terça-feira, 1 de março de 2011

A Minha Caminhada Africana

 Quico e Ventor   01.03.12

A minha caminhada africana não se resume à minha estadia de 26 meses no Norte de Moçambique. Não se resume às caminhadas ao lado do rio Lúrio, do rio Messalo, voando sobre o rio Lugenda ou, ao lado do Rovuma;

das minhas caminhadas por Nova Freixo, pelas lânguas de Marrupa, ou em redor de Vila Cabral.

A minha caminhada africana é muito mais longa que essas caminhadas cinegéticas ou dos meus crosses nas pistas da Força Aérea, de Nova Freixo, de Marrupa e de Vila Cabral.

A minha caminhada africana completa-se com uma caminhada, bem longa, antes de chegar lá, e muito mais longa, depois de sair de lá! E, tal como o escritor francês, cujo nome não recordo (não é o Emile Zola), eu posso dizer: J'Acuse"!

Eu acuso o mundo de se esquecer de África! O mundo que só sente os interesses da África, quando sentem que estão lá os interesses deles. Eu acuso todos os que abandonaram a África! Não os que a abandonaram porque tiveram de fugir, porque foram obrigados a fugir, mas todos aqueles que estiveram nos princípios da fuga! E não me refiro apenas aos portugueses que não souberam resolver os problemas que lhe competiam, sobre a África de que fazíamos parte mas, a todos que não souberam olhar pelos interesses da África de norte a sul!

África, onde o povo, para além das misérias causadas pelas guerras, também canta e dança

Eu acuso todos os países que podem e que não tentam fazer mais pela África!

Dito isto, apenas vos digo que tento caminhar sempre, ao lado da África, que voltarei a caminhar com todos os africanos, uma nossa caminhada virtual, muito especial e não apenas com a minha gente de Moçambique, de que nunca me esqueço, mas com toda a gente de África que trabalha, canta e dança, dentro e fora das suas machambas, de norte a sul do continente.

Recordo sempre aquela moça negra que foi obrigada a partir de cá para Moçambique, porque a vida correu mal à sua família e não lhe podia dar tudo o que ela desejava (apenas os estudos - 1970) e como ela gostava do seu Portugal (o puto) e do seu Moçambique e, recordo o seu choro no Aeroporto da Portela, então, virada para trás, olhando a varanda e os muitos amigos que lá tinha, de costas para o avião, gritando: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"!

Passaram 42 anos e nunca mais esqueci! Não esqueci, Rute! Não esqueço a volta que a tua vida levou no tão pouco tempo que te conheci! E nunca esqueci o "nosso" Moçambique! Nunca esquecerei o "nosso" Moçambique! Moçambique também é meu Rute! Fui sem ele, mas trouxe-o comigo.

Este é o local onde nos dizem que fica o berço da Humanidade com cerca de 4 milhões de anos

Mas, voltando a África, recordo-me que volto ao berço! Pelo menos, em sentido figurado porque, eu, não sou daqueles que acreditam que todo o mundo nasceu nos desfiladeiros de Olduvai ou arredores! Não vejo porque um sítio que, por bondade da Natureza, nos mostra com mais facilidade o homo erectus e nos faz rechaçar para segundo plano outros que especialistas, também, bem intencionados vão descobrindo aqui e ali, por esse mundo fora. Antes das ossadas do homo erectus, apareceram as ossadas do Hiperião, um cavalo que terá vivido desde os tempos do Mioceno ao Pleistoceno e que seria semelhante ao Mercychippus, outra beleza de então, também cavalo, descoberto no Nebrasca.

Não vou em teorias, que pretendem fundamentar com ossadas mas, também não deixo de reconhecer que as descobertas se fazem transpirando. Seja como for, posso deixar aqui que, segundo os especialistas do início do séc. XX, o desfiladeiro de Olduvai, era um lugar que se previa ideal para investigar o que saísse de sob aquelas camadas sedimentares. Transformações geológicas teriam dado origem a uma falha, há 500.000 anos, que desviou o curso de um pequeno rio e transformou toda aquela área. Ali foram descobertas ossadas de omídios e seria um elo entre o Australopitechus afrerensis de cerca de 3.2 a 4 milhões de anos e o Australopitechus africanus, datado entre 2 e 3 milhões de anos.

Mas há muito para falar de África, dos seus desfiladeiros, dos seus rios, das suas savanas, das suas montanhas, dos seus desertos, das suas florestas e das suas gentes. Tentarei ir brincando com tudo isso, por aqui.

Um dos meus amigos Moçambicanos. Uma espécie de corvos que, em tempos, me disseram que Moçambique os importou da Austrália para limparem as florestas. Verdade? Não sei! Mas eu acreditei em quem mo disse. Gostava de os ver, ao romper do dia, correrem atrás das ratazanas rumo às sargetas, no AB6 - Nova Freixo

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cahora Bassa, nasceu e cresceu

 Quico e Ventor 21.02.11

Cahora Bassa (na língua local nhungué, significa: onde acaba o trabalho), nasceu e cresceu, no rio Zambeze, a cerca de 120-150 km de Tete.

No ano de 1969, quando eu caminhava por Nova Freixo e Vila Cabral, mais tarde chamadas de Cuamba e Lichinga, ouvi, pela primeira vez, falar na obra a que chamavam Cabora Bassa.

Em honra do que viria a ser essa grande barragem, tinha sido construída na zona de Vila Cabral (Lichinga), para os lados de Nova Madeira, uma barragem para irrigação a que chamaram Mini Cabora.

Podem ver aqui, no Shutterfly, as fotos de Cahora Bassa e arredores.

Um dia, eu e mais três mangas, saímos da Força Aérea de Vila Cabral (AM 61), armados de G-3 e apeteceu-nos caminhar até essa nova barragem e tinha sido aquilo a que eu poderei chamar, uma das grandes caminhadas do Ventor. Atingimos a barragem e depois hesitamos em subir pelo pico mais íngreme até ao monte da Capelinha. Só que por aí, ninguém subia para o monte da Capelinha, a não ser doidos! Mais ainda, quando dias atrás, conversando com um preto das milícias de Daniel Roxo e outro popular da cidade que conheciam aquela zona, me dissuadiram de subir aquela encosta, pois no seu seio haveria uma Pitão (vulgo jibóia), que seria do maior que existiria, em África. Nenhum deles me deu a certeza, mas era o que se constava e perante as incertezas, devemos sempre ser precavidos.



Barragem de Cahora Bassa, vista cá de cima 

Nesse dia, das margens da barragem Mini Cabora, olhei a tal encosta mas não havia nada a fazer e subimos pelo lado contrário, em direcção a Vila Cabral, ao nosso Aeródromo. Na picada, do lado de Vila Cabral, começamos aos tiros aos patos com G-3. Os patos, coitados dos patos, não corriam perigo algum a não ser o barulho dos tiros. Eles voavam de ponta a ponta da barragem e, cada vez que a bala de G-3 entrava na água, eles, para nosso gáudio, faziam a sua demonstração de voo.

O então Inspector da PIDE/DGS, em Vila Cabral, Gonçalves Dias, apareceu de jipe, acompanhado por um dos seus agentes, deixando atrás um lastro de pó, no engodo do barulho das nossas célebres G-3.

Depois de uma valente reprimenda em que acho que só lhe faltou chamar-nos tarados, acabou por nos oferecer boleia para a Base no seu jipe, ocupado à frente por ele e o seu agente e com 4 lugares nos bancos laterais atrás (dois de cada lado).


 Uma espécie de gralha (?) na Barragem de Cahora Bassa

Eu, olhei para os cães, cheios de sede, com língua de palmo e meio de fora e disse: "aceitamos a boleia mas temos de levar os cães também"! Os cães eram 4 latagões, o Goldfinger, a Leoa e mais dois do seu tamanho. O Inspector olhou para mim e disse: «os cães vão atrás, a pé. Eles não se perderão»! Eu com toda a calma deste mundo: "está bem! Vão vocês que eu vou a pé com os cães"! O Inspector, Gonçalves Dias, já a ficar furioso: «vai a pé só? Já viu quantos km são? Você regula bem da cabeça? Sem água, com kms pela frente, com um calor destes na picada e nem tem onde beber! Se acha que os cães cabem, por mim até os podem levar ao colo, metam-nos dentro»! Lá nos amanhamos e dentro do jipe, lá trás, os 4 marmanjos e os 4 cães, colados uns aos outros, lá seguimos rumo ao AM 61.

Esta e outras caminhadas, umas vezes acompanhado, outras vezes só, são experiências de vida que nunca esqueço. Esta caminhada foi pelo monte da Capelinha, pela Mini Cabora e por conta da tal gibóia.

Cahora Bassa, nos tempos de chuva, tem água a rodos

Para mim, aquela pequena barragem já era grande, pois bem nos custou dar a volta a mais ou menos, entre 1/2 a 3/4 da sua periferia. Mas, mais tarde, fiquei siderado pelo tamanho dos números da grande barragem da Cabora Bassa! Eu que até estava habituado a deslocar-me ao LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), em Lisboa, para observar os estudos de mini-hídrica ali levados a cabo sobre algumas das maiores barragens do mundo de então, onde não tínhamos nada a aprender com ninguém.

Mais tarde, acordei para os números de Cabora Bassa:

então, a segunda maior barragem do Continente Africano e a quinta a nível mundial;

uma albufeira com um comprimento de 250 kms e uma largura máxima de 38 km, com uma superfície de cerca de 2.700 km2 e uma capacidade de 63.000 milhões de m3 de água;

é uma barragem de tipo abóboda com uma altura de 163 m acima das fundações;

é detentora de uma capacidade de vazão de 13.600m3 por segundo;

possui uma potência com um grupo de 5 geradores de 415 Mw cada, podendo produzir 2075 gigawatts por hora, podendo a sua capacidade vir a ser aumentada;

as suas linhas de transporte de energia atingem cerca de 1.400 km, 860 km dentro de Moçambique;

foram escavados, 1.500.000 m3 de materiais, dos quais:


 - 200.000 m3 para a fundação da barragem;

 - 1.300.000 m3 para a abertura da Central, túneis de acesso, galerias da condução e sala de transformadores;

são mais de 2,5 kms as galerias, túneis e cavernas escavadas;

os 5 geradores de 415 Mw cada, estão albergados numa caverna de 217 m de comprimento, 29 m de largura e 57 m de altura;

As chaminés de equilíbrio, duas, têm comprimentos de de 242 e 342 m, por 15m de largura e 18 m de altura;

Foram empregues 600.000 m3 de betão ou concreto, dos quais, cerca de 450.000 m3 para a barragem e 150.000 m3 para obras subterrâneas;

Cabora Bassa foi a maior barragem de betão ou concreto, construída em África.

 

Se o Quico estivesse aui aposto que me perguntaria como este gajo me borrou a camisola ou, então se ele caíu numa lata de tinta de rabo para o ar

São números que nos falam de uma grandeza descomunal e, essa barragem, pode ser uma catapulta para outras vontades no levantamento de um Moçambique com a grandeza que merece.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cabora Bassa ou Cahora Bassa

 Quico e Ventor 15.02.2011

Coloco aqui, no Shutterfly, algumas fotos de Moçambique, todas elas se reportam a uma caminhada que amigos fizeram entre Maputo, Tete, Songo, a Barragem de Cahora Bassa e Chitima. Como não poderá deixar de ser, não vou deixar de fora descendentes de velhos amigos que um dia tive por Moçambique.

A barragem de Cahora Bassa (em língua nhungé, significa, o fim dos trabalhos), é o símbolo da vontade e da determinação que, no século passado, Portugal e o povo português, tiveram no desenvolvimento daquele grande território a que um dia, os homens, deram o nome de Moçambique.

Moçambique, é um velho território e um dos mais jovens Estados de África que obteve a independência de Portugal após 10 anos de uma guerra de guerrilhas, a guerra do "bate e foge", após a Revolução de Abril de 1974.


 

Aeroporto de Maputo, antiga Lourenço Marques, um centro de grandes caminhadas de portugueses e de moçambicanos que por ali transitam, também, nas suas caminhadas de sonhos, para cá e para lá, para lá e para cá

Para infortúnio de Moçambique e por ganância política, de incompetentes, influenciados e orientados por comunistas e capitalistas das grandes potências internacionais, bem pior do que a guerra do "bate e foge", os moçambicanos desgastaram-se em guerras intestinas que esventraram o país e o paralisaram, transformando o seu povo num dos povos mais pobres deste planeta, segundo estatísticas das Nações Unidas. E é pena! Autodestruíram as suas capacidades de produção, do tempo do chamado colonialismo português e, de um modo geral, pelas províncias de Moçambique, o seu povo genuíno, nascido e criado longe das chamadas "centrais internacionais", continuou na sua "tanga" de séculos, à espera de melhores dias.


Um dos muitos amigos que, em tempos, eu deixei por Moçambique. Ele e muitos outros, fazem parte das memórias das minhas caminhadas pelo trilhos do continente mágico

Também nós por cá, com o dito 25 de Abril, sofremos das mesmas influências dessas mesmas "centrais", de onde mentecaptos trouxeram novas ideias de produção, desfazendo o pouco que possuíamos, através de sistemas caducos em que só acreditavam aqueles que quiseram destruir para voltarem a construir a seu modo e mando. Ficamos de tanga e a chamada Libertação, apenas nos trouxe a chamada liberdade a nós e aos novos países africanos mas, sempre, nós e eles, numa rampa de plano inclinado em todos os campos da economia. 

Felizmente, que o povo português não era constituído pelos tansos que essas gentes esperavam e, com o brio proporcionado pela tão apregoada liberdade, acabaram por recolocar essas abencerragens políticas no lugar que, só em nome da dita liberdade, eles mereceram.  



Por entre estas montanhas escorre o rio Zambeze, rumo ao Oceano Índico. Entre elas, foi construída uma das maiores barragens do mundo, Cahora Bassa, cujos estudos iniciais terão começado com o levantamento cartográfico desta área do Zambeze, levado a cabo, noutros tempos, por voos aéreos  realizados por Gago Coutinho

Sempre, por aqui, me ouviram dizer bem de Moçambique e do seu povo e só lamento que os seus políticos continuem a bater na tecla da libertação do papão colonial, tal como a propaganda política fez quando do negócio da passagem da maioria do capital de Cahora Bassa para a soberania do Estado Moçambicano. Até dá a impressão que o papão português era o seu grande inimigo .... mas, Moçambique, está, de facto, cheio de papões que se escudam na sombra colonial. Portugal foi substituído por outros colonizadores da conveniência dos "dictacts" políticos daqueles que, em nome de Moçambique, se assenhoraram do seu território e das suas gentes. Pelo que sei, de muitas conversas destes últimos anos de tréguas, o amor do povo de Moçambique por Portugal e pelos portugueses, pouco ou nada tem a ver com a mensagem deixada pela classe política de Moçambique como se notou quando da entrega de Cahora Bassa.


 

Nesta barragem de Cahora Bassa, foram utilizados, na sua construção, 600.000 m3 de betão, sendo, nessa área, a maior de África

Mas os anos destroem tudo, ou então, se preferirem uma notação mais soft, os anos destruirão tudo o que haja de negativo entre os moçambicanos e os portugueses e reforçarão a amizade que sempre perdurará nos nossos corações. Isto foi o que eu sempre notei desde que um dia deixei o território de Moçambique e, desde que, uma moçambicana, estudante, em Lisboa, por razões económicas familiares, teve de regressar a Moçambique. No meio dos seus amigos portugueses, onde teve algum tempo para sonhar e após alguns dias de tristezas, teve de partir na rota que outrora o Gama levara mas, na turbulência da tristeza da sua vida, no dia fatídico da partida, no Aeroporto de Lisboa, quando se dirigia para o avião, voltou-se para nós na velha varanda das despedidas que então havia virada para a pista e gritou lá de baixo: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"! Ela tinha percebido, em meia dúzia de dias que, a maneira como eu falava da sua terra, junto de si e dos seus amigos, só podia representar o amor puro, que trouxe no meu coração por Moçambique e pela sua gente.



Trata-se de uma grandeza colossal, a maior barragem construída por Portugal, até hoje

Tudo isto, para vos dizer que, desde então, me tenho apercebido que, a tal guerra do "bate e foge", nunca foi suficientemente grande para inculcar ódio entre nós. Seria essa a génese da vontade que levara Portugal, então, a apostar muito do que tinha e podia, na construção dessa grande barragem que na língua do povo da região onde se integra, os nhungés, se veio a chamar Cahora Bassa, ao tempo, em português, Cabora Bassa.

Voltarei aqui para falar da tal obra.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 16 de janeiro de 2011

Chita ou Cheetah

 Quico e Ventor 16.01.11

A chita, é um dos encantos do Continente mágico - África.

A chita, é um dos Big Cats que corre perigo de fazer parte do livro dos animais em vias de extinção. Tal como o leão, o leopardo, o jaguar, o puma, ... a vida deste belo animal, a que chamamos chita ou guepardo (gato pardo), corre perigo e, perigo redobrado por ser o mais frágil de todos. Eu nem me recordo se, alguma vez vi, mesmo em cativeiro, este belo animal vivo. Recordo-me, isso sim, de alguns dos outros Big Cats com os quais já tive várias conversas no Zoo mas, de chitas, não.

Este apenas o vejo em filmes e comentários, além das fotos.


 Vós sois, certamente, uma das maiores maravilhas das savanas africanas (foto wiki)

Mas tenho de reconhecer que este animal, para mim, é mesmo lindo. E tal como o Ventor de outros tempos, leve como uma pluma e rápido como um raio. Claro que ele tem apenas velocidade de ponta, não tem a caminhada quase "perene" do cão selvagem, caçador infatigável das savanas africanas.

A chita é um animal esbelto, com uma velocidade de ponta comparável a um Fórmula 1. 


Estarás, certamente, a imaginar como seria a tua vida na savana. Lá terias de caçar, aí, alguém andará a caçar por ti. Não é a mesma coisa, pois não amiguinha? (foto wiki)

É um animal que tem por habitat primordial as savanas africanas, embora ainda tente resistir noutros lugares, como na Península Arábica, no Irão e no Afeganistão, correndo riscos de extinção em todos esses locais, incluindo as savanas africanas. As almofadas das patas das chitas são constituídas por ranhuras que servem para forçar uma melhor tracção em altas velocidades e a sua cauda comprida serve de leme, orientando a sua alta velocidade quando curva. Também, para ajudar nessa alta velocidade, tem uma cabeça curta, aerodinâmica, de orelhas redondas e uma flexibilidade da coluna adequada para essa velocidade de ponta, extraordinária, que faz da chita o animal mamífero mais veloz da terra, caçando sempre em velocidade de ponta, sem aplicar tácticas ou técnicas de grupo, como os leões, as hienas ou os cães selvagens. Normalmente, faz uma caçada numa distância média de cerca de 400 a 600 metros ou, então, falha.


 Levas aí a tua ração e estarás sempre a magicar se, na próxima, terás a mesma ração. Todos nós somos prisioneiros de algo ... (foto wiki)

As chitas, tal como todos os animais, podem atingir diversos tamanhos, alcançando cumprimentos do corpo de 1.10 a 1.50, metros e tamanhos de cauda de 60 a 80 cm e atingir pesos totais de 30 a 85 kgs. Isto significa que há chitas que atingem o tamanho dos maiores leopardos das savanas onde já foram encontrados leopardos com 80 kg de peso.

 Uma de vós terá de ser mais lesta para alcançar esse pedaço de carne, mas isso sempre vos fará correr, sem perigos (foto wiki)

Eu sei que todos vós, tal como eu, gostais de ver as chitas na televisão mas, depois, esquecemo-nos delas porque, elas têm outro mundo, pertencem a outros azimutes e vivem a milhares de km de distância dos nossos corrais ou dos nossos quintais. Por isso, normalmente, esquecemos e nem queremos saber se são mortas selvaticamente, se há muitas, se há poucas, se um dia elas ficam por aí a mostrar a sua beleza às gerações futuras ou se, as gerações futuras, à medida que caminhem por este mundo que vão herdar, começam a espreitar as fotos dos livros, das revistas, ... a espreitar estas janelas, as televisões ou a ver os velhos filmes de seus avós, ... poderão gritar alto: "e chamavam-lhes, eles bestas"! 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Mais um amigo que parte

 Quico e Ventor 17.11.10

David "o inglês"


 

Mais um companheiro que nos abandonou. O da direita, de nome David, a quem chamávamos "o inglês". À esquerda o Sousa e ao centro o Alex

À nossa esquerda, o Sousa, um companheiro de guerra com quem bebi a minha primeira cerveja, numa tasca de Vila Cabral, sem ser o Café Planalto;

Ao Centro, o nosso amigo Alex, que o Senhor da Esfera quis que nos voltássemos a encontrar, muitos anos depois, em 2008, pela mão do nosso amigo comum, o Louco da Malásia. (Olá, Rui")!

À nossa direita, o nosso amigo David "o inglês", sobre o qual tenho uma pequena história:

Saímos da Base Aérea 2, Ota, com destino a Monsanto, Lisboa - o GDACI (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção);

Levaram-nos para os subterrâneos de Monsanto, onde fomos apresentados ao Oficial de Dia, um Capitão, cujo nome não recordo e nem interessa. Esse Capitão olhou-nos um a um, com incidência nos nossos cabelos e voltou a fixar o olhar no nosso amigo "inglês".

De repente, o tipo deu um grande grito: "Fascina, a tesoura! Traga-me uma tesoura"!

Voltou a olhar o "inglês" e disse-lhe: "vou-lhe cortar o cabelo e depois vai acertá-lo à barbearia"!

O nosso amigo "inglês", com toda a calma deste mundo, olhou o Oficial de Dia e disse-lhe: "pode mandar vir as tesouras que quiser, mas no meu cabelo não toca"!

O capitão vira-se para mim e grita: "está a ouvi-lo"?

Eu que, tal como os meus colegas éramos um grupo de Especialistas da FAP que tínhamos chegado a Monsanto e era apenas o número mais antigo do grupo a que me coube fazer a apresentação, disparei a arma que tinha: "chegamos da Base Aérea 2, onde nos apresentamos ao Major Tomás para nos despedirmos e nos fez a respectiva revista para quem estávamos em condições. Por isso, recebemos a Ordem de Marcha para o GDACI e aqui estamos. Penso que o cabelo do David "o inglês", aprovado por oficial superior, não cresceu o suficiente, da Ota até aqui, para sofrer qualquer reparo. Acho que o melhor é desistir"

O Capitão saíu a barafustar, porta fora, e alguém foi incumbido de nos levar aos nossos destinos. Depois disto, eu voltei a ter outro problema com esse capitão que, talvez um dia fale nele e venci mais essa guerra.

Hoje todos estaremos tristes pela perda desse nosso amigo David, "o inglês", que já estará ao lado do Senhor da Esfera.

O Senhor vai-te guardar David. 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Castanhas para Todos

 Quico e Ventor  11.11.2010

Agora que é o segundo S. Martinho que passo, sem a companhia do meu Quico, sou eu que vou oferecer, aqui, as castanhas para todos.

Para toda a gente que por aqui passar; podem levar castanhas até esvaziar o recipiente.

Quando eu, nesta altura do S. Martinho, dizia ao Quico: "vamos oferecer castanhas aos nossos amigos"? Ele dava uma corrida e só parava nesta janela. Não o fazia pelas castanhas, mas pela palavra "AMIGOS"! Esta palavra era a sua campainha de corrida para esta janela.

Hoje, não desafio o Quico para a corrida (ele ganhava-me sempre), mas venho eu sozinho, embora ele esteja sempre presente, aqui, a meu lado! Estou à espera que as castanhas assem para as trazer aqui, mais um copinho de água-pé e vou caminhando ao lado de todos aqueles que, em determinados momentos, por vezes difíceis, ainda continuam a fazer parte da minha vida.


Castanhas assadas num forninho

Por isso, mesmo que não gostem de castanhas, convido-os a todos a estender a mão e a tirar uma castanhinha e a beber um copinho de água-pé ou rosé. Tinha pensado ir ao meu amigo Checa buscar água-pé mas isto não está bom para fazer caminhadas, mesmo sentado no banquinho do melhor carro do mundo para as minhas necessidades. Isto está mau! Por isso, comprei a água-pé, cinco litros e já vi que era boa, aqui bem pertinho, mas não foi na adega da Dona Rita!

Para os velhos amigos e para os novos que vão aparecendo, haverá sempre uma forma de comermos juntos as castanhas e beber a água-pé, nem que seja apenas com os olhos.


 

Castanhas assadas com vinho verde rosé, Muralhas de Monção. Também com vinho rosé, Conde de Vimioso e água-pé que, posso considerar boa


Eu sei que o meu Quico, que tanto gostava de oferecer as castanhas e a água-pé, hoje, muito cedo, terá descido desde as Fontes até Soajo, dado umas voltas pelos espigueiros e ido acordar o S. Martinho, junto da Igreja, para irem juntos às castanhas e fazerem aquilo que o Ventor não poderia.

Assim, em meu nome e em nome do meu Quico deixo-vos aqui estas belas castanhas.

Claro que estou a escrever e a lembrar-me de alguns belos magustos que comi por este mundo e quero recordar que os melhores magustos de Adrão, comi-os, ainda pequeno, na casa do meu amigo Carrasco, que metia castanhas no borralho sem as cortar para darem aquele grande estoiro e fazer saltar as brasas.

Eu, que era um puto, gostava desses estardalhaços!



Uma garrafa de abafadinho de 2002

Eu sei, eu sei! Isto não se guarda!

Mas foi uma oferta do meu amigo Iatros e guardei-a como uma preciosidade. Depois passou o tempo e, esqueci-a! Esqueci a garrafa mas não esqueci o Iatros que, como todos ou quase todos os amigos, com o andar do tempo se evaporam como as nuvens ou, então, caem em dilúvios e desaparecem na mesma. As nuvens! O Iatros não! Eu calculo que ele ande por aí, pelo Alentejo (andará?) e, um dia, não beberemos esta garrafa, mas beberemos outra.

Trata bem os teus doentes alentejanos Iatros e, não te esqueças de comer castanhas com eles.

O que desejo para ti, como médico e como amigo das nossas lides "néticas" que já foram, é o que desejo para todos os médicos deste mundo, teus companheiros de caminhada.

Não a bebi, mas obrigado pela garrafinha à qual ou melhor, às quais, tenho a certeza, com todo o prazer dedicaste as tuas horas de descanso. Para mim, por isso e não só, esta garrafinha nunca será esquecida. Creio que não estará em condições de beber e, por isso, vai regressar ao lugar que tem ocupado.

Ela estava destinada a um dos meus S. Martinho. Mas, agora, é tarde!


O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 6 de julho de 2010

Na Rota do Tartaranhão

 Quico e Ventor  06.07.2010

Mas faltava o essencial para considerar ter realizado uma caminhada na Ria.

Veja as fotos aqui no Shutterfly

No domingo, o Alex, veio com a história de pedir a chave do portão a um amigo para levarmos o jipe até perto do mar, junto às dunas, área permitida, mas eu achei que o ideal, era deixar o amigo, o portão, o trilho e o jipe sossegados.

O que eu queria mesmo, era fazer uma caminhada que tivesse por bússola o som roncoso de Neptuno e para a realizar, bastava-nos seguir a rota do tartaranhão, em direcção ao mar. Foi o que fizemos!

Eu tinha esta caminhada em mente, desde 2008, e observava a rota do terraço do Alex, mas por infortúnios da vida ainda não tinha conseguido realizá-la! Desta vez tinha de ser. Metemos-nos a caminho e lá fomos sempre vigiados pelas belíssimas aves de rapina - os tartaranhões dos paúis. Creio ser assim que lhe chamam. São uma espécie de gaviões, mas até podem ser outras aves de rapina. Algumas parecem-me águias!

 

O cacto do mar, fonte de alimentação de muitos insectos 

Caminhando rumo ao bosque, lá longe ouvia o som vitorioso de Neptuno a cantar a minha quadra preferida no que lhe diz respeito.


O mar enrola na areia,

Ninguem sabe o que ele diz.

Bate na areia e desmaia,

Porque se sente feliz!


Assim, ouvindo Neptuno enrolar-se na areia, fomos caminhando rumo a Oeste. Depois de atravessarmos campos da reserva agrícola lá do sítio, penetramos e atravessamos o bosque que nos levou até ao mar. Encontramos uma espécie de mini-lago que nos obrigou a retroceder pela esquerda e apenas porque não me apetecia molhar os sapatos. Mas daquela área, julgo que haveriam mais pocinhas de água, pois lá do interior do bosque chegavam-me sons dos tritões e talvez das salamandras ibéricas, todos em alvoroço porque, no seu meio, caminhava, lentamente, aquele que todos eles conhecem por Ventor e os seus amigos.

Os tartaranhões, gaviões, águias ou fosse o que fosse, mantiveram-nos debaixo de olho e no interior do bosque todos os animais estavam em festa, pois havia alguém que caminhava nele em sua honra.


  Uma larva de tritão com as suas guelras exteriores, um dos caminhantes anfíbios, pelos arrabaldes da Ria - foto da wikipédia



O tritão ibérico, talvez um dos caminhantes pelos arrabaldes da Ria - foto da wikipédia

O meu amigo Apolo tinha mandado estender uns tapetes dourados para a nossa passagem e conhecendo-me ele como me conhece, tinha dito aos tritões para nos barrar o caminho, pois não devíamos passar por ali sem pisar os seus belos tapetes. Ele sabe bem que eu prefiro os sítios dos tritões mas, ao mesmo tempo, sinto-me mal com os sapatos molhados. Por isso ele acaba sempre por ganhar!

Mas lá fomos por entre os matagais até atingirmos as dunas que nos deram acesso a Neptuno. Fosco, zangado, moribundo!

Mas eu, como sempre, pouco lhe liguei. Liguei mais às couves do mar, aos cactos do mar e aos meus amigos albi-negros-amarelos que se banqueteavam com flores carnudas, como esta e que também fazem parte das minhas belezas de sempre.


Uma flor a que chamam couve do mar - nas duna da Ria


O meu amigo abelhão, que me convidou para o lanche. Onde ele está, está o meu mundo 

 

Mamangaba, Besouro mangangá ou Marimbondo mangangá, no Brasil, abelhão, vespa-de-rodelo, em Portugal. Besouro. Para mim é um besouro. Era assim que lhe chamávamos, em Adrão. E é meu amigo. O meu amigo albi-amarelo-negro. Mas cuidado! Não o ameace porque se o picar, não o faz uma só vez como a abelha. Vai picando enquanto puder!

Depois de observarmos a piscina de Neptuno e a sua fúria contra o areal, apreciamos as dunas e reiniciamos a nossa caminhada rumo a casa para voltarmos a caminhada para sul, rumo a Lisboa (mais precisamente, à Amadora).

Mas aquele bosque, além dos tritões e outra bicharada, é também zona de pica-paus. O avô do Tomás disse-nos que ouviu um a martelar no pinheiro e que se terá escapulido à nossa aproximação. Sem dúvida que os pinheiros estavam picados pois, debaixo das suas cascas proliferam as larvas com que os meus amigos pica-paus se alimentam.

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Sob as cascas das árvores, como pinheiros, carvalhos e outras, procuram os pica-paus as larvas do seu alimento

Depois, à saída do bosque, voltamos a caminhar nos terrenos agrícolas e uma ave de rapina, que se preparava para pousar num pinheiro, a nosso lado, fez uma grande algazarra por andarmos a caminhar nos seus domínios e lá foi sem me deixar fotografá-la. Também não queria nada com os paparazzi! Foi uma caminhada bonita e que nos deu motivos para virmos sentadinhos na viatura sem a chatice de termos de estar sentados. Depois de uma caminhada de mais de duas horas, soube bem sentarmos-nos e só sair à porta de casa.

Espero voltar a fazer mais uma vez esta caminhada para ter melhores conversas com os meus amigos tritões.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

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