domingo, 18 de maio de 2008

Encontro em Massamá

  Quico e Ventor 18.05.2008

A minha dona, para além de todos os males que a têm apoquentado, levou com mais um suplemento terrível. Uma hérnia discal!

As belezas do ventor 

Essa hérnia foi extripada no Hospital da Luz. Um sítio, onde aparece, em vários Placards, esta frase: "A Luz é para Todos"! Será?


Um encontro apressado, mas com muito calor humano

Por essa razão, foi a minha Dona que, desta vez,  juntou alguma desta rapaziada, nossos amigos do coração.

Foram para Massamá e deixaram-me aqui só, mas o Ventor nunca se esquece de me pôr ao corrente de tudo. Mas muitos de vós sabem que, para o Ventor me deixar só, é porque tinha de ser assim mesmo!

A minha Dona gosta muito dos nossos amigos e da nossa família mas, como uma vez não são vezes, ela preferiu dedicar o seu tempo de turbolência aos nossos Amigos de Sempre. A minha Dona queixa-se muito das suas mazelas, das dores hurrorosas que passa, mas ela consegue sempre arranjar muitos sorrisos para distribuir pelos nossos amigos e, em especial, pelos velhos amigos do Ventor que já são também dela.


Conversa-se de tudo um pouco

Mas o Ventor teima em falar comigo de coisas próprias para a humanidade e não para a gataria, ou se preferirem, para a gataridade! Ele está-me a falar do que é o amor e eu digo-lhe que, se o amor é assim tão bom, porque é que os homens andam sempre em guerra?


Rimo-nos de tudo que nos rodeias

O Ventor vai ter de me explicar melhor essas coisas! Quero falar-vos aqui de tudo e não devo, acho eu, deixar o amor de fora.

O ventor diz-me que toda a gente fala de amor, mas ninguém sabe o que é! Será que os humanos são assim tão estúpidos?

Porque falam tanto de amor e andam aos pontapés logo aos primeiros sinais de distúrbios? Mas, em Massamá, só houve amor! Uma amizade sem fim, de todos para todos e sei que a minha Dona é assim! Quando ela sofre com tantas dores, nunca me disse, "sai daqui, Quico"!


O sorriso é o trufo

Mas ela disse, isso, em sonhos! Eu sei porque o Ventor me disse, que ela sonhou isso no Hospital. "Sai daqui Quico, estás a magoar-me"! Em sonhos, eu fiz mal à minha Dona, mas ela tem sempre amor para me dar! Eu só estava triste por o Ventor a levar e não a trazer. Por isso, quando o Ventor a trouxe, dei-lhe tantas marradinhas, tantas, tantas!


Encher os pulmões de ar está na moda

E o Ventor que tem adado muito triste a tratar da minha Dona e eu só lhe estava com raiva! Eu só pensava que ele nunca mais ma trazia!

Mas vocês não conhecem o Ventor! Ele tem o melhor coração do mundo e sofre a rir! Sofre pela minha Dona, sofre por todos, mas sempre a sorrir. Se calhar aprendeu com ela ou terá sido ao contrário?

Adoro os meus donos. Os melhores momentos da minha vida é ficar deitadinho junto deles! E agora, também gostaria de agradecer a todos os amigos do Ventor e às suas Donas, por se terem preocupado tanto com a minha Dona e com o Ventor. Agora tenho a minha Dona junto de mim, cheia de dores, mas sempre continua a sorrir para mim!

Para todos vós, "a special touch of your friend, Quico"!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 23 de março de 2008

Mais uma Páscoa

  Quico e Ventor 23.03.08

Marrupa, 1968 - Domingo de Páscoa.

O Ventor, desde que o conheço, todas as Páscoas me fala das vossas sagas! Desta vez, agora que alguns de vós já têm conhecimento do "sítio nético" onde estamos, ele fala, directamente, deste nosso sítio, para todos aqueles que sabem da nossa existência. Para vós e para todas aquelas que já  foram ou são ainda, as vossas grandes companheiras de outras caminhadas - Especialmente, as vossas esposas.

Algumas, o Ventor teve o grato prazer de vir a conhecer, naquele lindo encontro na casa do nosso grande  amigo, em Alfundão. Para todas elas, um beijinho muito especial, do Ventor da minha dona e também meus - este vosso amigo Quico.

Escutem o Ventor:

«São 40 anos que passaram por nós!

São 40 anos que, de domingo em domingo de Páscoa, eu aprecio esta imagem de nós todos que, então, se encontravam naquela que foi, e ainda é, Marrupa!

Marrupa, Domingo de Páscoa de 1968

E a Páscoa de 1968, em Marrupa, é a única que recordo, pela foto e pelas três amêndoas. A Páscoa que passei, no ano seguinte, em Npva Freixo, pouco me diz.

Hoje, Dmingo de Pácoa,  vou comer as minhas 3 amêndoas, como nesse dia e como todos os outros que ouve desde então. Se alguém comeu mais que três, foi batoteiro! Três foram quantas me calharam!

Para todos vós, que resistiram  a essa e outras sagas da sua grande caminhada, os votos de que as amêndoas não vos faltem  em nenhuma Páscoa da vossa vida.

Vocês nem imaginam a alegria com que tenho, pelos anos fora, olhado essa fotografia! Este ano reparo nela num misto de algeria pelos que cá andamos e de trsiteza, porque fui informado que o Piloto Aleixo também já tinha falecido.

Recordo bem a garra com que ele comia essa sopa!

Eles, os que partiram, continuam connosco, porque o nosso coração estará sempre junto deles, na recordação desse nossos velhos tempos.

Para todos vós, para todos os duros do Niassa, que passaram por Marrupa, Vila Cabral e Nova Freixo, os meus votos de mais uma Páscoa cheia de saúde, e  um abraço simbólico com as minhas três amêndoas, como as de Marrupa. Este abraço, estende-se às vossas esposas que passaram por Alfundão e a todas as outras que não conheço. Elas, as nossas companheiras das outras caminhadas, são a nossa outra metade das nosss vidas»!


Tiro s

Tiro sempre três para mim. Podem ficar 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 8 de dezembro de 2007

Amigos de sempre 1

  Quico e Vento 08.12.2007

Fui dar uma caminhada pelo Blog do nosso amigo Fafe e verifiquei que mais um dos Companheiros de Guerra do Ventor, foi levado para companhia do Senhor da Esfera e de que o Ventor não tinha conhecimento - Meireles (o Neca do magazine).

Os três da linha da frente, nesta foto, já nos deixaram e deixaram muitas saudades. Dos da linha de trás, o Ventor não sabe nada. Alguém sabe?

Podem ver aqui a homenagem do Fafe, às últimas partidas inesperadas dos nossos belos Amigos... de Sempre

Deixo-vos aqui o link do Blog do Fafe para, se o quiserem, poderem ouvir a Nana Mouskoury a cantar La Paloma, tal como o Chinita gostava.

O do centro, nos três da frente, é o nosso amigo Costa, que nos deixou há dias. Um terrestre entre aéreos, como diz o nosso amigo Fafe!

É assim que o Ventor vai sabendo da partida de alguns daqueles que partilharam de belos momentos das suas caminhadas mas que, por vontade do Senhor da Esfera, se foram adiantando no ciclo do tempo.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Amigos de Sempre

 Quico e Ventor  08.12.07

O Ventor dizia-me há dias que, quando no verão passado, passava entre as montanhas Cantábricas, tinha a sensação que ouvia sair daqueles buracos de séculos, os sons das trombetas de outrora. Que sentia no rodado das estradas das Astúrias não as botas cardadas do seu tempo, mas o som do tilintar das espadas dos companheiros de guerra do seu amigo Pelágio.
De cada encosta que se debruçava sobre os belos vales asturianos, saíam escondidas do meio das suas rochas as trombetas das forças de Pelágio e os gritos da balbúrdia dos seus homens que apelavam à vontade do Senhor da Esfera para os ajudar na luta contra os sarracenos que violavam a terra sagrada de seus avós.                                                                                                                 
 
Sempre bem dispostos e preparados para enfrentar as melgas
Agora o Ventor diz-me que os sons que sente, são outros! São os sons dos clarins que os cipaios tocavam ou mandavam tocar, nas savanas, em redor de Nova Freixo (actual Cuamba), em Moçambique. Diz o Ventor que a alvorada deles era a sua alvorada e que os jacarés do rio Lúrio e seus afluentes também acordavam ao mesmo toque.
 
Sempre aptos para prosseguirmos a nossa caminhada
 
O Ventor disse-me que hoje pressente esse toque como um apelo à unidade. À unidade dos “Duros do Niassa”. Ele diz-me que hoje aqueles que viveram esses tempos no norte de Moçambique, necessitam tanto dessa unidade como nos tempos passados. Diz-me também que o nosso amigo Apolo continua a iluminá-los tanto cá como os iluminou lá. A sua luz é eterna para todos aqueles que tiveram a união do combate! Ou, se quisermos, pelo que entendo do Ventor, todos podem continuar a manter os sorrisos de outrora desde que se encontrem por este país fora e continuem a sorrir mesmo quando a vida semeia à sua frente dificuldades que neste país é coisa que não falta.
 
Sempre preparados para o trabalho, para os nossos cigarros e os nossos copos
E o Ventor continuou a sua conversa comigo:
«Agora, Quico, tocou o clarim outra vez e, ao ouvir o toque do clarim, esse toque que nos chama à unidade, verifico com pena que nunca mais estaremos todos!
Cada vez, somos menos, cada vez que Apolo nos espreita, sempre que rodamos à sua volta, poderemos ser menos! E, por isso que cada vez estaremos mais compactos. Mais unidos! A nossa união será mais a da lembrança do passado, o clarim da presença.
Sempre prontos para o combate contra inimigos sem fim. Melgas e percevejos, sempre presentes, mas o inimigo estava por todo o lado. Por isso alguns tombaram mesmo fora do campo da batalha
Há dias, senti presente no meu coração os meus amigos de sempre. Senti o apelo da presença e para isso tens contribuído tu Quico!
Há pouco tempo tive o grato prazer de ter a companhia de alguns dos meus amigos de sempre, daqueles a quem chamo “meus companheiros de guerra” aos quais nunca esqueci. Verifiquei que os seus cabelos estão brancos, as suas barbas estão brancas, as suas rugas mais profundas. As minhas também!
 
Sempre preparados para mais uma arrancada, mesmo quando de bruços
 
 
Mas os nossos corações não mudaram nada! Estão mais velhos, talvez envolvidos por arritmias ou por pancadas descompensadas, mas todos nós continuamos com os mesmos sorrisos de outrora.
É com o coração com esse mesmo coração e com um sorriso, desta vez triste, que deixo aqui a minha homenagem a um amigo desses tempos, a um amigo que partiu mais cedo. Mais um!
Até qualquer dia Puskas.
Mas antes que essa tristeza nos tocasse, também nos tocaram as alegrias do convívio de alguns de nós.
Tive o Prazer do convívio do mais “Louco” de todos os loucos;
Tive o prazer do convívio daquele que será sempre o nosso Cheka;
Tive o Prazer da companhia do mais "valente" dos valentes;
Tive o prazer do convívio de um amigo que não via há 37 anos, o Antunes;
Tive o prazer de falar, por telefone, com o nosso “Pescadinha” que estava longe, em Luanda e com o Coutinho, aqui mais perto, nos arredores do Bombarral.
O nosso amigo “Louco” deu-lhe na “gana” de fazer uma chamada às 10 e tal da manhã e conseguiu juntar quem foi possível estar presente, em Mafra, durante a tarde e uma parte da noite. Ele veio do Alentejo e o Antunes veio do Porto, onde tinha chegado vindo daquela linda terra que fora nosso palco de guerra, noutros tempos. Moçambique! Hoje será para muitos de nós, um palco de paz. Isto, só por si, mostra a grandeza e a força dos nossos laços.
Da próxima vez, estaremos, certamente, mais e, acredito, que será o Antunes a levar o nosso abraço a Moçambique.
 
E quantas vezes nos céus de Moçambique a esperança de rumo para um amanhã diferente
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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Aos Duros do Niassa

  Quico e Ventor 09.05.2007

Sou o Goldfinger!

Lembram-se de mim?

Eu regressei ao Planeta Terra, pelas mãos do Ventor, para vos saudar.

A todos os Duros do Niassa que conviveram comigo, por aquela terra linda a que chamávamos Vila Cabral, actual Lichinga, o meu abraço.

O Ventor quer que eu o acompanhe por aqui para permanecermos, juntos, a vosso lado.

Eu fui um cão feliz enquanto convivi convosco, mas já nessa altura sofria muito. Todos vocês chegavam e partiam num ápice. Eu arranjava amizade convosco e depois perdia-vos! A Leoa dizia-me: "deixa-os ir Gold, assim como assim, não nos ligam"!

Mas eu sei que ligavam e sei que, caladinhos, choravam, ao partir, enquanto eu chorava sempre ficando para trás.

Depois, bem, depois, nem vos conto! Apenas, vos digo o que disse ao Ventor!  Vieram os outros e mataram-nos, descarregando sobre nós, sobre mim e os meus companheiros, pobres animais, as suas frustrações terroristas! Não, não tenham vergonha! Era assim que lhe chamavam, lembram-se?

Eu tive muitos amigos, cada um de vós era um amigo, mas chorei pelo Ventor e sei que o Ventor chorou por mim.

De momento, aproveito para vos saudar, mas voltarei para conversar convosco!


Vila Cabral, 1969, travões ao fundo!

Lembro-me de correr ao lado do Ventor para chegarmos rápido. O Leiria da Torre, na frequência civil, avisou que os céus estavam disponíveis e podiam avançar. O avião da frente não ouviu a mensagem e o de trás ia para cima dele. Para evitar danos maiores, travões ao fundo e afocinhou!

Olá, Duros!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 21 de maio de 2006

Companheira de Guerra - A Especial

 Quico e Ventor 21.05.06

A Especial! E para a Eternidade!

A minha mãe.

Amigos sabem que o Ventor também chora! Um dia destes dei com ele a chorar. Verdade! Perguntei-lhe o que tinha e contou-me! Disse-me tudo isto:

«Às vezes penso, Quico! Penso que todos temos um pai ou uma mãe que se sacrificaram por nós. Todos ou quase, temos um pai e uma mãe que chorou por nós ou que choraram por nós! A minha mãe era uma flor e é assim que eu a recordo.

 

Era uma flor muito linda

Eu recordo-me do que me contavam e do que ainda me contam, desde que parti da minha terra aos 15 anos. Depois fui para a Força Aérea, depois para África e dizem-me que a minha mãe sempre chorou por mim.

Chorava em voz alta, todos os dias no meio dos carvalhos que eu deixei decotados e sempre que tocava em alguma coisa que eu deixei para trás.

Chorava quando apanhava as maçãs das macieiras que eu tinha enxertado.

Chorava a comer as boas peras dadas por pequenas pereiras que eu tinha enxertado em pereiros bravos.

Chorava quando eu lhe perguntava se as videiras americanas que eu tinha desembaraçado das silvas onde estavam atoladas e as pernadas que virei para cima do carvalho junto, e as pernadas que fiz passar sobre estacas de salgueiros que tinha enterrado no chão e pegaram, dando origem a uma latada viva que no primeiro ano, dizia-me ela, toda encantada, dera dois cestos de uvas.

Sempre me falava das minhas coisas, do jeito que eu tinha para a jardinagem, pois desde que me lembro de existir transformava sempre quaisquer cantinhos das nossas lavouras, em autênticos jardins.

Chorava quando eu lhe perguntava  pelos morangos com que lhe enchi uma horta que só dava couves, feijões e pouco mais, passando a dar, também, belos e saborosos morangos.

Chorava, quando já pela fraqueza da sua velhice, lhe dizia por carta ou telefone, o que deviam fazer, para esquecerem as vacas, as lavouras, as videiras, as pereiras, as macieiras, os pessegueiros, etç., tudo que eu também tinha deixado partilhando das suas vidas.

Chorava quando olhava a nossa tapada de matos com quatro lindas árvores grandes que, eu de sacho na mão, havia plantado. Uma delas, a minha canecipe, tinha sido plantada com as unhas e um esgaravato, num dia que não tinha sacho.

Um grande amigo meu, dos meus tempos de criança - um guarda florestal - pois eram todos meus amigos, sabia que eu gostava muito de canecipes e deu-me uma pequenina para plantar na tapada.

Deixa-a na nascente em terra húmida e quando poderes planta-a, pois ela crescerá contigo".


Local de sonhos

Eu deixei e, no dia seguinte, como tive de lá ir e não levei sacho, plantei-a com as ferramentas que Deus me deu, as unhas e um esgaravato. Ainda hoje, sempre que vou à minha terra, vou ver a minha canecipe - a canecipe do Ventor! Junto da minha canecipe, o meu castanheiro, o meu carvalho, o meu vidoeiro. Ali estão perenes e heróicos também porque vão, resistindo a pavorosos incêndios que volta e meia queimam todos os matos em volta, ficando elas ali, autênticas bandeiras, aguardando, ano após ano, que eu me rejubile com a sua heróica resistência e quando eu lhes toco no tronco, parece-me que falam comigo.

Ao lado delas, só resistem as salamandras amarelas e negras que, juntamente comigo, bebiam água na mesma nascente. Quando os fogos passam, elas metem-se na água e esperam que tudo se resolva. Da última vez, os matos estavam molhados e eu não deixei o carro na estrada para subir até elas mas, elas compreenderam e limitaram-se a dizer-me: "volta sempre Ventor. Tu és quem nos dá vida! Quando um dia deixares de regressar, nós não existiremos mais, pois as gentes, apenas olharão para nós como umas árvores.

Senti o apelo daquelas árvores, o seu choro que se juntou ao meu naquela pequenina bomba que continua a nos manter vivos. Eu penso que elas terão um élan divino que as faz esperar por mim, há quase meio século.

A minha irmã, que tinha levado ao Hospital de Ponte de Lima e, no regresso, lhe disse que queria ir pelo outro lado da serra para ver as minhas árvores, ficou com os olhos rasos de lágrimas e, quando parados na estrada, a olhar para os meus grandes monumentos vivos, disse-me: "muito chorou por ti a nossa mãe, em frente daquelas árvores!

 

Tenho um grande castanheiro que chora comigo

Chorava por ti em tudo que era sítio. Ela chorava e o cão uivava e eu só tinha ciúmes! Às vezes achava que não valia nada, nem sabia o que andava aqui a fazer". E abraçou-se a mim a dizer que ficaram magoadas, quando eu na brincadeira, dizia que, por mim, só chorou a Íris, minha madrinha de Guerra, que me acompanhou nas minhas venturas de guerra durante cerca de quatro anos.

E continuou: "mas tu já morreste e já renasceste. Eu sabia que toda a gente chorou por ti na América, devido ao telefonema atarantado da tia Sistela, que pensou que foras tu que morreste em vez do nosso Manel e, a tua madrinha ia morrendo aos gritos, pelo seu Ventor e, informaram as pessoas que tu tinhas morrido e assim foi passando de uns para outros, até o Carrasco recolocar as coisas no sítio. Era o nosso Manel que estava nas mãos de Deus e era por ti que toda a gente de Adrão, pelo mundo, chorava. Muitas pessoas me disseram logo que eu fui para a América que, sentiram, no meio da tristeza a alegria do engano.

Tu foste sempre o mais querido de nós os três, para todas as pessoas, apesar de teres sido um macaquinho para todos, toda a gente era tua amiga. Até sabias ser macaco!

Até posso ter sido macaco para muita gente, mas sei quanto eram meus amigos e também sei que, nenhum dos rapazes do meu tempo, fizeram por eles o que eu fiz. E, assim, não há macaco que não se safe! Também sei que muitos dos que muito me queriam já se foram e os que restam estão para ir. Apesar de tudo, ainda sinto o apelo de todos eles, os que estão e os que já se foram e que, do outro lado, nos esperam.

Tal como a minha mãe e o meu cão, eu sinto o apelo dos carvalhos e dos sobreiros, das imagens sagradas que habitam na minha retina, do chamamento da águia a caminho do ninho, nas fragas que se levantam nas profundezas do rio de Bordença e do voo do açor, quando ainda por lá andava na minha meninice.

Do apelo do gaio esvoaçando sobre os carvalhos e, do cheiro, daquele cheiro a terra que só em África me pareceu igual, nas manhãs húmidas e quentes - talvez fosse o cheiro da saudade!

Tenho na profundidade dos meus ouvidos, os gritos da minha mãe e o latir do meu cão, bem como o assobio de meu pai e o latido do cão, em querer desdobrar-se em metade dele para mim e a outra metade para querer ir caçar, mas só ia quando eu falava com ele a dizer-lhe que o dono esperava e que tinha de ir. Por isso, eu digo: "quem não tem uma mãe que não chore por si? Quem não tem uma mãe ou um pai que tanto sacrifício fazem ou fizeram por nós?

Eu tinha e ainda tenho, na saudade, a minha querida mãe que, no seu leito fúnebre, estava linda, um aspecto natural límpido, que mais parecia viva que morta!

Eu vi desfilar por diante dela, os amigos de todas as aldeias em volta e vi, da aldeia do meu pai, toda aquela gente inclinar-se perante a Teresa, a quem todos diziam: "adeus Teresa, até qualquer dia"!

Vi as pessoas a tentarem esconder de mim as ossadas de meu pai e o cinto quase novo que lhe prendia as calças que levou para o outro mundo.

Talvez aquele fosse o cinto que os iria amarrar para sempre. Ela foi sempre, Quico, a minha Companheira de Guerra e, sabia que junto de si, estava sempre o seu Ventor.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Rios de Som

  Quico e Ventor 19.04.2006

Em Tempos de Guerra

Diz-me o Ventor e eu sei disso, pois sou obrigado a ouvir música com ele:

«Sempre fui um atento ouvinte de músicas. Belas músicas! Normalmente, não fixo os nomes dos muitos autores, dos muitos cantores, dos muitos músicos, das muitas empresas gravadoras. Excepcionalmente o faço. As músicas têm de entrar nos meus ouvidos e ficar por lá.

Uma vez entrei numa janela da Net e, no meio de muitas coisas boas, encontrei um tema que se chamava Rios de Som e a que achei muita piada. Caminhei algum tempo entre esses amigos que, por sinal, directa ou indirectamente, me ajudaram a recordar os meus Tempos de Guerra.

E isso fez recordar-me que, pelos meus Tempos de Guerra, também passaram muitos Rios de Som que eram expelidos dos Hamarlunds da Força Aérea, uma extraordinária companhia. Lembro-me de, pelas noites dentro, sintonizar a Rádio Nova Iorque, em ondas curtas, que tinha uma emissão para a América Latina, em espanhol e que, eu, sempre que podia, conseguia ouvir em Moçambique e, pela Rádio Nova Iorque recebia beijinhos de estudantes de várias universidades americanas, da Íris, a minha Companheira de Guerra e de algumas das suas amigas da Universidade de S. João de Porto Rico que atravessavam o éter cheios de Rios de Som. Estes beijinhos eram, apesar de tudo, para o Ventor e para a Força Aérea Portuguesa, no norte de Moçambique. Elas telefonavam para a Rádio Nova Iorque e os locutores encarregavam-se de fazer o resto.

Aqui Rádio Novaiorque! - lá vinham eles! ...

Nos Hamarlunds da Força Aérea, corriam os nossos Rios de Som que, algumas vezes, eu colocava nas cabinas dos pilotos para descomprimirem das agruras da solidão, nos mais belos céus do mundo e, por vezes, os mais temidos também, pelos seus gigantescos cúmulo-nimbos, por vezes mais negros de que a própria África, ajudando assim, no regresso à nossa Lápide de Arame Farpado.

Obladi, Obladá, Hey Jude, Love me do, Penny Lane, All you need is Love, Let it be, Get Back, ... dos Beatles. Reach out, I'll be there, dos Four Tops (uma música das minhas favoritas que utilizei como lema), My Sentimental Song, for my Sentimental Friend, Let him live, ... e, tantas outras! Se isto para muitos de vocês é fuleiro (?), para mim, são Rios de Som que me alegram a alma, que me movem no passado, no presente e no futuro.

Ao ouvirem em plena campanha aérea, o Obladi, Obladá, que partia do nosso centro de operações e entrava nas suas cabinas,

Dizia um piloto - Rima e rimará!

Dizia outro - na nuca do papá!

Ao meu lado, alguém alvitrava:

"Estes, mal aterrem, vão levar já com uma participação, em cima"! Dizia o Clark Gable.

"Não posso admitir coisas destas, senão, sobra para mim"!

Era assim que chamávamos a este Tenente Coronel. Olá, Clark Gable!!!!

Sem música, pode informar o Comando Avançado, que vão fazer a guerra sózinhos!

Quando o Clark Gable, vê no seu estilo de pai macabro, um piloto rodesiano (para os menos atentos, nós também ensinamos os outros) correr para mim, para me perguntar quem era o piloto do avião X e eu lhe disse. "Goldfinger" e apontei-o, o Clark Gable vê o rodesiano abraçado a mim a gritar que éramos extraordinários, que nunca imaginara nada assim e vai a correr abraçar-se ao Goldinger, cheio de alegria espontânea, o nosso Clark Gable, virou-se para mim - são mesmo! Vocês são mesmo extraordiários!

Todos num só, quais mosqueteiros! Obladi, Obladá!

Grita o Clark Gable: "os cornos do papá"!

A guerra continuou de noite e de dia. Cada um a travava conforme os planos traçados ou, conforme as contingências do momento. De Marrupa, voltei a Nova Freixo, de Nova Freixo, parti para Vila Cabral (actual Lichinga). Aqui estive mais seis meses e meio. Seis extraordinários meses e meio! Caminhando a meu lado, sempre a Íris que, entretanto, arranjara um namorado, mais um que começou a acompanhar o nosso trajecto e que poderei chamar, também, Companheiro de Guerra porque nunca se opôs que a íris continuasse a sua correspondência comigo por longos meses e que, mais tarde acabou por casar com ela.

Regressei a Lisboa onde recebi uma carta da Íris a dizer-me que acabara o curso dela e que tinha sido pedida em casamento. Desejei-lhe felicidades e terminamos a nossa correspondência como bons amigos que fomos, durante muito tempo. Ela acabou o curso e ia casar, eu acabei a guerra e ia procurar emprego. Terminaram as razões que nos ligaram mais de quatro anos. Darmos a conhecer os nossos mundos, um ao outro. No entanto, reconheço hoje que foi uma pena termo-nos perdido para sempre. Fomos mudando de vida, mudando de locais e fomos-nos adaptando a novas realidades.

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Uma rosa chamada íris

A íris, tinha sido uma verdadeira Companheira de Guerra! Posso muito bem recorda-la como uma rosa».




O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...