terça-feira, 1 de março de 2005

De Loureço Marques a Nacala



Ao sair da bela Baía do Espírito Santo e ao entrar no oceano Índico, as cores das águas de superfície ainda se encontravam bem sujas de tanto esfregarem as areias contra as rochas do fundo do mar, ainda influência da antevéspera, dia da nossa chegada à bela Lourenço Marques, a cidade feiticeira. Encostados aos molhes, ficaram os barcos que se encontravam no dia da chegada. Aquele porto era um rodopio e a monção que nos saudou à chegada, não tinha sido nada agradável.

O Ventor e toda a rapaziada que com ele viajava tiveram uma demonstração num bravo ensaio levado a cabo pelo seu amigo Neptuno. Apolo sorria lá de cima e, através das belas acácias, já tinha mostrado ao Ventor como aquela parte da África, onde a Princesa do Índico se espraiava, era linda e assim continuaria, certamente, depois de mais uma caminhada de cerca de 2.000 km.

Estação dos Caminhos de ferro de Lourenço Marques (Maputo)
Lourenço Marques, já ficara para trás e o Índico continuava sujo e um pouco picado, talvez devido ao reboliço do tridente de Neptuno que tanto gostava de marcar presença perante o Ventor.
À medida que o Niassa ia penetrando as águas do mar, o Ventor, caminhando pelo convés do Niassa ia observando, à sua esquerda, a grande costa moçambicana, por onde nos seus sonhos caminhavam manadas de búfalos, leões, leopardos, chitas, rinocerontes, jibóias, impalas e vários tipos de zebras e gnus, bem como toda a outra bicharada que o Ventor levava na sua cabeça. A bicharada que o Ventor tinha apreciado quando através de livros e revistas, comentários cinematográficos coloridos e filmes, foram trazidos até à presença do Ventor e que, em sonhos, o Ventor os retransportava, agora, para as suas origens.
  

Ilha de Moçambique
Rumando a Norte, vendo a quilha do Niassa cortar as águas, o Ventor verificara que todo o seu mundo ficara para trás. Todo o mundo que o Ventor conhecia, já ficara para trás! A sua última réstia tinha sido a cidade das acácias, o fim de tudo. Ali, os seus amigos tinham feito florir as flores desse outro mundo de sonhos, as suas referências. Eles eram os marcos finais da sua Grande Caminhada africana. A partir dali, tudo seria para desbravar! As referências tinham terminado no sítio a que os ingleses, noutros tempos, tinham chamado Delagoa Bay! Mas nós chamamos Baía do Espírito Santo. Avançando mar fora, as referências do Ventor eram, agora, apenas, as históricas.
Observando o Canal de Moçambique, entre a costa de Moçambique e a ilha de Madagáscar, sonhava como teria sido o "surfar" das caravelas do Gama e de outros, naquela mesma direcção. Recordava-se do rio dos Bons Sinais, da corrida de Fernão Veloso, que afoutadamente aceitara o convite dos indígenas para conhecer as suas palhotas tabancas e que, apercebendo-se de algo que não viria a ser nada bom para a sua caminhada africana, resolveu inverter a caminhada e pôs-se em fuga rumo às naus. Como os seus companheiros, vendo-o em fuga, tiveram de ir em seu auxílio, o Fernão Veloso dizia-lhes que corria por os saber lá longe sem a sua presença para os ajudar! Lindos os Lusíadas, agora, o principal meio das minhas referências do grande Canal de Moçambique e da costa moçambicana! 
Primeira residência do Governo Colonial, na ilha de Moçambique
De vez em quando apreciava umas palmeiras sinalizando ilhas ou reentrâncias no horizonte da costa moçambicana e, perdida na bruma aquilo que, segundo os mais conhecedores do Niassa, diziam ser a Ilha de Moçambique. Ela estaria lá! Um dos nossos mais célebres signos históricos da bela terra de Moçambique. Havia por ali uma ilhota com três palmeiras a que eu chamei "as três Marias"! Para lá delas ficava o "interland" de Moçambique, rumo a oeste.  
Forte de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique
Por ali, à nossa esquerda, junto à costa, estaria a bela ilha de Moçambique, perdida nas brumas do Índico, com a sua fortaleza a que deram o nome de Forte de S. Sebastião. Onde os portugueses acostavam, por tempos indeterminados e que, para eles a área tivesse alguma possível função estratégica de ocupação e defesa, havia um primeiro pensamento. Construir um forte! E, a ilha de Moçambique, não iria ser excepção. Ela lá está, bela, incrustada no Oceano Índico, aguardando pelas caminhadas de homens audazes que lhe dêem o futuro que merece.
Capela de Nossa Senhora do Baluarte, na Ilha de Moçambique
Rezar a Nossa Senhora para acalmar as águas do Índico era uma maneira de estar em Moçambique, durante a nossa estadia de séculos. A capela do Baluarte foi construída, em 1522, a norte da ilha que hoje austenta vários edifícios públicos que a Unesco tornou Património Mundial, em 1991.
 
Deixada para trás, à esquerda, escondida na bruma do Índico, a ilha de Moçambique, era mais uma das minhas referências histórico-geográficas que fazia fervilhar a cabeça, balouçando nas ondas do Índico. 
Eu sabia que mais acima, à esquerda, o Niassa iria entrar numa das maiores Baías de África e com as águas mais profundas que, segundo me contavam, nos meandros da Força Aérea, em Lisboa, dava para guardar e ancorar todas as esquadras de então que a NATO possuía. Era por essa baia que o  Niassa chegaria ao Porto de Nacala.

A seguir: Chegada a Nacala

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Chegada a Lourenç Marques

 Ventor 07.03.05

Com a partida do meu amigo Apolo, rumo a Ocidente, o navio Niassa, devido às informações meteorológicas que lhes chegavam, foi obrigado a lançar âncora no Oceano Índico a poucas milhas da Baía do Espírito Santo que, estaria, segundo as informações da costa sul Moçambicana, num grande pandemónio. Ficamos por ali algum tempo que já não recordo mas foi entre duas a quatro horas, o tempo que durou a tempestade de monções que caiu sobre nós e, pelo menos, sobre o sul de Moçambique e parte da África do Sul. Por fim, lá pelo fim da tarde, foram dadas ordens para o navio Niassa avançar, pois a barra da entrada para a Baía do Espírito Santo estaria em condições de receber o Niassa e o seu recheio. Homens e carga.


 Mapa de Moçambique, obtido pela NASA

Lá fomos nós, rumo à bela Baía com águas alouradas da intervenção do tridente do meu amigo Neptuno que tinha revolvido o areal para permitir a entrada do Ventor e da sua gente. A tempestade tinha sido forte e o acesso da Baía de Lourenço Marques ao Índico estava diluviano, embora o termo não se justifique que não seja pela cor das águas e alguma revolta que o tal Adamastor lhe incutiu, revoltando as águas, julgando, com isso, chatear o Ventor.


Imagem de satélite de Maputo (ex-Lourenço Marques) e da Baía do Espírito Santo 

Dançando um pouco, na crista da onda, o navio Niassa afoitou-se ainda com dia, a entrar no estreito do acesso à Baía onde a ondulação das águas revoltas mais pareciam gestos de saudação daquele nicho de espaço, que tinha sido deteriorado pelo nosso irrequieto Adamastor que caminhou sempre à frente do Niassa para fazer uma espera no local onde o Ventor devia entrar em águas azuis e não em águas revoltas e sujas pela revolta do areal, lá por baixo. Tudo bem até o Niassa passar o centro da Baía. Depois, quando navegava preparando-se para seguir até ao molhe onde iria encostar, todos começamos a ouvir, uma de duas coisas: ou o navio Niassa a roçar no areal da baía ou o ronco do Adamastor todo chateado por não ter conseguido os seus intentos. As sereias a cantar, com som tão roncoso, não eram!

Aquele som diabólico vindo das profundezas da Baía metia o seu respeito. De repente e já de noite, apercebemos que não era o Adamastor mas sim o navio Niassa a gritar com o areal para se desviar do seu caminho. Mas o areal tinha sido encostado nessa ponta da Baía, pelos ventos monçónicos furiosos comandados pelo Adamastor, com cujo trabalho conseguiu encalhar o Niassa, mesmo nas barbas de dois navios mercantes soviéticos, no meio dos quais, o Niassa iria encostar.

Para mim, os navios mercantes soviéticos não eram surpresa porque sabia através de um amigo da Nazaré que trabalhava numa empresa inglesa de estiva, em Lourenço Marques e já me tinha dito que isso, por ali, era o pão nosso de cada dia. Mas a meu lado, vi alguns companheiros de caminhada estupefactos por esses navios não chegarem a Lisboa, salvo autorizações muito especiais, quando o rei fazia anos, mas ainda por cima, nós não tínhamos rei!

De repente, dois potentes rebocadores instalaram-se junto do navio Niassa e começaram a utilizar toda a força que tinham para retirar o Niassa de um banco de areias que o velho Adamastor mandou colocar naquele sítio pelos ventos monçónicos. Mas como isso não era suficiente, uma vos gritou: "todos os que couberem coloquem-se na proa do lado direito do barco para conseguirem concentrar peso nessa área e ajudar os rebocadores. Uma mole humana, como sardinhas em canastra, posicionou-se no local indicado e, com o nosso peso e a força dos rebocadores, o Niassa voltou a gemer. Por fim nos 10 minutos do dia seguinte, meia-noite e 10, julgo eu, ou 10 para a meia noite, não tenho a certeza se 10 minutos antes se 10 minutos depois, lá encostamos nós entre os dois carregueiros soviéticos.

Lourenço Marques - Av. Central, em 1905

A noite onde era esperado caminharmos pelas ruas da bela cidade de Lourenço Marques, acabamos por não sair pois tornara-se tarde para isso. A previsão da chegada com o atraso originado pela tempestade e a espera para o Niassa entrar na baía foi de horas. À hora do lanche ou, o mais tardar do jantar, deveria andar tudo a caminhar pelas avenidas de uma cidade que todos desejávamos conhecer.

A tormenta, se assim preferirmos chamar-lhe, durou horas e eu, que levava Lourenço Marques pintado no meu cérebro, não estava preparado para tanta espera. Quando comecei a ver a baía do Espírito Santo, faltava o meu amigo Apolo e as luzes que via eram as mesmas que conhecia por aqui. Pouco mais estaria no meu cérebro que o mapa e nem sequer tinha a opinião do Major Costa que, apesar de conhecer Lourenço Marques, ficara apaixonado por Luanda e pela sua Baía. Mas tinha outras opiniões! 

Monte Gurué, na Zambézia, zona de plantações de chá onde o Ventor perdeu muitas horas a tentar estudar zonas de todo o Moçambique, especialmente, esta. Não que tivesse algum interesse no seu chá, mas em Moçambique no seu todo 

Pelas perspectivas com que fiquei, à medida que o Niassa ia afastando as águas agitadas, penetrando rumo à bela cidade, já mesmo sem a presença do meu amigo Apolo, tudo aquilo me parecia um encanto. Comecei então a recordar as conversas que, cerca de 5 anos antes, tivera com gente que viera a Lisboa passar entre um e dois meses de férias e me diziam: "Ventor, vais ter de conhecer Moçambique. Mal que chegues lá, eu arranjo-te emprego"! Nessa altura ainda eu não sonhava com a Força Aérea. Foram pessoas simpáticas, uma família constituída por gente da Nazaré, o homem e de Braga, a mulher e mais o seu rebento moçambicano, com idade entre os 18 e os 24 meses. Foram eles, mais outros familiares e amigos que inculcaram no meu cérebro um interesse profundo por Moçambique. Por isso, quando parti para Moçambique, já tinha vários mapas, quase perfeitos, de tudo aquilo.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

A Cidade das Acácias

  Quico e Ventor 03.02.05

Lourenço Marques, a cidade das acácias. Era conhecida, por todos os portugueses que lá viviam, como a cidade das acácias.

Era assim que o Ventor ouvia chamar-lhe. A cidade feiticeira que encantava todos que lá chegavam. A cidade que mais que qualquer outra o Ventor gostaria de conhecer.


O Ventor encontrava-se no centro do mundo, ao sul do Equador

Aquele amigo, de olhos esbugalhados, disse: "Oh, Ventor!!! Que raio estás aqui a fazer, pá? Vieste para Moçambique e não disseste nada à malta!? Já não vou trabalhar hoje! Espera aqui um minuto. O Ventor esperou e foi olhando em volta esse seu amigo e a Baía. Lá estava ele a falar com um negro civil que também tinha entrado e deu-lhe as devidas instruções. Depois, conversando os dois, rumaram para a cidade. O seu amigo ligou para o escritório da Companhia (inglesa) e informou-os da sua situação. Tinha chegado um amigo de Portugal e iria mostra-lhe a cidade das acácias. Esse amigo sempre acreditou que, do modo como o Ventor falava de Lourenço Marques, em particular e de Moçambique, em geral, mesmo antes de ir para a Força Aérea, haveria de chegar o dia de lhe mostrar a cidade que enfeitiçava todos. E mesmo sem o Ventor o ter informado, o Senhor da Esfera quis que assim fosse!

O Ventor ainda tinha cerca de 2.000 km para percorrer, na saga dos Lusíadas ...

Assim foi! Meteu o Ventor no carro e foram direitos à Costa do Sol. Desde essa hora da manhã, até cerca do meio dia, correram Lourenço Marques em todos os sentidos. Depois olhou o relógio e disse: "agora vamos buscar o puto que saiu da escola. Oxalá não nos atrasemos". Chegaram ao local da escola e lá estavam dois putos a jogar ao berlinde. Um lourinho e outro negrinho, assim tipo a publicidade da Benetton, de traulitada no berlinde. "Conheces este Paulo"? O puto pegou no berlinde, levantou-se e olhou com atenção. "Eh, BOY"! «Era assim que ele me chamava, cerca de cinco anos antes. Nunca mais me tinha visto. Mas conheceu-me! Com cerca de dois aninhos, ele pedia-me para o levar à rua ver o eléctrico da Carris. Abraçou-se a mim e não tinha dúvidas nenhumas que tínhamos ficado grandes amigos».

«Depois fomos almoçar num dos melhores restaurantes de Lourenço Marques, na Av. da República. Por fim, fomos até ao Aeroporto e passamos a tarde numa grande azáfama, para trás e para diante. Lá para perto da noite fomos jantar a outro restaurante. Fui ver as outras pessoas que não via há muito tempo. Fomos à casa de uns, à casa de outros e vi toda a gente que julgava só voltar a ver, um dia na Metrópole. Se tivesse informado da minha chegada, se calhar, os encontros não seriam tão efusivos.

Por fim, já acalmados da euforia da cidade das acácias, veio o que eu não esperava»!

"Ventor, vou telefonar para o Estado Maior da Força Aérea, ele é meu compadre e vais ficar connosco, em Lourenço Marques. Ficas na nossa casa e vais trabalhar para o AB8. Como a guerra ainda está longe, aqui não fazes nada. Ficas dois anos em Lourenço Marques, podes usufruir de belas praias e ninguém te vai chatear"!

«Não! Tenho um objectivo, há muito definido que não vou desperdiçar. Já que cheguei até aqui, tenho um rumo e esse rumo é o Niassa. Agradeço muito a disponibilidade, sei que seria ideal para quem não está farto de cidades, mas eu fartei-me de Lisboa. Arranjarei maneira de chegar ao AB6, no Niassa. Tenho a certeza que haverá muita malta que vão preferir qualquer outro local para onde eu vá, para trocar comigo se for caso disso. Mas, para já, o meu objectivo será o AB6». "Mas, sendo assim, se estás tão empenhado, eu falo com o meu compadre e ele mete-te lá, até vais poder ir de avião, se quiseres".

«Não, muito obrigado, mas quero seguir o meu rumo com toda a naturalidade. Quero conhecer toda a logística da guerra e, para isso, vou continuar no navio Niassa, até Nacala, o fim da linha. Dali, por avião ou por linha férrea, arranjarei maneira de chegar a Nova Freixo. Comigo, as águas têm de continuar no seu leito.

Tínhamos ordens de regressar ao Niassa pelas 22 horas onde estaria um oficial da 3ª Região Aérea para fazer a distribuição do nosso pessoal. Conversa daqui, conversa dali, tinha marcado encontro com o meu amigo algarvio, para chegarmos ao barco até às 22 horas como estava determinado. Quando ele chegou, diz o meu amigo para o algarvio»: "está a ver este gajo! Podia ficar aqui no AB8 e quer ir para o Norte, para o Niassa. Dá Deus nozes a quem não tem dentes"!


Lourenço Marques era, de facto, a cidade das acácias

"Pois é. Só eu queria ficar aqui e não vou poder. Este gajo é burro" - disse o algarvio. Conversa daqui, conversa dali, o Capitão da 3ª Região Aérea ficou no Niassa, até à nossa chegada, cerca da meia noite. Foram os dois últimos a chegar ao Niassa!

"Com que então, já vi que gostaram de Lourenço Marques. Mas eu aproveitei para beber aqui umas laurentinas mas não gostei nada. Não! Não foi das laurentinas, podia bebê-las noutro lado! Por isso, como castigo, vocês que até podiam ficar cá, no AB8 ou, onde quisessem, vou enviar-vos para a Base Aérea 10, para a Beira". Virou-se para o Ventor e repetiu: "você tem notas para ir para onde quiser. Era só dizer e, como castigo, vai para a Beira e esse amigo vai consigo"!

«Já pedi desculpa pelo atraso - disse o Ventor - e, quanto a ir para onde quiser, estou-me nas tintas para onde vou. Podia ficar nesta cidade vou para outra. Que interessa»?

"Ai é assim? Então vão para um sítio pior, para o AB5, em Nacala e acabam-se as cidades"!

«Pela informação que tenho, há lá boas praias, se calhar melhores que as da Beira - disse o Ventor. Vou bem na mesma. Virou-se para o algarvio e perguntou-lhe: «e tu, pá»? O algarvio encolheu os ombros.

"Não há nada a fazer. Vou enviar-vos para o pior sítio de Moçambique - o AB6, em Nova Freixo"!

«A mim, por castigo AB6, pronto mas, Sr. Capitão, deixe este gajo ficar em Nacala, ele é algarvio, gostará, certamente, de ficar junto de uma praia».

"Era o ficavas! Vão os dois para o AB6".

«Eu irei - disse o Ventor - eles se calhar não»!

Acabou-se a algazarra no Niassa. Segundo o Ventor, esse Capitão até parecia um tipo porreiro. Se o Ventor não tivesse por objectivo o Niassa, está convencido que faria outro jogo e tudo voltaria à primeira forma. Mas o Ventor tinha o seu objectivo alcançado - AB6, era ali que tudo teria de começar. Foram-se deitar mas o Ventor não dormia. «Por minha causa, aquele gajo vai ter de ir para onde não queria. Ele tinha-me dito»: "não te preocupes comigo, o que não tem remédio, remediado está"!

Mas ele tinha sido amigo do Ventor a valer. Tinha-lhe guardado as malas, em Lisboa, evitara-lhe muitas filas no Niassa, pelas cervejas e bolachas baunilha, e o Ventor achou que, se pudesse fazer algo por ele, tentaria.

De manhã, lá estava o seu amigo que a cidade tinha enfeitiçado. "Não vou trabalhar, vamos passear"!

«Aquele gajo que esteve connosco ontem, que tanto queria ficar aqui, foi empurrado comigo para Nova Freixo e a culpa foi minha. Ele podia ter ficado na Beira mas eu enrolei tudo. Se tiver bastante confiança com esse Coronel tirocinado, o seu compadre, podia pedir ao gajo para ele ficar cá». "Se é isso que tu queres, vou-lhe telefonar e falo com ele".

Daqui por algum tempo, veio a resposta: "fulano não vai partir para Nova Freixo, foi convocado para o AB8".

O Ventor iria perder um amigo para sempre, pois nunca mais o viu. Mas, durante os dois anos, comunicavam por rádio de vez em quando, quando se proporcionava e quando o Ventor transgredia.

O Ventor não se recorda bem dos timings do Niassa mas recorda-se que se despediu daqueles amigos que só voltou a ver, e não todos, dois anos e um mês depois, em Fevereiro de 1970. Só anos depois, encontrou, por casualidade, no Rossio, o seu amigo da Nazaré e já passaram cerca de 30 anos. Nunca mais viu ninguém dessa gente de Lourenço Marques. Foi conhecendo outros.

O Ventor não se importava de seguir, até ao fim, na rota do Vasco da Gama

Entretanto, depois de um dia e meio frenético, em Lourenço Marques, chegou a hora da partida. A próxima meta do Ventor iria ser Nacala. O navio Niassa seguiria mais para Norte, creio que até Mocimboa da Praia, para largar carga e militares do Exército. Para a Força Aérea, Nacala era o fim da picada.

O Ventor viu retirar as amarras ao navio Niassa, viu que ainda estava no mesmo local um dos dois carregueiros soviéticos e que a sua tripulação lhe parecia simpática porque, do convés do seu carregueiro, assistiram ao adeus de gente de Lourenço Marques ao Niassa, os choros de familiares e dos amigos dos que seguiram viagem como ele e, os soviéticos, quando ouviram o Niassa apitar, iniciando o arranque para abandonar a Baía do Espírito Santo e se fazer à largueza do Oceano Índico, partilharam com eles as suas saudações, levantando os braços, acenando e sorrindo.

Cruzando a baía a toda a largura, o Niassa parecia dizer aos areais da antevéspera para se afastarem. Ao sair da Baía do Espírito Santo, o Ventor caminhou para a ré do navio Niassa, voltou a olhar Lourenço Marques e, lembrando-se dos seus amigos, perdendo-a de vista, disse: «adeus, cidade feiticeira, até um dia».

Antes: Lourenço Marques

A Seguir: De Lourenço Marques a Nacala

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Frente ao Adamastor

 Quico e Ventor 16.12.04

Após a saída de Luanda, deixando para trás a sua bela baía, aquele belo anfiteatro da parte baixa da cidade e a célebre Fortaleza de S. Sebastião, em cujo chão trepidavam as botas cardadas dos nossos para-quedistas, continuamos a afundarmo-nos mais, nos calores estivais do Atlântico Sul.

Saídos da baía e já virados a sul, ao nosso lado esquerdo, a bombordo, se preferirem, situava-se o Continente Africano e, á nossa direita, ou a estibordo, toda a largueza do Atlântico profundo. À medida que a quilha do Niassa cortava as águas frias da corrente de Benguela, para trás ficava o Equador, a saudade, tudo! Também ia ficando Angola, o Sudoeste Africano (Namíbia), a costa atlântica da África do Sul e calculávamos que, ao virar da esquina, lá mais ao fundo, torneando o Cabo que tinha sido, em tempos, o  Cabo das  Tempestades e depois, o Cabo da Boa Esperança, por ali, algures, esperaria o Adamastor 


Foto tirada da Wikipédia de autoria de Joseolgon.  A utilização deste ficheiro é regulada nos termos da licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada

Entretanto, à medida que realizávamos esse troço da nossa caminhada, dentro do navio Niassa continuava a nossa saga diária. Comer, dormir, jogar, ler, olhar o mar, beber a famosa cuca das nossas gentes angolanas e, já se tinham ido as frutas penduradas, os chouriços, tudo, menos a cuca e a bolacha baunilha que, como suplemento alimentar, continuavam a fazer parte da minha caminhada.

De resto, para ocupar o tempo, lá iam continuando os alertas do Niassa para corrermos a colocar os coletes salva-vidas, os coletes da esperança caso a coisa desse para o torto. Tomar banho nas profundezas do Atlântico de norte a Sul, não seria a mesma coisa que tomar banho nos pocinhos de Adrão, nas praias da Caparica, de Carcavelos, ... e, o colete salva-vidas servia também para nos dar um certo aprumo psicológico. As orcas que nadavam ao lado do Niassa, na corrente fria de Benguela e rumo à cidade do Cabo, escangalhariam qualquer arranjo psicológico que nos traria o célebre colete laranja e mais acreditaríamos na grande caçada que as orcas, organizadas em grupo, fariam se tivéssemos de mergulhar nessas águas com colete ou sem colete. Nem nos valeria pedir o tridente ao meu amigo Neptuno para, com ele, espetar as orcas.

Sempre que espreitava as orcas, via a maioria delas sempre a bombordo, isto é, entre o navio Niassa e o Continente africano. Até parecia que elas saberiam que, se tivéssemos de ir ao mar, a rota escolhida seria rumar para terra, o lado preferido delas. Seria pensado por elas ou mera coincidência?

A partir de determinada altura, próximo da viragem para o oceano Índico, começamos a avistar a Montanha da Mesa (Table Mountain), a tal que me tinha roubado algum tempo quando eu me dedicava aos meus estudos de geografia africana. Junto com ela, começou a instalar-se mais afincadamente na nossa memória, a sempre presente ameaça do Adamastor. Porém, o mar continuava sereno, os dias continuavam lindos com uma visibilidade de 40 km ou mais, pois dava para, na companhia do meu amigo Apolo, observar bem os contornos das costas sul africanas.


O Adamastor estava presente, mas escondido

Bartolomeu Dias, foi o primeiro europeu a passar este Cabo a que chamou o Cabo das Tempestades mas, D. João II, achou melhor rebaptisa-lo de Cabo da Boa Esperança. Ele acreditava que, rumando para Leste e, uma vez que Bartolomeu Dias, já tinha seguido para leste até 800 km deste Cabo, restava a Esperança de haver continuidade até alcançar o desejo da época. Chegar à Índia! 

O Adamastor não se mostrava. Estaria encostado à sombra das rochas com receio do meu amigo Apolo e com a presença do Ventor. 

A mim fazia-me confusão ele esconder-se pois conhecia pessoas que viajavam de Moçambique para Portugal e vice-versa e não conhecia ninguém que não tivesse tido problemas com o Adamastor. Pelo que sabia, a passagem do cabo era terrível para todos e estava a ser uma maravilha para mim.

Com o tempo e com algum raciocínio, comecei por perceber que ninguém vinha para Portugal no Inverno. Portanto, para apanharem cá o verão, viajavam na nossa plena Primavera, caminhando nos Outonos africanos. Na nossa viagem, caminhávamos, por lá, em pleno verão.

Ao passar em frente da cidade do Cabo, observando-a do largo, um colega muito observador, de olhos fixos em mim, diz: "oh, Ventor, estás mais encarnado que um tomate"!

Teria de estar! As minhas caminhadas eram feitas no estrado do navio Niassa, sempre ao sol e a observar as costas, as orcas e não só. O meu campo de exercícios era da ré à proa e vice-versa, sempre a observar qualquer coisa, a bombordo ou a estibordo e, mesmo que não dê para acreditarem, quase sempre só, de noite ou de dia. Chegava mesmo a ficar a observar a bandeira durante tempos sem fim, drapejando ao vento e a desfazer as linhas que a constituíam. Não fosse isso e estaria a ler!

Passei a mão pela testa e mais parecia uma cobra a largar a camisa. A pele saía enroladinha, tal como quando compramos uma carpete e a levamos para casa toda enrolada. Tudo isto, frente ao Adamastor! O meu amigo Apolo queria-me ver bem impressionado ao abandonar o Atlântico e ao penetrar no Grande Oceano Índico.

Também o Bartolomeu Dias, o Vasco da Gama e outros, já lá tinham passado, centenas de anos antes pelo Cabo da Boa Esperança

Foi nesse momento que, agarrado às amparas do navio Niassa, observando as águas sem saber se ainda estávamos no Atlântico ou se já navegávamos no Índico, vi um corpo colossal aparecer à superfície da água, uma espécie de monstro de Loch Ness. O mesmo estilo de imagem. Um corpo cilíndrico, tipo cobra gigante com cor de truta salmonídea, com muitos metros de comprimento mas, sem ver ou identificar uma cabeça ou um rabo. Imaginem que sai à superfície do mar um colosso em forma de cobra em que só vemos o cilindro, sem aparecer cabeça nem rabo. Esses mantiveram-se debaixo da água. Pelo menos, não tive tempo para os identificar.

Procurando vídeos e fotos sobre animais marinhos, nunca vi nada semelhante.

A cidade do cabo e a Montanha da Mesa como vista da rota naval 

São lindas as costas da África do Sul, vistas do mar largo. Navegando no Oceano Índico, continuamos a observar a beleza das cidades costeiras sul-africanas e as suas enseadas, especialmente Port Elizabeth e Durban (a antiga cidade de Natal).

Até um pouco a seguir ao largo da cidade do Natal, rumando à cidade de Lourenço Marques, o meu amigo Apolo nunca me tinha abandonado. Mas, chegados ali, disse-me apenas isto: "Ventor, agora estás por tua conta. Caminhei contigo até passarmos o Adamastor. Sempre que pudermos, estaremos juntos nas horas difíceis. Mais um pouco e estarás nas tuas águas. Agora, tu rumas para Leste e eu para Oeste"!

Começamos a separar-nos, nesse dia, desde que saí de Lisboa em que ele me acompanhava de manhã à noite. Mas logo que Apolo abalou, pela primeira vez na minha vida, iríamos enfrentar as monções do Oceano Índico. O Adamastor, aquele falsário, afinal, não estava escondido nas rochas das costas sul-africanas. Ele ameaçou-nos em pleno Índico, a algumas milhas da Baía do Espírito Santo, em Lourenço Marques.

Antes: Entre o Equador e Luanda

A seguir: Chegada a Lourenço Marques

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Entre o Equador e Luanda

 Ventor 15.11.04

Mais uma etapa na nossa caminhada rumo a Moçambique

Entrado mar dentro e, perdido o cabo mais ocidental da Europa, na bela serra de Sintra, no meio da longínqua bruma, esfumado todo o nosso mundo, ficamos apenas nós, cerca de 1.800 homens, o Niassa, o céu e o mar. Ah! Mas sem esquecer os golfinhos que, pareciam adivinhar que, aquele barco, apenas transportava sonhos.

No entanto, saídos do convés e deixados os golfinhos saltando e procurando dar ânimo àqueles que continuavam a observá-los, como eu, feita a entrada no porão, haviam aqueles que já, com as saudades a miná-los, escreviam às suas gentes, para colocar no correio, à chegada a Luanda.

Dali, acabados os suspiros daqueles que ainda mal acreditavam no que lhes sucedia, até à linha do Equador, as profundezas do Niassa, tornaram-se num autêntico casino onde os jogos eram o caminhar na esperança da continuidade do passado de muitos que nada mais poderiam fazer.

Também eu, depois de me encantar com os golfinhos, desci do convés, observei diversas jogatanas e, deitei-me sobre a cama a ler um livro do Descartes, o "Dez Cartas", como eu lhe chamava!

Perdidos, naquele submundo, lá fomos, jogando, comendo, lendo ou dormindo, pois o cansaço originado naquela euforia, desde o Natal de 1967, até 4 de Janeiro de 1968, fora intenso. Só encontramos mais uma rejuvenescida euforia ao chegarmos à linha imaginária do Equador.

Saídos da paragem equatorial, naquele belo dia de Janeiro, virados a sul, quatro horas depois, o Niassa lá seguiu aprumado, rumo a sul, com a bandeira verde-rubra a esfarrapar-se toda, vassourada pelos ventos que rondavam o mastro.

Ao aproximarmo-nos de Luanda, sentíamos a curiosidade de observarmos a sua baía de sonhos de que muitos de nós já ouvíramos falar. Ali estava ela, à frente do Niassa e, na sua frente, a baixa de Luanda, encostada ao Planalto, por onde a cidade prosseguia mas que, nós, estávamos longe de imaginar.

Foi então que me recordei das conversas que tinha com o Senhor Major Costa e outros companheiros da DSCTA, na Av. António Augusto de Aguiar. Dizia ele: "Fox, no mundo só há três maravilhas! A cidade de Rio de Janeiro, a Catedral de Chartres e a Baía de Luanda". 

Cada um tem os seus gostos e o Major Costa tinha os dele. Mas, a verdade, é que eu estava, então, ali, a observar uma das suas maiores belezas deste mundo. A célebre Baía de Luanda.


Luanda - foto tirada da Wikipédia de autoria de Paulo César Santos

A Marginal de Luanda é mesmo linda. Acredito que nesta baía e nesta cidade, batem forte e conjuntamente, os corações de angolanos e portugueses

À medida que o Niassa sulcava as suas águas, os meus olhos tentavam perscrutar tudo que estava ao meu alcance. À nossa  esquerda a cidade, lá no topo, a Fortaleza de S. Sebastião.  Eu apreciava a beleza da Baía, da Av. Marginal e da parte da cidade que vinha dos lados do Planalto e se debruçava sobre a baía. No entanto, o que nós mais queríamos era esquecer o arroz "mofoso" e matar a fome.

O Niassa atracou no cais e logo nos deram autorização para pisarmos a terra firme de Angola. Era Luanda! A capital da parte da mãe negra que estávamos habituados a ouvir gritar: "é nossa"!

Saídos do Niassa com uma enorme vontade de comer algo diferente, lá fomos nós vasculhar a bela cidade de Luanda. Primeiro, direitos aos Correios e tentar pesquisar quaisquer tascos pelo caminho.

Lá fomos quatro "garimpeiros" à procura das nossas pepitas. Chegados aos Correios, as filas eram enormes para colocar selos, para telefonar, para ... consegui comprar uns postais, fugi das filas e fiquei com eles no bolso.

Por fim, Luanda "deitou-se", e depois de verificarmos que Luanda mais parecia uma cidade ocupada militarmente, pois só víamos militares, representantes das três armas, saídos do navio Niassa e cerca de dois dias antes os que saíram do Vera Cruz, muitos ainda andavam por ali, lá fomos encontrar, já perto da meia noite, na hora do fecho, um tasco que nos conseguiu arranjar umas bifanas que, enroladas em cerveja cuca, lá nos apasiguaram corpo e alma.

Por fim, comidos e regadinhos com a cerveja cuca, em vez de descermos até ao Niassa que nos aguardava na Baía, para dormirmos, resolvemos continuar a subir até ao Planalto. Passamos toda a noite a caminhar por uma cidade que dormia. Caminhando pelas ruas de Luanda, passamos uma noite onde o som predominante, além das nossas passadas nas calçadas, eram as chaves dos guardas noturnos.

Ao raiar da aurora, aproximamo-nos do mercado de Luanda e resolvemos fazer, por ali, uma boa caminhada até ele abrir. Nas calçadas de Luanda, além do barulho dos nossos sapatos, começamos a sentir alguma concorrência. Verificamos, então, que as pessoas se tinham deitado cedo e, também, manhã cedo se começaram a dirigir para os seus trabalhos.

Um desses locais era o mercado de Luanda. Escusado será dizer que fomos nós, os primeiros clientes! Entramos e ficamos encantados com algumas das coisas que nos serviriam, belamente, para levar na nossa caminhada até à próxima paragem - Lourenço Marques. Presunto, chouriços, queijo e fruta.
Muita fruta! Ananás, laranjas, bananas, mangas e, algo muito especial - uvas! Uvas, no mês de Janeiro, para nós era um milagre! Vinham da África do Sul e podem crer que eram muito boas. Fomos todos carregados para o Niassa. Nenhum de nós os quatro perdia dinheiro em batotas, uma doença terrível!

Levamos as nossas compras para o Niassa e saímos de seguida para não cometermos o erro de chegar atrasados ao restaurante onde eu estava decidido a matar a fome, nesse dia, 15 de Janeiro de 1968.

Arrumamos as nossas compras mas o espaço era iníquo. Pendurei as frutas por cima da cama e lá fomos nós. Arranjamos um restaurante com uma boa esplanada. Eram 11 horas e começamos a ver o que havia para matar a sede sem ser cerveja. Eu estava enjoado de cerveja e de bolacha baunilha.

Vi uma garrafinha verde, muito bonita, cheia de bolhinhas e, foi então, que bebi o meu primeiro seven up. Aqui ainda não havia. Bebi o seven up mas o calor era tanto que voltamos à cerveja. Depois de bem regados pedimos um frango assado para cada um, acompanhado de batatas fritas! Disse logo ao empregado; não nos traga arroz, senão podemos dar cabo da esplanada! Nunca mais esqueci aquela esplanada! Até já a vi em sonhos mais de uma vez!


 O Ventor e um algarvio a matarem a fome em Luanda

Acabados de almoçar, demos mais uma volta, pela Marginal de Luanda. Tiramos umas fotos e de volta ao Niassa, fomos falando com as pessoas, mortas de saudades do "Puto" (Portugal) que se mostravam tristes quando dizíamos que seguíamos para Moçambique.

Por fim, lá entramos no Niassa, para a nossa segunda etapa, rumo a Lourenço Marques. Quando cheguei ao barco, de barriga bem cheia, assustei-me com aquela fruta toda! Disse logo: "estou lixado se levo com um ananás em cima da cabeça quando estiver a dormir"!

Com a serenidade devida, comecei a imaginar que a fruta tinha sido um mau investimento. E era mesmo! O calor iria estragá-la depressa e, por isso, o melhor era comê-la enquanto fosse viável. Um paraquedista que eu não conhecia de lado nenhum, pediu-me dinheiro emprestado para o seu jogo da lepra. "Escolheste a porta errada, pá! Se quiseres comer fruta, tens aí. Dinheiro para jogo? Do que Deus te livrou"!
Esperei a partida do Niassa, observando Luanda e a sua Baía. O sol estava bem lá para o Oeste do Atlântico, rumo às Américas e nós, preparávamos a partida para a etapa que nos levaria a rodar o Adamastor, um amigo de estimação dos nossos antepassados e gáudio das nossas aulas de Geografia. Com os acenos de angolanos e alguns familiares da tropa que iria avançar para Moçambique, levantamos âncora e começamos a refazer o rumo que trazíamos de trás. Dissemos adeus a Luanda até uma próxima vez que, alguns, nunca mais teriam ...

Antes: Mar Alto

Depois: Frente ao Adamastor

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...