terça-feira, 8 de novembro de 2005

As zebras

  Ventor 08.11.05

As belezas listadas

As zebras - segundo a visão do Ventor

As zebras são animais lindos e encantadores que animam os olhos de quem as possa apreciar em plena savana africana misturadas com os gnus, seus companheiros de caminhada, ou mesmo nos Jardins Zoológicos, onde enchem de alegria a pequenada e os seus avós. Apesar de serem animais belos e que nenhum mal fazem ao homem, o espírito assassino deste, tem procurado dar cabo delas e as gerações futuras só poderão continuar a apreciá-las se as gerações presentes soubessem preserva-las e mantê-las para herança dos seus filhos.

O mesmo se poderá dizer de todos os outros animais, incluindo o homem, que vagueiam nesta bola giratória enquanto os elementos o permitirem. Basta dedicarem-se um pouco à Astrofísica para se aperceberem do perigo que todos corremos. O Ventor, por exemplo, anda coxo e, segundo ele me contou, só um raio cósmico o poderá ter atingido na barriga da perna deixando-o a pão e laranja.

Mas ele até é capaz de ter razão. Os raios cósmicos andam aí a fazer fogo ao alvo e são um perigo permanente. Para além desses perigos permanentes temos ainda outras possibilidades de ficarmos tão mal na nossa Caminhada pela nossa Via Láctea que podemos desaparecer num ápice. Vejam o que dizem os cientistas. Há mais de 100 milhões de buracos negros na esfera conhecida e a confusão é tão grande que podemos imaginarmos-nos presos por araminhos, sempre prontos a rebentar. Vejam a seca que nos está a atingir! Diz o Ventor que acredita que sejam coisas do Marduk, porque ele anda aí! Este Marduk, é aquilo a que os cientistas chamam o Planeta X ou "décimo planeta". Pensa o Ventor que pode ser aquele de que ele vos fala na Mesopotâmia! Mas se é, está tudo lixado! Juntando a isto a ambição desmedida do homem, ficamos pendentes do improviso.

Mas continuemos com as nossas amigas zebras. Elas embelezam, de facto, as savanas!

 São uma beleza estas amigas do Ventor

O Ventor diz que, lá em Moçambique, só viu as zebras do ar, quando o avião "caminhava" por cima e elas caminhavam por baixo. Isto acontecia mais quando estas máquinas desciam um pouco deixando os animais atormentados com o barulho desenfreado daquela coisa metálica que, de vez em quando, os incomodava quando aparecia, de repente, nos céus do seu mundo. Mais precisamente, nos céus do Revia e do rio Lugenda onde se podiam avistar boas manadas de zebras e bois cavalos (gnus). Por isso o Ventor tem vontade de voltar a África, ao Moçambique, ao Lugenda!

Mas o Ventor diz que recorda e nunca esquecerá os seus gritos que se fazem ouvir lá longe, na savana. Havia, em Marrupa, uma lângua que se dirigia para ocidente e bastante afastada da nossa zona, do AM62, talvez uns 15 kms, haviam perus selvagens, segundo lhe diziam. Mas o Ventor, que se fartou de trepar esses quilómetros, diz que via realmente aves grandes mas que para ele não passavam de abutres e, ainda hoje, quando a refeição calha peru, diz: "vamos ao abutre"!

Na verdade, à custa dos perus selvagens, ainda hoje, o som típico das zebras anda nos ouvidos do Ventor. Segundo o Ventor e eu acredito nele, o som mais característico dos animais, em África, é o arrulhar das rolas e os estridentes gritos das zebras. Quando nessa lângua de Marrupa os chamados perus selvagens fugiam à frente do Ventor e dos seus amigos, ouvia-se, lá longe, ainda à frente dos perus, o característico grito das zebras a que não podemos chamar relinchar!

Os animais de grande porte, são todos das savanas

Mas as zebras têm uma boa corrida (65 kms por hora) e, quando se apercebem da presença do homem, vão-se afastando sempre e só com um todo o terreno são alcançáveis. Era sempre muito longe que os caçadores profissionais apanhavam os bois cavalos (gnus) que vendiam para serem comidos por pretos e brancos, como para o Exército e a Força Aérea. As carnes que o Ventor e os amigos comiam eram, quase sempre, de caça, como boi cavalo, facochero (uma espécie de javali africano), galinhas do mato, changos (várias espécies de antílopes) e outros.

A propósito de corridas, a velocidade da zebra está cotada em 65 kms/hora, enquanto que a cotação do gnu é bastante mais elevada, 80 kms/hora e como andam sempre juntos, sendo a velocidade do leão de 80kms/hora também, é caso para pensar se, como dizem alguns especialistas, o leão prefere a carne da zebra à do gnu por ser mais saborosa para si ou se será de facto por ter mais possibilidades na caçada? Se calhar é as duas coisas!

Mas voltando à conservação das espécies, diz o Ventor que merecem grande apoio todos aqueles que, de boa fé, tudo fazem para manter, junto de nós, estes belos animais listados. Todos sabemos que os homens tal como todos os outros animais, aprendem com os seus erros. E tem sido baseado nos muitos erros cometidos pelos homens que, muitas das espécies têm desaparecido do nosso convívio. Aqui foco apenas o extermínio das zebras sul-africanas. Segundo os homens amigos do Ventor que zelam pela estabilidade e harmonia de todos os nossos companheiros em vias de extinção, a África do Sul tinha tudo para ser um verdadeiro paraíso na Terra.

Tinha uma grande riqueza de fauna, uma paisagem harmónica e um clima excelente o que fazia deste canto do nosso Planeta uma maravilha para os animais selvagens, incluindo-se as zebras. Mas os colonizadores boers que terão sido um grupo de gente inculta e egoísta, como todos os que atingiram as costas de África, ao penetrarem para o interior do Veld encontraram uma região rica em animais selvagens, cheia de espécies de zebras, manadas de elefantes, girafas, rinocerontes brancos, antílopes, etç. e logo começaram  a chacina!

Os animais selvagens africanos, bem como homens, os Bosquímanos, foram exterminados com a mesma fúria de homens insensatos e hoje, uns e outros, encontram-se quase exclusivamente em parques nacionais.

A quagga deixou-nos para sempre

As zebras quaggas, era assim que os hotentotes lhe chamavam, existiam em grandes bandos pelo Veld onde os colonizadores queriam instalar as suas granjas e por isso, na sua óptica, teriam de as abater o que fizeram até lhes acabarem com a espécie, tendo sido morta, em Aberdeen, em 1758, o último exemplar selvagem. Só em alguns dos jardins zoológicos foram mantidos alguns exemplares, durante cerca de um século, morrendo a última zebra quagga, no jardim zoológico de Amesterdão.

Também a zebra da montanha, assim chamada por só viver nas montanhas no extremo sul da África, a mais parecida com o burro, estará quase extinta se é que ainda existe, pois em 1956 só haviam cerca de 75 exemplares no Parque Nacional da Zebra da Montanha, na Província do Cabo.

Como vêm, o nosso amigo Ventor ensina-me a olhar os nossos amigos selvagens com outros olhos e a preocupar-me com eles. Por isso, eu coloco aqui o que o Ventor me ensina para aqueles que gostam de saber muitas coisas e quando levarem os vossos filhos ou netos aos jardins zoológicos que se encontram por esse mundo fora, não se esqueçam de os ensinar a respeitar os outros animais selvagens.

Para isso, devem começar por os ensinar a respeitar os companheiros de casa! Cães, gatos (pois claro), pássaros, ratinhos e ... todos os outros. Por exemplo, nas touradas, onde o bicho homem teima em divertir-se com o sofrimento do touro, não os ensinem a ir lá. Deixem que a bestice humana termine por frustração, já que ninguém está com vontade de fazer uma lei que meta no bom caminho esses "calhaus" humanos também a passear-se entre nós que nos atingem furiosamente.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

O Facochero

 Quico e Ventor 08.11.05

Outro amigo africano

Nas savanas africanas, diz o Ventor, coexistem facocheros, elefantes, leões, leopardos, chitas e um sem fim de animais. Hoje coloco aqui o que o Ventor me contou do facochero.

«Na mesma tarde que vi o leopardo, na rapada onde a água nascia, depois da peripécia, devido à hora, decidimos regressar ao Aeródromo pelo mesmo caminho que tínhamos levado. Cada um voltou no sentido inverso e eu, que na caminhada anterior era extremo esquerdo, passei, no regresso, a ser extremo direito. Após um bocado de trajecto, caminhávamos no silêncio, na perspectiva de encontrarmos perdizes, daquelas que voam de árvore para árvore que andavam por ali, porque a outra caça teria sido espantada com a nossa passagem.

Eu continuava afastado do companheiro mais próximo que seguiria à minha esquerda e, de repente, sinto um restolhar violento no mato à minha esquerda e sinto um bólide passar junto às minhas pernas que nem sei se deu para as encolher e saltar, à retaguarda, mas creio que foi isso que fiz. Ainda em desequilíbrio, apontei a arma que ainda levava com os zé-galotes que tinha mudado no encontro com o leopardo e disparei. Só no momento do tiro é que me apercebi que o animal que ia tentar abater era um facochero!

Facochero, companheiros do Ventor mas sempre em fuga

Eu não ia disposto a fazer fogo sobre perdizes ou fosse o que fosse mas aquele bruto terá feito tudo para me apanhar à passagem e eu iria fazer tudo para que ele se arrependesse!

Buuuuuummm! Ele ia entrar no mato depois de passar alguns metros de rapada à minha frente e não deu tempo para me esmerar na pontaria e vi que ele foi atingido no quarto direito, mais ou menos a meio, devido à guinada que deu mas, a corrida continuou por entre o mato e penetrou na floresta galeria perdendo-o de vista. Ao som do tiro, os cães saíram do mato em minha direcção e foram atrás do facochero mas, não passou, para eles, de "era uma vez" ...

Chamei os cães de volta e os meus companheiros de caminhada aproximaram-se de mim em correria a perguntar sobre o que fiz fogo. Contei-lhes a peripécia e limitaram-se a olhar os cães que estavam tontos com o cheiro do facochero e com o som bruto de um tiro. Dirigi-me ao local onde atingi o facochero na esperança de encontrar sangue, mas nada! Que ele levou chumbada eu tinha a certeza mas, também, apesar de ser perto, não tive tempo para lhe dar o segundo tiro, pois ele largou o baixio e entrou no mato seguindo para outro local baixo e nunca mais o vi.

Eu nunca me atrevi a ir só, sem os cães, para procurar este tipo de animal africano mas, muitas vezes pensei em fazer isso, no entanto, os cães, eram uma companhia perfeita para um alerta mais completo e, como muitas vezes ia só, sem mais ninguém, a companhia dos cães era para mim mais que desejada e nunca esqueço o Zorba, a Diana, o Bolinhas e depois a outra Diana (ainda cachorrinha), filha da Leoa que foi levada de Vila Cabral para Marrupa e, por vezes, as caminhadas eram tão grandes que, durante espaços razoáveis, tinha de a levar ao colo. Eles foram meus companheiros de caminhadas, sem fim, durante oito meses e meio.

Mas alguns dias depois da investida do facochero, outra rapaziada no helicóptero, um Polícia da Força Aérea, disparou um ou mais tiros de G-3 sobre um facochero que, ferido, com os intestinos de fora, caminhou, pelo menos, cerca de 3 kms até cair exausto. Eu dirigi-me ao helicóptero e observei o bicho e até lhe tirei fotos e ao olhar o local onde julgava ter acertado com os zé-galotes, no tal de há dias atrás, reparei que, aquele animal era o mesmo que me tentou empurrar para o lado, pois tinha as marcas que os zé-galotes lhe deixaram na perna. Eram três sulcos de raspão na pele da perna e era, sem dúvida, aquele o magano que quis atirar-me para as calendas.

 O facochero

Os facocheros são animais poderosos que atingem 90 cm de comprimento (cabeça e tronco), 75 cm de altura no garrote e um peso que vai até 80-95 kg. Eles têm uma cabeça gigantesca e as suas presas chegam a atingir, acompanhando a curva, cerca de 60 cm, embora, na generalidade, meçam cerca de 30 cm.

O facochero é um animal da savana, embora se veja muito nos bordos dos bosques, especialmente, em zonas lamacentas, junto a florestas galerias, em grandes varas, pastando ajoelhados no chão a apanhar raízes e tudo que lhes sirva de alimento. Eles têm as joelheiras das pernas anteriores, por baixo das articulações, calejadas e, embora já nasçam com essa zona calejada, com o caminhar do tempo ficam mais duras. Tudo, ou quase, cria as suas especializações para sua defesa e estes não são excepção mas, os animais que os caçam, também se especializam nas suas caçadas.

Os leões, por exemplo, para apanhar os facocheros, organizam-se em estafetas para os caçar. Assim, o primeiro leão, normalmente são as leoas, ataca-o durante um determinado espaço e, depois, passa a estafeta a outro ficando o primeiro a descansar e continuando o segundo na corrida que, depois, larga para um terceiro e este, depois, para um quarto e assim, sucessivamente, até o animal ficar completamente cansado e exausto quando, um último leão, folgado, o vê sem forças para reagir e o ataca para matar.

Mais tarde, em Vila Cabral, também eu me tentei especializar na procura de grupos de facocheros mas foi trabalho infrutífero. Mesmo caminhando contra o vento para evitar que eles me cheirassem, eles arranjavam sempre maneira de se afastarem de mim. Estes animais são omnívoros, alimentam-se de raízes, frutos, cogumelos, larvas de insectos, pequenos vertebrados e até serpentes. Havia na zona de Vila Cabral, uma lângua onde corria alguma água e formava extensões de lamaçais em cujas margens havia, também, grandes extensões de matagais que mais pareciam extensos silvados, no meio dos quais eles se escondiam e tinham as suas tocas de refúgio. Era impossível penetrar naquela zona e nem os cães lá conseguiam ir. Cheguei a ouvir os barulhos desses animais mas nunca os conseguia ver. Eles penetravam na mata densa e apenas diziam, "adeus Ventor"!

  Facochero ou warthog

Mas nas minhas caminhadas atrás dos facocheros, mais que o objectivo de tentar caça-los, era tentar vê-los bem de perto e observa-los. Nessa zona de Vila Cabral, olhando sobre o local que lhes servia de esconderijo, eu tive oportunidades de ver os "pôr-de-sol" mais lindos da minha vida e enriqueci a minha passagem por África, muito para além das sequências dos chamados "jogos de guerra"».

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 8 de outubro de 2005

Ainda os Leopardos

  Ventor 08.10.05

Belezas inesquecíveis

Como diz o Ventor, todos os animais são belos mas, como tudo na vida, há uns que são mais belos que outros.

Apesar de a sua segurança não ser absoluta, as árvores são o melhor refúgio dos leopardos

«Contudo, aqueles primeiros encontros, com o leopardo às quatro horas da tarde de um belo dia de sol e, depois, mais tarde, com a pantera negra às duas da manhã, foram muito importantes para mim.

Foi a primeira vez que, num local do fim do mundo, me encontrei frente a frente, com um leopardo sem grades entre nós e isso deixou-me extasiado no meio de tanta beleza e, ainda por cima, me deu a oportunidade de o contemplar atempadamente. Tive tempo para olhar bem aquelas formas harmoniosas de onde saltavam sobre aquele pêlo dourado, as manchas negras e brilhantes que o tornam o bicho mais apetecível do mundo aos olhos daqueles que só pensam em satisfazer o seu ego cheio de avareza ao ponto de não se importarem se os leopardos continuarão a preencher o espaço que lhe foi reservado, a nosso lado, pelo Senhor da Esfera.

Aquele leopardo olhando-me perscrutava o meu rosto, profundamente, e eu senti que ele me olhava, olhos nos olhos, tal como eu o olhava a ele. Mais tarde, com a pantera negra, já foi diferente. O medo do Tavares e a pressa de atropelá-la com o jipe, tirou-me essa oportunidade de nos apreciarmos mutuamente e com mais pormenor. Ali no contraste do luar e da sombra das árvores, misturados com a falta de tempo, não houve possibilidade de nos observarmos muito melhor. Deu, no entanto, para ficarmos com a certeza de que as panteras negras eram reais, caminhavam e, provavelmente, ainda caminharão a nosso lado.

Como é lindo o leopardo

Diz também o Ventor que o leopardo descansa nas árvores onde se protege dos seus concorrentes perigosos, onde o leão é o mais temível. Na árvore, o leopardo faz um observatório de caça, faz a despensa e, faz o seu último reduto, quando ameaçado pelos leões. Mas, como em tudo, não há nada definitivo.

Há leoas tão ágeis que conseguem trepar às árvores quase tão bem como o leopardo e que, chegam não só a roubar-lhe a presa como, por vezes, até o expulsam da própria árvore, atacando-o ali e, o leopardo, não tendo para onde trepar mais, é obrigado a saltar, ficando assim exposto aos leões que, por baixo da árvore o esperam.

Houve um grupo de cientistas que viram isso acontecer e viram os leões atacarem o leopardo que ficou tão ferido que tiveram de intervir para o ajudar, evitando que fosse desfeito pelos leões. Mas, o leopardo ficou tão mal tratado que apanhou uma infecção e ficou muito doente. Dois ou três dias depois, encontraram-no combalido, cheio de fome e sede e sem forças para caçar.

Ofereceram-lhe água e ele aceitou. Ofereceram-lhe carne e ele também aceitou, comendo-a ali perto deles. Saciada a sede e a fome, o leopardo olhou-os como se lhes quisesse agradecer a refeição e caiu morto para o lado.

Agora, diz o Ventor que é necessário continuar a fazer algo em defesa dos leopardos. É uma luta que vem já da última metade do século passado, o nosso célebre século XX. Em meados do séc. XX, chegaram a ser exportadas, ilegalmente, de África, só num ano, por caçadores furtivos, para a Europa e a América, cerca de 50.000 peles de leopardo. Para se alimentar, o leopardo ataca primatas, fococheros e outros roedores e o seu desaparecimento em determinadas áreas permitiu que estes animais se reproduzissem muito mais, originando um grande desiquilíbrio ecológico, levando-os a destruir grandes extensões de colheitas que tanta falta fazem para o seu povo.

O World Wildlife Fundo, uma organização mundial que se tem destacado na defesa dos animais selvagens em risco de extinção, ao tempo presidida pelo Príncipe Bernardo da Holanda, escreveu a presidentes de vários países do Mundo a pedir-lhes para proibirem a importação de peles de leopardos e gatos pardos ou chitas. Isso levou o Canadá a proibir a importação dessas peles e, de seguida, o então Presidente dos Estados Unidos a apresentar um projecto de lei que pedia à Câmara dos Representantes que proibisse a importação de peles de todos os animais em vias de extinção. Assim, a partir de meados do século XX, alguns países têm estado a travar uma luta na defesa destes belos animais que, pela cobiça humana da sua pele para adornar alguns seres camafeus que nada valem, como diz o Ventor, correm o risco de desaparecer para sempre do nosso convívio.

 

O leopardo é um animal para todos os terrenos

O que faz com que os animais selvagens sejam extintos do nosso convívio são as grandes caçadas descontroladas por gente sem escrúpulos que apenas pretendem exibi-los como troféus da vida estéril que levam ou com o objectivo de arrecadar mais umas pequenas fortunas para melhor continuarem a propagar a sua estirpe pérfida na luta contra o equilíbrio de que este planeta tanto precisa.

E isto é feito por gordos e anafados senhores que nada fazem e são alimentados de estupidez e de pequenas ou grandes heranças que desperdiçam a matar felídeos e outros animais que igualmente correm perigo de extinção. Os felídeos, nas suas escaramuças permanentes, conseguem manter o equilíbrio entre eles. Eles próprios se matam uns aos outros e se o mais fraco não consegue matar o mais forte, pode matar as suas gerações mais novas, resultando daí o fatídico equilíbrio natural.

O leopardo é o animal que mais se adapta ao meio ambiente e, não sendo apenas o mais belo predador dos grandes felídeos, é também o que ocupa maior área, que vai desde o nível do mar ao cume das montanhas, resistindo em toda a espécie de meios, tanto, em África, como em toda a região sul da Ásia (China, Vietname, Malásia, Índia, Pérsia, Indonésia e outros). Por curiosidade, os leopardos das selvas, chegam a pesar 100 kg, os do deserto, 60 kg e os da savana cerca de 80 kg.

Terá sido um animal desta compleição que esteve frente ao Ventor, que hoje também tem 80 kg e, às vezes, vou dar com ele na casa de banho a olhar o espelho e a perguntar-se, como fazer para derrubar outro animal com três vezes o seu peso! Ele pode arrastar até 200 kg de peso e trepar uma árvore com 120 kg.

Eu digo-lhe que, sou gato grande mas não sou tanto e, por isso, talvez fosse melhor voltar a Moçambique, Niassa e, talvez os seus amigos lhe ensinem como fazer. Mas o Ventor tem resposta para tudo ou quase e disse-me que, de todos os animais do seu tempo e, que ele conheceu, já não haverá um único para pedir desculpas às famílias de uns e poder dizer a outros, como os leopardos que viu, quanto foi feliz entre eles.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Leopardo

  Ventor 07.09.05

Amigo, muito sereno!

Outra história do Ventor passada na bela terra de Marrupa.

«Um dia, em África, Marrupa, pois claro, eu e um grupo de amigos fomos à caça. Éramos quatro. Caminhávamos de costas voltadas para o Aeródromo e eu seguia na ponta esquerda. Sempre gostei de caminhar pelos extremos. Caminhávamos num monte com uma espécie de miscelânea de árvores, matos e capim. Só que eu tinha tendência para abrir a minha ala e afastar-me mais um pouco do Maralhal. Foi o que aconteceu nesse dia, pelas 16 horas, sob a alçada de Apolo.

À minha esquerda havia uma lângua (um vale) que começava a alargar-se, a partir dali e, à minha frente, havia uma clareira, sem mato e sem árvores e, do seu solo brotava alguma água (pouca) que tornava a terra húmida e a zona verde. Olhei para a esquerda a ver se via galinhas africanas (as célebres pintadas), perdizes ou, quem sabe, algum facochero (javali verrugoso). Como não via nada voltei a olhar em frente para o tal sítio quase rapado e que já conhecia de outras caminhadas e, qual é o meu espanto, ao ver, frente a frente comigo, um belíssimo leopardo!

O leopardo, de pé, todo estirado, olhava-me como que perguntando a si próprio que andava este mangas a fazer pelos seus domínios. Levei a caçadeira Browning, semiautomática, de cinco tiros, à posição de fogo mas, como achei melhor, fui mudando os cartuchos que eram chumbos de caça pequena, para chumbo de caça grossa, pois tinha reforços para uma destas eventualidades.

Fui mudando os cartuchos. Metia um de chumbo grande e retirava um de chumbo pequeno, até substituir, rapidamente, os cinco cartuchos e, enquanto isso, ele sempre a olhar-me e eu, cheio de vontade que os meus amigos e os cães, não se tivessem dirigido para o meu lado, não fossem eles fazer fogo sobre aquela rara beleza africana. Mas não! Eles iam bem à direita e o local não caía no seu raio de visão. Com o chumbo para caça grossa na espingarda, senti-me mais à vontade e com o cartucho pronto a espirrar, sentia-me um rei da selva! Mas o leopardo era inteligente e esse sim, ali, era o rei!

Ele continuou parado e, nervoso, olhou em volta, talvez tivesse cheirado os meus colegas e os cães perdidos no matagal. Voltou a olhar-me fixamente e torceu o corpo para a sua direita ficando com toda a sua ala esquerda voltada para mim mas, a olhar-me de soslaio e sem pressas de fugir. Apreciei aquela beldade de arma pronta a disparar, mas sempre a ver se estaria por ali outro. Quem sabe não estaria por ali perto, o seu par! É deslumbrante uma figura destas, frente a frente connosco, sem paredes meias. É mais uma imagem que nunca me sairá da retina.

A beleza de um leopardo ... 

Parece que me perguntava assim: "então Ventor, tens esse nariz tão comprido e nem para espirrar serve? Olha vou-me embora! Espero que ponderes bem. Um amigo não dispara sobre outro! Eu não disparei a minha corrida sobre ti e tu não vais disparar essa coisa sobre mim, pois não"?

Claro que eu não iria fazer tal coisa. Afinal eu era um intrometido nos seus caminhos de caçada. Por ali havia "changos", entre outros animais de todos os tipos e afinal, o que eu queria mesmo, era varrer o stress que começava a carregar-me dia após dia. Ali, o leopardo teve cambiantes que direi complementares. Não direi o medo, mas o receio de um encontro sem interesse comum, o receio de os meus colegas atirarem sobre o leopardo e sobre o nosso encontro tão inesperado e também tão interessante.

O leopardo foi-se embora. Partiu rumo a ocidente, no trajecto do nosso amigo Apolo. Os cães rafeiros que nos acompanhavam, tinham ficado do lado dos meus amigos, procurando caça e eu até ali estava só mas, lá vieram eles alvoroçados da direita, como se adivinhassem o que se passava. Eles tinham ido todos atrás das perdizes que voaram à nossa frente com uma certa inclinação para a direita e eu preferi manter o contacto com a lângua pela minha esquerda. O Zorba, no seu alvoroço, corria direito ao local onde tinha estado o leopardo mas, eu chamei-o e ele esperou por mim. A Diana e o Bolinhas também ficaram junto dele esperando que eu me aproximasse, mas pareceu-me foi que eles estavam com medo.

 ... uma beleza serena

Chamei o pessoal e contei-lhes que tinha visto, ali, um leopardo, frente a frente comigo e, notei pelo seu ar desconchavado que não acreditavam em nada que eu lhes contava.

Com calma levei-os ao local onde viram as patarronas frescas, na lama, daquele esbelto animal. Mas só eu é que o vi e ainda bem que assim foi. Pois apareceu logo a "Inquisição" a funcionar. "Porque não o mataste? Porque não abriste fogo? "Porque ... "?

Nessa altura eu ainda não tinha visto a Pantera Negra a espelhar luz ao luar do planalto de Marrupa, nem nunca imaginaria ver ali um dos mais belos animais, nossos companheiros de caminhada em pleno sol. Mas, como diria o meu amigo Apolo, é para isto que ele nos dá luz! Para olharmos e verificarmos como o mundo e os que o habitam são tão belos. Vocês dirão que não abri fogo porque teria medo. Não! Não tive medo algum, assim como não tive, posteriormente, em tanta vez que por ali caminhei apenas com a companhia do Zorba da Diana e do Bolinhas!

Claro que vi mais uma vez leopardos, dois numa lângua de Marrupa, ao romper da aurora depois de uma noite onde só se viam as estrelas no céu. Mas isso é outra história muito linda»!

A seguir: Ainda os Leopardos

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 6 de agosto de 2005

Hienas, em Nova Freixo

  Ventor 06.08.05

Hienas malhadas, as belas amigas do Ventor!

Uma história com o Ventor, em Nova Freixo que contou ao vosso amigo Quico.

Imaginem-se a ver o AB6 (Aeródromo Base 6) quase de noite!

Quando o Ventor caminhava, nos Trilhos da Guerra, por terras de Moçambique, passou, no início, dois meses, em Nova Freixo, no AB6, antes de partir para Marrupa, a 06 de Abril de 1968. Às vezes, estava de serviço, à noite e, nas suas proximidades, apareciam três fabulosos animais africanos.

- Os leões, que roubaram duas vacas guardadas dentro de um redondel, com uma paliçada de tábuas de 2,10 metros de altura, terminadas em forma de lança. Eles andavam por ali e os seus rugidos chegaram a colocar em polvorosa muitos dos habitantes das machambas dos arredores de Nova Freixo.

 - Os leopardos que colegas do Ventor chegaram a ver junto aos aviões, num local onde tinham de passar de noite, junto ao término da luz dos holofotes. Saíam do hangar onde dormiam para o espaço em frente onde, ao relento, ficavam os aviões. Encostavam-se ao arame farpado e só depois entravam no arame farpado, seguindo para o bar, as camaratas e o edifício do Comando.

O AB6, em Nova Freixo em 1968-1970

As hienas que choravam fora do arame farpado atirando para o ar os seus gritos típicos que tão bem se ouvem nas belas noites africanas, diz o Ventor que, ainda hoje, quando ouve o som das hienas, em algum programa de TV, recorda estas belas amigas e as suas caminhadas reais.

Numa tarde de descanso, o Ventor e alguns amigos, decidiram ir até à vila de Nova Freixo onde acabaram de ficar para jantar, pela noite dentro e em festa. Foi uma festa onde só pararam quando constituíram as iniciais da Força Aérea Portuguesa "F.A.P.", em que só cada pontinho tinha quatro garrafas de cerveja de litro, as célebres bazucas!

Como o Ventor sempre gostou de caminhar e, como o Maralhal sempre está disposto a beber mais um copo, disse aos amigos que ia andando até ao batalhão de Nova Freixo, onde eles o apanhariam com o jipe para atravessar aquele espaço terrível, escuro na área central, até à Força Aérea.

Era de noite e de noite não se brinca com animais selvagens!

Estavam todos com os copos e, nesse dia, o Ventor não era excepção e, chegando ao batalhão, vendo que os outros não vinham com o jipe, nem sem o jipe, foi andando devagar e começou a faltar-lhe a paciência para a espera. O jipe não chegava para o pegar até à Força Aérea e ele foi andando sempre, mas de noite, só e desarmado, era muito arriscado mas, como devem saber, com os copos, não há riscos!

Ora a impaciência é inimiga do bom senso e a copofonia era mais poderosa que a paciência, o Ventor deitou o resto do bom senso que lhe restava fora, arriscou fazer a travessia só, pensava ele, mas teve a belíssima companhia de um grupo de hienas que lhe massacraram os ouvidos com a sua tão célebre choradinha!

Hiena, de olho na presa

Na escuridão, fora do alcance das luzes do exército que deixara para trás e longe das luzes da Força Aérea, ainda muito lá para diante, o Ventor foi acompanhado pelas hienas e, algumas vezes, quando tropeçava e caía nos buracos da picada descontrolado pela cabeça toldada pelas laurentinas e os whiskies, elas cercavam-no mas, mal ele se levantava e insultava as hienas com os belos nomes tão utilizados, persistentemente, hoje, nas nossas estradas, ao mesmo tempo que abria os braços em tom ameaçador, elas afastavam-se espavoridas para voltarem à carga seguindo atrás, pelo mato à esquerda e pelo meio do milho à direita, sempre ameaçadoras. 

Depois, já mais perto do Segurança da Força Aérea, junto à Porta de Armas, o soldado da Polícia Aérea, de serviço, ouvia o barulho das hienas e alguém a mandar vir com elas, mas o sentinela, receoso de fazer fogo para o ar, não fossem os seus colegas abrir fogo para o local, manteve o sangue frio suficiente, assistindo ao barulho das hienas e ao "fora daqui, suas ..."

 Hienas em Nova Freixo

Mas o Ventor, ao chegar à Porta de Armas, acompanhado daquelas belíssimas guarda-costas, enquanto houve escuro, olhou para trás e, não vendo nada, perguntou ao sentinela: "onde é que essas cabras se meteram"?

Hoje o Ventor, ainda se pergunta, a si próprio, porque será que as hienas não lhe quiseram dar umas dentadas!

Seria pela sua indiferença perante aqueles terrores de África, levantando-se sempre com os braços abertos e a voz ameaçadora ou seria porque o corpo do Ventor estaria demasiado temperado de sabor a álcool e o seu bafo as desorientava?

Eu sei que ele gostava de saber e eu também!

Vejam no que dão os copos! O Ventor estava habituado a ir da vila para a Força Aérea de noite, às vezes por esse trajecto, o mais adequado e, outras vezes, ia direito às pistas, passando por tabancas onde, nos sábados à noite, os negros dançavam a MARRABENTA, numa doidice tal que, chegavam com os pés, junto ao nariz do Ventor. Depois de sair do meio de toda essa euforia, ainda tinha de atravessar a pista, sítio por onde os leões, os leopardos e as "belinhas" das suas amigas, andavam à babugem de conseguir um bom jantar.

O Ventor diz que, hoje, não faria isso por dinheiro nenhum e eu, só de o ouvir, fico com este meu lindo fatinho peludo que o Senhor da Esfera me deu, todo arrepiado. Mas eu já há muito me apercebi que o Ventor deve ter tido uma tara qualquer. Mas não lhe digam, senão estou lixado!

Mas não! a explicação foi-me dada em sonhos por uma hiena, já mais instruída. E diz a hiena:

Hiena espertalhona

O Ventor julga que uns quantos dos meus antepassados, na velha Nova Freixo (actual Cuamba), não o comeram, talvez porque cheirava a cerveja e a whisky. Francamente, a mim, custa-me a acreditar que fosse por isso. Nós, as hienas, quando atacamos, começamos com umas ladeinhas (nhe, nhe, nhe, nhe ... ) para ver se os animais fogem, mas este animal a que chamam Ventor não fugiu e isso fê-las pensar que a coisa não seria fácil. Para a chefe do grupo, como o Ventor não demonstrou medo o ataque teria de ser mais bem ponderado  não se atrevendo a desencadear as hostilidades porque cada vez que o Ventor caía, virava-se de repente e ameaçava-as e, tal como o Ventor diz, elas só pensavam em fugir, retirando. 

E cada vez que o Ventor se reencaminhava para a base, elas voltavam a querer segui-lo para o atacar. Seja como for a chefe do grupo acabou por desistir, concluindo que os animais de duas patas têm a carne podre, até para hienas.

Foi isso que aconteceu.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Newky, o Mabeco

  Ventor 06.07.05

Uma família quase perfeita ...

... e mais uma história na savana

Newky, o Mabeco

Segundo o Ventor, Newky, era o herói da família, do grupo, da espécie!

Na savana, a luta pela sobrevivência, era total. O mundo da savana é constituído por quilómetros e quilómetros de ervedos pardos e secos, o capim, em clareiras abióticas e pequenas depressões, onde, os animais selvagens, numa luta terrível, jogam, constantemente, a sua sobrevivência! Vou falar-vos dos cães caçadores, Lycaon pictus, de pêlo malhado, olhos cor de âmbar, orelhas grandes, arredondadas e erectas, adornando os seus crânios maciços, com masseteres fortes e poderosas maxilas, de pelagem hirsuta, de caudas erguidas como bandeiras ao vento, beijam-se (lambendo-se) como se tudo que há de interesse na sua vida, fosse uma permanente parada de amor. Agitam as caudas golpeando o ar numa saudação comunal e tumultuosa com um ar social e disciplinado.

Diz o Ventor que os cães selvagens ou mua muitu (nome swaíli) são os caçadores sociais mais comunitários e interessantes de África!

A savana é o mundo dos cães selvagens

Este foto da autoria de Brian Gratwickle, foi tirada da Wikipédia.This file is licensed under the Creative Commons Attribution 2.0 Generic

São corredores infatigáveis e campeões da resistência entre a fauna africana. Numa toca, algures numa savana de África, foi criada uma nova matilha de 12 animais dessa espécie. No seu seio apareceu, bem determinado, desde o seu tempo de meninice, o Newky.

Newky estava sempre alerta contra os perigos e era sempre o primeiro a dar as boas vindas ao clã que partira determinado para as caçadas, meio único para a sobrevivência da família e do grupo e, agora, vinha com o "farnel" para os mais pequenos e os seus "monitores da creche". Na porta da toca, a mãe sempre a chamar-lhe a atenção para os perigos que rondavam, por terra e pelo ar, como hienas, leopardos, chacais, leões e águias, nos seus primeiros tempos de vida. Mas ele estava no seu mundo.

Estão a chegar, mais uma vez, os caçadores do grupo e, lá vai o Newky, sempre na frente, para recebê-los, numa sempre gloriosa festa de boas-vindas! Recebe o seu quinhão de carne e é beijado (lambido), persistentemente, por todos os que se aproximam das tocas, eufóricos, dando graças ao "seu Deus" por lhes ter sido permitido, mais uma vez, congratularem-se todos juntos por continuarem a existir nesta vida dura e atribulada que lhe foi predestinada. Newky, salta, empoleira-se no seu Maralhal e dá graças ao Senhor da Esfera por continuar, dia após dia, na expectativa de fazer parte deste grupo destemido que cruza distâncias sem fim, na procura de continuar a ver Apolo aparecer, disfarçado de bola de fogo, por entre o capim do horizonte, no meio das acácias!

Newky, sempre alerta

Newky, cresceu e está a fazer-se um autêntico mabeco e já começa a acompanhar os caçadores mais velhos, sempre na expectativa do perigo, sempre determinado na luta colectiva, pela sobrevivência da sua comunidade. Mas a comida começa a faltar, a seca empurrou os outros animais selvagens para longe e a sua existência e do grupo, começa a correr perigo. Assim, vão ter de recorrer à caçada do gado doméstico! O Newky aproxima-se do arame farpado. Torneia-o e tenta entrar mas, apercebe-se do perigo e, com mais ou menos audácia tenta levar a família a sobreviver durante os tempos difíceis de um ano de seca.

Porém, diz o Ventor, algo correu mal! Uma moléstia ataca a família e Newky faz cálculos e mais cálculos, achando por bem manter-se um pouco afastado mas, sempre tanto quanto possível, tentando, conjuntamente com os mais capazes, arranjar comer para a comunidade que começa a definhar.

Newky, na sua solidão.

Ele era um lutador destemido que nunca esquecia o seu grupo

Doentes e fracos, pouco podem fazer para restabelecer as forças do grupo e Newky, sem descurar o ambiente comunitário em que foi treinado, começa por se manter à distância, uma vez que se apercebe de que espécie está em perigo. Vê morrer todos, um a um e, por fim, sente-se só e triste, no mundo miserável que herdou. Foram-se os latidos dos pais, dos irmãos, dos tios, das tias e de todos os seus companheiros e sente que tudo acabou. Mas, determinado, avança, só, pela savana e procura companhia da mesma espécie. Durante algum tempo, sobrevive sozinho, nada fácil, no meio de tantos inimigos. Mas os outros grupos também tiveram os seus problemas.

Newky acaba por ser bem recebido por outra comunidade e acabou por tomar o seu comando. No seu novo grupo, arranjou uma companheira e passou, no meio de grandes dificuldades, a organizar o clã!

O Newky, começou a organizar as caçadas pela sobrevivência do seu novo grupo que se tornou temível em toda a savana. Eles atacavam gazelas, gnus e até zebras, de preferência, os poderosos machos territoriais, aqueles que lutam pela defesa do seu território e que, por isso, por não fugirem das zonas demarcadas, eram os mais fáceis de apanhar! Lutavam pela família e não queriam perder uma polegada do que era seu.

Zebras, como no Revia

Newky, era determinado. Deu luta às hienas e até aos leões que lhe roubavam a caça. Por isso, organizava batidas e vencia tudo o que se lhe opunha porque, era um chefe organizado e destemido. Mas uma vez, numa refrega entre cães selvagens comandados por Newky e um grande grupo de leões, as coisas correram mal. O seu companheiro, tido como o seus braço direito, nunca mais voltou e, pensa-se que terá sido morto na luta e Newky ficou com a sua parte esquerda do peito, no externo, junto ao coração, todo dilacerado, pela dentada de um leão muito feroz. Newky foi todo lambido pelos companheiros numa missão de tratamento medicinal e aguentou-se, mas os tempos de fome voltaram e a luta pela sobrevivência tornou-se atroz. Newky, ainda combalido daquela terrível dentada, levou a sua matilha à procura de sobrevivência para os lados dos gados domésticos!

Newky, morreu só, num cantinho da savana

Mais uma vez, as dificuldades, o horror da fome e, provavelmente, a doença, a raiva propagada pelos cães domésticos dos pastores, recomeçou a dizimar a família de Newky. Algures, numa depressão da savana, tombou, para sempre, o destemido Newky - o Mabeco - por quem as gerações futuras continuam a chorar e vão passando latidos de geração em geração, na tentativa de não deixar morrer o nome e a glória daquele que sempre tudo fez para manter unido aquele grupo da comunidade mais social de todas quantas há por terras de África!

Assim, tal como o Ventor, eu Quico, digo adeus ao Newky!

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cegonha1.png

O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

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