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quarta-feira, 19 de abril de 2006

Rios de Som

  Quico e Ventor 19.04.2006

Em Tempos de Guerra

Diz-me o Ventor e eu sei disso, pois sou obrigado a ouvir música com ele:

«Sempre fui um atento ouvinte de músicas. Belas músicas! Normalmente, não fixo os nomes dos muitos autores, dos muitos cantores, dos muitos músicos, das muitas empresas gravadoras. Excepcionalmente o faço. As músicas têm de entrar nos meus ouvidos e ficar por lá.

Uma vez entrei numa janela da Net e, no meio de muitas coisas boas, encontrei um tema que se chamava Rios de Som e a que achei muita piada. Caminhei algum tempo entre esses amigos que, por sinal, directa ou indirectamente, me ajudaram a recordar os meus Tempos de Guerra.

E isso fez recordar-me que, pelos meus Tempos de Guerra, também passaram muitos Rios de Som que eram expelidos dos Hamarlunds da Força Aérea, uma extraordinária companhia. Lembro-me de, pelas noites dentro, sintonizar a Rádio Nova Iorque, em ondas curtas, que tinha uma emissão para a América Latina, em espanhol e que, eu, sempre que podia, conseguia ouvir em Moçambique e, pela Rádio Nova Iorque recebia beijinhos de estudantes de várias universidades americanas, da Íris, a minha Companheira de Guerra e de algumas das suas amigas da Universidade de S. João de Porto Rico que atravessavam o éter cheios de Rios de Som. Estes beijinhos eram, apesar de tudo, para o Ventor e para a Força Aérea Portuguesa, no norte de Moçambique. Elas telefonavam para a Rádio Nova Iorque e os locutores encarregavam-se de fazer o resto.

Aqui Rádio Novaiorque! - lá vinham eles! ...

Nos Hamarlunds da Força Aérea, corriam os nossos Rios de Som que, algumas vezes, eu colocava nas cabinas dos pilotos para descomprimirem das agruras da solidão, nos mais belos céus do mundo e, por vezes, os mais temidos também, pelos seus gigantescos cúmulo-nimbos, por vezes mais negros de que a própria África, ajudando assim, no regresso à nossa Lápide de Arame Farpado.

Obladi, Obladá, Hey Jude, Love me do, Penny Lane, All you need is Love, Let it be, Get Back, ... dos Beatles. Reach out, I'll be there, dos Four Tops (uma música das minhas favoritas que utilizei como lema), My Sentimental Song, for my Sentimental Friend, Let him live, ... e, tantas outras! Se isto para muitos de vocês é fuleiro (?), para mim, são Rios de Som que me alegram a alma, que me movem no passado, no presente e no futuro.

Ao ouvirem em plena campanha aérea, o Obladi, Obladá, que partia do nosso centro de operações e entrava nas suas cabinas,

Dizia um piloto - Rima e rimará!

Dizia outro - na nuca do papá!

Ao meu lado, alguém alvitrava:

"Estes, mal aterrem, vão levar já com uma participação, em cima"! Dizia o Clark Gable.

"Não posso admitir coisas destas, senão, sobra para mim"!

Era assim que chamávamos a este Tenente Coronel. Olá, Clark Gable!!!!

Sem música, pode informar o Comando Avançado, que vão fazer a guerra sózinhos!

Quando o Clark Gable, vê no seu estilo de pai macabro, um piloto rodesiano (para os menos atentos, nós também ensinamos os outros) correr para mim, para me perguntar quem era o piloto do avião X e eu lhe disse. "Goldfinger" e apontei-o, o Clark Gable vê o rodesiano abraçado a mim a gritar que éramos extraordinários, que nunca imaginara nada assim e vai a correr abraçar-se ao Goldinger, cheio de alegria espontânea, o nosso Clark Gable, virou-se para mim - são mesmo! Vocês são mesmo extraordiários!

Todos num só, quais mosqueteiros! Obladi, Obladá!

Grita o Clark Gable: "os cornos do papá"!

A guerra continuou de noite e de dia. Cada um a travava conforme os planos traçados ou, conforme as contingências do momento. De Marrupa, voltei a Nova Freixo, de Nova Freixo, parti para Vila Cabral (actual Lichinga). Aqui estive mais seis meses e meio. Seis extraordinários meses e meio! Caminhando a meu lado, sempre a Íris que, entretanto, arranjara um namorado, mais um que começou a acompanhar o nosso trajecto e que poderei chamar, também, Companheiro de Guerra porque nunca se opôs que a íris continuasse a sua correspondência comigo por longos meses e que, mais tarde acabou por casar com ela.

Regressei a Lisboa onde recebi uma carta da Íris a dizer-me que acabara o curso dela e que tinha sido pedida em casamento. Desejei-lhe felicidades e terminamos a nossa correspondência como bons amigos que fomos, durante muito tempo. Ela acabou o curso e ia casar, eu acabei a guerra e ia procurar emprego. Terminaram as razões que nos ligaram mais de quatro anos. Darmos a conhecer os nossos mundos, um ao outro. No entanto, reconheço hoje que foi uma pena termo-nos perdido para sempre. Fomos mudando de vida, mudando de locais e fomos-nos adaptando a novas realidades.

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Uma rosa chamada íris

A íris, tinha sido uma verdadeira Companheira de Guerra! Posso muito bem recorda-la como uma rosa».




O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Caminhar no rio Lizandro, Maio de 2010

  Quico e Ventor  17.05.10

Mafra já está a ganhar, para mim, o estatuto de, "o recanto do nosso jardim"!

Ou então, o estatuto de a "Vitoriosa", nas caminhadas de alguns, já "rançosos", Duros do Niassa.

 

Uma caminhada por Mafra e subúrbios, em 16 de Maio de 2010

 

No meio do Lisandro, entre a luz e a sombra
 
 
 
 
No meio do Lisandro, caminhando rumo à margem direita
 
 

Mas não esqueçam que o nosso "ranço", é o "ranço" dos anos, um "ranço" puro e especial! Mas, apesar do "ranço" dos anos, não somos , ainda, "rançosos" do espírito.

Como já tenho dito, o nosso espírito é um espírito limpo, um espírito puro. Puro como as águas cristalinas da serra de Soajo. Aquelas águas que brotam na Fonte da Naia, na Fonte do Muranho, na Fonte da Corga da Vagem, na Fonte das Forcadas e, outras. O nosso espírito continua a fluir em linhas rectas ou em linhas sinoidais, tal como fluía nas terras altas do Niassa onde, algumas vezes caminhávamos sonhando sobre as nuvens. Nessa altura, não sonhávamos com Mafra, com Alfundão, com a Ria de Aveiro ou S. João da Madeira, com Massamá e outros locais, por onde os duros do Niassa tinham o seu coração.

 

 

Rodando nas águas do Lisandro

 

 

Nas veigas floridas do Lisandro

 

Sonhávamos, isso sim, com as soleiras das nossas portas e a "green, green, grass of home".

Hoje sonhamos com os grandes Planaltos do Niassa, o lindíssimo Norte de Moçambique, com os seus horizontes longínquos, com as suas machambas em redor das suas vilas e cidades, como era em Vila Cabral, aquele circo de machambas em seu redor. Continuamos a sonhar com Nova Freixo e o AB6, com o morro do Elefante, com o rio Lúrio e seus afluentes, com a zona das nascentes do rio Messalo, as águas mais límpidas que vi em Moçambique e que vi correr entre rochas, com cachoeiras como via pelo norte de Portugal. Estive lá, algum tempo parado a aperceber-me que, afinal, em África, as águas cantarolavam como continuam a cantarolar, por aqui, nos nossos rios. Aquelas águas lavaram-me os ouvidos apenas com o seu som!

Mas agora, quando nos juntamos, fazemo-lo para sacudirmos o tal "ranço" da caminhada dos anos. Olhamos, observamos, rimos, sonhamos! 

 

 
 
Na margem direita do Lisandro, um monumento aos trabalhos dos homens
  
 

 

Este tritão, observa-nos e sorri da minha teimosia, em fotografá-lo, lá em baixo, com os pingos da água a socorrê-lo para que nós não fiquemos mais fascinados por ele. Na janela de cima vive o tritão, como uma moura encantada, solitária

 

Desta vez, tudo aconteceu porque o Alex queria vinho de Mafra, ... queria o vinho do Checa e nós lá fomos no encalço do grande Convento, dos trilhos por onde caminhou D. João V, nos espaços por onde vai caminhando o Checa, a Teresa (a "rainha mãe") e os seus príncipes, não esquecendo a beleza de Mafra e dos seus subúrbios.

Sim, porque se já tenho falado de Mafra, do seu Convento e dos seus jardins, desta vez darei um cheirinho sobre os subúrbios de Mafra, especialmente, das belezas que envolvem Mafra, como o rio Lisandro e seus afluentes.

 

Eu estava habituado, desde há muitos anos, a passar sobre as pontes do rio Lisandro, a ver nichos das suas hortas instaladas nas suas margens. Mas apenas via!

 

 
 
As perdizes que decidiram imitar o Ventor, nas suas caminhadas
 
 

 

A minha linda rola que eu tinha confundido com um gaio, devido à beleza do leque do seu rabo aberto e porque, ela, não é uma rola turca, mas sim, uma das minhas belezas de há muitoas anos, por Adrão e depois por Moçambique, especialmente, Vila Cabral - a rola comum, a nossa rola brava!

 

Desta vez, o Sérgio, o filho mais velho do meu amigo Checa, quis surpreender-me e desafiou-me para ir até ao rio. Eu pensei que íamos de carro até um local determinado onde espreitaríamos o rio. Mas não! Fomos de jipe! Descemos a ladeira até ao rio, largamos o jipe e demos uma pequena caminhada que deu para, apressadamente, observar in loco, a pé e de jipe, as belezas de um troço do Lisandro. São veigas ricas, cujas culturas crescem a conversar com o rio. Ali podemos assistir ao trabalho da Natureza e do homem a envolverem a caminhada do Lisandro. 

 

Mas, essa pequena caminhada, deu para pisarmos novas pontes. Pontes de esperança! A esperança que as gentes de Mafra e arredores, têm em teimar a continuar de mãos dadas com o Lisandro. E as pontes, como todos sabemos, para além de outras coisas, levam-nos para renovarmos a aragem na outra margem.

Vejam só!

 

 
 
Uma caminhada, sobre uma das pontes do Lisandro

 

 
 
Mais outra ponte sobre o Lisandro

 

Essa pequena caminhada deu para ouvirmos os peixes saltar à superfície da água e, deu também, para os meus olhos subirem e descerem as encostas que se debruçam, mais lenta ou mais abruptamente, sobre o rio Lisandro e as suas hortas cheias de culturas da época.

Mas a tarde começava a esgotar-se e o Alex e a família tinham de regressar a S. João da Madeira com as suas preciosas garrafas. Mas o tritão no local do tanque de lavar a roupa, a beleza da "minha" rola que, inicialmente, confundi com um gaio e depois as perdizes, foram-nos atrasando a caminhada da subida e, quando chegamos, a malta do Norte já tinha sumido com a pressa de apreciar as garrafas no seu novo local - a garrafeira do Alex. 

 

Mas a caminhada foi longa. Foi uma caminhada de sábado e domingo, longa mas curta, porque o tempo é sempre pouco e, no sábado, tivemos o prazer de conhecer mais um duro do Niassa, das "gerações" que nos substituíram e a quem foi incumbido "fechar" a Porta de Armas do AB6.

 

Obrigado amigo pela oferta do DVD com as fotos das terras com que todos continuamos a sonhar, das terras de que todos gostamos e gostamos porque, todos saímos de lá com a consciência tranquila.

Por isso, exibimos sempre o amor que sentimos pelo Niassa, o amor que sentimos por Moçambique, o amor que sentimos pelas suas gentes.

Queiramos ou não, fazemos parte da História. Fizemos História! Todos! Os primeiros a chegar, os que continuaram e os que partiram!

 

 
 
Ovelhas e cabras, que caminham ao lado do Lisandro
  
 
 

 

Andorinhas, nascidas este ano, ao lado do Lisandro

 



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...