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quarta-feira, 6 de julho de 2005

Newky, o Mabeco

  Ventor 06.07.05

Uma família quase perfeita ...

... e mais uma história na savana

Newky, o Mabeco

Segundo o Ventor, Newky, era o herói da família, do grupo, da espécie!

Na savana, a luta pela sobrevivência, era total. O mundo da savana é constituído por quilómetros e quilómetros de ervedos pardos e secos, o capim, em clareiras abióticas e pequenas depressões, onde, os animais selvagens, numa luta terrível, jogam, constantemente, a sua sobrevivência! Vou falar-vos dos cães caçadores, Lycaon pictus, de pêlo malhado, olhos cor de âmbar, orelhas grandes, arredondadas e erectas, adornando os seus crânios maciços, com masseteres fortes e poderosas maxilas, de pelagem hirsuta, de caudas erguidas como bandeiras ao vento, beijam-se (lambendo-se) como se tudo que há de interesse na sua vida, fosse uma permanente parada de amor. Agitam as caudas golpeando o ar numa saudação comunal e tumultuosa com um ar social e disciplinado.

Diz o Ventor que os cães selvagens ou mua muitu (nome swaíli) são os caçadores sociais mais comunitários e interessantes de África!

A savana é o mundo dos cães selvagens

Este foto da autoria de Brian Gratwickle, foi tirada da Wikipédia.This file is licensed under the Creative Commons Attribution 2.0 Generic

São corredores infatigáveis e campeões da resistência entre a fauna africana. Numa toca, algures numa savana de África, foi criada uma nova matilha de 12 animais dessa espécie. No seu seio apareceu, bem determinado, desde o seu tempo de meninice, o Newky.

Newky estava sempre alerta contra os perigos e era sempre o primeiro a dar as boas vindas ao clã que partira determinado para as caçadas, meio único para a sobrevivência da família e do grupo e, agora, vinha com o "farnel" para os mais pequenos e os seus "monitores da creche". Na porta da toca, a mãe sempre a chamar-lhe a atenção para os perigos que rondavam, por terra e pelo ar, como hienas, leopardos, chacais, leões e águias, nos seus primeiros tempos de vida. Mas ele estava no seu mundo.

Estão a chegar, mais uma vez, os caçadores do grupo e, lá vai o Newky, sempre na frente, para recebê-los, numa sempre gloriosa festa de boas-vindas! Recebe o seu quinhão de carne e é beijado (lambido), persistentemente, por todos os que se aproximam das tocas, eufóricos, dando graças ao "seu Deus" por lhes ter sido permitido, mais uma vez, congratularem-se todos juntos por continuarem a existir nesta vida dura e atribulada que lhe foi predestinada. Newky, salta, empoleira-se no seu Maralhal e dá graças ao Senhor da Esfera por continuar, dia após dia, na expectativa de fazer parte deste grupo destemido que cruza distâncias sem fim, na procura de continuar a ver Apolo aparecer, disfarçado de bola de fogo, por entre o capim do horizonte, no meio das acácias!

Newky, sempre alerta

Newky, cresceu e está a fazer-se um autêntico mabeco e já começa a acompanhar os caçadores mais velhos, sempre na expectativa do perigo, sempre determinado na luta colectiva, pela sobrevivência da sua comunidade. Mas a comida começa a faltar, a seca empurrou os outros animais selvagens para longe e a sua existência e do grupo, começa a correr perigo. Assim, vão ter de recorrer à caçada do gado doméstico! O Newky aproxima-se do arame farpado. Torneia-o e tenta entrar mas, apercebe-se do perigo e, com mais ou menos audácia tenta levar a família a sobreviver durante os tempos difíceis de um ano de seca.

Porém, diz o Ventor, algo correu mal! Uma moléstia ataca a família e Newky faz cálculos e mais cálculos, achando por bem manter-se um pouco afastado mas, sempre tanto quanto possível, tentando, conjuntamente com os mais capazes, arranjar comer para a comunidade que começa a definhar.

Newky, na sua solidão.

Ele era um lutador destemido que nunca esquecia o seu grupo

Doentes e fracos, pouco podem fazer para restabelecer as forças do grupo e Newky, sem descurar o ambiente comunitário em que foi treinado, começa por se manter à distância, uma vez que se apercebe de que espécie está em perigo. Vê morrer todos, um a um e, por fim, sente-se só e triste, no mundo miserável que herdou. Foram-se os latidos dos pais, dos irmãos, dos tios, das tias e de todos os seus companheiros e sente que tudo acabou. Mas, determinado, avança, só, pela savana e procura companhia da mesma espécie. Durante algum tempo, sobrevive sozinho, nada fácil, no meio de tantos inimigos. Mas os outros grupos também tiveram os seus problemas.

Newky acaba por ser bem recebido por outra comunidade e acabou por tomar o seu comando. No seu novo grupo, arranjou uma companheira e passou, no meio de grandes dificuldades, a organizar o clã!

O Newky, começou a organizar as caçadas pela sobrevivência do seu novo grupo que se tornou temível em toda a savana. Eles atacavam gazelas, gnus e até zebras, de preferência, os poderosos machos territoriais, aqueles que lutam pela defesa do seu território e que, por isso, por não fugirem das zonas demarcadas, eram os mais fáceis de apanhar! Lutavam pela família e não queriam perder uma polegada do que era seu.

Zebras, como no Revia

Newky, era determinado. Deu luta às hienas e até aos leões que lhe roubavam a caça. Por isso, organizava batidas e vencia tudo o que se lhe opunha porque, era um chefe organizado e destemido. Mas uma vez, numa refrega entre cães selvagens comandados por Newky e um grande grupo de leões, as coisas correram mal. O seu companheiro, tido como o seus braço direito, nunca mais voltou e, pensa-se que terá sido morto na luta e Newky ficou com a sua parte esquerda do peito, no externo, junto ao coração, todo dilacerado, pela dentada de um leão muito feroz. Newky foi todo lambido pelos companheiros numa missão de tratamento medicinal e aguentou-se, mas os tempos de fome voltaram e a luta pela sobrevivência tornou-se atroz. Newky, ainda combalido daquela terrível dentada, levou a sua matilha à procura de sobrevivência para os lados dos gados domésticos!

Newky, morreu só, num cantinho da savana

Mais uma vez, as dificuldades, o horror da fome e, provavelmente, a doença, a raiva propagada pelos cães domésticos dos pastores, recomeçou a dizimar a família de Newky. Algures, numa depressão da savana, tombou, para sempre, o destemido Newky - o Mabeco - por quem as gerações futuras continuam a chorar e vão passando latidos de geração em geração, na tentativa de não deixar morrer o nome e a glória daquele que sempre tudo fez para manter unido aquele grupo da comunidade mais social de todas quantas há por terras de África!

Assim, tal como o Ventor, eu Quico, digo adeus ao Newky!

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cegonha1.png

O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 5 de abril de 2016

Escravatura e beleza

 Quico e Ventor 05.04.16

Escravatura!

Pois foi em tempos que se deram estas bestices, ainda por cima numa das mais belas terras do mundo. Parece impossível, depois de olharmos a serra de Mecula, a foz do Lugenda, o Rovuma, os "incelbergs", saídos do chão da mãe negra, fazendo alguns deles, lembrar lombos de elefantes e, onde nos dizem existirem pinturas rupestres, que tenha havido, provocadas por homens, sobre outros homens, coisas como esta pintura nos mostra.


Traficantes de escravos árabes e seus cativos ao longo do rio Rovuma

O rio Rovuma, nasce perto do Lago Niassa, na Tanzânia e segue rumo ao oceano Índico numa extensão de 760 km até à sua foz no oceano Índico, junto a Cabo Delgado. Recebe como afluente o rio Messinge que nasce entre Lichinga (a velha Vila Cabral) e Maniamba. Possui alguns afluentes, três do lado da Tanzânia e cinco do lado de Moçambique, o maior deles, o rio Lugenda.

O rio Lugenda, que percorre umas centenas de quilómetros até à sua confluência com o Rovuma, junto a Negomano, nasce no lago Chirua, que serve de fronteira entre Moçambique e o Malawi, atravessa o lago Maniamba, e segue todo o interland do Niassa.

Estes rios são pontos fulcrais do norte de Moçambique. Entre o rio Rovuma e o Lugenda e a leste deste, abrangendo parte de Cabo Delgado, foi constituída uma das maiores reservas nacionais de Áfrca e a maior de Moçambique. Esta reserva abrange a serra de Mecula com 1.441 metros de altura (mais 25m que a minha Pedrada), à esquerda do rio Lugenda em parte de Cabo Delgado, à direita do Lugenda e tem uma superfície de 42.400 quilómetros quadrados sendo (para dar uma ideia) duas vezes superior ao Parque Nacional Kruger, na África do Sul. A limitação a norte, é feita pelo rio Rovuma.


 Os Mabecos correm risco de desaparecer do nosso convívio. Recordo Newky - o Mabeco

Foto tirada da Wikipédia, da autoria de Masteraah. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license.

Esta reserva do Niassa era constituída, em 2012, segundo as estatísticas, por muitos animais, entre os quais, cerca de 12.000 elefantes, dos maiores de África, cerca de 12.000 palancas negras cerca de 200 mabecos (animais que correm perigo de extinção), 800 leões e toda uma panóplia dos maiores animais de África, entre eles, Búfalos, gnus (bois cavalos), impalas, leopardos, hienas e muitos outros, sem esquecer hipopótamos e jacarés.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...