicações. Ficamos só eu e o Louco da Malásia. Por fim, mais tarde, os nossos amigos do Sector Echo, acabaram por abalar. Chegaram à conclusão que eu tinha razão e desandaram. Pensaram que o avião nunca mais chegaria, como não chegou! Seria impossível e ainda bem para todos, eles e nós!

Soube, na sequência dessa pequena escaramuça, que o Senhor Governador Civil do Niassa, teria informado que, naquele dia, iria fazer uma visita à bela terra do DESTERRO - Marrupa!

Dias depois, fui informado pelo meu Comandante, em Nova Freixo, que havia uma queixa do Comandante do Sector Echo, enviada para Nampula, contra mim e queria saber pela minha boca o que se tinha passado. Disse-lhe que não sabia de nada, tinha de se "esmerar" para me fazer compreender o porquê, pois nunca tivera qualquer mal entendido com o comandante do Sector Echo. Então, o meu comandante lá veio com o meu aparecimento  no meio do Staff de Marrupa em "trajes menores"! Percebi tudo mas, o ataque daquele Maralhal, contra o Fox, saiu baldado. Eu apenas defendi os equipamentos contra casmurros precipitados, dos quais nem vi galões.

Algum tempo de felicidade, nas escaramuças da guerra, com a minha cegonha

Mais tarde, apareci em Vila Cabral e, podem crer, vim a conhecer o Senhor Governador Civil, Melo Egídio e, se alguém tiver dúvidas, podem crer que tivemos sempre um relacionamento exemplar. Para ele, eu era o Ok, OK, ... porque lhe resolvia alguns problemas da sua malta civil, sempre que possível, especialmente, nos transportes para o Hospital de Nampula.

Poderia falar muito sobre esses tempos do Niassa e bastante sobre esse homem que me pareceu muito querido das populações desse Distrito.

Esse homem, o Governador do Distrito do Niassa, em Moçambique, que veio a ser Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas e Governador de Macau e que, por determinação do Senhor da Esfera ou das Parcas, nos deixou hoje, merece toda a minha consideração e votos de simpatia pelo pouco tempo de convivência que tivemos no Niassa, em Vila Cabral. O sorriso dele cativava.

Deixo aqui os meus pêsames a toda a sua família, especialmente, à sua filha Paula, que melhor conheci, se é que ainda existe, neste nosso mundo, neste nosso Planeta Azul.

Que Deus o tenha a seu lado, Senhor General.

Francisco Daniel Rocho

 | Ventor 03.09.11

... um combatente!


Francisco Daniel Roxo - Comandante das Milícias, em Vila Cabral, no Distrito do Niassa
Nas minhas caminhadas por Marrupa, no ano de 1968, comecei a ouvir falar deste homem e das várias histórias que se contavam dele. Acredito que, a sua vida de caçador ou a sua inocência de homem simples, o tornassem num temerário. Afinal, isso entranha-se em nós, quando caminhamos no mato e, mais ainda, quando estamos preparados para tudo, até para morrer.
 
Não sei se alguém sabe como vivemos a vida quando estamos preparados para morrer. Eu já passei por isso e não é por acaso que caminhava quilómetros sozinho nos matos de África, especialmente, em Marrupa, e também em Vila Cabral, sem pensar no amanhã! Hoje, não o faria! Isto era no tempo em que o medo não existia no meu cérebro. Posso acreditar que alguns de vós tenha passado por isso pois, certamente, eu não serei excepção a esse estado de espírito.
Nem eu, nem o Daniel Roxo!
Eu sei que ele não tinha medo. Ele dizia que hoje era hoje e, o amanhã, logo se via. Era assim que eu pensava. Tal e qual! Mas depois da minha passagem de 8 meses e meio por Marrupa e pelos seus matos envolventes ao AM62, quantas vezes só, com os rafeiros, amigos a valer, em caminhadas sem fim, algumas vezes perdido de noite, em busca de verylights que me indicassem o caminho para o Aeródromo e, quantas vezes, sem bússola nem verylights, dava sempre com a porta! Ainda hoje, quando penso nisso, parece-me que até cheiro o mato. Aquele cheiro a bravo, nesse mato selvagem. Uma vez matei um bicho sobre uma árvore, quando descia uma lângua a oeste de Marrupa e, no regresso, a pestilência, a bichos bravos, era enorme. Os cães, quatro com a cachorrinha Diana (filha da Leoa de Vila Cabral) que, tanto gostava de ir comigo que andava quase sempre com ela ao colo.
Quando cheguei ao local, já só havia restos de pelo do bicho e o medo dos cães era enorme! Parei, na margem direita da lângua e fui mudando os cartuchos, na Browning, para caça grossa. Os cães pisavam-me os tornozelos e quase não me podia mexer. Limitei-me a ficar ali, durante algum tempo, recuando uns metros até à árvore mais próxima, sempre a olhar o capim intenso à minha frente. Os cães continuavam enroscados em volta das minhas pernas a ganir e eu não tirava os olhos da zona do capim e das árvores a seguir, para onde eles olhavam e do pelo do Zorba, todo eriçado sobre o lombo.
 
Dei tempo ao animal ou animais que cheiravam a bravo, ali perto e assustavam os cães, para se decidirem a tomar a iniciativa. O chumbo grosso estava ali à espera deles. Mas nada. Por fim, decidi eu. Bummm! Meti outro cartucho! Observei tudo à minha volta e nada! Decidi pôr-me a caminho. O tiro pareceu-me algo de extraordinário. Não vi mexer o capim, não vi nada fugir. Os cães amainaram e, lentamente foram-se afastando das minhas pernas. A Diana pediu-me colo e eu disse-lhe que não. Tinha de fazer um esforcinho e eu olhar para trás e para os lados para defender o meu pelo e o deles. Nunca mais houve problemas até ao AM62. Tive receio durante algum tempo de que as coisas nos corressem mal para mim e para os cães mas, não havia vaga para guardar os medos. Concluí que os animais tinham lá estado e se afastaram à minha aproximação. No dia seguinte, lá estávamos outra vez, e sós!
 
Recordando os meus receios ou medos, recordo também, como viveria a cabeça do Daniel Roxo com os seus medos do dia. Vou contar-vos o único medo em que o cacei!
Um dia, lá cheguei eu a Vila Cabral, nos princípios de Julho de 1969. Quis logo conhecer a cidade e lá fomos quatro marmanjos com esse objectivo. Vimos aquela represa, lá em baixo, entre os pinheiros e iniciamos uma caminhada até lá. Chegamos junto da água, reparamos nas suas margens e, como o tempo apertava, decidimos voltar ao AM61. Mal iniciamos a subida da picada, já um pouco afastados da represa, ouvimos tiros e as balas a zunir junto dos ouvidos e a baterem no chão, junto de nós. Não tínhamos uma única arma e ficamos ali, de rojos e ainda vi uma bala levantar o pó, bem junto da minha cabeça! O fogo calou-se e nós reiniciamos a caminhada. Pelo caminho pensei que, se quisessem matar-nos, já o teriam feito. Não ouvimos nem mais um tiro!
 
Chegamos à Pista de Vila Cabral, a malta cheia de sede, dirigiu-se para o Bar. Eu aguardei uma viatura tipo militar, um jipe a alta velocidade, direita a mim, e um tipo espavorido a saltar dele.
«Vocês souberam o que fizeram? Vocês sabiam o risco que corriam e foram para uma zona de reserva onde não se pode entrar sem a minha autorização? Eu espeto-lhe um murro nesses cornos que dou cabo de si»! Eu, estupefacto, vejo aquele gajo fardado à militar com o punho no ar, a ameaçar-me e, ... "calma aí amigo, explique-se melhor que não estou a perceber nada»! «Não está? ...Eu sou transmontano», ... eu faço, eu aconteço, eu, ... "Olhe, sabe um coisa? O senhor é transmontano, eu sou minhoto e parte-me os cornos uma merda! Não sei quem o senhor é, e estou-me nas tintas para o seu camuflado. Para me dar um murro nos cornos é preciso que eu deixe ou julga que vou ficar aqui à espera, de braços cruzados"?!
 
A partir dali, acabou a nossa guerra a dois. Explicou-me toda a engrenagem e que, as suas milícias podiam ter-nos morto enquanto treinavam situações de fogo e que tivemos sorte por o comandante do grupo de atiradores ter-se apercebido da nossa presença e terem cessado o fogo. Não fosse isso e saíamos de lá como passadores!
A partir desse desentendimento, fomos beber uma bazuca e ficamos amigos mas, nunca mais me esqueci do Daniel Roxo. Ele é o tal homem que tinha entrado no café Planalto e pediu uma cerveja. Bebeu o primeiro gole de cerveja, ouviu tiros, algures junto da cidade, pousou a garrafa e disse para o gajo do balcão: «guarda-me aí a garrafa que ainda venho beber a cerveja fria" e, lá partiu no jipe à procura dos tiros!
 
Outra peripécia do Roxo foi num voo de Revis, numa DO-27, bem perto de Vila Cabral. A nossa DO-27, o Roxo e o Comandante de Operações do Sector Alpha, um Major porreiro! Eu estava de serviço e, de repente, só ouvia o Roxo a mandar vir com o avião e com a FAP. «A Força Aérea não presta, manda para aqui esta merda desarmada. Nem uma G-3! Assim não podemos fazer nada. Mas que porra! O piloto do DO transmitia-me tudo e perguntou-me se os T-6 podiam actuar. Chamei o Comandante do AM, aviões para o ar e zás! Combinamos um nível de voo para a Do, de maneira a que os T-6 entrassem ao ataque por baixo. O Roxo transfigurou-se quando viu os T-6 lançar os rocketes a atacar forte e feio as posições dos nossos amigos de estimação. Quando regressaram, saiu da DO-27, correu para mim a abraçar-me e só dava louvores à Força Aérea. Foi uma mudança radical. Creio que quem comandou esse ataque foi o Ícaro. O Roxo correu para o Jipe, voltou-se para nós e disse: «Agora vai ser comigo»!
Tantos anos já passaram - 42 anos! Cuidado com a cegonha!!!! Foram danças como esta, as mais lindas que fiz até hoje
Tenho outras situações em que o Roxo era mencionado em locais que nem lá estava. Uma vez o Comandante do Sector Alpha disse ao Capitão que partiu com a sua companhia em socorro da Força Aérea, cerca da meia-noite, nas vésperas do natal de 1969, que esse ataque era das milícias do Roxo e eu que sabia onde andava o Roxo, nessa altura, tirei o telefone das mãos desse capitão e fui eu que fiz a guerra com esse Comandante que, afinal só temia o medo dos civis de Vila Cabral e ficou com uma vontade de me triturar mas não passou disso. Tenho isso mais desenvolvido por aí, num post, e tenho ainda nos ouvidos, as vozes das mulheres de Vila Cabral a pedirem-me, pelo telefone, para resistirmos que iríamos ter um Natal cheio do melhor bolo rei do mundo. Giro, não é? Não foi por falta de vontade que o bolo rei não veio a ser o melhor do mundo!
Mas, anos depois, voltei a saber do Roxo mais uma vez! Quando passava numa Av. de Lisboa, vi um jornal e, em toda ou quase toda a 1ª página, estava escrita uma frase: «adeus Comandante» e vinha lá uma foto como essa.
Era um jornal reaccionário ou até super, que se chamava Rua. Mas eu comprei-o! Foi assim que tive conhecimento da morte do Francisco Daniel Roxo. Tive conhecimento, através desse jornal, da sua morte e tive uma guerra com os meus amigos comunistas e da extrema esquerda que, então, pululavam na minha empresa. Felizmente, tinha tanto medo deles como tinha então das hienas de Marrupa e de Nova Freixo.
E, em resumo, para aqueles que não sabem, dizia o jornal que o Daniel Roxo morreu numa escaramuça entre a Frelimo e a Renamo e, também, segundo o jornal, o homem que se dizia imune às bazukas, foi trucidado por uma.
Este post destina-se a recordar um homem de quem muitos não gostaram mas, que eu vejo, apenas, como mais um dos nossos parceiros de tempos conturbados na nossa caminhada africana. Deixo-lhe aqui a minha homenagem.
PS. Posteriormente, vim a saber que o Francisco Daniel Roxo morreu no sul de Angola, em combate contra cubanos e o MPLA, conforme os comentários a este foto e no Blog - Rio dos Bons Sinais.

Chita ou Cheetah

| Ventor 16.01.11

A chita, é um dos encantos do Continente mágico - África.

A chita, é um dos Big Cats que corre perigo de fazer parte do livro dos animais em vias de extinção. Tal como o leão, o leopardo, o jaguar, o puma, ... a vida deste belo animal, a que chamamos chita ou guepardo (gato pardo), corre perigo e, perigo redobrado por ser o mais frágil de todos. Eu nem me recordo se, alguma vez vi, mesmo em cativeiro, este belo animal vivo. Recordo-me, isso sim, de alguns dos outros Big Cats com os quais já tive várias conversas no Zoo mas, de chitas, não.

Este apenas o vejo em filmes e comentários, além das fotos.


 Vós sois, certamente, uma das maiores maravilhas das savanas africanas (foto wiki)

Mas tenho de reconhecer que este animal, para mim, é mesmo lindo. E tal como o Ventor de outros tempos, leve como uma pluma e rápido como um raio. Claro que ele tem apenas velocidade de ponta, não tem a caminhada quase "perene" do cão selvagem, caçador infatigável das savanas africanas.

A chita é um animal esbelto, com uma velocidade de ponta comparável a um Fórmula 1. 


Estarás, certamente, a imaginar como seria a tua vida na savana. Lá terias de caçar, aí, alguém andará a caçar por ti. Não é a mesma coisa, pois não amiguinha? (foto wiki)

É um animal que tem por habitat primordial as savanas africanas, embora ainda tente resistir noutros lugares, como na Península Arábica, no Irão e no Afeganistão, correndo riscos de extinção em todos esses locais, incluindo as savanas africanas. As almofadas das patas das chitas são constituídas por ranhuras que servem para forçar uma melhor tracção em altas velocidades e a sua cauda comprida serve de leme, orientando a sua alta velocidade quando curva. Também, para ajudar nessa alta velocidade, tem uma cabeça curta, aerodinâmica, de orelhas redondas e uma flexibilidade da coluna adequada para essa velocidade de ponta, extraordinária, que faz da chita o animal mamífero mais veloz da terra, caçando sempre em velocidade de ponta, sem aplicar tácticas ou técnicas de grupo, como os leões, as hienas ou os cães selvagens. Normalmente, faz uma caçada numa distância média de cerca de 400 a 600 metros ou, então, falha.


 Levas aí a tua ração e estarás sempre a magicar se, na próxima, terás a mesma ração. Todos nós somos prisioneiros de algo ... (foto wiki)

As chitas, tal como todos os animais, podem atingir diversos tamanhos, alcançando cumprimentos do corpo de 1.10 a 1.50, metros e tamanhos de cauda de 60 a 80 cm e atingir pesos totais de 30 a 85 kgs. Isto significa que há chitas que atingem o tamanho dos maiores leopardos das savanas onde já foram encontrados leopardos com 80 kg de peso.

 Uma de vós terá de ser mais lesta para alcançar esse pedaço de carne, mas isso sempre vos fará correr, sem perigos (foto wiki)

Eu sei que todos vós, tal como eu, gostais de ver as chitas na televisão mas, depois, esquecemo-nos delas porque, elas têm outro mundo, pertencem a outros azimutes e vivem a milhares de km de distância dos nossos corrais ou dos nossos quintais. Por isso, normalmente, esquecemos e nem queremos saber se são mortas selvaticamente, se há muitas, se há poucas, se um dia elas ficam por aí a mostrar a sua beleza às gerações futuras ou se, as gerações futuras, à medida que caminhem por este mundo que vão herdar, começam a espreitar as fotos dos livros, das revistas, ... a espreitar estas janelas, as televisões ou a ver os velhos filmes de seus avós, ... poderão gritar alto: "e chamavam-lhes, eles bestas"! 

Ainda o Ventor e o Medo

 | Ventor 14.02.06

Contar segundos à espera de ir pelos ares!

O medo, de vez em quando, perseguia o Ventor. Ele diz que não fazia nada por isso, mas ele aparecia. Caía do céu e pronto. E olhem que este caiu mesmo do céu! Diz o Ventor que desta vez os cães não lhe meteram medo. Desta vez foi ele que meteu medo aos cães. Então vejam o que me disse o Ventor:

«Eu tinha desafiado alguém para ir à caça, penso que foi o Sargento Dias, mas por qualquer razão, ele ou outro, ou não quis ou não pôde alinhar nesse dia. Chamei a Leoa e o Goldfinger e corri com os seus filhotes para trás para não nos incomodarem, pois muitos cães atrapalham mais que ajudam.

A Leoa, o Goldfinger e eu, seguimos direitos ao centro da pista para atravessar para o lado contrário. Ao atravessar a pista entrei na sua lateral de terra e comecei a penetrar numa zona de ervas e pequenas moitas , tipo carrascos. Como tinha chovido, um ou dois dias antes, nesse dia quente, o meu amigo Apolo secara as margens de terra lamacenta que acompanhavam a pista e já estavam sequinhas. Por essa razão, eu não ia de botas de água e ia ver como a lama ficava de repente dura que fazia parecer que já não chovia há dias, mas tinha chovido na véspera ou antevéspera.

De repente, vi o "cu gordo" de uma granada de morteiro (120mm? Lá grande era ela) enfiada no chão, incrustada na terra dura. Os meus olhos pareciam os olhos de uma ave de rapina quando olha a presa. Devem ter ficado esbugalhados! Chamei os cães para se manterem a meu lado. Pensei, imediatamente,  em fazer uma retirada para o AM 61 e tratar de mandarem tirar dali aquela coisa. Quando inicio a minha retirada, vejo outra coisa daquelas à minha esquerda. Exactamente igual! Quando penso em retirar pela minha direita, vejo outra! Formavam um triângulo quase perfeito. O receio torna-se em medo e o medo em pavor, ou quase! E isto porquê? Apenas porque pensei o pior e o pior para mim, naquele momento, foi pensar que, "os esfrelimos", lançaram a morteirada e não percebiam nada daquilo ou, por avaria, os morteiros não rebentaram. E o pior, seria eles irem lá, pé ante pé e armadilhar aquelas máquinas destruidoras. O pior estava pensado e o pior, leva-nos, sempre, ao medo.

As granadas eram 3 semehantes a esta, enterradas no chão em triângulo

O nosso morteiro era um morteiro 60 ou 81

Assim, os meus olhos continuaram esbugalhados, ou esbugalharam ainda mais, quando comecei a procurar se entre as ervas, ou entre aquelas "sarças não ardentes", se encontrava algum fio que pudesse estar a armadilhar aquelas coisas terríficas, ligando-as. Por mim, se estivesse só, não teria medo, porque tinha muitas possibilidades de sair vencedor de algum eventual fio de Ariadne mas, com os cães à minha volta, comecei a ver a coisa preta. Eu, nessa altura, tinha olhos de lince e o eventual fio não me escaparia, pois se entrei ali sem o ver e as coisas não explodiram, era agora a minha vez de mostrar que teria vantagem sobre a sorte do imponderável anterior. Mas tinha o problema dos cães! Eles estavam estupefactos com a minha reacção e eu apenas queria que eles se mantivessem no chão quietinhos mas, não sabia se eles teriam coragem para me obedecer, enquanto eu procurava o tal fio ainda imaginário, mas provável.

Primeiro, fiz um jogo de guerra com os dois cães. O Gold olhava-me impávido e sereno e a Leoa estava muito nervosa. Virei-me para eles e disse-lhes: "não há aqui coelhos, nem raposas, nem nada. As codornizes já estão ali adiante, no meio do capim. Esta peça de caça só pode ser minha. Vocês não se mexam! Fiquem quietos"!

Eles perceberam que não se podiam mexer, senão, eu ficava chateado e isso eles não queriam. Pelo menos o Goldfinger. Foi pelo local dele que eu comecei a procura. Comecei dos meus pés para o Goldfinger e do Goldfinger para a Leoa. Nós encontrávamos-nos, aproximadamente, na base do triângulo. Se tínhamos passado ali e aquilo não rebentou, a parte pior era a zona da Leoa que era a que estava mais dentro. Disse ao Gold para se manter deitado e quieto e aproximei-me, pé ante pé, da Leoa com os meus olhos a varrer o solo todo até ela. Verifiquei a moita, junto, dela e nem réstia de fios. Pus-lhe a mão na cabeça e disse-lhe: "vem devagarinho comigo para junto do Gold e vamos buscar munições. Juntaram-se a mim e voltamos os três à pista com o Gold a rastejar a meu lado. Ali tive deveras medo quando pensava qual dos dois cães iria dar um tropeção no "fio imaginário" e, enviar tudo pelos ares, nós e a pista. Mas o Senhor da Esfera estava do nosso lado!

Eu adorava aqueles cães que nunca foram ensinados e obedeciam a tudo!

Cheguei ao AM 61 e contei a minha história da última meia hora. O primeiro foi o Sentinela do posto de ligação à pista. "Tem os olhos bem abertos. Qualquer coisa está mal"! Ele agarrou a arma com mãos de ferro, tirou os olhos dos meus e cravou-os na pista. Liguei para o Comando do Sector Alpha e pedi para falar com o Chefe de Operações. Era um Major cujo nome não recordo e pedi-lhe para enviar sapadores para retirar, pelo menos, 3 granadas de morteiros, que pensava serem de 120 mm, das margens da pista de Vila Cabral. Riu-se e parecia-me que estava a gozar comigo! Estava tão incrédulo como eu tinha estado até pensar na hipótese da armadilha e nas patas dos meus fiéis amigos a despoletarem aquilo tudo.

Nessa altura, o barulho seria tal que ninguém teria dúvidas sequer, e os sapadores só retirariam as nossas ossadas ao mesmo tempo que iriam olhando e pensando na virgem do Monte da Capelinha - lá longe - mas bem à vista da pista de Vila Cabral!

Nesse momento, já tinha na mão, uma "bazuca pacifista", uma cerveja MacMahon, garrafa verde e disse ao nosso Major que me conhecia relativamente bem, devido aos contactos que tínhamos pelos apoios da Força Aérea, às suas operações, para ver se os homens dele chegavam lá, enquanto eu bebia a bazuca! Perguntei ao Aeroporto de Vila Cabral se esperavam a chegada de aviões civis e, o nosso amigo Leiria, disse-me que não. Fiquei mais satisfeito, pois ainda não sabia se aquilo estava armadilhado ou não. Eu só tinha procurado o caminho para sairmos dali. Saí por onde entrei e ali não havia fios mas poderia, realmente, estar tudo armadilhado e até para fazerem que rebentasse à passagem de algum avião.

Com os nossos não ia haver problema e com os civis também não. Bebi a cerveja, respirei fundo e pedi ao Senhor da Esfera que ajudasse os sapadores na execução do seu trabalho.

O Ventor e o Medo

| Ventor 13.01.06

... em Tempos de Guerra

O Ventor nunca foi medricas mas foi sempre muito cauteloso. Mas mesmo não sendo medricas, por algumas vezes, encontrou-se em situações de ter medo. Já me falou de várias dessas situações na sua passagem por África e, algumas, eu colocarei aqui. Hoje falo-vos de uma dessas situações de medo.

Disse-me o Ventor:

«Com a minha chegada a Vila Cabral, no verão de 1969, chegou também o meu vício da "caça". Raramente arranjava voluntários para, juntamente comigo, palmilharmos uns bons quilómetros, em redor da cidade. Por isso, quase sempre executava essa tarefa só. Só não, porque tinha os melhores companheiros que se podem imaginar para caminhar naquelas situações. A Leoa e o Goldfinger, algumas vezes acompanhados pela sua rapaziada, os seus filhotes.

Nos primeiros dias, comecei a rondar a cidade, as suas ruas, as suas tascas e a beber umas laurentinas, no Café Planalto. Depois comecei a afastar-me da cidade e a caminhar pelos seus arredores, atravessando campos de feijões e de milho, pinheiros (muito novos) e eucaliptos (novos e velhadas) capins sem fim, caminhando atrás de rolas, pombos verdes, perdizes, codornizes, patos, etç.

Posteriormente, fui-me afastando mais e entrei no encalço do facochero, uma espécie de javali. Numa destas escapadelas, levava comigo apenas, a Leoa e o Goldfinger e fui para uma lângua onde dias antes tinha visto patadas desses facocheros e disse, cá para mim que, pelo menos, teria de ver um ou mais a correr. A verdade é que quando estava a aproximar-me sorrateiramente do local, a Leoa levantou o pelo no lombo (parecia um campo de centeio a germinar), levantou uma pata dianteira e olhou, firmemente, para o morro, junto de nós, um pouco à direita e o Gold numa pequena corrida, tomou posição a seu lado. Julguei que seriam perdizes e caminhei para o local com a arma pronta a fazer fogo com chumbo para coelho e perdiz. Entrei na base do morro e o capim era da minha altura.

Capim

Um dia destes encontrei um local, topograficamente, muito semelhante a esse de Vila Cabral. Em vez de capim, tinha outro tipo de ervas, também bem altas e em vez de leões imaginários ou até raposas, tinha amigos penudos como rolas, tal como lá e também outros amigos penudos, como pardais, pintassilgos, etç. Lá eram outros. E apesar de, em tempos, ter ouvido falar do leão de Rio Maior, neste morro, nem me passaram pela cabeça raposas e muito menos leões.

Comecei a trepar e quanto mais trepava na base do morro, maior o capim se tornava, ficando em posição de não ver nada à minha volta. Nesse momento, os cães ficaram de tal forma que me pareceu estarem com medo. Reparei na Leoa no meio do capim, duas passadas à frente, um pouco à minha esquerda e o Gold, na mesma posição, um pouco à direita. Disse-lhes baixinho: "venham cá, não se afastem". A Leoa tinha o seu pelo curto todo esticado, pata no ar e parecia que à sua volta só existiria eu, o Gold e o terror, pois a sua pele, com o pelo esticado, até tremia. Olhei o Gold e estava na mesma. Disse cá para mim: "vocês nunca estiveram nesse estado e agora até eu já estou a ficar na mesma. Só me falta o cabelo levantar-se na cabeça. Vou mudar o chumbo"!

Só pensava em algo como isto. Aguardando serenamente a nossa subida

Mudei o chumbo de caça pequena, para chumbo de caça grossa. Fui olhando em redor e substituindo os cartuchos até completar a mudança dos cinco cartuchos da Browning. "De vagarzinho a meu lado", disse eu para os cães. Cheguei a pensar sair dali por onde entrei mas, imaginei tratar-se dos leões que foram roubar os porcos ao Garcez. Retirar seria dizer-lhes para avançarem! O sítio era ideal para os leões controlarem tudo, em redor e o medo denunciado pelos cães mais o cheiro intenso a bravo, a animais selvagens, mais me levava a acreditar tratar-se de caça grossa, ao ponto de, falando com os meus botões, dizer para os cães: "Estamos lixados"! Mas a Leoa, como sempre, estava em pulgas e o Gold também, aguardando que eu desse ordem de ataque!

Fomos subindo, passo a passo e só tentava ver se o capim remexia à nossa volta. Mas à nossa frente só existia capim e cheiro e, o Horizonte, sobre a minha cabeça, onde nunca mais chegava. Nunca mais trepava a subida daqueles meia dúzia de metros sem fim, pois nunca mais acabavam. Com aquele cheiro a bravo que nos rodeava, só imaginava um animal feroz lançar-se, de cima para baixo, sobre mim e os cães e só pensava não perder um segundo na hipótese de eu abrir fogo a tempo. Mais atrás e à minha esquerda, estavam os facocheros. Seria que estavam ali os leões para caçar os facocheros? Seria que fugiram à minha chegada ou estavam prontos para atacar? Perguntas sem fim, fervilhavam na minha cabeça e a resposta estava prestes. O cheiro a bravo era cada vez mais intenso e os meus companheiros não me animavam! Eles estavam como eu ou ainda pior. Imagino as perguntas que também fervilhariam nas suas cabeças. Sentia que eles queriam era receber a ordem esperada. Ataquem! Mas, para os animar a eles e a mim, disse: «Calma, vamos conquistar o morro e ficaremos senhores do planalto e da lângua".

Uma destas não seria e leopardo também não. Onde eles já iriam!

Mais umas passadas e assim foi. O animal selvagem não se lançou sobre nós e, agora, senhores daquele mini planalto, a minha arma, tal como um animal com olhos, procurava tudo à minha volta. Naquele momento, só não queria que a Leoa e o Goldfinger se afastassem de mim para não se colocarem na minha linha de tiro, pois já tinha tido experiências dessas. Confirmei que não havia nada e a minha primeira reacção foi: "seus grandes burros, seus cagarelas, meteram-me mais medo vocês os dois que os leões do Garcez se estivessem aqui"! Mal acabei de falar, foi o sinal de libertação que a Leoa quis ouvir. Deu uma corrida e mandou-se a uma toca esgaravatando tudo em volta da sua entrada. Vi a toca e chamei-a. Ela obedeceu-me e deixou de escavar, enquanto ao Gold só lhe faltou colocar uma pata com um dedo esticado na testa e chamar-lhe maluca.

"Venham cá, vamos ver se adivinhamos o que está aqui"! Eles afastaram-se, eu espreitei a toca. Senti que algo se mexia lá dentro. Meti o cano da arma no buraco até à curva da toca a ver se era atacado e uma raposinha pequenina aproximou-se, cheirou-o e olhou-me. Pareceu-me ouvir: "que raio Ventor, porque vens atrás de mim com esta coisa tão fria"? "Oh, raposinha, a tua mãe deve estar a ver-nos e deve ter ficado aterrorizada. Mas podem ficar descansadas que nada vos fará mal. Hoje, nem a Leoa"!

Foi num buraco assim que meti o cano da Browning, já com chumbo grosso e lá dentro, uma das três. habituada a esper a mãe, foi logo cheirar o cano da arma

Para mim foi uma grande aventura que durou alguns minutos, eternidade que nunca mais esqueço. Ainda hoje vejo aquele focinhinho pequenino a cheirar o cano da Browning e aqueles olhinhos brilhando, fixos nos meus.

Fui embora para o AM61 e contei a peripécia e a maneira como se pode ter medo a qualquer momento. Basta pensar no pior. No dia seguinte um emissário do Governador do Distrito do Niassa pedia-me se indicava o local das raposinhas que o Sr. Governador queria uma. Já não sei bem como foi, mas sei que me chatearem tanto que lá indiquei o local. Se a minha experiência empírica funcionasse, pensei, eles não as encontrariam. Levei lá dois homens armados de pá e pico e transpiraram à farta para encontrar as raposas, escavando um chão que parecia feito de betão. Gozaram comigo e até me disseram que mentia, porque não estava lá raposa nenhuma, como se eu tivesse necessidade de pregar uma aldrabice dessas que, provavelmente, tal coisa, nem pela cabeça me passaria.

Ainda hoje tenho dúvidas se eles acreditaram nas raposas. Dias depois, passei naquela zona com mira nos facocheros e um pouco afastado do mesmo local para não perturbar as meninas e encontrei a mãe e as raposinhas a brincar. Talvez fossem as mesmas, talvez fossem outras mas, a verdade é que cheguei à Base e disse: "desta vez, voltei a ver as raposas e tenho a certeza que são, pelo menos, três pequeninas e uma grande. Mas desta vez, nem que o Kaúlza de Arriaga me pedisse, nunca diria onde estão"!

A mãe deve-me ter cheirado pois, dois dias depois, fui espreitar o local dessa nova toca, com os cães junto de mim para não lhe fazerem nada. Caminhei com os cães junto das minhas pernas para a Leoa não atacar as raposinhas e também já lá não estavam!

Pelo menos tive o prazer de ver aquela família de raposas muito felizes na sua brincadeira de uma tarde quente, sobre outro morro da cor da ferrugem. Um morro rapado, sem capimjunto da toca e, à sombra de árvores frondosas. Essa toca tinha sido toca de hienas. Estive pouco tempo a olha-las porque era difícil fazer a Leoa obedecer-me, muito tempo, sem fazer barulho. Mas eles sabiam que eu estava contente e aguentaram-se. Depois voltei pelo mesmo caminho a pensar qual delas me olhou e cheirou o cano da arma. Seria, certamente, a mais atrevida que brincava tropeçando e caindo enrolada, voltando logo a levantar-se e a mandar-se para cima da mãe. Umas belezas aquelas raposinhas».

A Senhora do Lago

| Ventor 10.11.05... 

e a traição do Sael.

Oiçam esta história que o Ventor me contou.

Algures em África, numa zona verde cheia de água, onde predominava um lago com zonas pantanosas, em volta e, perante essas águas, havia fartura de tudo! Capim verde, arbustos e árvores! Nas suas margens pululava toda a fauna selvagem lá da zona. Os elefantes iam lá tomar banho e beber nas suas águas límpidas, os búfalos chafurdavam-se nos lamaçais das suas margens, as gazelas, impalas, gnus (bois cavalos) e toda a gama de mamíferos imaginados por ali, se acercavam das águas e dos campos verdes, em volta - era a lângua!

Nos seus arredores, leões, leopardos, hienas, cães selvagens. Era a terra prometida, junto à savana, onde predominava a família do Newky!

Porém, lá no seu interior das águas mais profundas e por entre os caniçais, passeava-se a Senhora do lago! Ela era gigante, robusta, poderosa! Feia ou bela, conforme as opções de cada um, mas era ela que impunha a ordem naquele lago! Era uma grande jibóia - a Senhora do Lago!

A Senhora do Lago

Foto tirada da Wikipédia

Ela é terrível e mete respeito a toda a gente que a consegue olhar, até ao Ventor. É mesmo a Senhora do lago!

Cada vez mais, à medida que caminhamos para sul, a África vê as suas savanas transformarem-se no Sael e este em deserto!

Cada ano, a desertificação é mais evidente e as "Senhoras dos Lagos" e todos os seres vivos sofrem!

Sempre que a sede apertava os "changos" iam à água matar a sede, sempre alerta, em relação aos seus predadores naturais, mas a fome que por vezes acometia a Senhora do lago, tornava-a num terror bem maior que os leopardos e as chitas! Acossada pela fome, ela saía de dentro da água e zás! Enrolava-se como uma camisa-de-forças sobre o bicho que estava a jeito e os outros animais pressentiam o terror sem o ver. A Senhora do Lago penetrava água dentro, tal como tinha saído. A sua vida era bela, pois vivia numa terra farta e fazia tudo o que queria e todos a temiam!

Mas a Natureza, por vezes, torna-se madrasta e o ontem deixou de o ser e o hoje já se está a tornar na diferença e, essa diferença, aconteceu no grande lago! Durante uns anos, penso que sete, as águas foram secando porque as chuvas afastaram-se para longe e, em volta do lago, as zonas que eram pantanosas passaram a ser preenchidas de lamaçal que, com o tempo, foi-se tornando em rocha dura. No interior dessa rocha lamacenta, os animais continuavam a beber da sua água que continuou estanhando e ficando peganhosa, cheia de mosquitos e lixo e mais se parecia que o mundo se preparava para acabar!

No seu interior, continuava fazendo a sua vida, já um pouco degradada, a Senhora do Lago! Por enquanto, os animais que lhe alimentavam o corpo continuavam a aparecer junto do charco e ela continuava a ter as suas refeições, mas os peixes já afogavam expostos ao ar, enquanto as aves de rapina começavam a ter uma vida melhorada. Os abutres estavam na conquista de novos espaços, de um novo reino. A decadência de uns é caminhada próspera de outros!

O calor aperta e a secagem do resto da água, acelera-se. A Senhora do Lago fica com a sua vida reduzida a um minúsculo poço!

O Sahel avança para sul e à sua frente varre florestas, savanas e lagos. E, tanto quanto me parece, ninguém faz nada para evitar ou atenuar esse avanço

Foto da Wikipédia da autoria de Bgabel. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported2.5 Generic2.0 Generic and 1.0 Genérico license.

Os outros animais já lá não vão, foram à procura de novo lugar com água, pois a Senhora já não tem onde se esconder, está bem à vista, mas as forças que faziam dela um poder muscular sem igual, sumiam-se na desertificação daquela zona que já tinha sido um maravilhoso oásis!

O poço reduz-se e começa a ficar  com margens lodosas e escorregadias. A Senhora do Lago começa a ficar sem espaço e decide sair do seu pequeno cubículo. Começa a tentar tirar a cabeça do lamaçal mas, as margens do poço são cada vez mais escorregadias devido ao seu peso que tritura e transforma a lama numa coisa viscosa de onde nunca mais sairá!

A partir de uma determinada altura a vida que comandava aquele lago, começou a desistir daquilo que não era capaz. Partir para o campo aberto! Ela está presa na sua própria armadilha! A grande Senhora sente-se esmorecer e apodera-se dela o estertor da morte. grita como gritam todas as criaturas desesperadas e desprotegidas. Continuam a gritar, se calhar pela sua mãe como qualquer de nós faria nas mesmas circunstâncias e os sons por ela emitidos eram horrorosos! Todos os horrores do mundo se abatem sobre uns restos de lodo e lama e um animal gigante que sabe que chegou o seu fim!

A lama ficou pedra e abraçou, no seu seio, um corpo definhado a dar os últimos suspiros de vida. Para sempre ficou cravado no lamaçal, o corpo inerte da Senhora do Lago!

Isto é uma história verdadeira e horrorosa e que nos leva até a pensar, seriamente, nas hipóteses de vida que a natureza nos dá e nos tira, tão de repente! E, também como se não bastasse ser a natureza a pregar-nos partidas, quantas vezes somos nós, seres racionais, a encarregarmo-nos disso! Esta história desenrola-se no decorrer da secura da África do Sael do nosso tempo!

O Facochero

| Ventor 08.11.05

Outro amigo africano

Nas savanas africanas, diz o Ventor, coexistem facocheros, elefantes, leões, leopardos, chitas e um sem fim de animais. Hoje coloco aqui o que o Ventor me contou do facochero.

«Na mesma tarde que vi o leopardo, na rapada onde a água nascia, depois da peripécia, devido à hora, decidimos regressar ao Aeródromo pelo mesmo caminho que tínhamos levado. Cada um voltou no sentido inverso e eu, que na caminhada anterior era extremo esquerdo, passei, no regresso, a ser extremo direito. Após um bocado de trajecto, caminhávamos no silêncio, na perspectiva de encontrarmos perdizes, daquelas que voam de árvore para árvore que andavam por ali, porque a outra caça teria sido espantada com a nossa passagem.

Eu continuava afastado do companheiro mais próximo que seguiria à minha esquerda e, de repente, sinto um restolhar violento no mato à minha esquerda e sinto um bólide passar junto às minhas pernas que nem sei se deu para as encolher e saltar, à retaguarda, mas creio que foi isso que fiz. Ainda em desequilíbrio, apontei a arma que ainda levava com os zé-galotes que tinha mudado no encontro com o leopardo e disparei. Só no momento do tiro é que me apercebi que o animal que ia tentar abater era um facochero!

Facochero, companheiros do Ventor mas sempre em fuga

Eu não ia disposto a fazer fogo sobre perdizes ou fosse o que fosse mas aquele bruto terá feito tudo para me apanhar à passagem e eu iria fazer tudo para que ele se arrependesse!

Buuuuuummm! Ele ia entrar no mato depois de passar alguns metros de rapada à minha frente e não deu tempo para me esmerar na pontaria e vi que ele foi atingido no quarto direito, mais ou menos a meio, devido à guinada que deu mas, a corrida continuou por entre o mato e penetrou na floresta galeria perdendo-o de vista. Ao som do tiro, os cães saíram do mato em minha direcção e foram atrás do facochero mas, não passou, para eles, de "era uma vez" ...

Chamei os cães de volta e os meus companheiros de caminhada aproximaram-se de mim em correria a perguntar sobre o que fiz fogo. Contei-lhes a peripécia e limitaram-se a olhar os cães que estavam tontos com o cheiro do facochero e com o som bruto de um tiro. Dirigi-me ao local onde atingi o facochero na esperança de encontrar sangue, mas nada! Que ele levou chumbada eu tinha a certeza mas, também, apesar de ser perto, não tive tempo para lhe dar o segundo tiro, pois ele largou o baixio e entrou no mato seguindo para outro local baixo e nunca mais o vi.

Eu nunca me atrevi a ir só, sem os cães, para procurar este tipo de animal africano mas, muitas vezes pensei em fazer isso, no entanto, os cães, eram uma companhia perfeita para um alerta mais completo e, como muitas vezes ia só, sem mais ninguém, a companhia dos cães era para mim mais que desejada e nunca esqueço o Zorba, a Diana, o Bolinhas e depois a outra Diana (ainda cachorrinha), filha da Leoa que foi levada de Vila Cabral para Marrupa e, por vezes, as caminhadas eram tão grandes que, durante espaços razoáveis, tinha de a levar ao colo. Eles foram meus companheiros de caminhadas, sem fim, durante oito meses e meio.

Mas alguns dias depois da investida do facochero, outra rapaziada no helicóptero, um Polícia da Força Aérea, disparou um ou mais tiros de G-3 sobre um facochero que, ferido, com os intestinos de fora, caminhou, pelo menos, cerca de 3 kms até cair exausto. Eu dirigi-me ao helicóptero e observei o bicho e até lhe tirei fotos e ao olhar o local onde julgava ter acertado com os zé-galotes, no tal de há dias atrás, reparei que, aquele animal era o mesmo que me tentou empurrar para o lado, pois tinha as marcas que os zé-galotes lhe deixaram na perna. Eram três sulcos de raspão na pele da perna e era, sem dúvida, aquele o magano que quis atirar-me para as calendas.

 O facochero

Os facocheros são animais poderosos que atingem 90 cm de comprimento (cabeça e tronco), 75 cm de altura no garrote e um peso que vai até 80-95 kg. Eles têm uma cabeça gigantesca e as suas presas chegam a atingir, acompanhando a curva, cerca de 60 cm, embora, na generalidade, meçam cerca de 30 cm.

O facochero é um animal da savana, embora se veja muito nos bordos dos bosques, especialmente, em zonas lamacentas, junto a florestas galerias, em grandes varas, pastando ajoelhados no chão a apanhar raízes e tudo que lhes sirva de alimento. Eles têm as joelheiras das pernas anteriores, por baixo das articulações, calejadas e, embora já nasçam com essa zona calejada, com o caminhar do tempo ficam mais duras. Tudo, ou quase, cria as suas especializações para sua defesa e estes não são excepção mas, os animais que os caçam, também se especializam nas suas caçadas.

Os leões, por exemplo, para apanhar os facocheros, organizam-se em estafetas para os caçar. Assim, o primeiro leão, normalmente são as leoas, ataca-o durante um determinado espaço e, depois, passa a estafeta a outro ficando o primeiro a descansar e continuando o segundo na corrida que, depois, larga para um terceiro e este, depois, para um quarto e assim, sucessivamente, até o animal ficar completamente cansado e exausto quando, um último leão, folgado, o vê sem forças para reagir e o ataca para matar.

Mais tarde, em Vila Cabral, também eu me tentei especializar na procura de grupos de facocheros mas foi trabalho infrutífero. Mesmo caminhando contra o vento para evitar que eles me cheirassem, eles arranjavam sempre maneira de se afastarem de mim. Estes animais são omnívoros, alimentam-se de raízes, frutos, cogumelos, larvas de insectos, pequenos vertebrados e até serpentes. Havia na zona de Vila Cabral, uma lângua onde corria alguma água e formava extensões de lamaçais em cujas margens havia, também, grandes extensões de matagais que mais pareciam extensos silvados, no meio dos quais eles se escondiam e tinham as suas tocas de refúgio. Era impossível penetrar naquela zona e nem os cães lá conseguiam ir. Cheguei a ouvir os barulhos desses animais mas nunca os conseguia ver. Eles penetravam na mata densa e apenas diziam, "adeus Ventor"!

  Facochero ou warthog

Mas nas minhas caminhadas atrás dos facocheros, mais que o objectivo de tentar caça-los, era tentar vê-los bem de perto e observa-los. Nessa zona de Vila Cabral, olhando sobre o local que lhes servia de esconderijo, eu tive oportunidades de ver os "pôr-de-sol" mais lindos da minha vida e enriqueci a minha passagem por África, muito para além das sequências dos chamados "jogos de guerra"».

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...