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sábado, 6 de agosto de 2005

Hienas, em Nova Freixo

  Ventor 06.08.05

Hienas malhadas, as belas amigas do Ventor!

Uma história com o Ventor, em Nova Freixo que contou ao vosso amigo Quico.

Imaginem-se a ver o AB6 (Aeródromo Base 6) quase de noite!

Quando o Ventor caminhava, nos Trilhos da Guerra, por terras de Moçambique, passou, no início, dois meses, em Nova Freixo, no AB6, antes de partir para Marrupa, a 06 de Abril de 1968. Às vezes, estava de serviço, à noite e, nas suas proximidades, apareciam três fabulosos animais africanos.

- Os leões, que roubaram duas vacas guardadas dentro de um redondel, com uma paliçada de tábuas de 2,10 metros de altura, terminadas em forma de lança. Eles andavam por ali e os seus rugidos chegaram a colocar em polvorosa muitos dos habitantes das machambas dos arredores de Nova Freixo.

 - Os leopardos que colegas do Ventor chegaram a ver junto aos aviões, num local onde tinham de passar de noite, junto ao término da luz dos holofotes. Saíam do hangar onde dormiam para o espaço em frente onde, ao relento, ficavam os aviões. Encostavam-se ao arame farpado e só depois entravam no arame farpado, seguindo para o bar, as camaratas e o edifício do Comando.

O AB6, em Nova Freixo em 1968-1970

As hienas que choravam fora do arame farpado atirando para o ar os seus gritos típicos que tão bem se ouvem nas belas noites africanas, diz o Ventor que, ainda hoje, quando ouve o som das hienas, em algum programa de TV, recorda estas belas amigas e as suas caminhadas reais.

Numa tarde de descanso, o Ventor e alguns amigos, decidiram ir até à vila de Nova Freixo onde acabaram de ficar para jantar, pela noite dentro e em festa. Foi uma festa onde só pararam quando constituíram as iniciais da Força Aérea Portuguesa "F.A.P.", em que só cada pontinho tinha quatro garrafas de cerveja de litro, as célebres bazucas!

Como o Ventor sempre gostou de caminhar e, como o Maralhal sempre está disposto a beber mais um copo, disse aos amigos que ia andando até ao batalhão de Nova Freixo, onde eles o apanhariam com o jipe para atravessar aquele espaço terrível, escuro na área central, até à Força Aérea.

Era de noite e de noite não se brinca com animais selvagens!

Estavam todos com os copos e, nesse dia, o Ventor não era excepção e, chegando ao batalhão, vendo que os outros não vinham com o jipe, nem sem o jipe, foi andando devagar e começou a faltar-lhe a paciência para a espera. O jipe não chegava para o pegar até à Força Aérea e ele foi andando sempre, mas de noite, só e desarmado, era muito arriscado mas, como devem saber, com os copos, não há riscos!

Ora a impaciência é inimiga do bom senso e a copofonia era mais poderosa que a paciência, o Ventor deitou o resto do bom senso que lhe restava fora, arriscou fazer a travessia só, pensava ele, mas teve a belíssima companhia de um grupo de hienas que lhe massacraram os ouvidos com a sua tão célebre choradinha!

Hiena, de olho na presa

Na escuridão, fora do alcance das luzes do exército que deixara para trás e longe das luzes da Força Aérea, ainda muito lá para diante, o Ventor foi acompanhado pelas hienas e, algumas vezes, quando tropeçava e caía nos buracos da picada descontrolado pela cabeça toldada pelas laurentinas e os whiskies, elas cercavam-no mas, mal ele se levantava e insultava as hienas com os belos nomes tão utilizados, persistentemente, hoje, nas nossas estradas, ao mesmo tempo que abria os braços em tom ameaçador, elas afastavam-se espavoridas para voltarem à carga seguindo atrás, pelo mato à esquerda e pelo meio do milho à direita, sempre ameaçadoras. 

Depois, já mais perto do Segurança da Força Aérea, junto à Porta de Armas, o soldado da Polícia Aérea, de serviço, ouvia o barulho das hienas e alguém a mandar vir com elas, mas o sentinela, receoso de fazer fogo para o ar, não fossem os seus colegas abrir fogo para o local, manteve o sangue frio suficiente, assistindo ao barulho das hienas e ao "fora daqui, suas ..."

 Hienas em Nova Freixo

Mas o Ventor, ao chegar à Porta de Armas, acompanhado daquelas belíssimas guarda-costas, enquanto houve escuro, olhou para trás e, não vendo nada, perguntou ao sentinela: "onde é que essas cabras se meteram"?

Hoje o Ventor, ainda se pergunta, a si próprio, porque será que as hienas não lhe quiseram dar umas dentadas!

Seria pela sua indiferença perante aqueles terrores de África, levantando-se sempre com os braços abertos e a voz ameaçadora ou seria porque o corpo do Ventor estaria demasiado temperado de sabor a álcool e o seu bafo as desorientava?

Eu sei que ele gostava de saber e eu também!

Vejam no que dão os copos! O Ventor estava habituado a ir da vila para a Força Aérea de noite, às vezes por esse trajecto, o mais adequado e, outras vezes, ia direito às pistas, passando por tabancas onde, nos sábados à noite, os negros dançavam a MARRABENTA, numa doidice tal que, chegavam com os pés, junto ao nariz do Ventor. Depois de sair do meio de toda essa euforia, ainda tinha de atravessar a pista, sítio por onde os leões, os leopardos e as "belinhas" das suas amigas, andavam à babugem de conseguir um bom jantar.

O Ventor diz que, hoje, não faria isso por dinheiro nenhum e eu, só de o ouvir, fico com este meu lindo fatinho peludo que o Senhor da Esfera me deu, todo arrepiado. Mas eu já há muito me apercebi que o Ventor deve ter tido uma tara qualquer. Mas não lhe digam, senão estou lixado!

Mas não! a explicação foi-me dada em sonhos por uma hiena, já mais instruída. E diz a hiena:

Hiena espertalhona

O Ventor julga que uns quantos dos meus antepassados, na velha Nova Freixo (actual Cuamba), não o comeram, talvez porque cheirava a cerveja e a whisky. Francamente, a mim, custa-me a acreditar que fosse por isso. Nós, as hienas, quando atacamos, começamos com umas ladeinhas (nhe, nhe, nhe, nhe ... ) para ver se os animais fogem, mas este animal a que chamam Ventor não fugiu e isso fê-las pensar que a coisa não seria fácil. Para a chefe do grupo, como o Ventor não demonstrou medo o ataque teria de ser mais bem ponderado  não se atrevendo a desencadear as hostilidades porque cada vez que o Ventor caía, virava-se de repente e ameaçava-as e, tal como o Ventor diz, elas só pensavam em fugir, retirando. 

E cada vez que o Ventor se reencaminhava para a base, elas voltavam a querer segui-lo para o atacar. Seja como for a chefe do grupo acabou por desistir, concluindo que os animais de duas patas têm a carne podre, até para hienas.

Foi isso que aconteceu.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 15 de agosto de 2004

Mensagem do Quico

  Ventor 15.08.04

Tenho ouvido muitas histórias ao Ventor, sobre a sua passagem pelo Continente Africano, especialmente, por Moçambique. O Ventor, além de ter passado por Moçambique, também fez uma visita turística a Ceuta, alguns tempos depois. 

Por isso e como gosto de ouvir essas histórias ao Ventor, vou falar-vos sobre o Ventor em África e, mais precisamente, sobre o Ventor, em Moçambique.

Quico

É isso, amigos!

Estou aqui, nesta outra janela, para vos falar da estadia do Ventor por terras de África. Claro que estou autorizado pelo Ventor, senão nem me atrevia a relatar, aqui, este pequeno grande nicho da sua vida!

O Ventor conta-me as histórias a 100%, mas eu, nalguns casos, só vos posso contar aí a 30-40%, para não melindrar ninguém. Sim porque, como devem calcular, as guerras causam melindres a muita gente e, daí, falar-vos, apenas e só, da estadia do Ventor por aquelas paragens lindas da «Mãe Negra».

Com o tempo, falarei das suas passagens por Luanda e Lourenço Marques (hoje Maputo), da sua pequena estadia de 4 dias em Nacala, da sua viagem na automotora para Nova Freixo (Cuamba), e das suas estadias por Nova Freixo (hoje Cuamba), por Marrupa e por Vila Cabral (hoje Lichinga).

Darei umas pinceladas sobre os rios Lugenda, Rovuma, Messalo e Lúrio. Não esquecerei o Lago Niassa e os povos daquela bela terra do Niassa, os Ajauas, os Macuas e os Nianjas.

Também não poderei deixar de dar algum cheirinho da guerra que por lá se travou, mas muito pouco para o cheiro a pólvora não se tornar enjoativo. Tudo isto vos irei contando a brincar!

Claro que darei prioridade a alguns amigos do Ventor - leopardos, hienas, leões, fococheros, changos, pacaças, patos, rolas, pombos, perdizes, codornizes, escorpiões, mamba negra, mamba verde, ... e, não esquecerei os seus Companheiros de Guerra.

Tudo isto, claro, pela linda terra a que chamamos Moçambique.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 26 de dezembro de 2020

A fenda africana

 26.12.20    Quico e Ventor 26.12.20

Na África Oriental já está iniciada uma fenda.

Essa fenda está a rachar a África! A conclusão tirada pelos analistas da fenda é que toda aquela região dos Grandes Lagos Africanos vai afundar. Os afluentes que enchem de água o rio Nilo, tais como o rio Azul, o rio Branco, .... vão afundar. Nesse afundamento também afundarão os Massai com os seus gados e os leões que lhe dão caça para tentarem sobreviver. Até as grandes flores do lago Vitória vão afundar! Resumindo: o berço da humanidade que segundo os experts foi colocado pelo Senhor da Esfera no mesmo local irá desaparecer.

Todo aquele cheiro a bebé na África Oriental desaparecerá com o seu afundamento. Nem o cheiro a pó de talco vai sobreviver. Muitos dirão: "quer dizer que estamos tramados"? Nós? Não! os etíopes, os quenianos, os tanzanianos e todos por ali abaixo até ao Zambeze e até sei lá mais onde é que estão tramados. Muitos serão separados mas só se o Sars-Cov-2 os deixar.

Haverá um continente africano mais pequeno, haverá uma ilha e, entre os dois, ficará um mar. E, no final, uns vão querer pertencer à ilha, outros ao continente que restar e ainda haverão aqueles que vão querer viver, tanto do lado da ilha como do continente em palafitas.

A ilha poderá vir a chamar-se Nova Madagáscar e, em volta do novo "mar africano" serão construídas novas aldeias em novas praias: "aldeias palafitas".

Também desaparecerão os novos descendentes do general Norton e do Kitchner, os conquistadores do Cairo até Cartum um e do Cairo ao Cabo o outro.


O Leste de África - zona de afundamento

E comecei eu a pensar nisso tudo quando tomei conhecimento que a Fenda Africana iria dividir a África em três Áreas geográficas. 

Um Continente africano mais pequeno;

Uma ilha, não sei de que tamanho;

Um mar de tamanho desconhecido.

Como já existe o Mar Vermelho a norte do Corno de África, eu pensei em deixar, já aqui, o nome do novo mar africano. Será chamado Mar Azul, pois claro!

Comecei a ler o artigo com toda a minha curiosidade sobre toda a África e vi-me a pensar nos meus amigos Massai e todos os outros. Uma voz vinda dos confins do Universo animou-me! «Nada de grave, Ventor! Não te apoquentes. Daqui por 10 milhões de anos, ou mais, já tudo isso estará esquecido. Daqui por 10 milhões de anos podemos não ter as tuas belezas do Lago Niassa e os outros mas poderemos ter um mar genuinamente africano a enrolar na areia e a bater no coração da África. Mas há coisas que os experts não te contam mas eu te digo: nessa altura e se tu continuares a caminhar sobre o teu Planeta Azul, como tens feito pelos milénios fora, irás ver tudo esventrado, quem sabe, com os pólos na linha do Equador e com o Equador na linha dos pólos.

Até poderás ver nesse novo mar, leões de barbatanas e hienas transformadas em sereias. Mas nunca esquecerás essas tuas amigas "trombeteiras" de Nova Freixo.

Aguarda Ventor. Já viste fendas proporcionalmente maiores que as do Rift Valey»!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 3 de setembro de 2011

Francisco Daniel Rocho

  Ventor 03.09.11

... um combatente!

Francisco Daniel Roxo - Comandante das Milícias, em Vila Cabral, no Distrito do Niassa
Nas minhas caminhadas por Marrupa, no ano de 1968, comecei a ouvir falar deste homem e das várias histórias que se contavam dele. Acredito que, a sua vida de caçador ou a sua inocência de homem simples, o tornassem num temerário. Afinal, isso entranha-se em nós, quando caminhamos no mato e, mais ainda, quando estamos preparados para tudo, até para morrer.
Não sei se alguém sabe como vivemos a vida quando estamos preparados para morrer. Eu já passei por isso e não é por acaso que caminhava quilómetros sozinho nos matos de África, especialmente, em Marrupa, e também em Vila Cabral, sem pensar no amanhã! Hoje, não o faria! Isto era no tempo em que o medo não existia no meu cérebro. Posso acreditar que alguns de vós tenha passado por isso pois, certamente, eu não serei excepção a esse estado de espírito.
Nem eu, nem o Daniel Roxo!
Eu sei que ele não tinha medo. Ele dizia que hoje era hoje e, o amanhã, logo se via. Era assim que eu pensava. Tal e qual! Mas depois da minha passagem de 8 meses e meio por Marrupa e pelos seus matos envolventes ao AM62, quantas vezes só, com os rafeiros, amigos a valer, em caminhadas sem fim, algumas vezes perdido de noite, em busca de verylights que me indicassem o caminho para o Aeródromo e, quantas vezes, sem bússola nem verylights, dava sempre com a porta! Ainda hoje, quando penso nisso, parece-me que até cheiro o mato. Aquele cheiro a bravo, nesse mato selvagem. Uma vez matei um bicho sobre uma árvore, quando descia uma lângua a oeste de Marrupa e, no regresso, a pestilência, a bichos bravos, era enorme. Os cães, quatro com a cachorrinha Diana (filha da Leoa de Vila Cabral) que, tanto gostava de ir comigo que andava quase sempre com ela ao colo.
Quando cheguei ao local, já só havia restos de pelo do bicho e o medo dos cães era enorme! Parei, na margem direita da lângua e fui mudando os cartuchos, na Browning, para caça grossa. Os cães pisavam-me os tornozelos e quase não me podia mexer. Limitei-me a ficar ali, durante algum tempo, recuando uns metros até à árvore mais próxima, sempre a olhar o capim intenso à minha frente. Os cães continuavam enroscados em volta das minhas pernas a ganir e eu não tirava os olhos da zona do capim e das árvores a seguir, para onde eles olhavam e do pelo do Zorba, todo eriçado sobre o lombo.
Dei tempo ao animal ou animais que cheiravam a bravo, ali perto e assustavam os cães, para se decidirem a tomar a iniciativa. O chumbo grosso estava ali à espera deles. Mas nada. Por fim, decidi eu. Bummm! Meti outro cartucho! Observei tudo à minha volta e nada! Decidi pôr-me a caminho. O tiro pareceu-me algo de extraordinário. Não vi mexer o capim, não vi nada fugir. Os cães amainaram e, lentamente foram-se afastando das minhas pernas. A Diana pediu-me colo e eu disse-lhe que não. Tinha de fazer um esforcinho e eu olhar para trás e para os lados para defender o meu pelo e o deles. Nunca mais houve problemas até ao AM62. Tive receio durante algum tempo de que as coisas nos corressem mal para mim e para os cães mas, não havia vaga para guardar os medos. Concluí que os animais tinham lá estado e se afastaram à minha aproximação. No dia seguinte, lá estávamos outra vez, e sós!
Recordando os meus receios ou medos, recordo também, como viveria a cabeça do Daniel Roxo com os seus medos do dia. Vou contar-vos o único medo em que o cacei!
Um dia, lá cheguei eu a Vila Cabral, nos princípios de Julho de 1969. Quis logo conhecer a cidade e lá fomos quatro marmanjos com esse objectivo. Vimos aquela represa, lá em baixo, entre os pinheiros e iniciamos uma caminhada até lá. Chegamos junto da água, reparamos nas suas margens e, como o tempo apertava, decidimos voltar ao AM61. Mal iniciamos a subida da picada, já um pouco afastados da represa, ouvimos tiros e as balas a zunir junto dos ouvidos e a baterem no chão, junto de nós. Não tínhamos uma única arma e ficamos ali, de rojos e ainda vi uma bala levantar o pó, bem junto da minha cabeça! O fogo calou-se e nós reiniciamos a caminhada. Pelo caminho pensei que, se quisessem matar-nos, já o teriam feito. Não ouvimos nem mais um tiro!
Chegamos à Pista de Vila Cabral, a malta cheia de sede, dirigiu-se para o Bar. Eu aguardei uma viatura tipo militar, um jipe a alta velocidade, direita a mim, e um tipo espavorido a saltar dele.
«Vocês souberam o que fizeram? Vocês sabiam o risco que corriam e foram para uma zona de reserva onde não se pode entrar sem a minha autorização? Eu espeto-lhe um murro nesses cornos que dou cabo de si»! Eu, estupefacto, vejo aquele gajo fardado à militar com o punho no ar, a ameaçar-me e, ... "calma aí amigo, explique-se melhor que não estou a perceber nada»! «Não está? ...Eu sou transmontano», ... eu faço, eu aconteço, eu, ... "Olhe, sabe um coisa? O senhor é transmontano, eu sou minhoto e parte-me os cornos uma merda! Não sei quem o senhor é, e estou-me nas tintas para o seu camuflado. Para me dar um murro nos cornos é preciso que eu deixe ou julga que vou ficar aqui à espera, de braços cruzados"?!
A partir dali, acabou a nossa guerra a dois. Explicou-me toda a engrenagem e que, as suas milícias podiam ter-nos morto enquanto treinavam situações de fogo e que tivemos sorte por o comandante do grupo de atiradores ter-se apercebido da nossa presença e terem cessado o fogo. Não fosse isso e saíamos de lá como passadores!
A partir desse desentendimento, fomos beber uma bazuca e ficamos amigos mas, nunca mais me esqueci do Daniel Roxo. Ele é o tal homem que tinha entrado no café Planalto e pediu uma cerveja. Bebeu o primeiro gole de cerveja, ouviu tiros, algures junto da cidade, pousou a garrafa e disse para o gajo do balcão: «guarda-me aí a garrafa que ainda venho beber a cerveja fria" e, lá partiu no jipe à procura dos tiros!
Outra peripécia do Roxo foi num voo de Revis, numa DO-27, bem perto de Vila Cabral. A nossa DO-27, o Roxo e o Comandante de Operações do Sector Alpha, um Major porreiro! Eu estava de serviço e, de repente, só ouvia o Roxo a mandar vir com o avião e com a FAP. «A Força Aérea não presta, manda para aqui esta merda desarmada. Nem uma G-3! Assim não podemos fazer nada. Mas que porra! O piloto do DO transmitia-me tudo e perguntou-me se os T-6 podiam actuar. Chamei o Comandante do AM, aviões para o ar e zás! Combinamos um nível de voo para a Do, de maneira a que os T-6 entrassem ao ataque por baixo. O Roxo transfigurou-se quando viu os T-6 lançar os rocketes a atacar forte e feio as posições dos nossos amigos de estimação. Quando regressaram, saiu da DO-27, correu para mim a abraçar-me e só dava louvores à Força Aérea. Foi uma mudança radical. Creio que quem comandou esse ataque foi o Ícaro. O Roxo correu para o Jipe, voltou-se para nós e disse: «Agora vai ser comigo»!
Tantos anos já passaram - 42 anos! Cuidado com a cegonha!!!! Foram danças como esta, as mais lindas que fiz até hoje
Tenho outras situações em que o Roxo era mencionado em locais que nem lá estava. Uma vez o Comandante do Sector Alpha disse ao Capitão que partiu com a sua companhia em socorro da Força Aérea, cerca da meia-noite, nas vésperas do natal de 1969, que esse ataque era das milícias do Roxo e eu que sabia onde andava o Roxo, nessa altura, tirei o telefone das mãos desse capitão e fui eu que fiz a guerra com esse Comandante que, afinal só temia o medo dos civis de Vila Cabral e ficou com uma vontade de me triturar mas não passou disso. Tenho isso mais desenvolvido por aí, num post, e tenho ainda nos ouvidos, as vozes das mulheres de Vila Cabral a pedirem-me, pelo telefone, para resistirmos que iríamos ter um Natal cheio do melhor bolo rei do mundo. Giro, não é? Não foi por falta de vontade que o bolo rei não veio a ser o melhor do mundo!
Mas, anos depois, voltei a saber do Roxo mais uma vez! Quando passava numa Av. de Lisboa, vi um jornal e, em toda ou quase toda a 1ª página, estava escrita uma frase: «adeus Comandante» e vinha lá uma foto como essa.
Era um jornal reaccionário ou até super, que se chamava Rua. Mas eu comprei-o! Foi assim que tive conhecimento da morte do Francisco Daniel Roxo. Tive conhecimento, através desse jornal, da sua morte e tive uma guerra com os meus amigos comunistas e da extrema esquerda que, então, pululavam na minha empresa. Felizmente, tinha tanto medo deles como tinha então das hienas de Marrupa e de Nova Freixo.
E, em resumo, para aqueles que não sabem, dizia o jornal que o Daniel Roxo morreu numa escaramuça entre a Frelimo e a Renamo e, também, segundo o jornal, o homem que se dizia imune às bazukas, foi trucidado por uma.
Este post destina-se a recordar um homem de quem muitos não gostaram mas, que eu vejo, apenas, como mais um dos nossos parceiros de tempos conturbados na nossa caminhada africana. Deixo-lhe aqui a minha homenagem.
PS. Posteriormente, vim a saber que o Francisco Daniel Roxo morreu no sul de Angola, em combate contra cubanos e o MPLA, conforme os comentários a este foto e no Blog - Rio dos Bons Sinais.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...