sábado, 3 de setembro de 2011

Francisco Daniel Rocho

  Ventor 03.09.11

... um combatente!

Francisco Daniel Roxo - Comandante das Milícias, em Vila Cabral, no Distrito do Niassa
Nas minhas caminhadas por Marrupa, no ano de 1968, comecei a ouvir falar deste homem e das várias histórias que se contavam dele. Acredito que, a sua vida de caçador ou a sua inocência de homem simples, o tornassem num temerário. Afinal, isso entranha-se em nós, quando caminhamos no mato e, mais ainda, quando estamos preparados para tudo, até para morrer.
Não sei se alguém sabe como vivemos a vida quando estamos preparados para morrer. Eu já passei por isso e não é por acaso que caminhava quilómetros sozinho nos matos de África, especialmente, em Marrupa, e também em Vila Cabral, sem pensar no amanhã! Hoje, não o faria! Isto era no tempo em que o medo não existia no meu cérebro. Posso acreditar que alguns de vós tenha passado por isso pois, certamente, eu não serei excepção a esse estado de espírito.
Nem eu, nem o Daniel Roxo!
Eu sei que ele não tinha medo. Ele dizia que hoje era hoje e, o amanhã, logo se via. Era assim que eu pensava. Tal e qual! Mas depois da minha passagem de 8 meses e meio por Marrupa e pelos seus matos envolventes ao AM62, quantas vezes só, com os rafeiros, amigos a valer, em caminhadas sem fim, algumas vezes perdido de noite, em busca de verylights que me indicassem o caminho para o Aeródromo e, quantas vezes, sem bússola nem verylights, dava sempre com a porta! Ainda hoje, quando penso nisso, parece-me que até cheiro o mato. Aquele cheiro a bravo, nesse mato selvagem. Uma vez matei um bicho sobre uma árvore, quando descia uma lângua a oeste de Marrupa e, no regresso, a pestilência, a bichos bravos, era enorme. Os cães, quatro com a cachorrinha Diana (filha da Leoa de Vila Cabral) que, tanto gostava de ir comigo que andava quase sempre com ela ao colo.
Quando cheguei ao local, já só havia restos de pelo do bicho e o medo dos cães era enorme! Parei, na margem direita da lângua e fui mudando os cartuchos, na Browning, para caça grossa. Os cães pisavam-me os tornozelos e quase não me podia mexer. Limitei-me a ficar ali, durante algum tempo, recuando uns metros até à árvore mais próxima, sempre a olhar o capim intenso à minha frente. Os cães continuavam enroscados em volta das minhas pernas a ganir e eu não tirava os olhos da zona do capim e das árvores a seguir, para onde eles olhavam e do pelo do Zorba, todo eriçado sobre o lombo.
Dei tempo ao animal ou animais que cheiravam a bravo, ali perto e assustavam os cães, para se decidirem a tomar a iniciativa. O chumbo grosso estava ali à espera deles. Mas nada. Por fim, decidi eu. Bummm! Meti outro cartucho! Observei tudo à minha volta e nada! Decidi pôr-me a caminho. O tiro pareceu-me algo de extraordinário. Não vi mexer o capim, não vi nada fugir. Os cães amainaram e, lentamente foram-se afastando das minhas pernas. A Diana pediu-me colo e eu disse-lhe que não. Tinha de fazer um esforcinho e eu olhar para trás e para os lados para defender o meu pelo e o deles. Nunca mais houve problemas até ao AM62. Tive receio durante algum tempo de que as coisas nos corressem mal para mim e para os cães mas, não havia vaga para guardar os medos. Concluí que os animais tinham lá estado e se afastaram à minha aproximação. No dia seguinte, lá estávamos outra vez, e sós!
Recordando os meus receios ou medos, recordo também, como viveria a cabeça do Daniel Roxo com os seus medos do dia. Vou contar-vos o único medo em que o cacei!
Um dia, lá cheguei eu a Vila Cabral, nos princípios de Julho de 1969. Quis logo conhecer a cidade e lá fomos quatro marmanjos com esse objectivo. Vimos aquela represa, lá em baixo, entre os pinheiros e iniciamos uma caminhada até lá. Chegamos junto da água, reparamos nas suas margens e, como o tempo apertava, decidimos voltar ao AM61. Mal iniciamos a subida da picada, já um pouco afastados da represa, ouvimos tiros e as balas a zunir junto dos ouvidos e a baterem no chão, junto de nós. Não tínhamos uma única arma e ficamos ali, de rojos e ainda vi uma bala levantar o pó, bem junto da minha cabeça! O fogo calou-se e nós reiniciamos a caminhada. Pelo caminho pensei que, se quisessem matar-nos, já o teriam feito. Não ouvimos nem mais um tiro!
Chegamos à Pista de Vila Cabral, a malta cheia de sede, dirigiu-se para o Bar. Eu aguardei uma viatura tipo militar, um jipe a alta velocidade, direita a mim, e um tipo espavorido a saltar dele.
«Vocês souberam o que fizeram? Vocês sabiam o risco que corriam e foram para uma zona de reserva onde não se pode entrar sem a minha autorização? Eu espeto-lhe um murro nesses cornos que dou cabo de si»! Eu, estupefacto, vejo aquele gajo fardado à militar com o punho no ar, a ameaçar-me e, ... "calma aí amigo, explique-se melhor que não estou a perceber nada»! «Não está? ...Eu sou transmontano», ... eu faço, eu aconteço, eu, ... "Olhe, sabe um coisa? O senhor é transmontano, eu sou minhoto e parte-me os cornos uma merda! Não sei quem o senhor é, e estou-me nas tintas para o seu camuflado. Para me dar um murro nos cornos é preciso que eu deixe ou julga que vou ficar aqui à espera, de braços cruzados"?!
A partir dali, acabou a nossa guerra a dois. Explicou-me toda a engrenagem e que, as suas milícias podiam ter-nos morto enquanto treinavam situações de fogo e que tivemos sorte por o comandante do grupo de atiradores ter-se apercebido da nossa presença e terem cessado o fogo. Não fosse isso e saíamos de lá como passadores!
A partir desse desentendimento, fomos beber uma bazuca e ficamos amigos mas, nunca mais me esqueci do Daniel Roxo. Ele é o tal homem que tinha entrado no café Planalto e pediu uma cerveja. Bebeu o primeiro gole de cerveja, ouviu tiros, algures junto da cidade, pousou a garrafa e disse para o gajo do balcão: «guarda-me aí a garrafa que ainda venho beber a cerveja fria" e, lá partiu no jipe à procura dos tiros!
Outra peripécia do Roxo foi num voo de Revis, numa DO-27, bem perto de Vila Cabral. A nossa DO-27, o Roxo e o Comandante de Operações do Sector Alpha, um Major porreiro! Eu estava de serviço e, de repente, só ouvia o Roxo a mandar vir com o avião e com a FAP. «A Força Aérea não presta, manda para aqui esta merda desarmada. Nem uma G-3! Assim não podemos fazer nada. Mas que porra! O piloto do DO transmitia-me tudo e perguntou-me se os T-6 podiam actuar. Chamei o Comandante do AM, aviões para o ar e zás! Combinamos um nível de voo para a Do, de maneira a que os T-6 entrassem ao ataque por baixo. O Roxo transfigurou-se quando viu os T-6 lançar os rocketes a atacar forte e feio as posições dos nossos amigos de estimação. Quando regressaram, saiu da DO-27, correu para mim a abraçar-me e só dava louvores à Força Aérea. Foi uma mudança radical. Creio que quem comandou esse ataque foi o Ícaro. O Roxo correu para o Jipe, voltou-se para nós e disse: «Agora vai ser comigo»!
Tantos anos já passaram - 42 anos! Cuidado com a cegonha!!!! Foram danças como esta, as mais lindas que fiz até hoje
Tenho outras situações em que o Roxo era mencionado em locais que nem lá estava. Uma vez o Comandante do Sector Alpha disse ao Capitão que partiu com a sua companhia em socorro da Força Aérea, cerca da meia-noite, nas vésperas do natal de 1969, que esse ataque era das milícias do Roxo e eu que sabia onde andava o Roxo, nessa altura, tirei o telefone das mãos desse capitão e fui eu que fiz a guerra com esse Comandante que, afinal só temia o medo dos civis de Vila Cabral e ficou com uma vontade de me triturar mas não passou disso. Tenho isso mais desenvolvido por aí, num post, e tenho ainda nos ouvidos, as vozes das mulheres de Vila Cabral a pedirem-me, pelo telefone, para resistirmos que iríamos ter um Natal cheio do melhor bolo rei do mundo. Giro, não é? Não foi por falta de vontade que o bolo rei não veio a ser o melhor do mundo!
Mas, anos depois, voltei a saber do Roxo mais uma vez! Quando passava numa Av. de Lisboa, vi um jornal e, em toda ou quase toda a 1ª página, estava escrita uma frase: «adeus Comandante» e vinha lá uma foto como essa.
Era um jornal reaccionário ou até super, que se chamava Rua. Mas eu comprei-o! Foi assim que tive conhecimento da morte do Francisco Daniel Roxo. Tive conhecimento, através desse jornal, da sua morte e tive uma guerra com os meus amigos comunistas e da extrema esquerda que, então, pululavam na minha empresa. Felizmente, tinha tanto medo deles como tinha então das hienas de Marrupa e de Nova Freixo.
E, em resumo, para aqueles que não sabem, dizia o jornal que o Daniel Roxo morreu numa escaramuça entre a Frelimo e a Renamo e, também, segundo o jornal, o homem que se dizia imune às bazukas, foi trucidado por uma.
Este post destina-se a recordar um homem de quem muitos não gostaram mas, que eu vejo, apenas, como mais um dos nossos parceiros de tempos conturbados na nossa caminhada africana. Deixo-lhe aqui a minha homenagem.
PS. Posteriormente, vim a saber que o Francisco Daniel Roxo morreu no sul de Angola, em combate contra cubanos e o MPLA, conforme os comentários a este foto e no Blog - Rio dos Bons Sinais.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Rui Perestrelo Ferreira ...

 Quico e Ventor 29.08.11

... já não vais contar mais Rui, agora, só a tua família e os teus amigos os contarão.

Como eu nunca sei a quantas ando, o meu Malmequer (a nossa princesa, recordas-te?), recordou-me, agora, que fazias anos hoje e recordou-se porque fazes anos um mês depois dela. Por isso, se o nosso amigo, Rui Perestrelo Ferreira, o nosso Louco da Malásia, fazia anos hoje e, como acredito que continuas entre nós, não fosse isso e não estaria aqui a recordar os nossos velhos tempos, aqui deixo, tal como se estivesses junto de nós, de corpo e alma, os nossos parabéns. Não estás entre nós de corpo e alma, mas a tua alma permanecerá sempre entre nós.

Permanecerá tanto entre nós, que também soube agora que a tua netinha está para nascer e, fiquei com a esperança de que ainda possa nascer neste teu dia de aniversário! Assim, nunca serás esquecido por ela e por todos os teus.

Por isso, vou fazer-te um pedido. Não chegaste a conhecer a tua netinha que vem aí mas, sempre podes aparecer junto delas e ouvires o seu primeiro gritinho. Se não tens despensa de saída, eu poderei meter uma cunha ao Senhor da Esfera e, julgo que, atendendo às circunstâncias, Ele te permitirá.

Eu sei que tu não levarás a mal, parece-me que nunca levaste e, não será agora que isso venha a acontecer.



Sempre diferentes, sempre iguais 

Escusado será dizer-te que não vais esperar muito tempo por todos nós. Uns mais cedo, outros mais tarde, iremos chegando como as chuvas. Mas eu, enquanto for podendo, recusar-me-ei a partir. Não é por acaso que montei o meu cavalo, baixei o meu elmo, peguei na lança e estou no ataque. Tenho quatro cavaleiros para destroçar mas, tenho estado esquecido que os gajos estão apoiados por infantaria e eu cada vez mais só.

No entanto, a minha luta não terá tréguas. Vou tentar tudo para ser o último a chegar! Um dia, lá estarás, tu e outros, com o vosso sorriso, para nos abraçarmos.

Olá, Mena! Esperamos que tudo corra bem com o nascimento da tua netinha e muitas felicidades para todos vós.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 11 de junho de 2011

Para sempre, em Alfundão

 Quico e Ventor 11.06.2011


 Chariotys of Fire

Foi assim, como estes, que tudo começou, em Janeiro de 1966, na Base Aérea 2, na Ota. As corridas não eram na praia, mas nas estradas ou no meio do pinhal. Era asim que entrávamos na belíssima vila de Alenquer e sofriam, os olhos que nos viam correr todos encharcados em suor. O pior era dar a volta e subir rumo à Ota. Os Chariots of Fire, de Vangelis, acho que ficam aqui muito bem, enquanto deixarem, para recordarmos os tempos que tivemos naquela terrível 1ª recruta de 1966. Posteriormente, foram mais suave.

"Ninguém bebe água!"

O Major Serra o nosso Comandante da Recruta que eu encontrei muitas vezes no comboio para o Rossio, dizia-me que a nossa recruta tinha sido a pior delas todas e, como achava que era demasiado dura, teve de fazer uma exposição à Direcção dos Serviços de Saúde da Força Aérea.


Companheiros de Guerra, amigos de sempre - no AB6, em Nova Freixo: Ventor, Checa e LM. 

Um amigo que nos deixou. Mais um!

O Senhor da Esfera retirou do nosso convívio, para sempre, o nosso amigo Rui Perestrelo mas ele continuará connosco.

Quando alguém parte do nosso "espaço" ou nosso mundo, para outro espaço que, julgamos, nós, ser um "espaço definitivo", o nosso espaço, e tudo o que resta desse nosso mundo, fica mais estreito e mais triste.

A Gi, a nossa amiga Gi, o meu malmequer, continuará sempre a sorrir a teu lado. Ela chorou e quis arriscar ir dizer-te adeus. Eu é que não deixei. Nesta foto, só eu sei como ela estava doente, mas junto de ti e dos nossos amigos, ela arranjava sempre forças para nos animar

Mais triste, ainda, quando tivemos tempos de glória. Tempos de tristezas, tempos de alegrias mas, também, tempos de glória! Eram os tempos dos sonhos, os tempos em que não era proibido sonhar. Todos nós tivemos os nossos sonhos. Eram sonhos de esperança! A esperança de regressar, de voltarmos a estar com os nossos, a nossa família, os nossos amigos, os nossos cães, os nossos gatos, as galinhas, ... as namoradas ...

Tu também já estavas doente e bem doente, mas tentavas sempre partilhar as tuas alegrias e não as tuas tristezas.

Mais tarde, após essas caminhadas de sonhos, do refazer das nossas vidas, voltamos a caminhar juntos, por grupos. Por aqui, por ali, havia de quando em vez, há, ainda, um grupinho, aqui ou ali, a tentar não deixar morrer esses tempos que por bem ou por mal, marcaram as nossas vidas, as vidas de todos nós. Eu falo pela malta do AB6 e dos seus tentáculos, os AM's (aeródromos de manobras), Marrupa e Vila Cabral. A malta da "guerra" do Niassa. A nossa malta da Força Aérea mas, também tenho, num recanto do meu sótão, os nossos companheiros de outras armas, como a tropa do Exército dos Comandos dos Sectores Alpha e Echo de Vila Cabral e de Marrupa, espalhados por muitos locais daquele belo território do Niassa, bem maior que Portugal. Talvez este nosso Portugal e próximo de mais meio. Também recordo os nossos companheiros da Marinha baseados em Metangula, no lago Niassa e de um ministro de Charles DeGaule, creio que o Schuman, dizer que só uma vontade férrea como a dos portugueses seria capaz de colocar aqueles instrumentos bélicos da Marinha, no Lago Niassa.

Nunca esqueceremos os belos dias em que foi possível partilharmos as alegrias de outrora e relembrar amigos não presentes, como o Checa, então no Hospital de Oncologia, por onde eu passei para levar o seu abraço. Ele e outros, longe, mas sempre presentes   

Depois, mais tarde, com a chegada do 25 de Abril, tivemos saudades de nos voltarmos a encontrar uns quantos nas almoçaradas. Ainda houve uns belos almoços, como aquele da Golegã, no tasco do nosso amigo Tschombé do qual nunca mais soubemos nada. Alguém sabe do Tschombé? Ninguém sabe nada!

Mais um adeus de despedida, ao fim desses dias inesquecíveis de caminhadas sem fim. Tudo o que é bom acaba depressa e, agora, contigo, não haverá mais, embora, eu acredite que estarás sempre presente,

Mais tarde sumimos alguns. Uns partiram para a estranja, outros espalharam-se por aí a tratar da vida e perdemo-nos. No nosso pequeno grupo de amigos, houve dois que não quiseram dar-se por vencidos. O nosso amigo Rui Perestrelo e o nosso amigo Rui Bernardino que, na prática, nunca se perderam. Os companheiros de guerra, nunca se perdem porque eles, estão sempre presentes no nosso cérebro. Nós tropeçamos uns nos outros e não sabemos quem somos porque a imagem tem influência e muita! Os putos das fardas do "café com leite", leves como plumas e rápidos como raios, todos aqueles de há cerca de 40 anos, nunca mais os esquecemos. São essas as imagens que temos nas nossas cabeças. Mas, à nossa frente, hoje, aparecem uns "calhambeques" desarranjados, mais ou menos abarrigados, tal como eu e, salvo raríssimas excepções, ainda verificamos que, dentro daquele invólucro transformado, está um nosso amigo de tantos anos. Há também os que mudaram pouco! Ontem observava o Madruga debaixo daquela cabeleira branca, caída sobre os ombros mas, dentro do invólucro e debaixo da cabeleira, estava o nosso amigo Madruga tal e qual como ele era. Estava ali a sua alma de tantos anos para trás. Tal como o Rui Madeira, o Simões, ... todos! Acho que nenhum de nós vendeu a alma ao diabo. A nossa alma é, exactamente, como era nesses tempos.

Nunca mais teremos dias como esses, juntos, na Ria, com a hospitalidade dos amigos Alex e Tina 

Tudo acaba! As caminhadas acabam e recomeçam sempre até à caminhada final que todos teremos. Mas, aqui, na Ria, tal como em Nova Freixo, em Marrupa e em Vila Cabral, mais uma vez estivemos os três juntos. Longe da guerra, mas juntos

Só que, ontem, foi um dia triste! Não foi dia de galhofas, de brincadeiras, como de costume. Foi o dia em que o nosso amigo Rui, o nosso grande amigo a quem desde a Base da Ota, sempre, na brincadeira, chamávamos o Louco da Malásia, despediu-se de nós e nós dele. Eu sei que ele vai continuar a viver connosco! Ele estará sempre a nosso lado, nas suas eternas brincadeiras. Quando ele descobriu que eu ainda existia, voltou a tentar tudo para me encontrar. Pedi a outro para lhe dar o meu número de telefone e, logo de seguida, o telefone tocou e ele, impávido e sereno, do outro lado, disse apenas isto: "cacei-te"!

Foram dias cheios com as olhadas para o passarinho que te manterá sempre junto de nós

Ele sentia uma grande alegria quando nos via juntos. Não me esqueço da alegria que ele sentiu do nosso primeiro encontro, em Alfundão, quando quis ligar para o outro amigo lá para o fundo de tudo - Maputo! Os nossos amigos estão em todo o lado! "Telefono-te, pá, só para te dizer que também estás aqui. Estás aqui connosco. Diz lá bem alto: «Bom dia, Alfundão»! Era a amizade pura do nosso Louco da Malásia! Fico com a sensação que ele se quis despedir de nós! Mas não consegue porque ele vai ficar sempre connosco! Ontem abri um espaço, ainda maior no meu coração, para Alfundão e Ferreira do Alentejo. Por lá ficou pairando sempre, o nosso amigo "Louco da Malásia" e, sonhando com o passado, caminharei, sempre, no presente, por essas belas terras do Alentejo.

Estaremos sempre contigo no coração, Rui! Eu sei que, o Senhor da Esfera, vai ter de continuar a partilhar-te connosco. 

O "batalhão" de passarinhos que nos vão observando sempre e partilhando das nossas alegrias e tristezas e que acredito, nunca se deixarão de perguntar como é possível tantos anos depois, vivermos a amizade de tantos anos atrás, como se fosse ontem.

Faltam as fotos Sumiram!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 24 de abril de 2011

Feliz Páscoa de 2011

 Quico e Ventor 24.04.11

Uma Páscoa de 2011, com muitas amêndoas para todos os meus velhos amigos conhecidos e para os novos do Facebook. Para todos vós! Esta noite lembrei-me das minhas três amêndoas, na Páscoa de 1968, em Marrupa. Duas brancas e uma rosa ou duas rosas e uma branca.

A minha companheira de muitas caminhadas, tirou o pacote, abriu-o e colocou as amêndoas dentro deste brinquedo de vidro a que chamam taça. Pedi-lhe para tirar três e saíram uma de cada côr. Uma branca, uma rosa e uma azul. Disse-lhe para tirar a azul e colocar outra branca ou rosa. Em Marrupa de 1968 não me tocou nenhuma azul porque não havia.

Tirou as três amêndoas, deu-mas para a mão e eu coloquei-as numa tacinha.

Tira daqui, põe ali e ficaram separadas. 

Depois, meti-as noutra taça mais pequenibha.

Por fim, ficaram as duas tacinhas sobre a mesa.

 

Na taça com mais amêndoas era uma gritaria. Choravam por verem partir as três amiguinhas para serem devoradas mas elas ficaram contentes e cantavam cheias de alegria. Eu não percebia porquê mas, disseram às outras para não chorarem que eram felizes e teriam o privilégio de serem as preferidas do Ventor.

Amanhã, a seguir ao almoço, trincarei essas três e recordarei todos aqueles que se encontravam comigo no "DESTERRO" do norte de Moçambique, centro do Distrito do Niassa. Um DESTERRO, chamado Marrupa, rodeada por "montes da perdição". Ali, sempre que fôssemos longe, nunca regressávamos com  bússola. Estava sempre avariada! Mas, para todos os que lá estivemos, terá sido uma terra linda e digna da nossa presença. 

Belos tempos!

Tal como em 1968 .... para todos os Duros do Niassa e, também, para todos que caminham pelos meus Blogs e para os meus amigos do Facebook, todos sem excepção ...


UMA PÁSCOA FELIZ PARA TODOS VÓS 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 1 de março de 2011

A Minha Caminhada Africana

 Quico e Ventor   01.03.12

A minha caminhada africana não se resume à minha estadia de 26 meses no Norte de Moçambique. Não se resume às caminhadas ao lado do rio Lúrio, do rio Messalo, voando sobre o rio Lugenda ou, ao lado do Rovuma;

das minhas caminhadas por Nova Freixo, pelas lânguas de Marrupa, ou em redor de Vila Cabral.

A minha caminhada africana é muito mais longa que essas caminhadas cinegéticas ou dos meus crosses nas pistas da Força Aérea, de Nova Freixo, de Marrupa e de Vila Cabral.

A minha caminhada africana completa-se com uma caminhada, bem longa, antes de chegar lá, e muito mais longa, depois de sair de lá! E, tal como o escritor francês, cujo nome não recordo (não é o Emile Zola), eu posso dizer: J'Acuse"!

Eu acuso o mundo de se esquecer de África! O mundo que só sente os interesses da África, quando sentem que estão lá os interesses deles. Eu acuso todos os que abandonaram a África! Não os que a abandonaram porque tiveram de fugir, porque foram obrigados a fugir, mas todos aqueles que estiveram nos princípios da fuga! E não me refiro apenas aos portugueses que não souberam resolver os problemas que lhe competiam, sobre a África de que fazíamos parte mas, a todos que não souberam olhar pelos interesses da África de norte a sul!

África, onde o povo, para além das misérias causadas pelas guerras, também canta e dança

Eu acuso todos os países que podem e que não tentam fazer mais pela África!

Dito isto, apenas vos digo que tento caminhar sempre, ao lado da África, que voltarei a caminhar com todos os africanos, uma nossa caminhada virtual, muito especial e não apenas com a minha gente de Moçambique, de que nunca me esqueço, mas com toda a gente de África que trabalha, canta e dança, dentro e fora das suas machambas, de norte a sul do continente.

Recordo sempre aquela moça negra que foi obrigada a partir de cá para Moçambique, porque a vida correu mal à sua família e não lhe podia dar tudo o que ela desejava (apenas os estudos - 1970) e como ela gostava do seu Portugal (o puto) e do seu Moçambique e, recordo o seu choro no Aeroporto da Portela, então, virada para trás, olhando a varanda e os muitos amigos que lá tinha, de costas para o avião, gritando: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"!

Passaram 42 anos e nunca mais esqueci! Não esqueci, Rute! Não esqueço a volta que a tua vida levou no tão pouco tempo que te conheci! E nunca esqueci o "nosso" Moçambique! Nunca esquecerei o "nosso" Moçambique! Moçambique também é meu Rute! Fui sem ele, mas trouxe-o comigo.

Este é o local onde nos dizem que fica o berço da Humanidade com cerca de 4 milhões de anos

Mas, voltando a África, recordo-me que volto ao berço! Pelo menos, em sentido figurado porque, eu, não sou daqueles que acreditam que todo o mundo nasceu nos desfiladeiros de Olduvai ou arredores! Não vejo porque um sítio que, por bondade da Natureza, nos mostra com mais facilidade o homo erectus e nos faz rechaçar para segundo plano outros que especialistas, também, bem intencionados vão descobrindo aqui e ali, por esse mundo fora. Antes das ossadas do homo erectus, apareceram as ossadas do Hiperião, um cavalo que terá vivido desde os tempos do Mioceno ao Pleistoceno e que seria semelhante ao Mercychippus, outra beleza de então, também cavalo, descoberto no Nebrasca.

Não vou em teorias, que pretendem fundamentar com ossadas mas, também não deixo de reconhecer que as descobertas se fazem transpirando. Seja como for, posso deixar aqui que, segundo os especialistas do início do séc. XX, o desfiladeiro de Olduvai, era um lugar que se previa ideal para investigar o que saísse de sob aquelas camadas sedimentares. Transformações geológicas teriam dado origem a uma falha, há 500.000 anos, que desviou o curso de um pequeno rio e transformou toda aquela área. Ali foram descobertas ossadas de omídios e seria um elo entre o Australopitechus afrerensis de cerca de 3.2 a 4 milhões de anos e o Australopitechus africanus, datado entre 2 e 3 milhões de anos.

Mas há muito para falar de África, dos seus desfiladeiros, dos seus rios, das suas savanas, das suas montanhas, dos seus desertos, das suas florestas e das suas gentes. Tentarei ir brincando com tudo isso, por aqui.

Um dos meus amigos Moçambicanos. Uma espécie de corvos que, em tempos, me disseram que Moçambique os importou da Austrália para limparem as florestas. Verdade? Não sei! Mas eu acreditei em quem mo disse. Gostava de os ver, ao romper do dia, correrem atrás das ratazanas rumo às sargetas, no AB6 - Nova Freixo

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cahora Bassa, nasceu e cresceu

 Quico e Ventor 21.02.11

Cahora Bassa (na língua local nhungué, significa: onde acaba o trabalho), nasceu e cresceu, no rio Zambeze, a cerca de 120-150 km de Tete.

No ano de 1969, quando eu caminhava por Nova Freixo e Vila Cabral, mais tarde chamadas de Cuamba e Lichinga, ouvi, pela primeira vez, falar na obra a que chamavam Cabora Bassa.

Em honra do que viria a ser essa grande barragem, tinha sido construída na zona de Vila Cabral (Lichinga), para os lados de Nova Madeira, uma barragem para irrigação a que chamaram Mini Cabora.

Podem ver aqui, no Shutterfly, as fotos de Cahora Bassa e arredores.

Um dia, eu e mais três mangas, saímos da Força Aérea de Vila Cabral (AM 61), armados de G-3 e apeteceu-nos caminhar até essa nova barragem e tinha sido aquilo a que eu poderei chamar, uma das grandes caminhadas do Ventor. Atingimos a barragem e depois hesitamos em subir pelo pico mais íngreme até ao monte da Capelinha. Só que por aí, ninguém subia para o monte da Capelinha, a não ser doidos! Mais ainda, quando dias atrás, conversando com um preto das milícias de Daniel Roxo e outro popular da cidade que conheciam aquela zona, me dissuadiram de subir aquela encosta, pois no seu seio haveria uma Pitão (vulgo jibóia), que seria do maior que existiria, em África. Nenhum deles me deu a certeza, mas era o que se constava e perante as incertezas, devemos sempre ser precavidos.



Barragem de Cahora Bassa, vista cá de cima 

Nesse dia, das margens da barragem Mini Cabora, olhei a tal encosta mas não havia nada a fazer e subimos pelo lado contrário, em direcção a Vila Cabral, ao nosso Aeródromo. Na picada, do lado de Vila Cabral, começamos aos tiros aos patos com G-3. Os patos, coitados dos patos, não corriam perigo algum a não ser o barulho dos tiros. Eles voavam de ponta a ponta da barragem e, cada vez que a bala de G-3 entrava na água, eles, para nosso gáudio, faziam a sua demonstração de voo.

O então Inspector da PIDE/DGS, em Vila Cabral, Gonçalves Dias, apareceu de jipe, acompanhado por um dos seus agentes, deixando atrás um lastro de pó, no engodo do barulho das nossas célebres G-3.

Depois de uma valente reprimenda em que acho que só lhe faltou chamar-nos tarados, acabou por nos oferecer boleia para a Base no seu jipe, ocupado à frente por ele e o seu agente e com 4 lugares nos bancos laterais atrás (dois de cada lado).


 Uma espécie de gralha (?) na Barragem de Cahora Bassa

Eu, olhei para os cães, cheios de sede, com língua de palmo e meio de fora e disse: "aceitamos a boleia mas temos de levar os cães também"! Os cães eram 4 latagões, o Goldfinger, a Leoa e mais dois do seu tamanho. O Inspector olhou para mim e disse: «os cães vão atrás, a pé. Eles não se perderão»! Eu com toda a calma deste mundo: "está bem! Vão vocês que eu vou a pé com os cães"! O Inspector, Gonçalves Dias, já a ficar furioso: «vai a pé só? Já viu quantos km são? Você regula bem da cabeça? Sem água, com kms pela frente, com um calor destes na picada e nem tem onde beber! Se acha que os cães cabem, por mim até os podem levar ao colo, metam-nos dentro»! Lá nos amanhamos e dentro do jipe, lá trás, os 4 marmanjos e os 4 cães, colados uns aos outros, lá seguimos rumo ao AM 61.

Esta e outras caminhadas, umas vezes acompanhado, outras vezes só, são experiências de vida que nunca esqueço. Esta caminhada foi pelo monte da Capelinha, pela Mini Cabora e por conta da tal gibóia.

Cahora Bassa, nos tempos de chuva, tem água a rodos

Para mim, aquela pequena barragem já era grande, pois bem nos custou dar a volta a mais ou menos, entre 1/2 a 3/4 da sua periferia. Mas, mais tarde, fiquei siderado pelo tamanho dos números da grande barragem da Cabora Bassa! Eu que até estava habituado a deslocar-me ao LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), em Lisboa, para observar os estudos de mini-hídrica ali levados a cabo sobre algumas das maiores barragens do mundo de então, onde não tínhamos nada a aprender com ninguém.

Mais tarde, acordei para os números de Cabora Bassa:

então, a segunda maior barragem do Continente Africano e a quinta a nível mundial;

uma albufeira com um comprimento de 250 kms e uma largura máxima de 38 km, com uma superfície de cerca de 2.700 km2 e uma capacidade de 63.000 milhões de m3 de água;

é uma barragem de tipo abóboda com uma altura de 163 m acima das fundações;

é detentora de uma capacidade de vazão de 13.600m3 por segundo;

possui uma potência com um grupo de 5 geradores de 415 Mw cada, podendo produzir 2075 gigawatts por hora, podendo a sua capacidade vir a ser aumentada;

as suas linhas de transporte de energia atingem cerca de 1.400 km, 860 km dentro de Moçambique;

foram escavados, 1.500.000 m3 de materiais, dos quais:


 - 200.000 m3 para a fundação da barragem;

 - 1.300.000 m3 para a abertura da Central, túneis de acesso, galerias da condução e sala de transformadores;

são mais de 2,5 kms as galerias, túneis e cavernas escavadas;

os 5 geradores de 415 Mw cada, estão albergados numa caverna de 217 m de comprimento, 29 m de largura e 57 m de altura;

As chaminés de equilíbrio, duas, têm comprimentos de de 242 e 342 m, por 15m de largura e 18 m de altura;

Foram empregues 600.000 m3 de betão ou concreto, dos quais, cerca de 450.000 m3 para a barragem e 150.000 m3 para obras subterrâneas;

Cabora Bassa foi a maior barragem de betão ou concreto, construída em África.

 

Se o Quico estivesse aui aposto que me perguntaria como este gajo me borrou a camisola ou, então se ele caíu numa lata de tinta de rabo para o ar

São números que nos falam de uma grandeza descomunal e, essa barragem, pode ser uma catapulta para outras vontades no levantamento de um Moçambique com a grandeza que merece.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cabora Bassa ou Cahora Bassa

 Quico e Ventor 15.02.2011

Coloco aqui, no Shutterfly, algumas fotos de Moçambique, todas elas se reportam a uma caminhada que amigos fizeram entre Maputo, Tete, Songo, a Barragem de Cahora Bassa e Chitima. Como não poderá deixar de ser, não vou deixar de fora descendentes de velhos amigos que um dia tive por Moçambique.

A barragem de Cahora Bassa (em língua nhungé, significa, o fim dos trabalhos), é o símbolo da vontade e da determinação que, no século passado, Portugal e o povo português, tiveram no desenvolvimento daquele grande território a que um dia, os homens, deram o nome de Moçambique.

Moçambique, é um velho território e um dos mais jovens Estados de África que obteve a independência de Portugal após 10 anos de uma guerra de guerrilhas, a guerra do "bate e foge", após a Revolução de Abril de 1974.


 

Aeroporto de Maputo, antiga Lourenço Marques, um centro de grandes caminhadas de portugueses e de moçambicanos que por ali transitam, também, nas suas caminhadas de sonhos, para cá e para lá, para lá e para cá

Para infortúnio de Moçambique e por ganância política, de incompetentes, influenciados e orientados por comunistas e capitalistas das grandes potências internacionais, bem pior do que a guerra do "bate e foge", os moçambicanos desgastaram-se em guerras intestinas que esventraram o país e o paralisaram, transformando o seu povo num dos povos mais pobres deste planeta, segundo estatísticas das Nações Unidas. E é pena! Autodestruíram as suas capacidades de produção, do tempo do chamado colonialismo português e, de um modo geral, pelas províncias de Moçambique, o seu povo genuíno, nascido e criado longe das chamadas "centrais internacionais", continuou na sua "tanga" de séculos, à espera de melhores dias.


Um dos muitos amigos que, em tempos, eu deixei por Moçambique. Ele e muitos outros, fazem parte das memórias das minhas caminhadas pelo trilhos do continente mágico

Também nós por cá, com o dito 25 de Abril, sofremos das mesmas influências dessas mesmas "centrais", de onde mentecaptos trouxeram novas ideias de produção, desfazendo o pouco que possuíamos, através de sistemas caducos em que só acreditavam aqueles que quiseram destruir para voltarem a construir a seu modo e mando. Ficamos de tanga e a chamada Libertação, apenas nos trouxe a chamada liberdade a nós e aos novos países africanos mas, sempre, nós e eles, numa rampa de plano inclinado em todos os campos da economia. 

Felizmente, que o povo português não era constituído pelos tansos que essas gentes esperavam e, com o brio proporcionado pela tão apregoada liberdade, acabaram por recolocar essas abencerragens políticas no lugar que, só em nome da dita liberdade, eles mereceram.  



Por entre estas montanhas escorre o rio Zambeze, rumo ao Oceano Índico. Entre elas, foi construída uma das maiores barragens do mundo, Cahora Bassa, cujos estudos iniciais terão começado com o levantamento cartográfico desta área do Zambeze, levado a cabo, noutros tempos, por voos aéreos  realizados por Gago Coutinho

Sempre, por aqui, me ouviram dizer bem de Moçambique e do seu povo e só lamento que os seus políticos continuem a bater na tecla da libertação do papão colonial, tal como a propaganda política fez quando do negócio da passagem da maioria do capital de Cahora Bassa para a soberania do Estado Moçambicano. Até dá a impressão que o papão português era o seu grande inimigo .... mas, Moçambique, está, de facto, cheio de papões que se escudam na sombra colonial. Portugal foi substituído por outros colonizadores da conveniência dos "dictacts" políticos daqueles que, em nome de Moçambique, se assenhoraram do seu território e das suas gentes. Pelo que sei, de muitas conversas destes últimos anos de tréguas, o amor do povo de Moçambique por Portugal e pelos portugueses, pouco ou nada tem a ver com a mensagem deixada pela classe política de Moçambique como se notou quando da entrega de Cahora Bassa.


 

Nesta barragem de Cahora Bassa, foram utilizados, na sua construção, 600.000 m3 de betão, sendo, nessa área, a maior de África

Mas os anos destroem tudo, ou então, se preferirem uma notação mais soft, os anos destruirão tudo o que haja de negativo entre os moçambicanos e os portugueses e reforçarão a amizade que sempre perdurará nos nossos corações. Isto foi o que eu sempre notei desde que um dia deixei o território de Moçambique e, desde que, uma moçambicana, estudante, em Lisboa, por razões económicas familiares, teve de regressar a Moçambique. No meio dos seus amigos portugueses, onde teve algum tempo para sonhar e após alguns dias de tristezas, teve de partir na rota que outrora o Gama levara mas, na turbulência da tristeza da sua vida, no dia fatídico da partida, no Aeroporto de Lisboa, quando se dirigia para o avião, voltou-se para nós na velha varanda das despedidas que então havia virada para a pista e gritou lá de baixo: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"! Ela tinha percebido, em meia dúzia de dias que, a maneira como eu falava da sua terra, junto de si e dos seus amigos, só podia representar o amor puro, que trouxe no meu coração por Moçambique e pela sua gente.



Trata-se de uma grandeza colossal, a maior barragem construída por Portugal, até hoje

Tudo isto, para vos dizer que, desde então, me tenho apercebido que, a tal guerra do "bate e foge", nunca foi suficientemente grande para inculcar ódio entre nós. Seria essa a génese da vontade que levara Portugal, então, a apostar muito do que tinha e podia, na construção dessa grande barragem que na língua do povo da região onde se integra, os nhungés, se veio a chamar Cahora Bassa, ao tempo, em português, Cabora Bassa.

Voltarei aqui para falar da tal obra.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

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