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terça-feira, 1 de março de 2005

De Loureço Marques a Nacala



Ao sair da bela Baía do Espírito Santo e ao entrar no oceano Índico, as cores das águas de superfície ainda se encontravam bem sujas de tanto esfregarem as areias contra as rochas do fundo do mar, ainda influência da antevéspera, dia da nossa chegada à bela Lourenço Marques, a cidade feiticeira. Encostados aos molhes, ficaram os barcos que se encontravam no dia da chegada. Aquele porto era um rodopio e a monção que nos saudou à chegada, não tinha sido nada agradável.

O Ventor e toda a rapaziada que com ele viajava tiveram uma demonstração num bravo ensaio levado a cabo pelo seu amigo Neptuno. Apolo sorria lá de cima e, através das belas acácias, já tinha mostrado ao Ventor como aquela parte da África, onde a Princesa do Índico se espraiava, era linda e assim continuaria, certamente, depois de mais uma caminhada de cerca de 2.000 km.

Estação dos Caminhos de ferro de Lourenço Marques (Maputo)
Lourenço Marques, já ficara para trás e o Índico continuava sujo e um pouco picado, talvez devido ao reboliço do tridente de Neptuno que tanto gostava de marcar presença perante o Ventor.
À medida que o Niassa ia penetrando as águas do mar, o Ventor, caminhando pelo convés do Niassa ia observando, à sua esquerda, a grande costa moçambicana, por onde nos seus sonhos caminhavam manadas de búfalos, leões, leopardos, chitas, rinocerontes, jibóias, impalas e vários tipos de zebras e gnus, bem como toda a outra bicharada que o Ventor levava na sua cabeça. A bicharada que o Ventor tinha apreciado quando através de livros e revistas, comentários cinematográficos coloridos e filmes, foram trazidos até à presença do Ventor e que, em sonhos, o Ventor os retransportava, agora, para as suas origens.
  

Ilha de Moçambique
Rumando a Norte, vendo a quilha do Niassa cortar as águas, o Ventor verificara que todo o seu mundo ficara para trás. Todo o mundo que o Ventor conhecia, já ficara para trás! A sua última réstia tinha sido a cidade das acácias, o fim de tudo. Ali, os seus amigos tinham feito florir as flores desse outro mundo de sonhos, as suas referências. Eles eram os marcos finais da sua Grande Caminhada africana. A partir dali, tudo seria para desbravar! As referências tinham terminado no sítio a que os ingleses, noutros tempos, tinham chamado Delagoa Bay! Mas nós chamamos Baía do Espírito Santo. Avançando mar fora, as referências do Ventor eram, agora, apenas, as históricas.
Observando o Canal de Moçambique, entre a costa de Moçambique e a ilha de Madagáscar, sonhava como teria sido o "surfar" das caravelas do Gama e de outros, naquela mesma direcção. Recordava-se do rio dos Bons Sinais, da corrida de Fernão Veloso, que afoutadamente aceitara o convite dos indígenas para conhecer as suas palhotas tabancas e que, apercebendo-se de algo que não viria a ser nada bom para a sua caminhada africana, resolveu inverter a caminhada e pôs-se em fuga rumo às naus. Como os seus companheiros, vendo-o em fuga, tiveram de ir em seu auxílio, o Fernão Veloso dizia-lhes que corria por os saber lá longe sem a sua presença para os ajudar! Lindos os Lusíadas, agora, o principal meio das minhas referências do grande Canal de Moçambique e da costa moçambicana! 
Primeira residência do Governo Colonial, na ilha de Moçambique
De vez em quando apreciava umas palmeiras sinalizando ilhas ou reentrâncias no horizonte da costa moçambicana e, perdida na bruma aquilo que, segundo os mais conhecedores do Niassa, diziam ser a Ilha de Moçambique. Ela estaria lá! Um dos nossos mais célebres signos históricos da bela terra de Moçambique. Havia por ali uma ilhota com três palmeiras a que eu chamei "as três Marias"! Para lá delas ficava o "interland" de Moçambique, rumo a oeste.  
Forte de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique
Por ali, à nossa esquerda, junto à costa, estaria a bela ilha de Moçambique, perdida nas brumas do Índico, com a sua fortaleza a que deram o nome de Forte de S. Sebastião. Onde os portugueses acostavam, por tempos indeterminados e que, para eles a área tivesse alguma possível função estratégica de ocupação e defesa, havia um primeiro pensamento. Construir um forte! E, a ilha de Moçambique, não iria ser excepção. Ela lá está, bela, incrustada no Oceano Índico, aguardando pelas caminhadas de homens audazes que lhe dêem o futuro que merece.
Capela de Nossa Senhora do Baluarte, na Ilha de Moçambique
Rezar a Nossa Senhora para acalmar as águas do Índico era uma maneira de estar em Moçambique, durante a nossa estadia de séculos. A capela do Baluarte foi construída, em 1522, a norte da ilha que hoje austenta vários edifícios públicos que a Unesco tornou Património Mundial, em 1991.
 
Deixada para trás, à esquerda, escondida na bruma do Índico, a ilha de Moçambique, era mais uma das minhas referências histórico-geográficas que fazia fervilhar a cabeça, balouçando nas ondas do Índico. 
Eu sabia que mais acima, à esquerda, o Niassa iria entrar numa das maiores Baías de África e com as águas mais profundas que, segundo me contavam, nos meandros da Força Aérea, em Lisboa, dava para guardar e ancorar todas as esquadras de então que a NATO possuía. Era por essa baia que o  Niassa chegaria ao Porto de Nacala.

A seguir: Chegada a Nacala

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

A Cidade das Acácias

  Quico e Ventor 03.02.05

Lourenço Marques, a cidade das acácias. Era conhecida, por todos os portugueses que lá viviam, como a cidade das acácias.

Era assim que o Ventor ouvia chamar-lhe. A cidade feiticeira que encantava todos que lá chegavam. A cidade que mais que qualquer outra o Ventor gostaria de conhecer.


O Ventor encontrava-se no centro do mundo, ao sul do Equador

Aquele amigo, de olhos esbugalhados, disse: "Oh, Ventor!!! Que raio estás aqui a fazer, pá? Vieste para Moçambique e não disseste nada à malta!? Já não vou trabalhar hoje! Espera aqui um minuto. O Ventor esperou e foi olhando em volta esse seu amigo e a Baía. Lá estava ele a falar com um negro civil que também tinha entrado e deu-lhe as devidas instruções. Depois, conversando os dois, rumaram para a cidade. O seu amigo ligou para o escritório da Companhia (inglesa) e informou-os da sua situação. Tinha chegado um amigo de Portugal e iria mostra-lhe a cidade das acácias. Esse amigo sempre acreditou que, do modo como o Ventor falava de Lourenço Marques, em particular e de Moçambique, em geral, mesmo antes de ir para a Força Aérea, haveria de chegar o dia de lhe mostrar a cidade que enfeitiçava todos. E mesmo sem o Ventor o ter informado, o Senhor da Esfera quis que assim fosse!

O Ventor ainda tinha cerca de 2.000 km para percorrer, na saga dos Lusíadas ...

Assim foi! Meteu o Ventor no carro e foram direitos à Costa do Sol. Desde essa hora da manhã, até cerca do meio dia, correram Lourenço Marques em todos os sentidos. Depois olhou o relógio e disse: "agora vamos buscar o puto que saiu da escola. Oxalá não nos atrasemos". Chegaram ao local da escola e lá estavam dois putos a jogar ao berlinde. Um lourinho e outro negrinho, assim tipo a publicidade da Benetton, de traulitada no berlinde. "Conheces este Paulo"? O puto pegou no berlinde, levantou-se e olhou com atenção. "Eh, BOY"! «Era assim que ele me chamava, cerca de cinco anos antes. Nunca mais me tinha visto. Mas conheceu-me! Com cerca de dois aninhos, ele pedia-me para o levar à rua ver o eléctrico da Carris. Abraçou-se a mim e não tinha dúvidas nenhumas que tínhamos ficado grandes amigos».

«Depois fomos almoçar num dos melhores restaurantes de Lourenço Marques, na Av. da República. Por fim, fomos até ao Aeroporto e passamos a tarde numa grande azáfama, para trás e para diante. Lá para perto da noite fomos jantar a outro restaurante. Fui ver as outras pessoas que não via há muito tempo. Fomos à casa de uns, à casa de outros e vi toda a gente que julgava só voltar a ver, um dia na Metrópole. Se tivesse informado da minha chegada, se calhar, os encontros não seriam tão efusivos.

Por fim, já acalmados da euforia da cidade das acácias, veio o que eu não esperava»!

"Ventor, vou telefonar para o Estado Maior da Força Aérea, ele é meu compadre e vais ficar connosco, em Lourenço Marques. Ficas na nossa casa e vais trabalhar para o AB8. Como a guerra ainda está longe, aqui não fazes nada. Ficas dois anos em Lourenço Marques, podes usufruir de belas praias e ninguém te vai chatear"!

«Não! Tenho um objectivo, há muito definido que não vou desperdiçar. Já que cheguei até aqui, tenho um rumo e esse rumo é o Niassa. Agradeço muito a disponibilidade, sei que seria ideal para quem não está farto de cidades, mas eu fartei-me de Lisboa. Arranjarei maneira de chegar ao AB6, no Niassa. Tenho a certeza que haverá muita malta que vão preferir qualquer outro local para onde eu vá, para trocar comigo se for caso disso. Mas, para já, o meu objectivo será o AB6». "Mas, sendo assim, se estás tão empenhado, eu falo com o meu compadre e ele mete-te lá, até vais poder ir de avião, se quiseres".

«Não, muito obrigado, mas quero seguir o meu rumo com toda a naturalidade. Quero conhecer toda a logística da guerra e, para isso, vou continuar no navio Niassa, até Nacala, o fim da linha. Dali, por avião ou por linha férrea, arranjarei maneira de chegar a Nova Freixo. Comigo, as águas têm de continuar no seu leito.

Tínhamos ordens de regressar ao Niassa pelas 22 horas onde estaria um oficial da 3ª Região Aérea para fazer a distribuição do nosso pessoal. Conversa daqui, conversa dali, tinha marcado encontro com o meu amigo algarvio, para chegarmos ao barco até às 22 horas como estava determinado. Quando ele chegou, diz o meu amigo para o algarvio»: "está a ver este gajo! Podia ficar aqui no AB8 e quer ir para o Norte, para o Niassa. Dá Deus nozes a quem não tem dentes"!


Lourenço Marques era, de facto, a cidade das acácias

"Pois é. Só eu queria ficar aqui e não vou poder. Este gajo é burro" - disse o algarvio. Conversa daqui, conversa dali, o Capitão da 3ª Região Aérea ficou no Niassa, até à nossa chegada, cerca da meia noite. Foram os dois últimos a chegar ao Niassa!

"Com que então, já vi que gostaram de Lourenço Marques. Mas eu aproveitei para beber aqui umas laurentinas mas não gostei nada. Não! Não foi das laurentinas, podia bebê-las noutro lado! Por isso, como castigo, vocês que até podiam ficar cá, no AB8 ou, onde quisessem, vou enviar-vos para a Base Aérea 10, para a Beira". Virou-se para o Ventor e repetiu: "você tem notas para ir para onde quiser. Era só dizer e, como castigo, vai para a Beira e esse amigo vai consigo"!

«Já pedi desculpa pelo atraso - disse o Ventor - e, quanto a ir para onde quiser, estou-me nas tintas para onde vou. Podia ficar nesta cidade vou para outra. Que interessa»?

"Ai é assim? Então vão para um sítio pior, para o AB5, em Nacala e acabam-se as cidades"!

«Pela informação que tenho, há lá boas praias, se calhar melhores que as da Beira - disse o Ventor. Vou bem na mesma. Virou-se para o algarvio e perguntou-lhe: «e tu, pá»? O algarvio encolheu os ombros.

"Não há nada a fazer. Vou enviar-vos para o pior sítio de Moçambique - o AB6, em Nova Freixo"!

«A mim, por castigo AB6, pronto mas, Sr. Capitão, deixe este gajo ficar em Nacala, ele é algarvio, gostará, certamente, de ficar junto de uma praia».

"Era o ficavas! Vão os dois para o AB6".

«Eu irei - disse o Ventor - eles se calhar não»!

Acabou-se a algazarra no Niassa. Segundo o Ventor, esse Capitão até parecia um tipo porreiro. Se o Ventor não tivesse por objectivo o Niassa, está convencido que faria outro jogo e tudo voltaria à primeira forma. Mas o Ventor tinha o seu objectivo alcançado - AB6, era ali que tudo teria de começar. Foram-se deitar mas o Ventor não dormia. «Por minha causa, aquele gajo vai ter de ir para onde não queria. Ele tinha-me dito»: "não te preocupes comigo, o que não tem remédio, remediado está"!

Mas ele tinha sido amigo do Ventor a valer. Tinha-lhe guardado as malas, em Lisboa, evitara-lhe muitas filas no Niassa, pelas cervejas e bolachas baunilha, e o Ventor achou que, se pudesse fazer algo por ele, tentaria.

De manhã, lá estava o seu amigo que a cidade tinha enfeitiçado. "Não vou trabalhar, vamos passear"!

«Aquele gajo que esteve connosco ontem, que tanto queria ficar aqui, foi empurrado comigo para Nova Freixo e a culpa foi minha. Ele podia ter ficado na Beira mas eu enrolei tudo. Se tiver bastante confiança com esse Coronel tirocinado, o seu compadre, podia pedir ao gajo para ele ficar cá». "Se é isso que tu queres, vou-lhe telefonar e falo com ele".

Daqui por algum tempo, veio a resposta: "fulano não vai partir para Nova Freixo, foi convocado para o AB8".

O Ventor iria perder um amigo para sempre, pois nunca mais o viu. Mas, durante os dois anos, comunicavam por rádio de vez em quando, quando se proporcionava e quando o Ventor transgredia.

O Ventor não se recorda bem dos timings do Niassa mas recorda-se que se despediu daqueles amigos que só voltou a ver, e não todos, dois anos e um mês depois, em Fevereiro de 1970. Só anos depois, encontrou, por casualidade, no Rossio, o seu amigo da Nazaré e já passaram cerca de 30 anos. Nunca mais viu ninguém dessa gente de Lourenço Marques. Foi conhecendo outros.

O Ventor não se importava de seguir, até ao fim, na rota do Vasco da Gama

Entretanto, depois de um dia e meio frenético, em Lourenço Marques, chegou a hora da partida. A próxima meta do Ventor iria ser Nacala. O navio Niassa seguiria mais para Norte, creio que até Mocimboa da Praia, para largar carga e militares do Exército. Para a Força Aérea, Nacala era o fim da picada.

O Ventor viu retirar as amarras ao navio Niassa, viu que ainda estava no mesmo local um dos dois carregueiros soviéticos e que a sua tripulação lhe parecia simpática porque, do convés do seu carregueiro, assistiram ao adeus de gente de Lourenço Marques ao Niassa, os choros de familiares e dos amigos dos que seguiram viagem como ele e, os soviéticos, quando ouviram o Niassa apitar, iniciando o arranque para abandonar a Baía do Espírito Santo e se fazer à largueza do Oceano Índico, partilharam com eles as suas saudações, levantando os braços, acenando e sorrindo.

Cruzando a baía a toda a largura, o Niassa parecia dizer aos areais da antevéspera para se afastarem. Ao sair da Baía do Espírito Santo, o Ventor caminhou para a ré do navio Niassa, voltou a olhar Lourenço Marques e, lembrando-se dos seus amigos, perdendo-a de vista, disse: «adeus, cidade feiticeira, até um dia».

Antes: Lourenço Marques

A Seguir: De Lourenço Marques a Nacala

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...