quarta-feira, 13 de maio de 2026

Boa Páscoa de 2012

 Quico e Ventor

Passaram 44 anos!

Depois de 44 Páscoas, aqui estou eu a desejar-vos uma Boa Páscoa de 2012 e, com a esperança de que as amêndoas não vos faltem.

 


Vexiloide de Alexandre Magno, numa guerra de 13 anos, sem retorno

 
As amêndoas que me recordam Marrupa - 1968
 


Malmequer, o Vexiloide do Ventor, sobre cujas pétalas, vou sonhando

Deixo-vos aqui as amênddoas desta Páscoa de 2012, entre os vexiloides de Alexandre Magno e do Ventor, duas imagens que bem podemos considerar a representação do meu amigo Apolo, a minha (nossa, espero eu) bela companhia africana.


Marrupa, em 1968. Aos que partiram e aos que ficaram, eu nunca vos esquecerei 

Boas Festas para todos, especialmente, aqueles que passaram pelo Niassa - Nova Freixo, Marrupa e Vila cabral, um triâgulo, nas nossas vidas.

Marrupa 1968

 Quico e Ventor

Encontros e desencontros da nossa caminhada.



Companheiros de caminhada, senão no domingo de Páscoa de 1968, a maioria destes estaria lá, mas esta foto será posterior a Julho de 1968, data da chegada do "Manecas" a Nova Freixo
 
Tenho tido esta foto por aqui, como se fosse tirada no domingo de Páscoa de 1968, em Marrupa. Eu sei que, algumas vezes almoçávamos cá fora, debaixo do alpendre e isto, para mim, foi durante oito meses e meio. Um desses dias foi nesse domingo de Páscoa. Porém, a foto não é essa! Será outra que nem sei se ainda a terei. A foto a que me refiro, foi tirada com a minha máquina, uma laica que, de certeza, não gostou tanto de Moçambique como eu. Não se deu bem com o calor africano, com o pó, com os tombos e sei lá que mais. Rápidamente ficou inoperacional.
 
Mas nesta foto, está o nosso amigo, Pil. Av. Aleixo que o Senhor da Esfera levou antes de tempo. Como a sua filha Catarina me chamou a atenção, o nosso companheiro Aleixo, segundo rezam os seus documentos, terá chegado a Nova Freixo em Julho de 1968 e, como eu não acredito que os documentos estejam enganados e menos ainda os complementos informativos que a Catarina me deu, só me resta substituir a foto se tiver a outra. Se não tiver, esta ficará por aqui porque, simbolizará uma amizade que não foi construída nem se esgota num domingo de Páscoa com uma, duas ou três amêndoas.
 
Porém, tenho mais um dilema! Agora fico na dúvida se o Aleixo participou da nossa "batalha aérea" sobre o Lugenda, levada a cabo em Julho de 1968, durante 15 dias. Sei que estiveram presentes dois pilotos novatos, que partiram de Vila Cabral para Marrupa e sem a frequência do Rádio Farol de Marrupa.
Estavam quase perdidos na zona do Revia e pediram-me a frequência do Rádio Farol pela Rádio. Perguntei se estavam a brincar comigo e disseram-me que tinham grandes probabilidades de se perderem.
Nesse momento, o Tenente Coronel que comandava essas operações, destacado pelo Comando Avançado para tal, ele e o então Capitão Melo Correia assistiram à conversa pela rádio. O Ten. Coronel disse-me para não cair na tentação de lhes dar a frequência e que iria participar da incúria deles. Eu prolonguei a conversa, via rádio, sempre na brincadeira e consegui que eles apanhassem a frequência sem que os meus parceiros do lado se apercebessem.
 
Quando a coisa estava resolvida, virei-me para o "Clark Gable" (era assim que lhe chamávamos) o Ten. Coronel, e disse-lhe: "vê, como eles estavam na brincadeira"! O Cap. Melo Correia sorriu e, ainda hoje, tenho dúvidas se ele se apercebeu da minha marosca. Se se apercebeu, não me recordo de falarmos nisso. Mas ainda encontrei o Melo Correia, um bom homem, na Av. da liberdade, frente ao Estado Maior da força Aérea, no dia 25 de Novembro, então já como Coronel. Ele subia a Avenida da liberdade num carocha preto da Força Aérea e eu, vindo do meu trabalho, descia a pé a observar os pára-quedistas nas janelas do Estado Maior e no telhado. O carro preto parou, ele cumprimentou-me e disse-me: "lembra-se de mim? Não sei que lhe diga. Isto está muito mau! Se quiser, apareça em Cortegaça"!
Mas o Jaime Neves, resolveu o problema junto à RTP e eu esqueci Cortegaça! Isto foi no 25 de Novembro de 1975.
 
Escrevo aqui para manter as memórias actualizadas. Então fiquei admirado, como um homem que apenas estivera comigo durante 15 dias, em Marrupa, 15 intensos dias e, sete anos e quatro meses depois, me reconheceu numa avenida de Lisboa onde estivemos debaixo das armas dos pára-quedistas que tinham ocupado o edifício do Estado Maior da Força Aérea. Mas havia homens inteligentes, na Força Aérea Portuguesa de então! Eu também o conheci e a primeira coisa que fiz, foi olhar para os seus galões. Hoje não faço ideia nenhuma, quem eram os pilotos que partiram de Vila Cabral para se juntarem aos "Catataus", em Marrupa.
 
Mas volto à foto. Todos os que estamos nela, segundo a informação da Catarina, já somos, quase todos uns velhadas, em Marrupa e essa foto terá no mínimo, mais 3 meses para cima. Sendo assim, o nosso amigo Manecas, ainda era um "checa" e, por portas e travessas, foi fazer uma caminhada por Marrupa. Estivemos por lá tanto tempo que, para mim, era já na Páscoa. Mas não foi.
A única coisa que posso dizer-te Catarina, é que o teu pai, era um grande homem, um amigo verdadeiro e fez a sua vida militar, em Moçambique, parecida com a minha, sempre a brincar. Tanto quanto sei, pois estivemos juntos nos três sítios do Niassa, Marrupa, Nova Freixo e Vila Cabral, ele sabia que a vida seria mais fácil se a levássemos a sorrir e a brincar. Sorrindo, os que estavam junto de nós, teriam o seu "sacrifício" menos pesado.
 

Após 15 dias de assaltos com T-6 e PV2, sobre a zona do rio Lugenda e a dormir, entre a meia-noite e as quatro da manhã, era premente o descanso, na cadeira da guerra. Terei de um dia falar aqui do então nosso Capitão Mantovani que me encarregou de fazer tudo para coordenar os PV2 que sairiam de Nova Freixo, logo após eu carrilar para lá a informação meteorológica que o "sardinha" e o "carapau" me enviavam ao romper do dia, voando sobre o rio Lugenda
 
Mas a foto continua a dizer-me que tive sempre, junto de mim, os melhores dos meus amigos. Mesmo com os encontros e desencontros, da mobilidade da guerra, Marrupa será sempre o meu sítio de preferência. De lá nunca esquecerei todos os amigos que almoçaram e jantaram comigo nessas mesas. Nunca esquecerei, as minhas caminhadas loucas, na perseguição dos perus selvagens. Nunca esquecerei que rolei nessa pista, debaixo da metralha de companheiro nosso que o Senhor da Esfera quis que tivesse a altura mínima para não ser capaz de matar o Ventor e o outro amigo cabo-verdiano, o Melo, que gritava para mim que já não iria conhecer o filho que tinha nascido há dias, na Metrópole. Ainda fui eu que, saído debaixo de tanta fogachada, uma MG furiosa, fui ajudar o gajo que quase nos matou, na escuridão da noite com cerca de 3 kms nas pernas, para virmos pedir ao Comandante do Batalhão de Marrupa, para nos enviar uma Berlier para rebocar o Panhard para fora do lamaçal onde ficamos atolados. O Alferes dos Comandos e penso que o Coutinho, ficaram a guardar o Panhard, eu e o Melo, caminhamos na noite, entre a bicharada selvagem, para virmos tratar do desatolamento. Enfim, éramos uns "malucos" onde o mundo valia tudo ou não valia nada.
 
Obrigado Catarina por me tirares as dúvidas, sobre a foto. Alguns me confirmaram que era mesmo no domingo de Páscoa. Eu dizia para mim, que faltava lá o nosso amigo açoreano a quem chamávamos "porta-aviões" e achava muito cedo os quatro juntos, o nosso "Louco" que Deus tem, o Checa, o Coutinho e eu. Penso que o "Louco" e o "Checa" chegaram depois dessa Páscoa.
São pormenores muito complicados com tantos anos pelo meio. Mas juntos ou espartilhados, tivemos os nossos momentos bons e os nossos momentos maus, todos inesquecíveis, tal como as minhas três amêndoas.

Sonhei com Marrupa mais uma vez

 Quico e Ventor

Uma noite destas, dei uma das minhas caminhadas de sonhos, por Marrupa. Pois foi! A sonhar, voltei a pisar uma lângua de Marrupa e, ainda por cima, sonhei com uma lângua onde só caminhei uma vez.

Algures, em 1968, caminhei mais três amigos numa lângua de Marrupa e, um deles, era o nosso amigo Coutinho, do Bombarral. Os outros dois não me recordo. Penso que um deles, seria o nosso amigo "Louco do Amor". O Coutinho, infelizmente, já está junto ao Senhor da Esfera mas, o Louco do Amor, ainda poderá andar por aí. Espero que sim.

Saímos de Marrupa e, ao entrar na picada, viramos à direita, em direcção a leste. Já um pouco afastados do AM62, entramos pelo mato dentro e, de seguida, numa lângua. Espalhamos-nos os 4, um pela direita, outro junto à zona da água (o Coutinho) um mais afastado à esquerda da lângua e eu, como sempre, mais à esquerda e tentando fugir a uma queimada, afastei-me ainda mais. Essa história está contada aqui.

Em 1970, conheci um homem que era cunhado daquela que viria a ser minha companheira das minhas caminhadas. Entrei no carro dele e ele perguntou-me onde eu estivera, em Moçambique. Disse-lhe que estive em Nova Freixo, em Marrupa e em Vila Cabral mas, quando ouviu falar em Marrupa, os seus olhos brilharam mais.

"Esteve em Marrupa, é? Eu também estive nessas terras, mas estive mais tempo em Marrupa. Era dos Comandos e estivemos em Marrupa a guardar a malta que construiu a pista. A maioria do tempo andávamos à caça. Nunca viu elefantes em Marrupa"?

Nem um, respondi eu. "Pois não. Nós também nunca mais vimos nenhum. Apareceram lá três e matámos-os. Nunca mais vimos nenhum. Creio que nunca mais ninguém verá elefantes em Marrupa"!

Esse homem foi há dias chamado perante o Senhor da Esfera onde nos esperará. Foi o seu funeral e eu só me recordava dessa nossa conversa de 1970. Tinha-me dito, mais ou menos, onde estariam as ossadas dos elefantes, mas Marrupa ficara para trás e as ossadas dos elefantes eu nunca as cheguei a ver. Mas foi baseado nessa conversa e nesses pixeis da minha memória que voltei a Marrupa, em sonhos. Não éramos quatro mas fui lá eu sozinho. Exactamente o mesmo sitio, mas sem queimada. Caminhava na encosta da esquerda a recordar a jibóia e essa nossa caminhada, perguntando-me a mim mesmo porque nunca mais lá regressei.



Um rinoceronte como o do meu sonho

A encosta era linda, toda verde e eu caminhava a pensar onde estariam as ossadas dos elefantes. Virei-me para trás e estava a ser acompanhado por um rinoceronte. À minha direita havia umas rochas que tenho a certeza não estavam lá quando da caminhada real. Olhei o rinoceronte e ele acelerou para me atacar. Pensei rápido! Não me vale a pena fugir. Vou enfrenta-lo, não vou fugir. Se fujo canso-me e depois não posso lutar. Esperei o rinoceronte que se deslocava em alta velocidade na minha direcção. Quando ele me ia marrar, quando quase me pegava, saltei para a esquerda. O rinoceronte estatelou-se todo pelo chão fora. Eu iniciei uma grande corrida para as rochas, enquanto ele se levantava para me pegar.

Alcancei as rochas, subi para a mais alta deitada sobre outras. Vi um grupo de leões, cerca de uma dúzia, a caminhar em nossa direcção, com os olhos fixos no rinoceronte. Creio que eles a mim não me viram e eu, no topo das rochas, tentava colar-me à pedra fria, com a arma segura sob o meu peito para os leões não me verem. Dali, vi os leões atacarem o rinoceronte, mata-lo e come-lo. Ficou a coluna óssea do rinoceronte na paisagem. Os leões partiram pachorrentos, com toda a calma deste mundo. Perdi-os no horizonte e comecei a procurar como sair dali. Olhava em direcção da picada, campo aberto, sem nada. Olhava a lângua onde o Coutinho matara a jibóia, as árvores onde cortei a fita para prender a jibóia ao pau e no mesmo sitio estava algo que seria um tronco ou, quem sabe, outra jibóia! Estava mesmo com medo de como sair dali. Não me atrevo a ir pela lângua e entrar na floresta. Decidi ir direito à picada e enfrentar o que aparecesse. Pelo lado da jibóia é que não!

Mas não cheguei a sair das rochas. Acordei apavorado na minha cama. Sei é que iria tomar a direcção da picada, por campo aberto, com a browning bem colada às mãos.

Contei o sonho a um amigo dos que andaram por lá comigo, e informou-me que ele, nas suas caçadas, tinha visto, por lá, as ossadas dos elefantes.

Escravatura e beleza

 Quico e Ventor

Escravatura!

Pois foi em tempos que se deram estas bestices, ainda por cima numa das mais belas terras do mundo. Parece impossível, depois de olharmos a serra de Mecula, a foz do Lugenda, o Rovuma, os "incelbergs", saídos do chão da mãe negra, fazendo alguns deles, lembrar lombos de elefantes e, onde nos dizem existirem pinturas rupestres, que tenha havido, provocadas por homens, sobre outros homens, coisas como esta pintura nos mostra.


Traficantes de escravos árabes e seus cativos ao longo do rio Rovuma

O rio Rovuma, nasce perto do Lago Niassa, na Tanzânia e segue rumo ao oceano Índico numa extensão de 760 km até à sua foz no oceano Índico, junto a Cabo Delgado. Recebe como afluente o rio Messinge que nasce entre Lichinga (a velha Vila Cabral) e Maniamba. Possui alguns afluentes, três do lado da Tanzânia e cinco do lado de Moçambique, o maior deles, o rio Lugenda.

O rio Lugenda, que percorre umas centenas de quilómetros até à sua confluência com o Rovuma, junto a Negomano, nasce no lago Chirua, que serve de fronteira entre Moçambique e o Malawi, atravessa o lago Maniamba, e segue todo o interland do Niassa.

Estes rios são pontos fulcrais do norte de Moçambique. Entre o rio Rovuma e o Lugenda e a leste deste, abrangendo parte de Cabo Delgado, foi constituída uma das maiores reservas nacionais de Áfrca e a maior de Moçambique. Esta reserva abrange a serra de Mecula com 1.441 metros de altura (mais 25m que a minha Pedrada), à esquerda do rio Lugenda em parte de Cabo Delgado, à direita do Lugenda e tem uma superfície de 42.400 quilómetros quadrados sendo (para dar uma ideia) duas vezes superior ao Parque Nacional Kruger, na África do Sul. A limitação a norte, é feita pelo rio Rovuma.


 Os Mabecos correm risco de desaparecer do nosso convívio. Recordo Newky - o Mabeco

Foto tirada da Wikipédia, da autoria de Masteraah. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license.

Esta reserva do Niassa era constituída, em 2012, segundo as estatísticas, por muitos animais, entre os quais, cerca de 12.000 elefantes, dos maiores de África, cerca de 12.000 palancas negras cerca de 200 mabecos (animais que correm perigo de extinção), 800 leões e toda uma panóplia dos maiores animais de África, entre eles, Búfalos, gnus (bois cavalos), impalas, leopardos, hienas e muitos outros, sem esquecer hipopótamos e jacarés.


Forte fo BOm Sucesso

 Quico e Ventor

Hoje passei por lá. Fui ver os meus amigos e fiquei a conhecer algo de novo.

Fiquei a conhecer a capelinha e o memorial. Já há bastante tempo que não fazia qualquer caminhada junto ao Tejo e hoje lembrei-me de passarmos por lá e ir ver, mais uma vez, o Memorial ao combatente. Gostei muito do novo espaço no Forte do Bom Sucesso (mau sucesso). 

Um espaço só, mas dividido em dois corpos. Um espaço da capelinha, logo à entrada e o outro espaço para o Memorial, saindo pelo fundo da capelinha, descendo uma rampazinha e passando por um corredorzinho. Ai encontramos o nosso Memorial. O melhor é mostrar em fotos porque nem toda a gente terá possibilidades de se deslocar a Lisboa para prestar homenagem à nossa gente que, no ex-Ultramar, por portas e travessas, partiram antes de nós.

 


Havia ali uma porta de chapa verde, hoje ao chegar, verifiquei que havia ali uma capelinha e um memorial





 Esta é a Capelinha uma belíssima casinha do Senhor da Esfera onde pode estar entre nós e aqueles de nós que chamou mais cedo



 No altar tem Cristo mutilado dos dois braços


Aqui podemos ver a história desta imagem que nos diz que foi encontrada entre Verdun e o forte S. Michel, em plena 1ª Guerra Mundial


 


Na parede à esquerda, antes de Nossa Senhora de Fátima, temos o S. Miguel Arcanjo



 Aqui tem a placa que nos descreve o Arcanjo S. Miguel





S. Nuno de Santa Maria




 Esta placa diz-nos quem é S. Nuno de Santa Maria, Padroeiro da Liga dos Combatentes




Saindo da Capelinha, temos este corredor que nos leva ao Memorial






Aqui jaz um soldado de Portugal caído na Guerra do Ultramar 




Cristo numa situação que nunca tinha visto




Esta placa diz-nos do símbolo de Cristo nas nossas caminhadas


Claro que a minha companheira de caminhadas também esteve presente. E tal como eu, sabe que todos os dias o mundo, o nosso mundo, está em evolução permanente. Para o bem ou para o mal, nós fazemos parte disso. Aqui deixo esta nova faceta do Forte do Bom Sucesso. Muitos ainda não a conhecerão.

Faz hoje 51 anos

 Quico e Ventor

Faz hoje 51 anos que, pela última vez, me despedi de Nova Freixo (actual Cuamba), no distrito do Niassa, em Moçambique.

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AB6 em Nova Freixo, no Distrito do Niassa Moçambique

Era o fim da minha comissão no Niassa, em Moçambique, já iam 26 meses. O fim da minha comissão e de mais 17 mangas que o nosso comandante prometera que sairíamos logo no primeiro transporte que houvesse para Nampula, mesmo que não fossemos substituídos. O primeiro transporte era o avião que levou a Nova Freixo o General Kaúlza de Arriaga com para-quedistas e acompanhado dum heli-canhão.

Nos últimos dias as coisas começaram a complicar-se e preparava-se um ataque na fronteira com o Malawi a homens da Frelimo que estavam a invadir Moçambique, rumo a Nova Freixo. Eles atravessavam em pirogas pelo lago Chirua. Nós, os felizardos que iríamos partir para Portugal oferecemos-nos voluntários para ficar. Já pela tardinha, com tempo apenas para chegarmos a Nampula com dia, caminhamos para o avião Nord-Atlas que nos transportaria para Nampula, divididos entre o querer partir e o não querer deixar os nossos companheiros numa embrulhada.

O nosso Comandante Araújo disse-me: "sou um homem de palavra. Prometi e vou cumprir. Se não forem substituídos rapidamente eu serei mais um, mais não seja, sei arquivar mensagens. Portanto, ajudarei. Desejo-vos um bom regresso a todos, bem o merecem". Fui o último a entrar no avião. Um Capitão piloto que comandava o avião gritava da porta: "ou vem ou fica"! Ainda alguém me gritou. As medalhas, pá! «Que se lixem as medalhas». Foi assim que eu me despedi de Nova Freixo.

Momentos antes, tinha deixado o Capitão Rita André a chorar no T-6 que pilotava sobre o lago Chirua porque, em nome dos meus 17 companheiros de caminhada, lhe disse que "iríamos ficar mais o tempo que fosse necessário", não os iríamos deixar nas condições que se avizinhavam. 

"Vão rapazes, que Deus vos dê a sorte que todos necessitamos. O Lobo tinha razão, vocês foram dos melhores companheiros que nem imaginava que existissem. Que Deus vos acompanhe e que olhe por nós também."

Dos companheiros que me acompanharam na saída de Nova Freixo, alguns, infelizmente, já morreram, outros ainda andarão por aí. Para eles, os que já foram e os que ainda estão, o meu abraço.

Faz hoje 55 anos

 Quico e Ventor

Isso mesmo! Faz hoje 55 anos.

Em 31 de Janeiro de 1968, saímos de Nacala (AB5), manhã muito cedo, apanhar o comboio para Nova Freixo (actual Cuamba). Saímos do AB5 e fomos apanhar o comboio para o AB6 (na velha Nova Freixo).

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AB6

Recebemos ordens para levantar as rações de combate porque, se não o fizéssemos, iríamos ter uma viagem com fome. Claro que nós éramos todos rapazes muito abelidosos e era um sonho demasiado bronco passarmos fome num comboio que iria passar por muita estações onde, certamente, haveria sandes e cervejas para nos aguentarmos até ao AB6. Foi realmente um sonho que não fez grande sentido depois de acordados.

Fiz compras na estação de Nampula de coisas que nem imaginava o que seriam. Comprei uma espécie de salgados a pensar que eram bolos e frutas demasiado maduras, intragáveis. Nos calores africanos nem tudo se aproveita. Ninguém comeu e eu levei comer quase para todos pois dos 18, estavam quase todos tesinhos que nem carapaus.

Depois as estações estavam quase todas encavalitadas umas sobre as outras na sua azáfama de trocas e valdrocas, em que entravam e saíam dos comboios tirando coisas, entrando coisas, muitas dessas coisas embrulhadas numa espécie de sacos ou melhor, panos a fazer de sacos, embrulhando-as. Era gente que vivia muito das trocas realizadas através dos comboios. Assim uma espécie do Robert Redford, em África Minha, a meter os dentes dos elefantes no comboio, neste caso, sem sacos nem panos.

E lá chegamos! 

Chegamos à estação de Nova Freixo, cheia de bobinas de cabos rodeadas de capim, onde nos esperava meio de transporte para o Aérodromo. Chegamos esfomeados mas tivemos logo crédito e abertura do bar para comermos umas sanduiches e beber umas cervejas, como se estivéssemos no Wallala do meu amigo Odin.

E assim foi no dia 31 de Janeiro de 1968. As camas estavam situadas no Hangar no meio de aviões, de bombas, de melgas de percevejos, de .... tudo. Era a nossa África, no caso, o nosso Moçambique, o nosso AB6.


Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...