sábado, 8 de dezembro de 2007

Amigos de Sempre

 Quico e Ventor  08.12.07

O Ventor dizia-me há dias que, quando no verão passado, passava entre as montanhas Cantábricas, tinha a sensação que ouvia sair daqueles buracos de séculos, os sons das trombetas de outrora. Que sentia no rodado das estradas das Astúrias não as botas cardadas do seu tempo, mas o som do tilintar das espadas dos companheiros de guerra do seu amigo Pelágio.
De cada encosta que se debruçava sobre os belos vales asturianos, saíam escondidas do meio das suas rochas as trombetas das forças de Pelágio e os gritos da balbúrdia dos seus homens que apelavam à vontade do Senhor da Esfera para os ajudar na luta contra os sarracenos que violavam a terra sagrada de seus avós.                                                                                                                 
 
Sempre bem dispostos e preparados para enfrentar as melgas
Agora o Ventor diz-me que os sons que sente, são outros! São os sons dos clarins que os cipaios tocavam ou mandavam tocar, nas savanas, em redor de Nova Freixo (actual Cuamba), em Moçambique. Diz o Ventor que a alvorada deles era a sua alvorada e que os jacarés do rio Lúrio e seus afluentes também acordavam ao mesmo toque.
 
Sempre aptos para prosseguirmos a nossa caminhada
 
O Ventor disse-me que hoje pressente esse toque como um apelo à unidade. À unidade dos “Duros do Niassa”. Ele diz-me que hoje aqueles que viveram esses tempos no norte de Moçambique, necessitam tanto dessa unidade como nos tempos passados. Diz-me também que o nosso amigo Apolo continua a iluminá-los tanto cá como os iluminou lá. A sua luz é eterna para todos aqueles que tiveram a união do combate! Ou, se quisermos, pelo que entendo do Ventor, todos podem continuar a manter os sorrisos de outrora desde que se encontrem por este país fora e continuem a sorrir mesmo quando a vida semeia à sua frente dificuldades que neste país é coisa que não falta.
 
Sempre preparados para o trabalho, para os nossos cigarros e os nossos copos
E o Ventor continuou a sua conversa comigo:
«Agora, Quico, tocou o clarim outra vez e, ao ouvir o toque do clarim, esse toque que nos chama à unidade, verifico com pena que nunca mais estaremos todos!
Cada vez, somos menos, cada vez que Apolo nos espreita, sempre que rodamos à sua volta, poderemos ser menos! E, por isso que cada vez estaremos mais compactos. Mais unidos! A nossa união será mais a da lembrança do passado, o clarim da presença.
Sempre prontos para o combate contra inimigos sem fim. Melgas e percevejos, sempre presentes, mas o inimigo estava por todo o lado. Por isso alguns tombaram mesmo fora do campo da batalha
Há dias, senti presente no meu coração os meus amigos de sempre. Senti o apelo da presença e para isso tens contribuído tu Quico!
Há pouco tempo tive o grato prazer de ter a companhia de alguns dos meus amigos de sempre, daqueles a quem chamo “meus companheiros de guerra” aos quais nunca esqueci. Verifiquei que os seus cabelos estão brancos, as suas barbas estão brancas, as suas rugas mais profundas. As minhas também!
 
Sempre preparados para mais uma arrancada, mesmo quando de bruços
 
 
Mas os nossos corações não mudaram nada! Estão mais velhos, talvez envolvidos por arritmias ou por pancadas descompensadas, mas todos nós continuamos com os mesmos sorrisos de outrora.
É com o coração com esse mesmo coração e com um sorriso, desta vez triste, que deixo aqui a minha homenagem a um amigo desses tempos, a um amigo que partiu mais cedo. Mais um!
Até qualquer dia Puskas.
Mas antes que essa tristeza nos tocasse, também nos tocaram as alegrias do convívio de alguns de nós.
Tive o Prazer do convívio do mais “Louco” de todos os loucos;
Tive o prazer do convívio daquele que será sempre o nosso Cheka;
Tive o Prazer da companhia do mais "valente" dos valentes;
Tive o prazer do convívio de um amigo que não via há 37 anos, o Antunes;
Tive o prazer de falar, por telefone, com o nosso “Pescadinha” que estava longe, em Luanda e com o Coutinho, aqui mais perto, nos arredores do Bombarral.
O nosso amigo “Louco” deu-lhe na “gana” de fazer uma chamada às 10 e tal da manhã e conseguiu juntar quem foi possível estar presente, em Mafra, durante a tarde e uma parte da noite. Ele veio do Alentejo e o Antunes veio do Porto, onde tinha chegado vindo daquela linda terra que fora nosso palco de guerra, noutros tempos. Moçambique! Hoje será para muitos de nós, um palco de paz. Isto, só por si, mostra a grandeza e a força dos nossos laços.
Da próxima vez, estaremos, certamente, mais e, acredito, que será o Antunes a levar o nosso abraço a Moçambique.
 
E quantas vezes nos céus de Moçambique a esperança de rumo para um amanhã diferente
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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Aos Duros do Niassa

  Quico e Ventor 09.05.2007

Sou o Goldfinger!

Lembram-se de mim?

Eu regressei ao Planeta Terra, pelas mãos do Ventor, para vos saudar.

A todos os Duros do Niassa que conviveram comigo, por aquela terra linda a que chamávamos Vila Cabral, actual Lichinga, o meu abraço.

O Ventor quer que eu o acompanhe por aqui para permanecermos, juntos, a vosso lado.

Eu fui um cão feliz enquanto convivi convosco, mas já nessa altura sofria muito. Todos vocês chegavam e partiam num ápice. Eu arranjava amizade convosco e depois perdia-vos! A Leoa dizia-me: "deixa-os ir Gold, assim como assim, não nos ligam"!

Mas eu sei que ligavam e sei que, caladinhos, choravam, ao partir, enquanto eu chorava sempre ficando para trás.

Depois, bem, depois, nem vos conto! Apenas, vos digo o que disse ao Ventor!  Vieram os outros e mataram-nos, descarregando sobre nós, sobre mim e os meus companheiros, pobres animais, as suas frustrações terroristas! Não, não tenham vergonha! Era assim que lhe chamavam, lembram-se?

Eu tive muitos amigos, cada um de vós era um amigo, mas chorei pelo Ventor e sei que o Ventor chorou por mim.

De momento, aproveito para vos saudar, mas voltarei para conversar convosco!


Vila Cabral, 1969, travões ao fundo!

Lembro-me de correr ao lado do Ventor para chegarmos rápido. O Leiria da Torre, na frequência civil, avisou que os céus estavam disponíveis e podiam avançar. O avião da frente não ouviu a mensagem e o de trás ia para cima dele. Para evitar danos maiores, travões ao fundo e afocinhou!

Olá, Duros!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 21 de maio de 2006

Companheira de Guerra - A Especial

 Quico e Ventor 21.05.06

A Especial! E para a Eternidade!

A minha mãe.

Amigos sabem que o Ventor também chora! Um dia destes dei com ele a chorar. Verdade! Perguntei-lhe o que tinha e contou-me! Disse-me tudo isto:

«Às vezes penso, Quico! Penso que todos temos um pai ou uma mãe que se sacrificaram por nós. Todos ou quase, temos um pai e uma mãe que chorou por nós ou que choraram por nós! A minha mãe era uma flor e é assim que eu a recordo.

 

Era uma flor muito linda

Eu recordo-me do que me contavam e do que ainda me contam, desde que parti da minha terra aos 15 anos. Depois fui para a Força Aérea, depois para África e dizem-me que a minha mãe sempre chorou por mim.

Chorava em voz alta, todos os dias no meio dos carvalhos que eu deixei decotados e sempre que tocava em alguma coisa que eu deixei para trás.

Chorava quando apanhava as maçãs das macieiras que eu tinha enxertado.

Chorava a comer as boas peras dadas por pequenas pereiras que eu tinha enxertado em pereiros bravos.

Chorava quando eu lhe perguntava se as videiras americanas que eu tinha desembaraçado das silvas onde estavam atoladas e as pernadas que virei para cima do carvalho junto, e as pernadas que fiz passar sobre estacas de salgueiros que tinha enterrado no chão e pegaram, dando origem a uma latada viva que no primeiro ano, dizia-me ela, toda encantada, dera dois cestos de uvas.

Sempre me falava das minhas coisas, do jeito que eu tinha para a jardinagem, pois desde que me lembro de existir transformava sempre quaisquer cantinhos das nossas lavouras, em autênticos jardins.

Chorava quando eu lhe perguntava  pelos morangos com que lhe enchi uma horta que só dava couves, feijões e pouco mais, passando a dar, também, belos e saborosos morangos.

Chorava, quando já pela fraqueza da sua velhice, lhe dizia por carta ou telefone, o que deviam fazer, para esquecerem as vacas, as lavouras, as videiras, as pereiras, as macieiras, os pessegueiros, etç., tudo que eu também tinha deixado partilhando das suas vidas.

Chorava quando olhava a nossa tapada de matos com quatro lindas árvores grandes que, eu de sacho na mão, havia plantado. Uma delas, a minha canecipe, tinha sido plantada com as unhas e um esgaravato, num dia que não tinha sacho.

Um grande amigo meu, dos meus tempos de criança - um guarda florestal - pois eram todos meus amigos, sabia que eu gostava muito de canecipes e deu-me uma pequenina para plantar na tapada.

Deixa-a na nascente em terra húmida e quando poderes planta-a, pois ela crescerá contigo".


Local de sonhos

Eu deixei e, no dia seguinte, como tive de lá ir e não levei sacho, plantei-a com as ferramentas que Deus me deu, as unhas e um esgaravato. Ainda hoje, sempre que vou à minha terra, vou ver a minha canecipe - a canecipe do Ventor! Junto da minha canecipe, o meu castanheiro, o meu carvalho, o meu vidoeiro. Ali estão perenes e heróicos também porque vão, resistindo a pavorosos incêndios que volta e meia queimam todos os matos em volta, ficando elas ali, autênticas bandeiras, aguardando, ano após ano, que eu me rejubile com a sua heróica resistência e quando eu lhes toco no tronco, parece-me que falam comigo.

Ao lado delas, só resistem as salamandras amarelas e negras que, juntamente comigo, bebiam água na mesma nascente. Quando os fogos passam, elas metem-se na água e esperam que tudo se resolva. Da última vez, os matos estavam molhados e eu não deixei o carro na estrada para subir até elas mas, elas compreenderam e limitaram-se a dizer-me: "volta sempre Ventor. Tu és quem nos dá vida! Quando um dia deixares de regressar, nós não existiremos mais, pois as gentes, apenas olharão para nós como umas árvores.

Senti o apelo daquelas árvores, o seu choro que se juntou ao meu naquela pequenina bomba que continua a nos manter vivos. Eu penso que elas terão um élan divino que as faz esperar por mim, há quase meio século.

A minha irmã, que tinha levado ao Hospital de Ponte de Lima e, no regresso, lhe disse que queria ir pelo outro lado da serra para ver as minhas árvores, ficou com os olhos rasos de lágrimas e, quando parados na estrada, a olhar para os meus grandes monumentos vivos, disse-me: "muito chorou por ti a nossa mãe, em frente daquelas árvores!

 

Tenho um grande castanheiro que chora comigo

Chorava por ti em tudo que era sítio. Ela chorava e o cão uivava e eu só tinha ciúmes! Às vezes achava que não valia nada, nem sabia o que andava aqui a fazer". E abraçou-se a mim a dizer que ficaram magoadas, quando eu na brincadeira, dizia que, por mim, só chorou a Íris, minha madrinha de Guerra, que me acompanhou nas minhas venturas de guerra durante cerca de quatro anos.

E continuou: "mas tu já morreste e já renasceste. Eu sabia que toda a gente chorou por ti na América, devido ao telefonema atarantado da tia Sistela, que pensou que foras tu que morreste em vez do nosso Manel e, a tua madrinha ia morrendo aos gritos, pelo seu Ventor e, informaram as pessoas que tu tinhas morrido e assim foi passando de uns para outros, até o Carrasco recolocar as coisas no sítio. Era o nosso Manel que estava nas mãos de Deus e era por ti que toda a gente de Adrão, pelo mundo, chorava. Muitas pessoas me disseram logo que eu fui para a América que, sentiram, no meio da tristeza a alegria do engano.

Tu foste sempre o mais querido de nós os três, para todas as pessoas, apesar de teres sido um macaquinho para todos, toda a gente era tua amiga. Até sabias ser macaco!

Até posso ter sido macaco para muita gente, mas sei quanto eram meus amigos e também sei que, nenhum dos rapazes do meu tempo, fizeram por eles o que eu fiz. E, assim, não há macaco que não se safe! Também sei que muitos dos que muito me queriam já se foram e os que restam estão para ir. Apesar de tudo, ainda sinto o apelo de todos eles, os que estão e os que já se foram e que, do outro lado, nos esperam.

Tal como a minha mãe e o meu cão, eu sinto o apelo dos carvalhos e dos sobreiros, das imagens sagradas que habitam na minha retina, do chamamento da águia a caminho do ninho, nas fragas que se levantam nas profundezas do rio de Bordença e do voo do açor, quando ainda por lá andava na minha meninice.

Do apelo do gaio esvoaçando sobre os carvalhos e, do cheiro, daquele cheiro a terra que só em África me pareceu igual, nas manhãs húmidas e quentes - talvez fosse o cheiro da saudade!

Tenho na profundidade dos meus ouvidos, os gritos da minha mãe e o latir do meu cão, bem como o assobio de meu pai e o latido do cão, em querer desdobrar-se em metade dele para mim e a outra metade para querer ir caçar, mas só ia quando eu falava com ele a dizer-lhe que o dono esperava e que tinha de ir. Por isso, eu digo: "quem não tem uma mãe que não chore por si? Quem não tem uma mãe ou um pai que tanto sacrifício fazem ou fizeram por nós?

Eu tinha e ainda tenho, na saudade, a minha querida mãe que, no seu leito fúnebre, estava linda, um aspecto natural límpido, que mais parecia viva que morta!

Eu vi desfilar por diante dela, os amigos de todas as aldeias em volta e vi, da aldeia do meu pai, toda aquela gente inclinar-se perante a Teresa, a quem todos diziam: "adeus Teresa, até qualquer dia"!

Vi as pessoas a tentarem esconder de mim as ossadas de meu pai e o cinto quase novo que lhe prendia as calças que levou para o outro mundo.

Talvez aquele fosse o cinto que os iria amarrar para sempre. Ela foi sempre, Quico, a minha Companheira de Guerra e, sabia que junto de si, estava sempre o seu Ventor.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Rios de Som

  Quico e Ventor 19.04.2006

Em Tempos de Guerra

Diz-me o Ventor e eu sei disso, pois sou obrigado a ouvir música com ele:

«Sempre fui um atento ouvinte de músicas. Belas músicas! Normalmente, não fixo os nomes dos muitos autores, dos muitos cantores, dos muitos músicos, das muitas empresas gravadoras. Excepcionalmente o faço. As músicas têm de entrar nos meus ouvidos e ficar por lá.

Uma vez entrei numa janela da Net e, no meio de muitas coisas boas, encontrei um tema que se chamava Rios de Som e a que achei muita piada. Caminhei algum tempo entre esses amigos que, por sinal, directa ou indirectamente, me ajudaram a recordar os meus Tempos de Guerra.

E isso fez recordar-me que, pelos meus Tempos de Guerra, também passaram muitos Rios de Som que eram expelidos dos Hamarlunds da Força Aérea, uma extraordinária companhia. Lembro-me de, pelas noites dentro, sintonizar a Rádio Nova Iorque, em ondas curtas, que tinha uma emissão para a América Latina, em espanhol e que, eu, sempre que podia, conseguia ouvir em Moçambique e, pela Rádio Nova Iorque recebia beijinhos de estudantes de várias universidades americanas, da Íris, a minha Companheira de Guerra e de algumas das suas amigas da Universidade de S. João de Porto Rico que atravessavam o éter cheios de Rios de Som. Estes beijinhos eram, apesar de tudo, para o Ventor e para a Força Aérea Portuguesa, no norte de Moçambique. Elas telefonavam para a Rádio Nova Iorque e os locutores encarregavam-se de fazer o resto.

Aqui Rádio Novaiorque! - lá vinham eles! ...

Nos Hamarlunds da Força Aérea, corriam os nossos Rios de Som que, algumas vezes, eu colocava nas cabinas dos pilotos para descomprimirem das agruras da solidão, nos mais belos céus do mundo e, por vezes, os mais temidos também, pelos seus gigantescos cúmulo-nimbos, por vezes mais negros de que a própria África, ajudando assim, no regresso à nossa Lápide de Arame Farpado.

Obladi, Obladá, Hey Jude, Love me do, Penny Lane, All you need is Love, Let it be, Get Back, ... dos Beatles. Reach out, I'll be there, dos Four Tops (uma música das minhas favoritas que utilizei como lema), My Sentimental Song, for my Sentimental Friend, Let him live, ... e, tantas outras! Se isto para muitos de vocês é fuleiro (?), para mim, são Rios de Som que me alegram a alma, que me movem no passado, no presente e no futuro.

Ao ouvirem em plena campanha aérea, o Obladi, Obladá, que partia do nosso centro de operações e entrava nas suas cabinas,

Dizia um piloto - Rima e rimará!

Dizia outro - na nuca do papá!

Ao meu lado, alguém alvitrava:

"Estes, mal aterrem, vão levar já com uma participação, em cima"! Dizia o Clark Gable.

"Não posso admitir coisas destas, senão, sobra para mim"!

Era assim que chamávamos a este Tenente Coronel. Olá, Clark Gable!!!!

Sem música, pode informar o Comando Avançado, que vão fazer a guerra sózinhos!

Quando o Clark Gable, vê no seu estilo de pai macabro, um piloto rodesiano (para os menos atentos, nós também ensinamos os outros) correr para mim, para me perguntar quem era o piloto do avião X e eu lhe disse. "Goldfinger" e apontei-o, o Clark Gable vê o rodesiano abraçado a mim a gritar que éramos extraordinários, que nunca imaginara nada assim e vai a correr abraçar-se ao Goldinger, cheio de alegria espontânea, o nosso Clark Gable, virou-se para mim - são mesmo! Vocês são mesmo extraordiários!

Todos num só, quais mosqueteiros! Obladi, Obladá!

Grita o Clark Gable: "os cornos do papá"!

A guerra continuou de noite e de dia. Cada um a travava conforme os planos traçados ou, conforme as contingências do momento. De Marrupa, voltei a Nova Freixo, de Nova Freixo, parti para Vila Cabral (actual Lichinga). Aqui estive mais seis meses e meio. Seis extraordinários meses e meio! Caminhando a meu lado, sempre a Íris que, entretanto, arranjara um namorado, mais um que começou a acompanhar o nosso trajecto e que poderei chamar, também, Companheiro de Guerra porque nunca se opôs que a íris continuasse a sua correspondência comigo por longos meses e que, mais tarde acabou por casar com ela.

Regressei a Lisboa onde recebi uma carta da Íris a dizer-me que acabara o curso dela e que tinha sido pedida em casamento. Desejei-lhe felicidades e terminamos a nossa correspondência como bons amigos que fomos, durante muito tempo. Ela acabou o curso e ia casar, eu acabei a guerra e ia procurar emprego. Terminaram as razões que nos ligaram mais de quatro anos. Darmos a conhecer os nossos mundos, um ao outro. No entanto, reconheço hoje que foi uma pena termo-nos perdido para sempre. Fomos mudando de vida, mudando de locais e fomos-nos adaptando a novas realidades.

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Uma rosa chamada íris

A íris, tinha sido uma verdadeira Companheira de Guerra! Posso muito bem recorda-la como uma rosa».




O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 14 de março de 2006

Companheira de Guerra

 Quico e Ventor 14.03.2006

Em Tempos de Guerra e, integrada neles, uma bela Companheira de Guerra!

Para os Duros do Niassa: imaginem que estão a sonhar com o AM 62 - Aeródromo de Manobras 62, em Marrupa, no ano de 1968 e, estão a vê-lo de noite. Tenho de procurar o nosso Bar - o Calhambeque - para bebermos umas laurentinas.

Pois é amigos, o mundo dos homens é, realmente, muito complicado! Este Ventor põe-me maluco só em fazer-me pensar pelo que eu poderia ter passado se fosse homem, da geração do Ventor, no século que passou!

O Ventor disse-me que podia escrever aqui, parte da sua caminhada por África, em Tempos de Guerra. Mas não devia contar mais que o estritamente necessário para dar a conhecer às gerações futuras, partes inesquecíveis do nosso (vosso, de homens) passado colectivo. Eu sou gato, fico de fora!

Por isso, continuarei a falar da caminhada do Ventor, em Tempos de Guerra, nos seus contactos com os animais de África mas, também, da sua caminhada nos trilhos da Guerra, cheios de alegrias e tristezas, mortes de uns e uma vontade enorme de viver, de outros. Xiu!!!! Aqui para nós, eu sei que o Ventor chorou em África.

Para isso vou começar a falar da Guerra, introduzindo aqui, uma das mais belas companheiras que o Ventor nunca teria imaginado se não fosse real.

Não vou dizer aqui o seu nome mas, ela foi a melhor companheira de guerra que um combatente poderia imaginar! Também tenho uma foto dela mas ai de mim se a colocasse nesta janela para todos olharem!

Como? O Ventor diz que posso dizer que o nome próprio dela é (era) "Íris" e que, quanto à fotografia, posso representa-la por esta flor.

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Imaginem que esta flor foi a Companheira de Guerra do Ventor

Então, o Ventor começa assim:

«Um dia, na Ota, na Base Aérea 2, recebemos uma montanha de cartas de várias universidades americanas. Um dos meus Companheiros de Guerra, conhecia alguém na Embaixada Americana, em Lisboa, creio que o Adido para a Imprensa e, através dele, enviou uma mensagem para um jornal dos States, creio que o New York Times, que rezava assim: "soldados alunos da Força Aérea Portuguesa, da Base Aérea 2, Ota, pretendem corresponder-se com alunas das universidades americanas ... " - em inglês, claro!

Uma tarde, eu entrei na Camarata onde havia uma grande algazarra e, esse meu Companheiro de Guerra, tinha, em cima da cama, literalmente, uma montanha de cartas. Todos mexiam naquele grande bolo de papel e ele, como senhor do dito, dava as suas instruções, no sentido de distribuir, fatia a fatia, por todos. Olhei apressadamente e ele disse-me; "pega aqui numas quantas, lê e escolhe! Eu ri-me, deitei a mão pelo meio delas e apanhei uma à sorte. "Só"! - Perguntou-me ele. "E chega-me" - disse eu. "Pensa que não tenho que fazer"?

Eles continuaram a algazarra que, afinal, era muito simples. Escolher as cartas com origem em determinada Universidade. Uns queriam a, outros queriam b e assim por diante mas, eu, tirei à sorte! Saiu-me uma bela menina da Universidade de S. João de Porto Rico.

Um ou dois dias depois, abri a carta que era uma simpatia para qualquer de nós. Li, reli e voltei a ler e, depois, perguntei-me, a mim mesmo, "porque não"?

Escrevi à menina que se prontificou a ser animadora das nossas juventudes nas guerras africanas e, posteriormente, teve a coragem de me seguir, por correspondência, durante mais de quatro anos. Ela contava-me a sua vida, na Universidade de S. João de Porto Rico e eu, contava-lhe a minha na Força Aérea Portuguesa. Ela falava-me da sua terra e eu da minha. Ela falava-me do que sabia e do que aprendia comigo e eu, falava-lhe do que sabia e do que aprendia com ela. Ela foi uma verdadeira Companheira de Guerra. Eu não tinha Madrinha de Guerra, muito em voga, na altura, não ligava a isso mas, ela, foi a mais bela Madrinha de Guerra que eu podia ter imaginado!

"Ventor, todas as noites choro e rezo por ti. Choro ao ler as tuas cartas de Moçambique e choro ao ler as cartas do meu irmão do Vietname. Todas as noites rezo por ti e por Moçambique, pelo meu irmão e pelo Vietname. Toda as noites ouço as vossas músicas que, com tanta alegria me referenciam. Aqui, na Universidade de S. João de Porto Rico, nós somos contra as guerras. As minhas companheiras mais amigas, nesta Universidade, que me acompanham em algumas leituras de algumas das vossas cartas, choram comigo. Umas vezes choramos de tristeza, outras vezes, choramos de alegria. Ouvimos as vossas músicas quase como uma religião. Eu não te conheço mas, chego a convencer-me que te conheço muito bem e até moramos na mesma rua. Sei que também estás dentro do arame farpado como o meu irmão, neste momento, na Base Aérea de Danang, sítio horroroso do Vietname. Que Deus vos traga de volta às vossas casas, peço sempre à nossa Senhora de Fátima e à Padroeira de Portugal".

Provavelmente, a nossa Padroeira também será a deles porque a Senhora de Fátima já sabemos que também é!

Esta moça tinha um nome bonito que, durante cinquenta e tal meses, foi minha companheira de venturas, através de esferográfica e de folhas de papel.

Ao chegar a Luanda, encantado com a beleza daquela Baía, morto de sede e de fome, dei prioridade às comunicações com familiares e amigos e enviei um postal da cidade para a minha "Companheira de Guerra" de além-Atlântico e depois da minha chegada a Moçambique, reatei os nossos contactos para a minha nova morada, o SPM-Serviço Postal Militar. Sempre que me mexia, contactava-a para não nos perdermos. É engraçado que lhe falava de quase tudo, à posterior e nunca fui incomodado por isso! Para além da Guerra e das minhas tarefas distribuídas, eu fazia grandes caminhadas e tirei algumas fotos com uma bela máquina a preto e branco que era do melhor que havia como marca mas, depressa deixou de funcionar. Os trambolhões, a humidade, as dilatações provocadas pelo calor, o pó e tudo o mais, levou-a a desaparecer do meu convívio, muito rapidamente. Assim, além das caminhadas, o meu passatempo, passou a ser, ainda com mais afinco, a música.

Assim, muitas vezes, ouvia música pela noite dentro, através da Rádio Clube de Moçambique e LM Radio e quantas vezes ao som dessa música e inspirado por ela, escrevia as minhas cartas para a minha "companheira anti-beligerante" que, com armas e bagagens se batia de outra forma, na Universidade de Porto Rico.

Como ela me dizia, quase todas eram contra as guerras mas, ser contra as guerras, não significava que fossem contra aqueles que eram obrigados a combater nelas. Por razões mais que óbvias, se assim fosse, ela teria de ser contra o seu irmão na Guerra do Vietname e contra mim, na Guerra de Moçambique. Eram sim, contra as razões que levavam os homens à guerra e não contra os combatentes em si"!

Diz o Ventor que esta moça, de origem hispânica,, era muito inteligente e teria, certamente, uma miscelânea de sangue espanhol, Azteca, Maia ou dos amigos Incas do Ventor. Os seus olhos negros, saídos de uma tez morena e viva, indicavam ao Ventor, traçados das caminhadas do seu passado que desde há milénios fez entre os Incas, seus companheiro galácticos!

Que a Iris (digo eu) seja muito feliz no seu S. João de Porto Rico ou, algures, em qualquer canto do Mundo.




O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Ainda o Ventor e o Medo

  Ventor 14.02.06

Contar segundos à espera de ir pelos ares!

O medo, de vez em quando, perseguia o Ventor. Ele diz que não fazia nada por isso, mas ele aparecia. Caía do céu e pronto. E olhem que este caiu mesmo do céu! Diz o Ventor que desta vez os cães não lhe meteram medo. Desta vez foi ele que meteu medo aos cães. Então vejam o que me disse o Ventor:

«Eu tinha desafiado alguém para ir à caça, penso que foi o Sargento Dias, mas por qualquer razão, ele ou outro, ou não quis ou não pôde alinhar nesse dia. Chamei a Leoa e o Goldfinger e corri com os seus filhotes para trás para não nos incomodarem, pois muitos cães atrapalham mais que ajudam.

A Leoa, o Goldfinger e eu, seguimos direitos ao centro da pista para atravessar para o lado contrário. Ao atravessar a pista entrei na sua lateral de terra e comecei a penetrar numa zona de ervas e pequenas moitas , tipo carrascos. Como tinha chovido, um ou dois dias antes, nesse dia quente, o meu amigo Apolo secara as margens de terra lamacenta que acompanhavam a pista e já estavam sequinhas. Por essa razão, eu não ia de botas de água e ia ver como a lama ficava de repente dura que fazia parecer que já não chovia há dias, mas tinha chovido na véspera ou antevéspera.

De repente, vi o "cu gordo" de uma granada de morteiro (120mm? Lá grande era ela) enfiada no chão, incrustada na terra dura. Os meus olhos pareciam os olhos de uma ave de rapina quando olha a presa. Devem ter ficado esbugalhados! Chamei os cães para se manterem a meu lado. Pensei, imediatamente,  em fazer uma retirada para o AM 61 e tratar de mandarem tirar dali aquela coisa. Quando inicio a minha retirada, vejo outra coisa daquelas à minha esquerda. Exactamente igual! Quando penso em retirar pela minha direita, vejo outra! Formavam um triângulo quase perfeito. O receio torna-se em medo e o medo em pavor, ou quase! E isto porquê? Apenas porque pensei o pior e o pior para mim, naquele momento, foi pensar que, "os esfrelimos", lançaram a morteirada e não percebiam nada daquilo ou, por avaria, os morteiros não rebentaram. E o pior, seria eles irem lá, pé ante pé e armadilhar aquelas máquinas destruidoras. O pior estava pensado e o pior, leva-nos, sempre, ao medo.

As granadas eram 3 semehantes a esta, enterradas no chão em triângulo

O nosso morteiro era um morteiro 60 ou 81

Assim, os meus olhos continuaram esbugalhados, ou esbugalharam ainda mais, quando comecei a procurar se entre as ervas, ou entre aquelas "sarças não ardentes", se encontrava algum fio que pudesse estar a armadilhar aquelas coisas terríficas, ligando-as. Por mim, se estivesse só, não teria medo, porque tinha muitas possibilidades de sair vencedor de algum eventual fio de Ariadne mas, com os cães à minha volta, comecei a ver a coisa preta. Eu, nessa altura, tinha olhos de lince e o eventual fio não me escaparia, pois se entrei ali sem o ver e as coisas não explodiram, era agora a minha vez de mostrar que teria vantagem sobre a sorte do imponderável anterior. Mas tinha o problema dos cães! Eles estavam estupefactos com a minha reacção e eu apenas queria que eles se mantivessem no chão quietinhos mas, não sabia se eles teriam coragem para me obedecer, enquanto eu procurava o tal fio ainda imaginário, mas provável.

Primeiro, fiz um jogo de guerra com os dois cães. O Gold olhava-me impávido e sereno e a Leoa estava muito nervosa. Virei-me para eles e disse-lhes: "não há aqui coelhos, nem raposas, nem nada. As codornizes já estão ali adiante, no meio do capim. Esta peça de caça só pode ser minha. Vocês não se mexam! Fiquem quietos"!

Eles perceberam que não se podiam mexer, senão, eu ficava chateado e isso eles não queriam. Pelo menos o Goldfinger. Foi pelo local dele que eu comecei a procura. Comecei dos meus pés para o Goldfinger e do Goldfinger para a Leoa. Nós encontrávamos-nos, aproximadamente, na base do triângulo. Se tínhamos passado ali e aquilo não rebentou, a parte pior era a zona da Leoa que era a que estava mais dentro. Disse ao Gold para se manter deitado e quieto e aproximei-me, pé ante pé, da Leoa com os meus olhos a varrer o solo todo até ela. Verifiquei a moita, junto, dela e nem réstia de fios. Pus-lhe a mão na cabeça e disse-lhe: "vem devagarinho comigo para junto do Gold e vamos buscar munições. Juntaram-se a mim e voltamos os três à pista com o Gold a rastejar a meu lado. Ali tive deveras medo quando pensava qual dos dois cães iria dar um tropeção no "fio imaginário" e, enviar tudo pelos ares, nós e a pista. Mas o Senhor da Esfera estava do nosso lado!

Eu adorava aqueles cães que nunca foram ensinados e obedeciam a tudo!

Cheguei ao AM 61 e contei a minha história da última meia hora. O primeiro foi o Sentinela do posto de ligação à pista. "Tem os olhos bem abertos. Qualquer coisa está mal"! Ele agarrou a arma com mãos de ferro, tirou os olhos dos meus e cravou-os na pista. Liguei para o Comando do Sector Alpha e pedi para falar com o Chefe de Operações. Era um Major cujo nome não recordo e pedi-lhe para enviar sapadores para retirar, pelo menos, 3 granadas de morteiros, que pensava serem de 120 mm, das margens da pista de Vila Cabral. Riu-se e parecia-me que estava a gozar comigo! Estava tão incrédulo como eu tinha estado até pensar na hipótese da armadilha e nas patas dos meus fiéis amigos a despoletarem aquilo tudo.

Nessa altura, o barulho seria tal que ninguém teria dúvidas sequer, e os sapadores só retirariam as nossas ossadas ao mesmo tempo que iriam olhando e pensando na virgem do Monte da Capelinha - lá longe - mas bem à vista da pista de Vila Cabral!

Nesse momento, já tinha na mão, uma "bazuca pacifista", uma cerveja MacMahon, garrafa verde e disse ao nosso Major que me conhecia relativamente bem, devido aos contactos que tínhamos pelos apoios da Força Aérea, às suas operações, para ver se os homens dele chegavam lá, enquanto eu bebia a bazuca! Perguntei ao Aeroporto de Vila Cabral se esperavam a chegada de aviões civis e, o nosso amigo Leiria, disse-me que não. Fiquei mais satisfeito, pois ainda não sabia se aquilo estava armadilhado ou não. Eu só tinha procurado o caminho para sairmos dali. Saí por onde entrei e ali não havia fios mas poderia, realmente, estar tudo armadilhado e até para fazerem que rebentasse à passagem de algum avião.

Com os nossos não ia haver problema e com os civis também não. Bebi a cerveja, respirei fundo e pedi ao Senhor da Esfera que ajudasse os sapadores na execução do seu trabalho.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

O Ventor e o Medo

 Ventor 13.01.06

... em Tempos de Guerra

O Ventor nunca foi medricas mas foi sempre muito cauteloso. Mas mesmo não sendo medricas, por algumas vezes, encontrou-se em situações de ter medo. Já me falou de várias dessas situações na sua passagem por África e, algumas, eu colocarei aqui. Hoje falo-vos de uma dessas situações de medo.

Disse-me o Ventor:

«Com a minha chegada a Vila Cabral, no verão de 1969, chegou também o meu vício da "caça". Raramente arranjava voluntários para, juntamente comigo, palmilharmos uns bons quilómetros, em redor da cidade. Por isso, quase sempre executava essa tarefa só. Só não, porque tinha os melhores companheiros que se podem imaginar para caminhar naquelas situações. A Leoa e o Goldfinger, algumas vezes acompanhados pela sua rapaziada, os seus filhotes.

Nos primeiros dias, comecei a rondar a cidade, as suas ruas, as suas tascas e a beber umas laurentinas, no Café Planalto. Depois comecei a afastar-me da cidade e a caminhar pelos seus arredores, atravessando campos de feijões e de milho, pinheiros (muito novos) e eucaliptos (novos e velhadas) capins sem fim, caminhando atrás de rolas, pombos verdes, perdizes, codornizes, patos, etç.

Posteriormente, fui-me afastando mais e entrei no encalço do facochero, uma espécie de javali. Numa destas escapadelas, levava comigo apenas, a Leoa e o Goldfinger e fui para uma lângua onde dias antes tinha visto patadas desses facocheros e disse, cá para mim que, pelo menos, teria de ver um ou mais a correr. A verdade é que quando estava a aproximar-me sorrateiramente do local, a Leoa levantou o pelo no lombo (parecia um campo de centeio a germinar), levantou uma pata dianteira e olhou, firmemente, para o morro, junto de nós, um pouco à direita e o Gold numa pequena corrida, tomou posição a seu lado. Julguei que seriam perdizes e caminhei para o local com a arma pronta a fazer fogo com chumbo para coelho e perdiz. Entrei na base do morro e o capim era da minha altura.

Capim

Um dia destes encontrei um local, topograficamente, muito semelhante a esse de Vila Cabral. Em vez de capim, tinha outro tipo de ervas, também bem altas e em vez de leões imaginários ou até raposas, tinha amigos penudos como rolas, tal como lá e também outros amigos penudos, como pardais, pintassilgos, etç. Lá eram outros. E apesar de, em tempos, ter ouvido falar do leão de Rio Maior, neste morro, nem me passaram pela cabeça raposas e muito menos leões.

Comecei a trepar e quanto mais trepava na base do morro, maior o capim se tornava, ficando em posição de não ver nada à minha volta. Nesse momento, os cães ficaram de tal forma que me pareceu estarem com medo. Reparei na Leoa no meio do capim, duas passadas à frente, um pouco à minha esquerda e o Gold, na mesma posição, um pouco à direita. Disse-lhes baixinho: "venham cá, não se afastem". A Leoa tinha o seu pelo curto todo esticado, pata no ar e parecia que à sua volta só existiria eu, o Gold e o terror, pois a sua pele, com o pelo esticado, até tremia. Olhei o Gold e estava na mesma. Disse cá para mim: "vocês nunca estiveram nesse estado e agora até eu já estou a ficar na mesma. Só me falta o cabelo levantar-se na cabeça. Vou mudar o chumbo"!

Só pensava em algo como isto. Aguardando serenamente a nossa subida

Mudei o chumbo de caça pequena, para chumbo de caça grossa. Fui olhando em redor e substituindo os cartuchos até completar a mudança dos cinco cartuchos da Browning. "De vagarzinho a meu lado", disse eu para os cães. Cheguei a pensar sair dali por onde entrei mas, imaginei tratar-se dos leões que foram roubar os porcos ao Garcez. Retirar seria dizer-lhes para avançarem! O sítio era ideal para os leões controlarem tudo, em redor e o medo denunciado pelos cães mais o cheiro intenso a bravo, a animais selvagens, mais me levava a acreditar tratar-se de caça grossa, ao ponto de, falando com os meus botões, dizer para os cães: "Estamos lixados"! Mas a Leoa, como sempre, estava em pulgas e o Gold também, aguardando que eu desse ordem de ataque!

Fomos subindo, passo a passo e só tentava ver se o capim remexia à nossa volta. Mas à nossa frente só existia capim e cheiro e, o Horizonte, sobre a minha cabeça, onde nunca mais chegava. Nunca mais trepava a subida daqueles meia dúzia de metros sem fim, pois nunca mais acabavam. Com aquele cheiro a bravo que nos rodeava, só imaginava um animal feroz lançar-se, de cima para baixo, sobre mim e os cães e só pensava não perder um segundo na hipótese de eu abrir fogo a tempo. Mais atrás e à minha esquerda, estavam os facocheros. Seria que estavam ali os leões para caçar os facocheros? Seria que fugiram à minha chegada ou estavam prontos para atacar? Perguntas sem fim, fervilhavam na minha cabeça e a resposta estava prestes. O cheiro a bravo era cada vez mais intenso e os meus companheiros não me animavam! Eles estavam como eu ou ainda pior. Imagino as perguntas que também fervilhariam nas suas cabeças. Sentia que eles queriam era receber a ordem esperada. Ataquem! Mas, para os animar a eles e a mim, disse: «Calma, vamos conquistar o morro e ficaremos senhores do planalto e da lângua".

Uma destas não seria e leopardo também não. Onde eles já iriam!

Mais umas passadas e assim foi. O animal selvagem não se lançou sobre nós e, agora, senhores daquele mini planalto, a minha arma, tal como um animal com olhos, procurava tudo à minha volta. Naquele momento, só não queria que a Leoa e o Goldfinger se afastassem de mim para não se colocarem na minha linha de tiro, pois já tinha tido experiências dessas. Confirmei que não havia nada e a minha primeira reacção foi: "seus grandes burros, seus cagarelas, meteram-me mais medo vocês os dois que os leões do Garcez se estivessem aqui"! Mal acabei de falar, foi o sinal de libertação que a Leoa quis ouvir. Deu uma corrida e mandou-se a uma toca esgaravatando tudo em volta da sua entrada. Vi a toca e chamei-a. Ela obedeceu-me e deixou de escavar, enquanto ao Gold só lhe faltou colocar uma pata com um dedo esticado na testa e chamar-lhe maluca.

"Venham cá, vamos ver se adivinhamos o que está aqui"! Eles afastaram-se, eu espreitei a toca. Senti que algo se mexia lá dentro. Meti o cano da arma no buraco até à curva da toca a ver se era atacado e uma raposinha pequenina aproximou-se, cheirou-o e olhou-me. Pareceu-me ouvir: "que raio Ventor, porque vens atrás de mim com esta coisa tão fria"? "Oh, raposinha, a tua mãe deve estar a ver-nos e deve ter ficado aterrorizada. Mas podem ficar descansadas que nada vos fará mal. Hoje, nem a Leoa"!

Foi num buraco assim que meti o cano da Browning, já com chumbo grosso e lá dentro, uma das três. habituada a esper a mãe, foi logo cheirar o cano da arma

Para mim foi uma grande aventura que durou alguns minutos, eternidade que nunca mais esqueço. Ainda hoje vejo aquele focinhinho pequenino a cheirar o cano da Browning e aqueles olhinhos brilhando, fixos nos meus.

Fui embora para o AM61 e contei a peripécia e a maneira como se pode ter medo a qualquer momento. Basta pensar no pior. No dia seguinte um emissário do Governador do Distrito do Niassa pedia-me se indicava o local das raposinhas que o Sr. Governador queria uma. Já não sei bem como foi, mas sei que me chatearem tanto que lá indiquei o local. Se a minha experiência empírica funcionasse, pensei, eles não as encontrariam. Levei lá dois homens armados de pá e pico e transpiraram à farta para encontrar as raposas, escavando um chão que parecia feito de betão. Gozaram comigo e até me disseram que mentia, porque não estava lá raposa nenhuma, como se eu tivesse necessidade de pregar uma aldrabice dessas que, provavelmente, tal coisa, nem pela cabeça me passaria.

Ainda hoje tenho dúvidas se eles acreditaram nas raposas. Dias depois, passei naquela zona com mira nos facocheros e um pouco afastado do mesmo local para não perturbar as meninas e encontrei a mãe e as raposinhas a brincar. Talvez fossem as mesmas, talvez fossem outras mas, a verdade é que cheguei à Base e disse: "desta vez, voltei a ver as raposas e tenho a certeza que são, pelo menos, três pequeninas e uma grande. Mas desta vez, nem que o Kaúlza de Arriaga me pedisse, nunca diria onde estão"!

A mãe deve-me ter cheirado pois, dois dias depois, fui espreitar o local dessa nova toca, com os cães junto de mim para não lhe fazerem nada. Caminhei com os cães junto das minhas pernas para a Leoa não atacar as raposinhas e também já lá não estavam!

Pelo menos tive o prazer de ver aquela família de raposas muito felizes na sua brincadeira de uma tarde quente, sobre outro morro da cor da ferrugem. Um morro rapado, sem capimjunto da toca e, à sombra de árvores frondosas. Essa toca tinha sido toca de hienas. Estive pouco tempo a olha-las porque era difícil fazer a Leoa obedecer-me, muito tempo, sem fazer barulho. Mas eles sabiam que eu estava contente e aguentaram-se. Depois voltei pelo mesmo caminho a pensar qual delas me olhou e cheirou o cano da arma. Seria, certamente, a mais atrevida que brincava tropeçando e caindo enrolada, voltando logo a levantar-se e a mandar-se para cima da mãe. Umas belezas aquelas raposinhas».

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

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