sábado, 19 de setembro de 2026
Rihana - Moçambique
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Tom Jones. Já passaram tantos anos
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Moçambique
Na rota do meu amigo Apolo com o vexilóide de Alexandre Magno e o meu amigo Leopardo
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Caminhei para Moçambique desde a rua Newton, em Lisboa, após a minha entrada para a Força Aérea. Foram 52 meses de sonho.
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No cabeçalho, Ventor e Goldfinger foram dois amigos inseparáveis mas o tempo foi curto. Foram seis meses e meio de uma amizade total. O Nord-Atlas, na descolagem, fez duas passagens baixas só para olharmos o Goldfinger, sentado no chão, rodando a cabeça a acompanhar o avião. Ele quando me viu transportar as duas malas para o avião ficou desnorteado e sabia que as nossas caminhadas acabavam ali. Ainda hoje, mais de meio século depois, o espaço dele continua ocupado no meu peito e no meu cérebro. Foi um verdadeiro amigo que até me salvou a vida ao evitar que uma mamba negra (black mamba) me picasse. O Goldfinger só morrerá quando eu morrer também.
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domingo, 30 de junho de 2024
AB6, um marco nas nossas vidas
Ventor 30.06.24
Um Marco, na vida de todos que cheiraram aquela terra molhada, nos calores de Moçambique, nos calores de África!
O Hangar do AB6, o meu primeiro hotel no AB6, em 31 de Janeiro de 1968. Um por todos e todos por um! Homens, aviões, bombas, melgas, percevejos e, ... tudo o mais
Uns construíram esse marco desde a recruta, depois nos seus vários cursos, na Base Aérea 2, (o Curso de Telecomunicações, no meu caso, do Coutinho, do Checa e do LM) mas, outros, só o passaram a construir desde Moçambique. Desde a Ota, eu e o "Louco da Malásia" que O Senhor da Esfera já lá tem (memórias inesquecíveis) e, desde Moçambique, mais precisamente, no Triângulo do Niassa, Nova Freixo, Marrupa, Vila Cabral, nós e o nosso amigo Checa, o Alex e tantos outros; hoje, alguns caminhando ao lado do Senhor da Esfera, outros à espera de um abraço e outros perdidos por aí, a pensar nas 2M, nas Laurentinas, nas Manicas, ....
Podemos esquecer tudo, mas não as caras dos nossos Companheiros de Guerra, pelo menos, os mais chegados. Não as caras de hoje, porque nos perdemos na caminhada do tempo, mas as caras de então. Tal como um daqueles exércitos chineses de bonecos, nunca mudamos porque paramos no tempo.
Era uma vez em Nova Freixo (actual Cuamba) ... da esquerda para a direita: Coutinho, Fox, LM e Checa
Alguns conhecemo-nos desde a recruta, outros conhecemo-nos pelas várias Direcções da Força Aérea, em Lisboa, outros pelo G.D.A.C.I. - Grupo de Detecção, Alerta e Conduta da Intercepção, outros pelo Estado Maior, etç. Depois vieram as mobilizações para as três frentes de África - Guiné, Angola, Moçambique. O espalhanço era generalizado. Por aqueles cantos de África se refizeram velhas amizades e se realizaram outras novas. Enquanto na Ota (Base Aérea 2), uns eram lançados nos mergulhos das recrutas, outros caminhavam para as aulas nos velhos Hangares, com livros debaixo dos braços, onde se preparavam para as diversas frentes de então, os homens que iriam substituir outros ou alargar os quadros das áreas de guerra. Em cada uma das frentes se reviam velhos companheiros que se cruzaram pela Ota, pelas Avenidas de Lisboa, nas viagens dos nossos "Over-There".
Com a nossa chegada a Nova Freixo, uns já se conheciam, outros passaram a conhecer-se. Eu, dois meses depois da chegada, avancei voluntàriamente para Marrupa, onde permaneci oito meses e meio, cercado num quadrado de cerca de 200 metros de lado, juntamente com o Louco da Malásia, o Checa, o Melo, o Coutinho, na maior parte desse tempo.
Um dia que jamais esquecerei. O Pelão está a ver se os meninos comem a sopa! Pensava eu que esta foto era da Páscoa de 1968, mas na Páscoa ou fora dela, em Marrupa, muitas vezes, era assim
Mas a mim, nunca houve arame farpado que me detivesse. As lânguas de Marrupa ainda hoje choram por mim, como eu choro por elas porque, ninguém, de certeza, gostou mais delas do que eu. Ali, seria como um velho Mercedes que não havia quilómetros que detivessem. Estava autorizado pelo nosso Comandante a fazer lá a minha comissão toda se quisesse mas, eu tinha Vila Cabral na mira e, assim, fui saltando de arame farpado em arame farpado. Os planaltos do Niassa eram ideais para mim, para realizar as minhas grandes caminhadas. Sempre me senti seguro fora do arame farpado, caminhando nas lânguas armado ou nas tabancas, apenas com a arma da amizade. Cheguei a dizer ao nosso Comandante Araújo, depois dos raspanetes que ele me dava que, para mim, caminhar nas tabancas de África, desarmado, era como caminhar nas minhas aldeias do norte. A minha gente, nas aldeias era branca, ali, os filhos da Mãe Negra eram negros mas, para mim, eram gente e valiam o mesmo!
Ele retorquia que não eram as pessoas na sua generalidade que nos queriam mal mas no meio delas poderiam aparecer aqueles que não nos gramavam e, para além disso, atravessar a pista de Nova Freixo de noite, desarmado, era sempre um perigo devido à presença dos nossos amigos "peludos". Eu sabia que era, mas não ligava! As ameaças do nosso Comandante não passavam disso. Ele era (será sempre) um homem cinco estrelas!
Era uma vez em Vila Cabral (actual Lichinga). Aos que permanecemos e aos que partiram, continuaremos juntos. A todos vós, nunca vos esquecerei
Aliás, todos os que caminharam, pelo Niassa, a meu lado, eram cinco estrelas. A nossa amizade sobrepunha-se a tudo. Uma amizade que ainda hoje perdura. Foi por essa velha amizade que existiram Peniche, Golegã, Alfundão, Mafra, Ria e outras ocasiões. É certamente por essa velha amizade que existe esse Grupo AB6, é por essa velha amizade, que se preparam os almoços que têm como objectivo olharmo-nos, mais uma vez que seja, olhos nos olhos. É em nome dessa amizade que se juntam dois ou três, nos copos, que há vindimas, que as empresas de telecomunicações vão enriquecendo e é, em nome dessa velha amizade, que estou aqui a penicar no teclado, relembrando a todos que continuamos. Cada vez menos, mas continuamos!
Por isso, a todos do Grupo AB6, aos que conheço e aos que não conheço, deixo aqui o meu abraço. Espero que este dia de hoje, o dia do almoço de todos os que quiseram e puderam ir, tenha sido mais um MARCO nas vossas (nossas) caminhadas.
Um abraço, a todos os Duros do Niassa.
Que a Luz perdure para sempre, nos trilhos da nossa existência
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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral
segunda-feira, 6 de maio de 2024
A História de Lumi
Ventor 06.05.24
Lumi
Este podia ser o Lumi, um búfalo de cuja história o Ventor dá apenas um cheirinho. Era um búfalo que caminhava entre a serra de Mecula e o rio Lugenda.
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domingo, 28 de abril de 2024
Foram 52 meses de Força Aérea
Ventor 28.04.24
Foram 52 meses da minha caminhada na Força Aérea Portuguesa. Ia fazer 20 anos.
Estudei, em contra relógio, como maior, num externato chamado Eça de Queiroz, onde joje fica o edifício sede da Caixa Gera de Depósitos, em Lisboa. Ali conheci alguma rapaziada que perdi com o tempo. Havia um rapaz que tinha desaparecido por não se apresentar às aulas. Enfim, disse para os meus botões: deve ter desistido.
Cerca de um ano e tal depois, encontrei-o na Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa e perguntei-lhe: porque desististe? E que raio de farda é essa que trazes vestida?
Ele disse-me que tinha ido para a Força Aérea e que foi tirar um curso de especialistas na Base Aérea 2, na Ota. Bla, bla, bla, ... despedimo-nos, até sempre. Nunca mais o vi. Mas comecei a magicar na Força Aérea. Ele já estava mobilizado, para África e vestia aquela farda cor café com leite que punha muitas moças malucas.
No mês de novembro de 1965 passei na rua Newton, em Lisboa, onde estava instalado um gabinete de recrutamento da Força Aérea. Entrei e fui perguntar como aquilo era. Fui atendido por um Sargento que me explicou o essencial da engrenagem. Disse-lhe: eu faço 20 anos em Janeiro que vem, posso inscrever-me? Pode. Se quiser pode fazê-lo já. A Força Aérea só aceita voluntários.
Também ainda não dei o nome para o exército, quero dizer que estou a transgredir, o que posso fazer? Nada, mas pode esquecer que eles existem, nós tratamos dessa parte.
Inscrevi-me. Recebi instruções para dar o primeiro passo. Fazer um raio X no Chile e entregá-lo lá para a inscrição ser aceite.
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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral
quinta-feira, 9 de abril de 2020
A Senhora da Lângua
Quico e Ventor 09.04.20
Morta pela ilusão do calor que lhe dava vida, e ...
Eu sei que o Ventor ainda hoje lamenta alguns bocados da sua passagem por Moçambique e este é um deles. Mas também em locais tão longe do mundo e escondidos na selva ou quase, como se haviam de entreter? Caminhar, caminhar, caminhar ... e nem todos gostavam disso! A vida deles não era só defenderem-se dos "turras" e continuarem a levantar-se todos os dias. Era necessário continuarem a levantar-se todos os dias mas, continuar, também, a viver a vida!
«Esta é mais uma história verdadeira passada comigo e com Companheiros de Guerra.
Todas as histórias começam com: "era uma vez" ou, "once upon a time"!
Faz muito anos, nas longínquas "lânguas" de Marrupa, quatro marmanjos nascidos neste belo jardim, à beira mar plantado, decidiram ir à caça numa das mais belas terras de África - Marrupa, que significa, em linguagem indígena, Desterro. Não é o Desterro de Belém, não! É mesmo um Desterro na selva!
Partimos direitos à "picada", não no fim ou no princípio, mas no meio de algures, que nos poderia levar até ao fim do mundo, mas logo saímos dela, penetrando num matagal sem fim! Tomamos posições e, como sempre, lá continuava eu na ponta esquerda. Tinha sempre a direita protegida e a esquerda era comigo e, por vezes, as situações tornavam-se bem difíceis!
Neste caso, foi a mim que calhou enfrentar uma grande queimada que partira da lângua para o meu lado e à direita da lângua, para fugirem à queimada, partiam os outros três amigos.
Mas eu tinha tendência para me afastar e a queimada começou a empurrar-me para fora dela, pois apesar de tentar fugir aos matos queimados, já estava pior que um carvoeiro. De repente, enquanto magicava como sair daquela, sem ficar isolado, ouço gritar: "Ventor! ..." Pensei que estavam aflitos, pois de outra maneira não gritavam! Desato numa correria louca sobre o outeiro queimado direito à lângua e lá do alto, vejo lá no fundo, os três com as armas em riste! Mas lá, o mato e o capim não tinham ardido e eu só os via do peito para cima e cada vez mais corria perante o espectáculo da estupefacção daquelas três caras alarmadas!
Quando me viram, gritaram para ter calma e eu, como não tinha ouvido nenhum tiro, achei que, se calhar, encontraram alguém ferido ou, então, deram cabo de algum "turra", à coronhada!
AM 62 - Aeródromo de Manobras 62, Marrupa, em 1968
Bem, à medida que me aproximava e nada via, ouvi um deles dar um tiro. Pum!!! No vale parecia que toda a selva se desmoronava! Pum !!! Outro! Aproximei-me e vejo o que não imaginava! Uma jibóia com 4,70 metros, o que para nós a tornava colossal! Deu-lhe os dois tiros porque, segundo eles diziam, estava a levantar-se em tom ameaçador! Tinha os dois tiros de G-3 na cabeça. Um no centro e outro mais ao lado. Fazia pena ver a bicha ali, estirada, sem razão aparente e eu não gostei nada que ela tivesse sido morta, ali, fora do seu buraco, pois o aquecimento da queimada tinha atirado com ela, cá para fora, como se tivesse havido por ali, um bafo de Primavera.
Mas o mal estava feito! Agora era pega-la e leva-la até ao Aeródromo, como troféu!
Peguei num punhal do mato e cortei um arbusto que o meu amigo Rafael, um Macua de Marrupa, me tinha ensinado como fazer uma corda na selva com a sub-casca de árvore ou arbusto. Atei aquela fitinha em volta da cabeça da jibóia e a um pau; nesse instante, ela levantou aquela cabeçorra a espirrar terror e sangue contra mim e eu só tive tempo de lhe tentar esmagar a cabeça com o tacão da bota. Só parei quando achei que estava bem esmagada, não fosse fazer uma tentativa igual imanada de um terror inimaginável!
Uma boa constritora tirada da Wikipédia
Dei os nós cegos à fita tirada do arbusto e comecei a arrasta-la. Era bem pesada e tivemos que nos revezar para a levar de rastos até à base. Fomos pelo corta-mato até à pista e custou-nos bastante, pois estávamos muito longe. Quando cheguei à pista com ela sempre a fungar sangue e terror, olhei bem os olhos mortíferos do animal e achei que ela se recusava a morrer! Eram cinco horas locais quando chegamos e estavam os pretos civis a abandonar o trabalho que realizavam para os nossos serviços de infra-estruturas.
Pedi a um deles para lhe cortar a cabeça com uma catana mas, o gajo disparou numa correria louca, e outro, e outro e ainda mais outro! Todos fugiam, até que um, bem mais atrevido, se aproximou com uma catana e lhe deu o golpe de misericórdia, cortando-lhe a cabeça. Era uma jibóia média mas já metia muito respeito a qualquer e preparava-se para ser a grande senhora das "lânguas" de Marrupa.
Ainda hoje lamento a morte daquela bela "rapariga" que com dois tiros de G-3 na cabeça, tão valentemente tentou insurgir-se contra a morte e contra os seus carrascos.
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domingo, 1 de março de 2020
Natal de 1969, em Vila Cabral
Quic e Ventor 01.03.20
Era uma vez no Niassa.
Na antevéspera de Natal de 1969, no dia 23 de Dezembro, estávamos nós mergulhados numa grande trovoada sobre o AM61. Faz hoje 49 anos este acontecimento que nunca esqueço.
Com a ajuda de Celine Dion, deixo aqui para todas as mulheres de Vila Cabral desse Natal de 1969, os meus votos de Boas Festas, pelo menos para todas que por cá andam, 49 anos depois e espero que sejam muitas
Este saco com que o Pai Natal anda hoje por aí a distribuir prendas, talvez seja o mesmo que nos levou o bolo rei, em Vila Cabral
Os raios e os trovões eram por demais e, de repente, começamos a ouvir cair morteirada para os lados de Nova Madeira, relativamente perto de Vila Cabral e da Força Aérea. Aquela morteirada misturada com o ribombar dos trovões, transformou Vila Cabral numa cidade em pé de guerra e amedrontada. Um capitão que comandava uma companhia que tinha chegado do mato, um ou dois dias antes, estava a beber uma cerveja no café Planalto. Ao ouvir a morteirada correu para o seu batalhão, alertou a sua companhia gritando: “a Força Aérea está a ser atacada, tudo para as berliers”!
Os seus homens vestiram-se e calçaram-se conforme puderam (acabando de o fazer nos seus transportes), pegando as suas armas sempre a correr e atravessando Vila Cabral a toda a velocidade. Eu estava de serviço no Posto de Rádio e, ao ouvir aquela malta entrar pelo AM61 dentro, saí para ajudar a estacionar as viaturas e perguntar o porquê de todo aquele aparato. O tal capitão contou-me tudo e, entretanto, chegou junto de nós mais meia companhia dos comandos que estavam ali perto de nós. Metade ficou para defenderem “a sua casa”, a outra metade foi juntar-se a nós para nos ajudarem a defender a nossa. Todos estavam convictos que o ataque de morteirada caía sobre a Força Aérea e era necessário juntarmos forças para a defesa.
Eu estava todo molhado como um pintainho e o telefone no posto de rádio tocava. Entrei e atendi. Era uma senhora de Vila Cabral que perguntava apenas isto: «vocês estão a ser atacados»? “Não minha senhora aqui ainda não caiu morteirada nenhuma”! «Mas nós estamos a ouvir as explosões e o barulho dos morteiros vem daí»! Fui informando aquela senhora e outras do que se passava mas não acreditavam em mim. Achavam que eu mentia para as acalmar mas eu só dizia a verdade. Não havia, nem tiros de balas na Força Aérea, em Vila Cabral e muito menos tiros de morteiros. Não sabia como lidar com a incredibilidade que elas tinham da minha informação, pois pensavam tratar-se apenas de uma mentira. Mas era a pura verdade.
«Aguemtem-se, que amanhã, as mulheres de Vila Cabral, vão fazer o melhor bolo-rei do mundo para o vosso Natal»
Noite de Natal de 1969, a noite seguinte, lá estou eu a comer o tal melhor bolo rei do mundo
Aqui, o nosso amigo açoriano, Leão, coloca um pouco da cerveja que tinha na garrafa para regar mais um pouco o meu bolo rei. As minhas botas de água, as tais que algum tempo antes me defenderam as pernas das garras da águia enorme que me queria despedaçar aos bocadinhos. Mas teve azar! Ficamos agarrados um ao outro. Ela agarrou-me uma perna com as garras e eu fui-lhe esmagando a cabeça com a outra bota a sufoca-la. Eram as botas da minha salvação! O Sargento Dias nem acreditava no que estava a ver
No dia seguinte, junto ao belo pinheiro que eu roubei ao Engenheiro, grande chefão das florestas do Niassa, que não mo quis dar, comemos o tal bolo rei que seria o melhor do mundo. E então não é que era! Não pelo bolo rei, mas pelo amor com que foi feito. E assim, Trovões, Relâmpagos, Morteiros, Exército, Comandos, Força Aérea e Mulheres de Vila Cabral e o seu bolo rei, estivemos todos unidos no mesmo combate.
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segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Agapornis - os inseparáveis do Niassa
Quico e Ventor 06.08.18
Isso mesmo! Coisas lindas. Uma espécie de mini-papagaios a que chamam - os inseparáveis do Niassa. E é assim que eu lhes prefiro chamar. Os inseparáveis do Niassa.
Eles têm cerca de 15 cm de comprimento e nem sei se são periquitos ou são papagaios, pois já lhes ouvi chamar as duas coisas. Mas sejam eles o que forem, sei que são penudos, lindos e amorosos.
E mais importante ainda, eu tenho uma história com eles - a história dos agapornis, os meus primeiros amigos de Marrupa.
Agapornis - os inseparáveis do Niassa
Um dia, a 06.04.1968, cheguei a Marupa, cerca do meio dia. Fui visitar o Bar, o edifício do Comando, o Posto de Rádio, cumprimentar amigos e almoçar. Quando dei pela fé era noite e fui jantar. Quando me quiseram fazer a cama, pedi para me colocarem um colchão no chão no topo da camarata, afastado das camas da rapaziada. Não era necessário montar a cama, nem sequer, rebocar o colchão. Um colchão e uma manta azul mas creio que ainda colocaram os lençóis.
Quando começava a dormir, recebi uma visita inesperada. Havia um tipo que tinha uma ratazana branca e, sem pedir licença, ela foi ter comigo. Quando senti os bigodes do rato, debaixo do meu queixo, agarrei a manta com as duas mãos, dei-lhe um safanão e mandei o rato pelo ar para os fundos da camarata. Ouvi uma voz: «o gajo matou-me o rato»! Mas não matei nada. Tudo amainou e o desgraçado do rato não se deve ter achado nada meu amigo. Mas a culpa foi dele!
No dia seguinte instalamos a minha cama onde eu queria - no Posto de Rádio. Sentei-me na cadeira de trabalho, procurei sintonizar os emissores e os receptores o melhor possível, comuniquei com Nova Freixo, Nampula e Vila Cabral e senti que estava operacional, eu e as máquinas.
São uma beleza e adoram-se uns aos outros e os donos
Num ápice e sem dar por isso, senti algo pousado nos meus ombros e a brincarem com os meus caracóis. Eram dois bichinhos desses. Dois penudos. Virei-me para o meu companheiro Melo, um cabo-verdiano que depois de Moçambique nunca mais vi e disse: "o que é isto pá! De onde apareceram estas coisas"? «São os meus periquitos, deixa-os andar que são nossos amigos».
Não sabia como chamar-lhes e eis os agopornis
Fiz uma festa aos periquitos e eles todos encantados, saíram pela janela fora e atravessaram o arame farpado para o mato. Foram comer ao mato porque, dentro de algum tempo, lá estavam eles à fossanga nos meus caracóis e ver se lhes tocava alguma gludice. E assim foi durante alguns dias até desaparecerem. Hoje descobri o nome oficial desses periquitos ou papagaios e por isso os coloco aqui, os meus amigos agapornis. E hoje percebi, também, porque lhes chamam os inseparáveis do Niassa. Porque eles foram umas belezas que iam para o mato e voltavam para estar connosco no posto de rádio durante dias. Depois desapareceram para sempre. Devem ter ido tratar da vida deles nessa bela terra que era deles também.
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quarta-feira, 18 de julho de 2018
O Escorpião
Ventor 18.07.2018
Fez anos uns dias atrás, no mês de Julho de 1968, exactamente há 50 anos - meio século!
Eu tinha chegado a Marrupa três meses atrás e planeavam-se umas boas operações sobre o rio Lugenda e seus arredores. O então capitão piloto aviador, Mantovani, deslocou-se a Marrupa para serem planeadas as ditas cujas e acabou por dormir lá, não regressando no mesmo dia a Nova Freixo. Senta-mo-nos em frente à janela do posto de rádio, numas cadeiras e tínhamos as pernas por cima da regueira que apanhava as águas residuais das chuvas e as pingueiras que viriam do telhado do edifício. Porém, o dia estava lindo e nós falávamos sobre assuntos diversos e, na ordem do dia estava a hipótese de sofrermos um eventual ataque à morteirada.
Enfim, conversas diversas sobre a guerra, os «turras», a eventualidade de mais um operador de comunicações para nos ajudar durante esses 15 dias de operações e outras banalidades.
De repente passa por baixo das nossas pernas, vindo da minha esquerda, na tal "vala" das águas, um escorpião negro como esse em baixo.
Um escorpião negro
Quando olho o escorpião todo despachadinho, disse: o meu inimigo anda por aqui e bem dentro do arame farpado, assim como este, as mambas, as melgas, etç. Mas esses não usam morteiros! O capitão Mantovani, levantou a perna, já o escorpião tinha passado por mim e ia-lhe espetar com o tacão em cima. «Não o mate, deixe-o ir à vida dele»!
Ele ficou com a perna no ar a olhar o escorpião e disse: "metem respeito estes gajos"! Não é que não o matou! Levantei-me, peguei no escorpião com um ramo seco, fui em direcção do nosso bar, o Calhambeque, cheguei ao arame farpado e mandei o escorpião lá para fora.
Escorpião predominante em Marrupa
Quando voltei para junto dele, disse-me: "gavo-lhe a paciência, salvar o escorpião". Salvamos - disse eu! Era extraordinário aquele homem. Se fosse outro, nem que fosse só para me chatear, teria, só com um golpe, esmagado o escorpião mas não o fez. Por isso, e muito mais, ele continua vivo no meu coração.
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quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Ventor e a águia
Quico e Ventor 03.09.2015
A águia que queria matar o Ventor, em Vila Cabral, 1969.
Num dia bonito, cheio de sol, eu e o Sargento Dias resolvemos ir à caça de perdizes para fazermos uma caminhada naqueles belos outeiros com zonas cheias de capim. As perdizes saíram do chão e voaram para a nossa esquerda. Disse ao Sargento Dias para ir pela direita que eu iria pela esquerda do local onde as perdizes tinham pousado para as fazer voar para o lado dele.
Beleza destruidora
Subi um morro onde o capim me dava pelo peito e pelos ombros, ficando, praticamente, apenas com a cabeça de fora. Na minha vertical esvoaçavam, em circo, um grade grupo de aves de rapina, especialmente, abutres e algumas águias. Mandei o Goldfinger e a Leoa pela minha esquerda e o Bolinhas, um cão pequenote, ficou junto de mim. Daquele grupo de rapináceas, destacou-se uma águia que voou quase na vertical, em minha direcção. Enviei um tiro de caçadeira browning, uma semi-automática de 5 tiros. Ela desceu mais e a alta velocidade. Enviei um segundo tiro e ela desce mais. O objectivo dos tiros era espantar a águia mas ela não se atormentou. Ao terceiro tiro, na defesa do Bolinhas, já lhe arranquei algumas penas. Como ela não desarmava, enviei-lhe o quarto tiro e parti-lhe uma asa.
A águia desviou de direcção. Esqueceu o Bolinhas e atacou-me a mim. Não ia ter tempo para lhe apontar o 5º tiro. Levantei a arma em posição de defesa, esperando a oportunidade de lhe dar o 5º tiro e mata-la mas não me deu tempo.
Quase me cobriu com aquele grande manto das suas asas mas, com o cano da arma, desviei-a de mim para a minha frente, caindo a meus pés e agarrando-me uma perna cravando aquelas garras enormes na minha perna esquerda protegida por umas botas de água com borracha e lona. Ela segurou-me a perna e eu coloquei-lhe a outra bota sobre o pescoço. Enquanto ela me tentava furar a bota eu tentava asfixia-la com a outra bota sobre o pescoço, calcando sempre.
Quando o Sargento Dias chegou espavorido junto de mim porque imaginara algo diferente, pois os tiros que eu dera não eram de quem faz fogo sobre perdizes, olhou e não via nada devido ao capim, perguntou-me: "que raio de tiros foram esses"?
Chegue aqui. Quando ele viu a águia com as duas garras cravadas na bota pergunta: "e se ela fura a porra da bota! Não lhe pode dar outro tiro"? Mais um tempinho e a águia estava morta.
Esta é a águia negra africana ou águia de Verreaux. Tirei da Wikipédia esta foto carregada por Orlica. É a águia mais parecida com aquela que matei em Vila Cabral, em 1969
Esta águia é uma grande águia que vai de 75 a 96 cm da ponta do bico à ponta da cauda. Os machos pesam entre 3 a 4 kg mais ou menos e as fêmeas entre 3 a 7 kg. Tem uma envergadura de asas de 1,80 a 2,30 m.
A que eu matei, pisava-lhe a ponta de uma asa com um sapato e o meu braço esticado não chegava à ponta da outra asa. Imaginem esse bicho a alta velocidade a aproximar-se da vossa cabeça! Com um peso razoável e com as penas da cabeça todas eriçadas, tornando-a maior, o impacto dela no cano da minha arma àquela velocidade, acho que o que me safou foi ela ter a asa partida. O estupor da águia foi mesmo suicida!
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sábado, 22 de fevereiro de 2014
Era uma vez no Niassa
Ventor 22.02.14
Um dia em Marrupa, no Norte de Moçambique, Distrito do Niassa.
Um dia, saído do AB6, em Nova Freixo, cheguei a Marrupa, num T6. Era 6 de Abril de 1968. Já não tenho a certeza quem foi o Piloto. Mas, tenho a certeza que, durante algum tempo, me ia adaptando a Marrupa, especialmente à selva "savánica" em volta e as suas lânguas. Primeiro acompanhado e, como as companhias começaram a falhar (andar não era bom para todos), ia caminhando apenas só, com os nossos rafeiros. Os meus amigos Zorba, Diana e Bolinhas.
Preparado para tudo que eventualmente desse e viesse de fora da cerca do arame farpado, resolvi fazer uma limpeza da secretária do Posto de Rádio onde trabalhávamos. Comecei por retirar todos os papéis ali deixados pelos meus antecessores, colocando no cesto dos papéis os que não tinham interesse e arrumando todos aqueles que teriam justificação. Entre eles estavam alguns que nos ensinavam muito sobre as populações de Moçambique, especialmente as do Norte: Macuas-Lomués, Makondes e os Ajaúas do Niassa, outros que nos proibiam de cantar certas canções como, por exemplo, o Hino do Lunho.
Contava-se ali, também, a história da morte do Tenente Malaquias, cujo indicativo de guerra seria Ana, o nome, se a memória não me falha da sua filhota. Não me recordo bem disso, pois ele teria sido abatido no ano anterior (Outono?) de 1967. Portanto, muito tempo antes de eu chegar a Marrupa.
Rihana - Moçambique
Rihana, em Moçambique. Um povo que canta e dança pode ser feliz. Porque Moçambique não é? Eu sei mas não vos digo!
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