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quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Leopardo

  Ventor 07.09.05

Amigo, muito sereno!

Outra história do Ventor passada na bela terra de Marrupa.

«Um dia, em África, Marrupa, pois claro, eu e um grupo de amigos fomos à caça. Éramos quatro. Caminhávamos de costas voltadas para o Aeródromo e eu seguia na ponta esquerda. Sempre gostei de caminhar pelos extremos. Caminhávamos num monte com uma espécie de miscelânea de árvores, matos e capim. Só que eu tinha tendência para abrir a minha ala e afastar-me mais um pouco do Maralhal. Foi o que aconteceu nesse dia, pelas 16 horas, sob a alçada de Apolo.

À minha esquerda havia uma lângua (um vale) que começava a alargar-se, a partir dali e, à minha frente, havia uma clareira, sem mato e sem árvores e, do seu solo brotava alguma água (pouca) que tornava a terra húmida e a zona verde. Olhei para a esquerda a ver se via galinhas africanas (as célebres pintadas), perdizes ou, quem sabe, algum facochero (javali verrugoso). Como não via nada voltei a olhar em frente para o tal sítio quase rapado e que já conhecia de outras caminhadas e, qual é o meu espanto, ao ver, frente a frente comigo, um belíssimo leopardo!

O leopardo, de pé, todo estirado, olhava-me como que perguntando a si próprio que andava este mangas a fazer pelos seus domínios. Levei a caçadeira Browning, semiautomática, de cinco tiros, à posição de fogo mas, como achei melhor, fui mudando os cartuchos que eram chumbos de caça pequena, para chumbo de caça grossa, pois tinha reforços para uma destas eventualidades.

Fui mudando os cartuchos. Metia um de chumbo grande e retirava um de chumbo pequeno, até substituir, rapidamente, os cinco cartuchos e, enquanto isso, ele sempre a olhar-me e eu, cheio de vontade que os meus amigos e os cães, não se tivessem dirigido para o meu lado, não fossem eles fazer fogo sobre aquela rara beleza africana. Mas não! Eles iam bem à direita e o local não caía no seu raio de visão. Com o chumbo para caça grossa na espingarda, senti-me mais à vontade e com o cartucho pronto a espirrar, sentia-me um rei da selva! Mas o leopardo era inteligente e esse sim, ali, era o rei!

Ele continuou parado e, nervoso, olhou em volta, talvez tivesse cheirado os meus colegas e os cães perdidos no matagal. Voltou a olhar-me fixamente e torceu o corpo para a sua direita ficando com toda a sua ala esquerda voltada para mim mas, a olhar-me de soslaio e sem pressas de fugir. Apreciei aquela beldade de arma pronta a disparar, mas sempre a ver se estaria por ali outro. Quem sabe não estaria por ali perto, o seu par! É deslumbrante uma figura destas, frente a frente connosco, sem paredes meias. É mais uma imagem que nunca me sairá da retina.

A beleza de um leopardo ... 

Parece que me perguntava assim: "então Ventor, tens esse nariz tão comprido e nem para espirrar serve? Olha vou-me embora! Espero que ponderes bem. Um amigo não dispara sobre outro! Eu não disparei a minha corrida sobre ti e tu não vais disparar essa coisa sobre mim, pois não"?

Claro que eu não iria fazer tal coisa. Afinal eu era um intrometido nos seus caminhos de caçada. Por ali havia "changos", entre outros animais de todos os tipos e afinal, o que eu queria mesmo, era varrer o stress que começava a carregar-me dia após dia. Ali, o leopardo teve cambiantes que direi complementares. Não direi o medo, mas o receio de um encontro sem interesse comum, o receio de os meus colegas atirarem sobre o leopardo e sobre o nosso encontro tão inesperado e também tão interessante.

O leopardo foi-se embora. Partiu rumo a ocidente, no trajecto do nosso amigo Apolo. Os cães rafeiros que nos acompanhavam, tinham ficado do lado dos meus amigos, procurando caça e eu até ali estava só mas, lá vieram eles alvoroçados da direita, como se adivinhassem o que se passava. Eles tinham ido todos atrás das perdizes que voaram à nossa frente com uma certa inclinação para a direita e eu preferi manter o contacto com a lângua pela minha esquerda. O Zorba, no seu alvoroço, corria direito ao local onde tinha estado o leopardo mas, eu chamei-o e ele esperou por mim. A Diana e o Bolinhas também ficaram junto dele esperando que eu me aproximasse, mas pareceu-me foi que eles estavam com medo.

 ... uma beleza serena

Chamei o pessoal e contei-lhes que tinha visto, ali, um leopardo, frente a frente comigo e, notei pelo seu ar desconchavado que não acreditavam em nada que eu lhes contava.

Com calma levei-os ao local onde viram as patarronas frescas, na lama, daquele esbelto animal. Mas só eu é que o vi e ainda bem que assim foi. Pois apareceu logo a "Inquisição" a funcionar. "Porque não o mataste? Porque não abriste fogo? "Porque ... "?

Nessa altura eu ainda não tinha visto a Pantera Negra a espelhar luz ao luar do planalto de Marrupa, nem nunca imaginaria ver ali um dos mais belos animais, nossos companheiros de caminhada em pleno sol. Mas, como diria o meu amigo Apolo, é para isto que ele nos dá luz! Para olharmos e verificarmos como o mundo e os que o habitam são tão belos. Vocês dirão que não abri fogo porque teria medo. Não! Não tive medo algum, assim como não tive, posteriormente, em tanta vez que por ali caminhei apenas com a companhia do Zorba da Diana e do Bolinhas!

Claro que vi mais uma vez leopardos, dois numa lângua de Marrupa, ao romper da aurora depois de uma noite onde só se viam as estrelas no céu. Mas isso é outra história muito linda»!

A seguir: Ainda os Leopardos

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma Pantera Negra em Marrupa

 | Ventor 18.05.05

Uma beleza na savana!

Algures por terras de África , mais precisamente no Planalto de Marrupa, encontrei, em plena noite, uma Pantera Negra! Foi no verão de 1968, cerca das duas horas da manhã, numa noite de luar e Diana disse-me: "essa é tua Ventor"!

Na noite da savana, a nossa pantera negra possuía dois olhos como duas lanternas, de costas para Diana e virada para o nosso jipe. Estática, nada enxergaria encandeada pelos faróis máximos que o Tavares apontou sobre ela. Só, na noite do tempo, perante luzes tão fortes, aquele animal, negro e belo, fazia reflectir no pêlo brilhante do seu lombo a luz que Diana sobre ele fazia incidir. Era uma imagem majestática, apenas denegrida pelo despudor do Tavares em atirar com o Jipe para cima daquela imagem inolvidável!

Pantera negra

Uma beleza em África

O Tavares, condutor da FAP no AM62, dava a impressão que morria de pavor frente a esse bicho! Nessa altura, o Tavares, estava habituado a outra Pantera Negra, mas essa era pacífica e imaginária - o nosso Eusébio - e essa outra, que ele tinha, nesse momento, na retina e em frente do nariz, era real, verdadeira e sabe-se lá, perigosa até quanto!

Nessa noite, ouvi, na rádio da Força Aérea, um apelo de guerra! Algures, no meio da selva, lá longe, as nossas tropas pediam ajuda. Eram cerca das duas da manhã de uma noite linda que até fazia dó! Na noite brilhante, Diana espraiava-se sobre a selva, linda como sempre, ou mais linda que nunca! Meti um papel no bolso de uma camisa de café com leite, dirigi-me às camaratas e fui acordar, de mansinho, o Tavares, condutor de serviço no AM62, após várias tentativas de comunicar, por rádio e telefone magnético com o Comando militar mais Central e avançado de Moçambique, sem sucesso. «Tavares, acorda», disse-lhe. "Tens de ir comigo ao comando do Sector Echo"! O Tavares olhou o relógio e nem queria acreditar! "Estás doido? A estas horas? Quem vai mais"?

"Não vai mais ninguém. Vamos os dois e não temos medo. Arranca"! O Tavares era um homem do Norte, algures de Trás-os-Montes e achava, como muitos outros, que estava a desperdiçar a sua juventude, naquela guerra pantanosa de África. A refilar, foi-se levantando, esfregando os olhos, vestindo-se, calçando-se e, mal humorado, ia olhando o relógio, como que com esperança que o nosso amigo Apolo se adiantasse na máquina do tempo!

"És doido! Sozinhos, daqui até ao fim do mundo com leopardos, leões e tantos bichos que, se calhar, nem sabemos que existem; num jipe aberto, em plena selva, numa picada de caca, que nem dá para dar a volta para trás! E aqueles gajos todos a dormir e os meus pais sem saberem os perigos que o filhinho deles corre, nesta noite linda e brilhante de luar mas que, para mim, é mais negra que a África"!

O fim do mundo do Tavares, eram cerca de uns míseros 15kms até à localidade e mais um pedaço até ao comando do Sector E.

A meio da picada, o que o Tavares mais temia! Um leopardo! Só que, destes, ele nunca tinha visto. Preto retinto - "a nossa pantera negra" - disse-lhe. Estava atrapalhada com os faróis do jipe, estática no meio da picada. Pensei não fazer fogo e disse ao Tavares para ter calma e permitir que o bicho fugisse, mas não! Acelerou a fundo e partiu para cima dela! Pareceu-me ouvir o impacto do jipe no bicho mas talvez tenha sido impressão. Apesar do luar, era uma zona de árvores sobre a picada e fazia-se algum escuro com as sombras, mas eu não me apercebi por onde o bicho fugiu. Será que se safou a nossa pantera negra?

Prosseguimos. De arma feita ao fogacho, eu observei a floresta, em volta, mas nunca mais vi nada e voltei-me de repente para trás para defender a nossa retaguarda de uma possível investida, ao mesmo tempo que me apetecia apertar o pescoço ao Tavares pela mariquice de atirar com o jipe para cima de uma raridade daquelas! Pela única vez na minha vida, que tive oportunidade de ver uma pantera negra, na selva, em plena noite, e não tive a oportunidade de melhor apreciar, tão grande e tão raro valor cinegético, para transportar nas minhas retinas, com mais força e clareza, pela vida fora.

Depois de ver um animal semelhante a este e toda a sua desenvoltura à luz do luar de Marrupa, ainda hoje lamento a insensatez do meu companheiro de guerra que era um bom rapaz mas, demasiado insensível para tão bela, embora arriscada, caminhada. A zona era perigosa, relativamente aos animais selvagens e não só, mas era perfeitamente viável deixar a nossa pantera prosseguir na sua caminhada e vê-la reentrar nas lânguas da sua savana!

Imagem trabalhada de uma pantera negra. Na noite de Marrupa, com um luar muito fraquinho, quase só víamos os olhos

O Tavares, tal como eu, sabíamos que o jipe aberto não nos dava a mesma garantia que um jipe fechado. Mas o risco era o pão nosso de cada dia. Naquele local, eu só, armado e quatro cães, em pleno dia, fomos apedrejados por 18 macacos! Consegui recuar e entrar na picada sem dar um único tiro.

Ao chegar à porta do Comando do Exército, o Tavares achava que eles não nos iam abrir a porta, mas enganou-se. Abriram-nos a porta e ainda fizeram do Tavares um herói por tentar atropelar o nosso bicho negro - a nossa pantera! Enquanto eu e o Oficial de Dia decidíamos se devíamos acordar o Comandante do batalhão ou não valia a pena, mas valeu, e tomei nota da ajuda que eles iam precisar da parte da Força Aérea, ao nascer da aurora. O nosso amigo Tavares já tinha quase toda a unidade acordada com a sua história da nossa pantera. Quando me viu sair direito ao jipe e digo "vamos", verifiquei que as suas pupilas estavam atormentadas e que toda a valentia que ali exibira, se tinha esfumado num ápice!

"Sózinhos"!? Perguntou o Tavares. "Sim! temos a pantera à espera", disse-lhe.

Voltamos a fazer o trajecto ao contrário, sem ver mais qualquer pantera negra, cor de rosa ou de outra cor qualquer!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...