quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

A Cidade das Acácias

  Quico e Ventor 03.02.05

Lourenço Marques, a cidade das acácias. Era conhecida, por todos os portugueses que lá viviam, como a cidade das acácias.

Era assim que o Ventor ouvia chamar-lhe. A cidade feiticeira que encantava todos que lá chegavam. A cidade que mais que qualquer outra o Ventor gostaria de conhecer.


O Ventor encontrava-se no centro do mundo, ao sul do Equador

Aquele amigo, de olhos esbugalhados, disse: "Oh, Ventor!!! Que raio estás aqui a fazer, pá? Vieste para Moçambique e não disseste nada à malta!? Já não vou trabalhar hoje! Espera aqui um minuto. O Ventor esperou e foi olhando em volta esse seu amigo e a Baía. Lá estava ele a falar com um negro civil que também tinha entrado e deu-lhe as devidas instruções. Depois, conversando os dois, rumaram para a cidade. O seu amigo ligou para o escritório da Companhia (inglesa) e informou-os da sua situação. Tinha chegado um amigo de Portugal e iria mostra-lhe a cidade das acácias. Esse amigo sempre acreditou que, do modo como o Ventor falava de Lourenço Marques, em particular e de Moçambique, em geral, mesmo antes de ir para a Força Aérea, haveria de chegar o dia de lhe mostrar a cidade que enfeitiçava todos. E mesmo sem o Ventor o ter informado, o Senhor da Esfera quis que assim fosse!

O Ventor ainda tinha cerca de 2.000 km para percorrer, na saga dos Lusíadas ...

Assim foi! Meteu o Ventor no carro e foram direitos à Costa do Sol. Desde essa hora da manhã, até cerca do meio dia, correram Lourenço Marques em todos os sentidos. Depois olhou o relógio e disse: "agora vamos buscar o puto que saiu da escola. Oxalá não nos atrasemos". Chegaram ao local da escola e lá estavam dois putos a jogar ao berlinde. Um lourinho e outro negrinho, assim tipo a publicidade da Benetton, de traulitada no berlinde. "Conheces este Paulo"? O puto pegou no berlinde, levantou-se e olhou com atenção. "Eh, BOY"! «Era assim que ele me chamava, cerca de cinco anos antes. Nunca mais me tinha visto. Mas conheceu-me! Com cerca de dois aninhos, ele pedia-me para o levar à rua ver o eléctrico da Carris. Abraçou-se a mim e não tinha dúvidas nenhumas que tínhamos ficado grandes amigos».

«Depois fomos almoçar num dos melhores restaurantes de Lourenço Marques, na Av. da República. Por fim, fomos até ao Aeroporto e passamos a tarde numa grande azáfama, para trás e para diante. Lá para perto da noite fomos jantar a outro restaurante. Fui ver as outras pessoas que não via há muito tempo. Fomos à casa de uns, à casa de outros e vi toda a gente que julgava só voltar a ver, um dia na Metrópole. Se tivesse informado da minha chegada, se calhar, os encontros não seriam tão efusivos.

Por fim, já acalmados da euforia da cidade das acácias, veio o que eu não esperava»!

"Ventor, vou telefonar para o Estado Maior da Força Aérea, ele é meu compadre e vais ficar connosco, em Lourenço Marques. Ficas na nossa casa e vais trabalhar para o AB8. Como a guerra ainda está longe, aqui não fazes nada. Ficas dois anos em Lourenço Marques, podes usufruir de belas praias e ninguém te vai chatear"!

«Não! Tenho um objectivo, há muito definido que não vou desperdiçar. Já que cheguei até aqui, tenho um rumo e esse rumo é o Niassa. Agradeço muito a disponibilidade, sei que seria ideal para quem não está farto de cidades, mas eu fartei-me de Lisboa. Arranjarei maneira de chegar ao AB6, no Niassa. Tenho a certeza que haverá muita malta que vão preferir qualquer outro local para onde eu vá, para trocar comigo se for caso disso. Mas, para já, o meu objectivo será o AB6». "Mas, sendo assim, se estás tão empenhado, eu falo com o meu compadre e ele mete-te lá, até vais poder ir de avião, se quiseres".

«Não, muito obrigado, mas quero seguir o meu rumo com toda a naturalidade. Quero conhecer toda a logística da guerra e, para isso, vou continuar no navio Niassa, até Nacala, o fim da linha. Dali, por avião ou por linha férrea, arranjarei maneira de chegar a Nova Freixo. Comigo, as águas têm de continuar no seu leito.

Tínhamos ordens de regressar ao Niassa pelas 22 horas onde estaria um oficial da 3ª Região Aérea para fazer a distribuição do nosso pessoal. Conversa daqui, conversa dali, tinha marcado encontro com o meu amigo algarvio, para chegarmos ao barco até às 22 horas como estava determinado. Quando ele chegou, diz o meu amigo para o algarvio»: "está a ver este gajo! Podia ficar aqui no AB8 e quer ir para o Norte, para o Niassa. Dá Deus nozes a quem não tem dentes"!


Lourenço Marques era, de facto, a cidade das acácias

"Pois é. Só eu queria ficar aqui e não vou poder. Este gajo é burro" - disse o algarvio. Conversa daqui, conversa dali, o Capitão da 3ª Região Aérea ficou no Niassa, até à nossa chegada, cerca da meia noite. Foram os dois últimos a chegar ao Niassa!

"Com que então, já vi que gostaram de Lourenço Marques. Mas eu aproveitei para beber aqui umas laurentinas mas não gostei nada. Não! Não foi das laurentinas, podia bebê-las noutro lado! Por isso, como castigo, vocês que até podiam ficar cá, no AB8 ou, onde quisessem, vou enviar-vos para a Base Aérea 10, para a Beira". Virou-se para o Ventor e repetiu: "você tem notas para ir para onde quiser. Era só dizer e, como castigo, vai para a Beira e esse amigo vai consigo"!

«Já pedi desculpa pelo atraso - disse o Ventor - e, quanto a ir para onde quiser, estou-me nas tintas para onde vou. Podia ficar nesta cidade vou para outra. Que interessa»?

"Ai é assim? Então vão para um sítio pior, para o AB5, em Nacala e acabam-se as cidades"!

«Pela informação que tenho, há lá boas praias, se calhar melhores que as da Beira - disse o Ventor. Vou bem na mesma. Virou-se para o algarvio e perguntou-lhe: «e tu, pá»? O algarvio encolheu os ombros.

"Não há nada a fazer. Vou enviar-vos para o pior sítio de Moçambique - o AB6, em Nova Freixo"!

«A mim, por castigo AB6, pronto mas, Sr. Capitão, deixe este gajo ficar em Nacala, ele é algarvio, gostará, certamente, de ficar junto de uma praia».

"Era o ficavas! Vão os dois para o AB6".

«Eu irei - disse o Ventor - eles se calhar não»!

Acabou-se a algazarra no Niassa. Segundo o Ventor, esse Capitão até parecia um tipo porreiro. Se o Ventor não tivesse por objectivo o Niassa, está convencido que faria outro jogo e tudo voltaria à primeira forma. Mas o Ventor tinha o seu objectivo alcançado - AB6, era ali que tudo teria de começar. Foram-se deitar mas o Ventor não dormia. «Por minha causa, aquele gajo vai ter de ir para onde não queria. Ele tinha-me dito»: "não te preocupes comigo, o que não tem remédio, remediado está"!

Mas ele tinha sido amigo do Ventor a valer. Tinha-lhe guardado as malas, em Lisboa, evitara-lhe muitas filas no Niassa, pelas cervejas e bolachas baunilha, e o Ventor achou que, se pudesse fazer algo por ele, tentaria.

De manhã, lá estava o seu amigo que a cidade tinha enfeitiçado. "Não vou trabalhar, vamos passear"!

«Aquele gajo que esteve connosco ontem, que tanto queria ficar aqui, foi empurrado comigo para Nova Freixo e a culpa foi minha. Ele podia ter ficado na Beira mas eu enrolei tudo. Se tiver bastante confiança com esse Coronel tirocinado, o seu compadre, podia pedir ao gajo para ele ficar cá». "Se é isso que tu queres, vou-lhe telefonar e falo com ele".

Daqui por algum tempo, veio a resposta: "fulano não vai partir para Nova Freixo, foi convocado para o AB8".

O Ventor iria perder um amigo para sempre, pois nunca mais o viu. Mas, durante os dois anos, comunicavam por rádio de vez em quando, quando se proporcionava e quando o Ventor transgredia.

O Ventor não se recorda bem dos timings do Niassa mas recorda-se que se despediu daqueles amigos que só voltou a ver, e não todos, dois anos e um mês depois, em Fevereiro de 1970. Só anos depois, encontrou, por casualidade, no Rossio, o seu amigo da Nazaré e já passaram cerca de 30 anos. Nunca mais viu ninguém dessa gente de Lourenço Marques. Foi conhecendo outros.

O Ventor não se importava de seguir, até ao fim, na rota do Vasco da Gama

Entretanto, depois de um dia e meio frenético, em Lourenço Marques, chegou a hora da partida. A próxima meta do Ventor iria ser Nacala. O navio Niassa seguiria mais para Norte, creio que até Mocimboa da Praia, para largar carga e militares do Exército. Para a Força Aérea, Nacala era o fim da picada.

O Ventor viu retirar as amarras ao navio Niassa, viu que ainda estava no mesmo local um dos dois carregueiros soviéticos e que a sua tripulação lhe parecia simpática porque, do convés do seu carregueiro, assistiram ao adeus de gente de Lourenço Marques ao Niassa, os choros de familiares e dos amigos dos que seguiram viagem como ele e, os soviéticos, quando ouviram o Niassa apitar, iniciando o arranque para abandonar a Baía do Espírito Santo e se fazer à largueza do Oceano Índico, partilharam com eles as suas saudações, levantando os braços, acenando e sorrindo.

Cruzando a baía a toda a largura, o Niassa parecia dizer aos areais da antevéspera para se afastarem. Ao sair da Baía do Espírito Santo, o Ventor caminhou para a ré do navio Niassa, voltou a olhar Lourenço Marques e, lembrando-se dos seus amigos, perdendo-a de vista, disse: «adeus, cidade feiticeira, até um dia».

Antes: Lourenço Marques

A Seguir: De Lourenço Marques a Nacala

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Frente ao Adamastor

 Quico e Ventor 16.12.04

Após a saída de Luanda, deixando para trás a sua bela baía, aquele belo anfiteatro da parte baixa da cidade e a célebre Fortaleza de S. Sebastião, em cujo chão trepidavam as botas cardadas dos nossos para-quedistas, continuamos a afundarmo-nos mais, nos calores estivais do Atlântico Sul.

Saídos da baía e já virados a sul, ao nosso lado esquerdo, a bombordo, se preferirem, situava-se o Continente Africano e, á nossa direita, ou a estibordo, toda a largueza do Atlântico profundo. À medida que a quilha do Niassa cortava as águas frias da corrente de Benguela, para trás ficava o Equador, a saudade, tudo! Também ia ficando Angola, o Sudoeste Africano (Namíbia), a costa atlântica da África do Sul e calculávamos que, ao virar da esquina, lá mais ao fundo, torneando o Cabo que tinha sido, em tempos, o  Cabo das  Tempestades e depois, o Cabo da Boa Esperança, por ali, algures, esperaria o Adamastor 


Foto tirada da Wikipédia de autoria de Joseolgon.  A utilização deste ficheiro é regulada nos termos da licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada

Entretanto, à medida que realizávamos esse troço da nossa caminhada, dentro do navio Niassa continuava a nossa saga diária. Comer, dormir, jogar, ler, olhar o mar, beber a famosa cuca das nossas gentes angolanas e, já se tinham ido as frutas penduradas, os chouriços, tudo, menos a cuca e a bolacha baunilha que, como suplemento alimentar, continuavam a fazer parte da minha caminhada.

De resto, para ocupar o tempo, lá iam continuando os alertas do Niassa para corrermos a colocar os coletes salva-vidas, os coletes da esperança caso a coisa desse para o torto. Tomar banho nas profundezas do Atlântico de norte a Sul, não seria a mesma coisa que tomar banho nos pocinhos de Adrão, nas praias da Caparica, de Carcavelos, ... e, o colete salva-vidas servia também para nos dar um certo aprumo psicológico. As orcas que nadavam ao lado do Niassa, na corrente fria de Benguela e rumo à cidade do Cabo, escangalhariam qualquer arranjo psicológico que nos traria o célebre colete laranja e mais acreditaríamos na grande caçada que as orcas, organizadas em grupo, fariam se tivéssemos de mergulhar nessas águas com colete ou sem colete. Nem nos valeria pedir o tridente ao meu amigo Neptuno para, com ele, espetar as orcas.

Sempre que espreitava as orcas, via a maioria delas sempre a bombordo, isto é, entre o navio Niassa e o Continente africano. Até parecia que elas saberiam que, se tivéssemos de ir ao mar, a rota escolhida seria rumar para terra, o lado preferido delas. Seria pensado por elas ou mera coincidência?

A partir de determinada altura, próximo da viragem para o oceano Índico, começamos a avistar a Montanha da Mesa (Table Mountain), a tal que me tinha roubado algum tempo quando eu me dedicava aos meus estudos de geografia africana. Junto com ela, começou a instalar-se mais afincadamente na nossa memória, a sempre presente ameaça do Adamastor. Porém, o mar continuava sereno, os dias continuavam lindos com uma visibilidade de 40 km ou mais, pois dava para, na companhia do meu amigo Apolo, observar bem os contornos das costas sul africanas.


O Adamastor estava presente, mas escondido

Bartolomeu Dias, foi o primeiro europeu a passar este Cabo a que chamou o Cabo das Tempestades mas, D. João II, achou melhor rebaptisa-lo de Cabo da Boa Esperança. Ele acreditava que, rumando para Leste e, uma vez que Bartolomeu Dias, já tinha seguido para leste até 800 km deste Cabo, restava a Esperança de haver continuidade até alcançar o desejo da época. Chegar à Índia! 

O Adamastor não se mostrava. Estaria encostado à sombra das rochas com receio do meu amigo Apolo e com a presença do Ventor. 

A mim fazia-me confusão ele esconder-se pois conhecia pessoas que viajavam de Moçambique para Portugal e vice-versa e não conhecia ninguém que não tivesse tido problemas com o Adamastor. Pelo que sabia, a passagem do cabo era terrível para todos e estava a ser uma maravilha para mim.

Com o tempo e com algum raciocínio, comecei por perceber que ninguém vinha para Portugal no Inverno. Portanto, para apanharem cá o verão, viajavam na nossa plena Primavera, caminhando nos Outonos africanos. Na nossa viagem, caminhávamos, por lá, em pleno verão.

Ao passar em frente da cidade do Cabo, observando-a do largo, um colega muito observador, de olhos fixos em mim, diz: "oh, Ventor, estás mais encarnado que um tomate"!

Teria de estar! As minhas caminhadas eram feitas no estrado do navio Niassa, sempre ao sol e a observar as costas, as orcas e não só. O meu campo de exercícios era da ré à proa e vice-versa, sempre a observar qualquer coisa, a bombordo ou a estibordo e, mesmo que não dê para acreditarem, quase sempre só, de noite ou de dia. Chegava mesmo a ficar a observar a bandeira durante tempos sem fim, drapejando ao vento e a desfazer as linhas que a constituíam. Não fosse isso e estaria a ler!

Passei a mão pela testa e mais parecia uma cobra a largar a camisa. A pele saía enroladinha, tal como quando compramos uma carpete e a levamos para casa toda enrolada. Tudo isto, frente ao Adamastor! O meu amigo Apolo queria-me ver bem impressionado ao abandonar o Atlântico e ao penetrar no Grande Oceano Índico.

Também o Bartolomeu Dias, o Vasco da Gama e outros, já lá tinham passado, centenas de anos antes pelo Cabo da Boa Esperança

Foi nesse momento que, agarrado às amparas do navio Niassa, observando as águas sem saber se ainda estávamos no Atlântico ou se já navegávamos no Índico, vi um corpo colossal aparecer à superfície da água, uma espécie de monstro de Loch Ness. O mesmo estilo de imagem. Um corpo cilíndrico, tipo cobra gigante com cor de truta salmonídea, com muitos metros de comprimento mas, sem ver ou identificar uma cabeça ou um rabo. Imaginem que sai à superfície do mar um colosso em forma de cobra em que só vemos o cilindro, sem aparecer cabeça nem rabo. Esses mantiveram-se debaixo da água. Pelo menos, não tive tempo para os identificar.

Procurando vídeos e fotos sobre animais marinhos, nunca vi nada semelhante.

A cidade do cabo e a Montanha da Mesa como vista da rota naval 

São lindas as costas da África do Sul, vistas do mar largo. Navegando no Oceano Índico, continuamos a observar a beleza das cidades costeiras sul-africanas e as suas enseadas, especialmente Port Elizabeth e Durban (a antiga cidade de Natal).

Até um pouco a seguir ao largo da cidade do Natal, rumando à cidade de Lourenço Marques, o meu amigo Apolo nunca me tinha abandonado. Mas, chegados ali, disse-me apenas isto: "Ventor, agora estás por tua conta. Caminhei contigo até passarmos o Adamastor. Sempre que pudermos, estaremos juntos nas horas difíceis. Mais um pouco e estarás nas tuas águas. Agora, tu rumas para Leste e eu para Oeste"!

Começamos a separar-nos, nesse dia, desde que saí de Lisboa em que ele me acompanhava de manhã à noite. Mas logo que Apolo abalou, pela primeira vez na minha vida, iríamos enfrentar as monções do Oceano Índico. O Adamastor, aquele falsário, afinal, não estava escondido nas rochas das costas sul-africanas. Ele ameaçou-nos em pleno Índico, a algumas milhas da Baía do Espírito Santo, em Lourenço Marques.

Antes: Entre o Equador e Luanda

A seguir: Chegada a Lourenço Marques

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Entre o Equador e Luanda

 Ventor 15.11.04

Mais uma etapa na nossa caminhada rumo a Moçambique

Entrado mar dentro e, perdido o cabo mais ocidental da Europa, na bela serra de Sintra, no meio da longínqua bruma, esfumado todo o nosso mundo, ficamos apenas nós, cerca de 1.800 homens, o Niassa, o céu e o mar. Ah! Mas sem esquecer os golfinhos que, pareciam adivinhar que, aquele barco, apenas transportava sonhos.

No entanto, saídos do convés e deixados os golfinhos saltando e procurando dar ânimo àqueles que continuavam a observá-los, como eu, feita a entrada no porão, haviam aqueles que já, com as saudades a miná-los, escreviam às suas gentes, para colocar no correio, à chegada a Luanda.

Dali, acabados os suspiros daqueles que ainda mal acreditavam no que lhes sucedia, até à linha do Equador, as profundezas do Niassa, tornaram-se num autêntico casino onde os jogos eram o caminhar na esperança da continuidade do passado de muitos que nada mais poderiam fazer.

Também eu, depois de me encantar com os golfinhos, desci do convés, observei diversas jogatanas e, deitei-me sobre a cama a ler um livro do Descartes, o "Dez Cartas", como eu lhe chamava!

Perdidos, naquele submundo, lá fomos, jogando, comendo, lendo ou dormindo, pois o cansaço originado naquela euforia, desde o Natal de 1967, até 4 de Janeiro de 1968, fora intenso. Só encontramos mais uma rejuvenescida euforia ao chegarmos à linha imaginária do Equador.

Saídos da paragem equatorial, naquele belo dia de Janeiro, virados a sul, quatro horas depois, o Niassa lá seguiu aprumado, rumo a sul, com a bandeira verde-rubra a esfarrapar-se toda, vassourada pelos ventos que rondavam o mastro.

Ao aproximarmo-nos de Luanda, sentíamos a curiosidade de observarmos a sua baía de sonhos de que muitos de nós já ouvíramos falar. Ali estava ela, à frente do Niassa e, na sua frente, a baixa de Luanda, encostada ao Planalto, por onde a cidade prosseguia mas que, nós, estávamos longe de imaginar.

Foi então que me recordei das conversas que tinha com o Senhor Major Costa e outros companheiros da DSCTA, na Av. António Augusto de Aguiar. Dizia ele: "Fox, no mundo só há três maravilhas! A cidade de Rio de Janeiro, a Catedral de Chartres e a Baía de Luanda". 

Cada um tem os seus gostos e o Major Costa tinha os dele. Mas, a verdade, é que eu estava, então, ali, a observar uma das suas maiores belezas deste mundo. A célebre Baía de Luanda.


Luanda - foto tirada da Wikipédia de autoria de Paulo César Santos

A Marginal de Luanda é mesmo linda. Acredito que nesta baía e nesta cidade, batem forte e conjuntamente, os corações de angolanos e portugueses

À medida que o Niassa sulcava as suas águas, os meus olhos tentavam perscrutar tudo que estava ao meu alcance. À nossa  esquerda a cidade, lá no topo, a Fortaleza de S. Sebastião.  Eu apreciava a beleza da Baía, da Av. Marginal e da parte da cidade que vinha dos lados do Planalto e se debruçava sobre a baía. No entanto, o que nós mais queríamos era esquecer o arroz "mofoso" e matar a fome.

O Niassa atracou no cais e logo nos deram autorização para pisarmos a terra firme de Angola. Era Luanda! A capital da parte da mãe negra que estávamos habituados a ouvir gritar: "é nossa"!

Saídos do Niassa com uma enorme vontade de comer algo diferente, lá fomos nós vasculhar a bela cidade de Luanda. Primeiro, direitos aos Correios e tentar pesquisar quaisquer tascos pelo caminho.

Lá fomos quatro "garimpeiros" à procura das nossas pepitas. Chegados aos Correios, as filas eram enormes para colocar selos, para telefonar, para ... consegui comprar uns postais, fugi das filas e fiquei com eles no bolso.

Por fim, Luanda "deitou-se", e depois de verificarmos que Luanda mais parecia uma cidade ocupada militarmente, pois só víamos militares, representantes das três armas, saídos do navio Niassa e cerca de dois dias antes os que saíram do Vera Cruz, muitos ainda andavam por ali, lá fomos encontrar, já perto da meia noite, na hora do fecho, um tasco que nos conseguiu arranjar umas bifanas que, enroladas em cerveja cuca, lá nos apasiguaram corpo e alma.

Por fim, comidos e regadinhos com a cerveja cuca, em vez de descermos até ao Niassa que nos aguardava na Baía, para dormirmos, resolvemos continuar a subir até ao Planalto. Passamos toda a noite a caminhar por uma cidade que dormia. Caminhando pelas ruas de Luanda, passamos uma noite onde o som predominante, além das nossas passadas nas calçadas, eram as chaves dos guardas noturnos.

Ao raiar da aurora, aproximamo-nos do mercado de Luanda e resolvemos fazer, por ali, uma boa caminhada até ele abrir. Nas calçadas de Luanda, além do barulho dos nossos sapatos, começamos a sentir alguma concorrência. Verificamos, então, que as pessoas se tinham deitado cedo e, também, manhã cedo se começaram a dirigir para os seus trabalhos.

Um desses locais era o mercado de Luanda. Escusado será dizer que fomos nós, os primeiros clientes! Entramos e ficamos encantados com algumas das coisas que nos serviriam, belamente, para levar na nossa caminhada até à próxima paragem - Lourenço Marques. Presunto, chouriços, queijo e fruta.
Muita fruta! Ananás, laranjas, bananas, mangas e, algo muito especial - uvas! Uvas, no mês de Janeiro, para nós era um milagre! Vinham da África do Sul e podem crer que eram muito boas. Fomos todos carregados para o Niassa. Nenhum de nós os quatro perdia dinheiro em batotas, uma doença terrível!

Levamos as nossas compras para o Niassa e saímos de seguida para não cometermos o erro de chegar atrasados ao restaurante onde eu estava decidido a matar a fome, nesse dia, 15 de Janeiro de 1968.

Arrumamos as nossas compras mas o espaço era iníquo. Pendurei as frutas por cima da cama e lá fomos nós. Arranjamos um restaurante com uma boa esplanada. Eram 11 horas e começamos a ver o que havia para matar a sede sem ser cerveja. Eu estava enjoado de cerveja e de bolacha baunilha.

Vi uma garrafinha verde, muito bonita, cheia de bolhinhas e, foi então, que bebi o meu primeiro seven up. Aqui ainda não havia. Bebi o seven up mas o calor era tanto que voltamos à cerveja. Depois de bem regados pedimos um frango assado para cada um, acompanhado de batatas fritas! Disse logo ao empregado; não nos traga arroz, senão podemos dar cabo da esplanada! Nunca mais esqueci aquela esplanada! Até já a vi em sonhos mais de uma vez!


 O Ventor e um algarvio a matarem a fome em Luanda

Acabados de almoçar, demos mais uma volta, pela Marginal de Luanda. Tiramos umas fotos e de volta ao Niassa, fomos falando com as pessoas, mortas de saudades do "Puto" (Portugal) que se mostravam tristes quando dizíamos que seguíamos para Moçambique.

Por fim, lá entramos no Niassa, para a nossa segunda etapa, rumo a Lourenço Marques. Quando cheguei ao barco, de barriga bem cheia, assustei-me com aquela fruta toda! Disse logo: "estou lixado se levo com um ananás em cima da cabeça quando estiver a dormir"!

Com a serenidade devida, comecei a imaginar que a fruta tinha sido um mau investimento. E era mesmo! O calor iria estragá-la depressa e, por isso, o melhor era comê-la enquanto fosse viável. Um paraquedista que eu não conhecia de lado nenhum, pediu-me dinheiro emprestado para o seu jogo da lepra. "Escolheste a porta errada, pá! Se quiseres comer fruta, tens aí. Dinheiro para jogo? Do que Deus te livrou"!
Esperei a partida do Niassa, observando Luanda e a sua Baía. O sol estava bem lá para o Oeste do Atlântico, rumo às Américas e nós, preparávamos a partida para a etapa que nos levaria a rodar o Adamastor, um amigo de estimação dos nossos antepassados e gáudio das nossas aulas de Geografia. Com os acenos de angolanos e alguns familiares da tropa que iria avançar para Moçambique, levantamos âncora e começamos a refazer o rumo que trazíamos de trás. Dissemos adeus a Luanda até uma próxima vez que, alguns, nunca mais teriam ...

Antes: Mar Alto

Depois: Frente ao Adamastor

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 14 de novembro de 2004

Mar Alto

  Ventor 14.11.04

E o Ventor continua a descrever-nos a viagem do Niassa com ele e seus companheiros, por mar alto, na sua primeira etapa, rumo a Luanda.

«Ao deixarmos para trás o último elo, o Cabo da Roca e a serra de Sintra, passamos a ter apenas, Niassa, mar e céu. E, entretanto, chegara a hora do almoço. Já não me recordo o que foi o nosso almoço no primeiro dia de Niassa mas duma coisa eu tenho a certeza, fui ver como era mas não comi. Como havia de comer se na véspera tive dois jantares!

Na véspera comi um cozido à portuguesa na hora de jantar normal e na casa onde morava fizeram-me um espargueti fabuloso, um prato que eu aprecio tal como se fosse um italiano vero. Depois de um cozido e de uma caminhada por Alcântara e pela Torre de Belém, regressei a casa porque o dia seguinte não seria para brincadeiras. Só para rebocar a minha mala de livros iria ser bonito!

Ao chegar a casa ainda me esperavam acordados e ainda me fizeram companhia para comer um prato de espargueti. O espargueti guisado com toucinho  intermeado, chouriço e bacon, escorrega, acomoda-se e não faz estrago nenhum. Até parece que não ocupa espaço! Cozido e espargueti entendem-se às mil maravilhas, com o Ventor. Neste caso, eles sabiam que tinham de se acomodar os dois e não incomodar o Ventor. Não satisfeito, comi outro prato de espargueti, na manhã seguinte, ao pequeno almoço».

«Parecia que estava a adivinhar tudo o que estava para vir. Não voltaria a comer um cozido como este tão depressa e, então, espargueti como aquele, não voltaria a ver tão cedo, pensava eu. E assim foi!

Todas estas razões foram suficientes para não me preocupar com o almoço no dia da grande abalada. Levava comigo uns chouriços e outras coisas que me foram valendo até Luanda. Normalmente, nos dias pós-embarque, quando terminava a minha leitura ou os meus passeios pelo convés, a apreciar o mar, perguntava aos mais atentos de que era o almoço ou o jantar, a resposta era invariavelmente a mesma. Ou era estilhaços com arroz, ou era arroz com estilhaços! Ás vezes deslocava-me lá para ver o que me calhava em sorte e se conseguia comer; mas não! O arroz sabia e cheirava a mofo e ia servindo para alimentar os peixinhos. Normalmente havia sempre alguém que comia mais um pouco e também era isso que me fazia ir levantar a minha refeição. Devia fazer algo pela sociedade onde me integrava. Pois eu não podia tragar aquele arroz a saber a mofo. Nunca me tinham calhado pratadas daquelas, nem em Adrão e não seria ali que iria iniciar-me! Foi assim até Luanda, mas eu também tinha as minhas alternativas. Bolacha baunilha com cerveja Sagres ou cerveja Sagres com bolacha baunilha»!

Nos intervalos apreciava os golfinhos em grupos, cavalgando as águas, saudando-nos!

Foram eles das maiores belezas que encontrei nesta grande caminhada de milhares de km, ou milhas náuticas. Belezas inesquecíveis

«Às vezes lá aparecia uma alma caridosa que me comprava nas filas do navio Niassa, umas cervejas fresquinhas e uns pacotes de bolachas baunilha. Era necessário ir para filas sem fim para arranjar umas sandes e valia mais passar fome. Para as bolachas, as filas não eram tão grandes e há sempre aqueles que, com dois dedos de conversa, aguentam as mais terríveis das filas. Não é por acaso que lhe chamam "bichas"!

Antes de chegarmos a Luanda, revoltamos-nos. Planeamos um levantamento de rancho. Aquilo começava a ficar terrível para muitos e então, planeamos o primeiro ataque. A Força Aérea e a Marinha decidiram avançar para o levantamento de rancho, sós, uma vez que o maralhal do Exército se encolheu. Por fim, numa terrível guerra de bastidores, os marinheiros também nos deixaram sós.

Por isso, ficando só os técnicos da Força Aérea e os Paraquedistas, cerca de 120, apodados de indisciplinados, decidimos avançar. Para mim sempre entendi que a indisciplina era levada a cabo por aqueles que não cumpriam as regras do jogo e nunca por quem defende os seus direitos dentro dessas regras. O Comando Militar do navio Niassa era exercido por um Coronel do Exército e, a nossa revolta, iria ser uma bronca para o Niassa e para todos os seus responsáveis».

 

As orcas, aqueles bicharocos a que chamam de baleias assassinas, também nos encantaram à medida que rumávamos em direcção a sul. Estas meninas são os terrores dos mares. Elas atacam em grupos organizados e nada lhes resiste

«Mas, como dizia o Comandante Militar, nós não éramos ninguém. 120 em 1800, pouco valíamos, mas decidimos avançar!
Mandaram-nos formar frente ao comando, como bonecos e foi então que o Sr. Coronel cometeu um erro enorme. Ameaçou-nos! Teve o descaramento de, gritando, nos dizer que nós não éramos ninguém, que pegava nos seus homens, atirava connosco ao mar e até ninguém daria por isso. O Sr. Coronel substimou o valor de homens revoltados, mesmo que pouco mais que crianças, e decididos a levar a sua luta até ao fim.

Um paraquedista, cheio de coragem, tal como se fosse filho de um qualquer Adamastor ou descendente de Neptuno, colocou-se em sentido e disse: "dá-me  licença meu Coronel"? «Faça favor», disse o Coronel. O Pára deu um passo em frente e disse-lhe: "o Sr. Coronel ameaçou que nos podia lançar ao mar. É só para lhe perguntar se quer tentar. Garanto-lhe que não será o Sr. que me vai atirar ao mar e vai ficar aqui de braços cruzados a ver-me bracejar. Eu vou ao mar, mas garanto-lhe que o Sr. vai comigo. Estamos tão pertinho um do outro"!
Houve um bla-bla-bla do Sr. Coronel e fez a devida correcção desculpando-se como pôde e disse-nos que até Luanda seria assim. Em Luanda cada um fizesse como quisesse, mas não tinha hipótese alguma de melhorar o rancho. Porém ficou claro que só sairíamos de bordo quando chegássemos a Luanda!

Esta é a prova da dignidade desta beleza dos mares. Pelo bem ou pelo mal ele e o homem dão tudo o que têm para atingirem soluções bélicas, nem sempre as melhores, mas nem por isso deixam de ser bons companheiros. Os dois juntos tentam dominar os mares, quantas vezes em nome da liberdade dos mesmos

Mas esta viagem deu bem para me divertir, apesar de tudo. Estávamos pelo Equador, rumo a sul, onde uma noite, entre a meia-noite e os 12 minutos seguintes, assisti da proa do Niassa à luta de um grande tubarão com o próprio Niassa. Eu estava só, mas ao ver um militar do exército que vinha apanhar ar e fumar um cigarro, levantei o braço e fiz-lhe sinal para acelerar a ver se ainda conseguia ver aquilo. Estivemos cerca de 12 minutos a ver uma luta terrível entre dois velhos senhores dos mares. Um tubarão e o velho navio Niassa. O tubarão saía debaixo de água e atirava com aquele grande corpanzil contra o Niassa, deixando bem claro que não gostava de o ver nos seus domínios. Foram 12 minutos terríveis. O Niassa sempre a rasgar o mar e aquele senhor dos mares a ataca-lo com tudo que tinha. Dariam 12 minutos de filme incríveis»!

«Que terá acontecido ao tubarão que desapareceu sem deixar rasto? Terá sido troxidado pela hélice do Niassa? Nunca teremos resposta!

 
O que melhor recordo, entre Lisboa e Luanda, foram os golfinhos, belíssimos companheiros de caminhada. Umas vezes à esquerda, outras vezes à direita, eles estavam sempre a saudar o Niassa. Também orcas e tubarões e outros peixes nos ofereceram a sua companhia inesquecível

Na linha do Equador, estivemos parados cerca de quatro horas. Por ali, o Niassa ficou suspenso na sua âncora e eu aproveitei para fazer algo que dignificasse a minha passagem por aquela linha imaginária. Como era Inverno quando parti de Lisboa, levava comigo umas grossas camisolas interiores para lutar contra o frio, mas ao chegar ao Equador comecei a sentir que o meu amigo Apolo já gozava comigo! Nesse intervalo de tempo decidi afogar alguma roupa pouco adequada, nessa linha imaginária. Chateei-me, peguei nelas todas e lancei-as ao mar. Não sei se alguém fez o mesmo, mas junto de mim ninguém fez. Do Equador para baixo era Verão, o calor iria esturricar e depois, em Moçambique, logo se veria.

Eu sabia que nos planaltos do Niassa faria frio mas, nessa altura, eu apenas sabia que ia a caminho da 3ª Região Aérea. O que realmente me pesava eram os livros, mas esses todos se safaram do banho. Todos me seguiram e regressaram comigo».

Aantes: África à Vista

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 11 de setembro de 2004

Áfica à Vista

 Ventor 11.09.04

Saí da Rocha de Conde de Óbidos, no rio Tejo. O rumo, era Moçambique. 

Era esta a imagem que eu tinha na cabeça. Desceria o Atântico, entraria no Índico, subiria o Canal de Moçambique e iria parar à baia de Fernão Veloso. Depois seria uma bela caminhada por via férrea para o Niassa. Nova Freixo seria o destino

Estávamos no Inverno de 1968. Mais precisamente, no dia 4 de Janeiro. Era um dia de Inverno, mas estava um dia lindo. O céu estava azul, o rio Tejo imitava-o, as Tágides dormiam e o meu amigo Apolo brilhava!

Eu saí da zona do Chile, em Lisboa, num táxi, rumo à Rocha Conde de Óbidos onde tinha um encontro marcado com o destino. Quando cheguei, já lá estava muita gente de cara triste. Os militares que iam embarcar no Vera Cruz, rumo a Angola, já tinham destroçado da formatura e já subiam as escadas do barco. A algazarra era enorme! Eu saí do táxi, paguei, peguei nas minhas malas e fui-me chegando para o Niassa que estava mesmo ali, em frente do edifício da Rocha Conde de Óbidos. Junto ao Niassa, encontrei os meus companheiros de caminhada da Força Aérea que num grupinho assistiam à formação dos militares do Exército e pedi a um deles, um algarvio, se calhar, descendente longínquo de um qualquer Mohamed (olá amigo Fernandes), para me guardar as malas e me esperar, enquanto eu ia procurar alguns amigos que não tinha encontrado.

O paquete Niassa era um belo barco

O clarim toca a destroçar e, enquanto o Vera Cruz acorda o Tejo com três apitos de alta sonoridade e larga ferros com cerca de 2.000 homens a bordo, eu olhava aqueles que iam ser meus companheiros de viagem, com um semblante enfeitado de uma terrível tristeza. De repente, o Vera Cruz que não se fez rogado, avançou Tejo abaixo e o Niassa aguardava a sua vez.

Deixei as malas com esse meu amigo e voltei pelo sítio que tinha chegado, procurando caras conhecidas. Procurei, no meio da multidão, pessoas que não vi e encontrei outras de quem já me tinha despedido; mais uns dedos de conversa e mais uma caminhada entre a multidão. Entretanto o Niassa rangia à medida que cerca de 1.800 homens iam subindo as suas escadas. Todos carregavam as suas malas. Uma ou duas malas mais uma pesada carga que transportavam aos ombros - a esperança! A esperança do regresso. Regressar era o grande objectivo de todos que subiam aquelas escadas. Mas, essa esperança, tornava-se maior quando, ao voltarem-se para trás, olhavam os braços levantados com umas mãos que seguravam os lencinhos do adeus. Eram milhares!

O Pavilhão dos descobrimentos, visto de Oeste

Enquanto as escadas do Niassa continuavam a ranger, eu andava fora da área militar, perdido no meio da multidão, furando aqui e ali, atento a todos os movimentos que se desenrolavam à minha volta, mas sem encontrar alguém daqueles que procurava. Não tinha lá família mas tinha alguns amigos e não cheguei a despedir-me de todos que lá foram. Queria dizer a todos uma palavra: "voltarei" ou como a canção torneró!
Voltarei porque o Senhor da Esfera assim o determinara. Eu ouvi-o dizer: "vai Ventor. Vai com confiança, porque tu voltarás a abraçar o Tejo. Este é o teu rio"!
Assim quem não parte confiante?

Em Adrão, meus pais e meus irmãos, aqueciam-se ao lume na manhã de um dia frio, julgando-me a entrar no Nº 21 da Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa, ou então pelos subterrâneos do G.D.A.C.I. (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção), em Monsanto. Seriam os pensamentos sobre o que liam, do que eu lhes escrevia. Mas não! Eu estava a dar mais umas passadas na minha Grande Caminhada. Nunca os quis atormentar com a minha saída rumo a África. Se fiz bem ou mal, ainda hoje não sei!

Esta é a retaguarda do Pavilhão dos Descobrimentos. Tem na sua vertical a representação de uma espada.
Ela simboliza o tempo em que a vanguarda é garantida pela retaguarda. Sabedoria, determinação e espada!

Não encontrando quem procurava, no meio de tanta gente e, vendo o tempo correr, voltei a olhar as escadas do Niassa por onde, dentro em pouco, iria subir. Na base das escadas, lá estava o meu amigo algarvio esperando-me e guardando as minhas malas junto da dele. Eu levava duas malas, uma das quais, cheia de livros. Pesava que fartava! Mas o meu amigo, lá continuava, debaixo do boné da Força Aérea, não se lhe vendo o rosto. Apenas eu sabia que ele estava lá! Olhando a silhueta do meu amigo algarvio, voltei o meu olhar sobre o Cristo Rei e o meu amigo Apolo que me acenava daqueles lados.
Ao voltar-me para trás, fixei mais uma vez, com um olhar firme, a multidão debruçada da varanda do edifício e, em meu redor, só via rostos tristes olhando o Niassa e de braços no ar, lutando contra o cansaço, acenando. Dirigi-me para o Niassa e quase não conseguia perfurar aquela mole humana que me cercava e bloqueava a passagem rumo à área militar. Entre a multidão e o Niassa havia um gradeamento de tubos que não permitia a passagem para o lado militar e, caminhando com muitas dificuldades, encontrei no meio da multidão, um General do Exército. Com algum esforço devido ao aperto, levantei o braço e fiz-lhe a devida continência a que ele correspondeu e, enquanto isso, verifiquei que os seus olhos marejavam

O Cristo Rei, como sempre, abraçava todos
Naquela situação todos os olhos marejam. Do seu semblante triste saíram as seguintes palavras: "veja se consegue saltar por aqui meu rapaz"! Fitei-o nos olhos, coloquei a mão sobre o último tubo cilíndrico e todos se encolheram enquanto eu formei um salto apertado, fazendo girar as minhas pernas bastante encolhidas para o lado oposto.

A aglomeração dos meus companheiros de viagem era enorme do lado da Rocha Conde de Óbidos e, ao chegar ao convés, reparei que muitos choravam de braços no ar, acenando com os bonés, num adeus que parecia não ter fim. Em terra, a multidão era ruidosa. Pousei as malas aproveitando para descansar e resolvi, do cimo das escadas, dizer um último adeus a todos aqueles que se foram despedir de mim, pois sabia onde estavam e, mais uma vez, olhei a gente junto ao gradeamento que me voltou a dizer um adeus arrepiante. Eu fiquei com a sensação de que toda a minha gente se instalara ali, ou então, toda aquela gente era uma imensa extensão de um adeus cheio de imprevisões. Mas não! Todos eles sabiam que eu passara ali como que perdido no meio da multidão e eles adotaram-me como um dos seus.

Estes lindos casarões, à direita, na costa sul do Tejo, sempre me encantaram. Os meus olhos sempre os frequentaram, tal como hoje, eles são abraçados pela minha vista através da minha máquina. Durante algum tempo eu fui um frequentador da costa sul através das minhas caminhadas e da pesca dos caranguejos.

Foi a minha vez de voltar a tirar o boné da cabeça e acenar, também, freneticamente. Naquele instante era o Niassa que começara também a dizer adeus. O seu buzinão acordou todas as tágides que permaneciam adormecidas tentando não assistirem à nossa partida e ao ouvir aquele som, fiquei com a sensação que chegara a hora de tudo chorar, dentro e fora do Niassa. O Niassa deu mais um buzinão, os seus motores começavam a ganhar força, as cordas estavam a ser retiradas das amarras e o Tejo perfilava-se. Era o momento em que ninguém poderia dormir mais, nem as tágides! Sentia que elas me chamavam muito baixinho: "Ventor ... Ventor ..." Chegara o momento do Niassa, montado nos seus poderosos cavalos, se  emproar. Mais três buzinões do Niassa. Parecia que tudo em volta trepidava e que o mundo inteiro iria submergir-se no Tejo.

Costa sul do Tejo, olhando-a, enquanto o Niassa se emproava rio abaixo, eu sonhava que um dia voltaria ali, aos caranguejos e, da costa norte veria descer a Sagres, encantada com as músicas das Tágides

Mais uma vez consegui furar por entre os meus companheiros até um local donde podia abarcar toda a plataforma portuária. Num local onde deixara os meus amigos que se foram despedir de mim, verifiquei que ainda lá se encontravam e apontavam com o braço o local onde me encontrava para os que tinham mais dificuldades a encontrar a tal agulha no palheiro. Tudo me indicava que encontraram a agulha, coisa que mais tarde confirmei, mas eu, lá do alto, nunca os perdera de vista. Coloquei os meus olhos a caminhar sobre a multidão e parei-os no local onde saltara. Voltei a tirar o boné, a acenar e, verifiquei que o Niassa já não tinha escadas e começava a afastar-se. Já tinha cortado o cordão umbilical para mais uma arrancada, mas aqueles braços continuavam estendidos, a fazer de amarras tentando conseguir, no sonho, que o Niassa regressasse ao ponto de partida. Eles perceberam onde eu estava. Naquele local, no meio da rapaziada do exército, eu era o único da Força Aérea. Acenei, acenei, acenei ... até perdê-los de vista. Naquele momento, todos eles eram a minha gente, mesmo aqueles que, quando eu procurava passar para o lado da guerra, me incentivavam a não saltar, a ficar. A gritarem: "não vá"!

Mas eu fui, sempre a pensar em Adrão.

A seguir: Mar Alto

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...