quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

General Melo Egídio

 Ventor 07.12.11

... o Governador. O governador do distrito do Niassa, no norte de Moçambique e o Governador Geral de Macau, mais tarde.

Um dia cheguei a Moçambique, segui o rumo e tudo correu como eu queria. Fui parar ao Niassa, Nova Freixo, mais precisamente, AB6 - Aeródromo Base 6. Isso aconteceu no ano de 1968 e a 31 de Janeiro, cerca da meia noite, cheguei a Nova Freixo. Dois meses, em Nova Freixo e rumei a Marrupa ("terra do Desterro", significado indígena de Marrupa) logo de seguida. Por ali, com intervalo de cerca de meio mês, estive oito meses e meio.

Foi em Marrupa que ouvi falar desse homem. Um militar que seria, na altura, Coronel - O Coronel Melo Egídio, Governador Civil do Distrito do Niassa.

Um dia, na minha caminhada por Marrupa, no Aeródromo de Manobras 62 (AM 62), de manhã cedo, estava o meu amigo "Louco da Malásia" de serviço, no Posto de Rádio e eu, dormindo! O dia acordou com uma grande trovoada sobre Marrupa. Na sequência da azáfama do dia anterior, eu dormia e, de repente, senti que o Posto de Rádio da Força Aérea iria abaixo ou ardia!

Um grupo de militares invadiu o Posto de Rádio. O burburinho deles, juntou-se à pedalada dos relâmpagos e dos trovões. Tudo aquilo se tornava insuportável. Eu, que até era bom rapaz, pelo menos fazia por isso, comecei a sentir-me chateado. Sem reparar quem estava, pedi ao meu amigo Louco da Malásia para desligar os equipamentos. Ele assim procedeu mas a pressão sobre ele era muito grande! Um grupo de militares achava que o homem não falhava e que chegaria, mesmo no meio da trovoada! No meio da balbúrdia acabei por acordar e virei-me para o outro lado. Mas a algazarra foi aumentando e eu, sem mais nem menos, metido no meio dela, sem justa causa. Pelos fios que desciam das antenas, desciam também os relâmpagos e o Posto de Rádio parecia incendiar-se.

Por fim, ouvi uma voz dirigida ao Louco da Malásia: "que está você aqui a fazer? Você não está de serviço? Ligue essa merda, senão os homens ainda morrem e nós não sabemos"! O Louco da Malásia que, também era bom rapaz, cedeu e fez a vontade aos cabeças do ar condicionado do Sector Echo, ligando os emissores e chamando Vila Cabral. Um relâmpago endiabrado penetra junto dos fios. Parecia que nos queria destruir o Posto de Rádio e eu não queria o Posto de Rádio destruído. O meu sono sumiu. Endiabrei! Levantei-me, com calma, em slipes, passei no meio dos cabeças de ouro do Sector Echo, espreitei pela janela e, ... sem mais, dirigi o dedo grande do meu pé direito, ao botão geral dos equipamentos de rádio, pressionei e disse: "só gente que não percebe nada disto, julga que um avião entra hoje, em Marrupa, enquanto as circunstâncias se mantiverem. «Chegaste a enviar a informação meteorológica para Vila Cabral»? "Sim, mas já não me chegaram a informar se o avião iria decolar". «Se descolou, quando tiver a área de Marrupa à vista, foge logo para trás».

Virei-me para o meu amigo Louco e disse: «não ligas mais esta coisa, hoje, enquanto eu não te disser, ouviste! E que está esta malta aqui a fazer? Todos lá para fora»! Era fora do Posto de Rádio, abrigados pelo telheiro, que eles deviam guardar, se as houvesse, as comunicações. Ficamos só eu e o Louco da Malásia. Por fim, mais tarde, os nossos amigos do Sector Echo, acabaram por abalar. Chegaram à conclusão que eu tinha razão e desandaram. Pensaram que o avião nunca mais chegaria, como não chegou! Seria impossível e ainda bem para todos, eles e nós!

Soube, na sequência dessa pequena escaramuça, que o Senhor Governador Civil do Niassa, teria informado que, naquele dia, iria fazer uma visita à bela terra do DESTERRO - Marrupa!

Dias depois, fui informado pelo meu Comandante, em Nova Freixo, que havia uma queixa do Comandante do Sector Echo, enviada para Nampula, contra mim e queria saber pela minha boca o que se tinha passado. Disse-lhe que não sabia de nada, tinha de se "esmerar" para me fazer compreender o porquê, pois nunca tivera qualquer mal entendido com o comandante do Sector Echo. Então, o meu comandante lá veio com o meu aparecimento  no meio do Staff de Marrupa em "trajes menores"! Percebi tudo mas, o ataque daquele Maralhal, contra o Fox, saiu baldado. Eu apenas defendi os equipamentos contra casmurros precipitados, dos quais nem vi galões.

Algum tempo de felicidade, nas escaramuças da guerra, com a minha cegonha

Mais tarde, apareci em Vila Cabral e, podem crer, vim a conhecer o Senhor Governador Civil, Melo Egídio e, se alguém tiver dúvidas, podem crer que tivemos sempre um relacionamento exemplar. Para ele, eu era o Ok, OK, ... porque lhe resolvia alguns problemas da sua malta civil, sempre que possível, especialmente, nos transportes para o Hospital de Nampula.

Poderia falar muito sobre esses tempos do Niassa e bastante sobre esse homem que me pareceu muito querido das populações desse Distrito.

Esse homem, o Governador do Distrito do Niassa, em Moçambique, que veio a ser Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas e Governador de Macau e que, por determinação do Senhor da Esfera ou das Parcas, nos deixou hoje, merece toda a minha consideração e votos de simpatia pelo pouco tempo de convivência que tivemos no Niassa, em Vila Cabral. O sorriso dele cativava.

Deixo aqui os meus pêsames a toda a sua família, especialmente, à sua filha Paula, que melhor conheci, se é que ainda existe, neste nosso mundo, neste nosso Planeta Azul.

Que Deus o tenha a seu lado, Senhor General.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Olá AB6! --- .-.. .- .- -... -....

 Quico e Ventor  28.09.11

Bom dia AB6

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Longa vida a todos nós  

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Eu sou o corvo de raça australiana amigo do Ventor 
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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Mafra, Vindimas de 2011

 Quico e Ventor 22.09.2011

Em 17 de Setembro, lá fomos nós, mais uma vez, a caminho de Mafra, para as vindimas do nosso amigo Checa. Rumamos de Amadora-Massamá, até ao grande Convento e aposentos de D. João V. Mas, o Convento de Mafra, é apenas, mais um marco, nessas nossas caminhadas. O Convento, o jardim das rosas, a estátua de D. João V, a estátua que homenageia a nossa Infantaria (os velhos infantes de Portugal) e, por trás, a belíssima Tapada de Mafra, onde não entro há, seguramente, 48 anos.

 

As uvas queriam conversar com o Ventor

Também o cafezinho das parras, já é um marco nas nossas caminhadas. Mas, não é nenhum desses marcos que nos levam a Mafra! O que nos leva a Mafra, é outro marco histórico que faz parte de um marco directo da nossa história pessoal. Um marco que alguns construíram desde a Base Aérea 2, na Ota.

Claro que, como é para trabalhar, chegamos sempre tarde! Tarde mas com a parra por companhia.

Depois o salto às outras parras, as parras do meu amigo Rui, um braço de Baco. O tirar os baldes do tractor, espalhá-los por entre a vinha, tesoura preparada na mão direita e toca a agarrar bem o cacho com a esquerda. Tricla, já está! Primeiro, segundo, terceiro e por diante. Baldes cheios e vai de levá-los para o tractor que os transportará para a Adega. Isto foi o aspecto geral da operação. Claro que comigo não foi nada disso!

Peguei a tesoura que me coube em sortes ou sorte aldrabada pelo meu amigo Checa e lá fui eu integrar-me na azáfama da vindima.


 

Os cachos empurravam-se para saberem se andava por ali Baco, juntamente com o Ventor 

Mão esquerda no cacho, mão direita na tesoura e um corte seco scchrrr! Cacho no balde, tesoura travada. Mão esquerda no cacho, mão direita a destravar a tesoura e sccchrrr. Cacho no balde, tesoura travada, sempre automaticamente! Se fosse minha deitava-a ao poço, podia ser que daqui por milénios outros encontrassem lá um veio de metal desconhecido. Enchi o balde e desisti! Peguei na máquina e sacava cachos aos montes (podem ver neste link verde). Dediquei-me um pouco aos ninhos. Um de melros, outro de pintassilgos e, eis-me ali frente às belíssimas Casas de Irene.

Foram no tractor levar as uvas e eu e o Alex, de pata no chão, fotografamos tudo pelo caminho. Afinal, o Checa não precisava de nós para nada. Foi uma vindima meio a brincar meio a sério, para divertir o pessoal. Depois as tachadas, de coelho, de carne guisada e o velho atum de barrica à moda saloia.

Mas aprendi mais uma coisa: se pato de uma espécie, com pata de outra espécie, dão pato travesso, concluí que atum, mais barrica, dão "atumbar" travesso.

 

Depois de um trabalho fugidio, uns amandaram-se à carne


Outros mandaram-se ao coelho, como o Ventor e o Alex

 

E, outros, mandaram-se ao travesso, "atumbar" - Atum de barrica

Eu sei que, no sábado, não vou estar na verdadeira vindima, porque me iria calhar uma tesoura, travessa. E logo este ano que estou bom para trabalhar devido à ajuda do meu fisioterapeuta - o Finitro.

Mas gostei de ver todo o velho pessoal da tesoura e os pequeninos que começam a aprender, cheirando, o guloso líquido que faz as delícias de Baco e da pequenada. Quando eu era miúdo adorava o cheiro do vinho novo!


Mas, esta foi uma caminhada na continuação das nossas peugadas africanas.

Que tudo vos corra bem, na colheita deste ano, Checa, e que venhas na tua caminhada vinhateira a ensinares o Ruizinho como tens ensinado os teus filhos. 


 

O meu amigo Brutus, como se nada fosse com ele, observa o Ventor, de perto e o maralhal de longe. Ele e a sua companheira de caminhadas, são os guardiões da vinha

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 3 de setembro de 2011

Francisco Daniel Rocho

  Ventor 03.09.11

... um combatente!

Francisco Daniel Roxo - Comandante das Milícias, em Vila Cabral, no Distrito do Niassa
Nas minhas caminhadas por Marrupa, no ano de 1968, comecei a ouvir falar deste homem e das várias histórias que se contavam dele. Acredito que, a sua vida de caçador ou a sua inocência de homem simples, o tornassem num temerário. Afinal, isso entranha-se em nós, quando caminhamos no mato e, mais ainda, quando estamos preparados para tudo, até para morrer.
Não sei se alguém sabe como vivemos a vida quando estamos preparados para morrer. Eu já passei por isso e não é por acaso que caminhava quilómetros sozinho nos matos de África, especialmente, em Marrupa, e também em Vila Cabral, sem pensar no amanhã! Hoje, não o faria! Isto era no tempo em que o medo não existia no meu cérebro. Posso acreditar que alguns de vós tenha passado por isso pois, certamente, eu não serei excepção a esse estado de espírito.
Nem eu, nem o Daniel Roxo!
Eu sei que ele não tinha medo. Ele dizia que hoje era hoje e, o amanhã, logo se via. Era assim que eu pensava. Tal e qual! Mas depois da minha passagem de 8 meses e meio por Marrupa e pelos seus matos envolventes ao AM62, quantas vezes só, com os rafeiros, amigos a valer, em caminhadas sem fim, algumas vezes perdido de noite, em busca de verylights que me indicassem o caminho para o Aeródromo e, quantas vezes, sem bússola nem verylights, dava sempre com a porta! Ainda hoje, quando penso nisso, parece-me que até cheiro o mato. Aquele cheiro a bravo, nesse mato selvagem. Uma vez matei um bicho sobre uma árvore, quando descia uma lângua a oeste de Marrupa e, no regresso, a pestilência, a bichos bravos, era enorme. Os cães, quatro com a cachorrinha Diana (filha da Leoa de Vila Cabral) que, tanto gostava de ir comigo que andava quase sempre com ela ao colo.
Quando cheguei ao local, já só havia restos de pelo do bicho e o medo dos cães era enorme! Parei, na margem direita da lângua e fui mudando os cartuchos, na Browning, para caça grossa. Os cães pisavam-me os tornozelos e quase não me podia mexer. Limitei-me a ficar ali, durante algum tempo, recuando uns metros até à árvore mais próxima, sempre a olhar o capim intenso à minha frente. Os cães continuavam enroscados em volta das minhas pernas a ganir e eu não tirava os olhos da zona do capim e das árvores a seguir, para onde eles olhavam e do pelo do Zorba, todo eriçado sobre o lombo.
Dei tempo ao animal ou animais que cheiravam a bravo, ali perto e assustavam os cães, para se decidirem a tomar a iniciativa. O chumbo grosso estava ali à espera deles. Mas nada. Por fim, decidi eu. Bummm! Meti outro cartucho! Observei tudo à minha volta e nada! Decidi pôr-me a caminho. O tiro pareceu-me algo de extraordinário. Não vi mexer o capim, não vi nada fugir. Os cães amainaram e, lentamente foram-se afastando das minhas pernas. A Diana pediu-me colo e eu disse-lhe que não. Tinha de fazer um esforcinho e eu olhar para trás e para os lados para defender o meu pelo e o deles. Nunca mais houve problemas até ao AM62. Tive receio durante algum tempo de que as coisas nos corressem mal para mim e para os cães mas, não havia vaga para guardar os medos. Concluí que os animais tinham lá estado e se afastaram à minha aproximação. No dia seguinte, lá estávamos outra vez, e sós!
Recordando os meus receios ou medos, recordo também, como viveria a cabeça do Daniel Roxo com os seus medos do dia. Vou contar-vos o único medo em que o cacei!
Um dia, lá cheguei eu a Vila Cabral, nos princípios de Julho de 1969. Quis logo conhecer a cidade e lá fomos quatro marmanjos com esse objectivo. Vimos aquela represa, lá em baixo, entre os pinheiros e iniciamos uma caminhada até lá. Chegamos junto da água, reparamos nas suas margens e, como o tempo apertava, decidimos voltar ao AM61. Mal iniciamos a subida da picada, já um pouco afastados da represa, ouvimos tiros e as balas a zunir junto dos ouvidos e a baterem no chão, junto de nós. Não tínhamos uma única arma e ficamos ali, de rojos e ainda vi uma bala levantar o pó, bem junto da minha cabeça! O fogo calou-se e nós reiniciamos a caminhada. Pelo caminho pensei que, se quisessem matar-nos, já o teriam feito. Não ouvimos nem mais um tiro!
Chegamos à Pista de Vila Cabral, a malta cheia de sede, dirigiu-se para o Bar. Eu aguardei uma viatura tipo militar, um jipe a alta velocidade, direita a mim, e um tipo espavorido a saltar dele.
«Vocês souberam o que fizeram? Vocês sabiam o risco que corriam e foram para uma zona de reserva onde não se pode entrar sem a minha autorização? Eu espeto-lhe um murro nesses cornos que dou cabo de si»! Eu, estupefacto, vejo aquele gajo fardado à militar com o punho no ar, a ameaçar-me e, ... "calma aí amigo, explique-se melhor que não estou a perceber nada»! «Não está? ...Eu sou transmontano», ... eu faço, eu aconteço, eu, ... "Olhe, sabe um coisa? O senhor é transmontano, eu sou minhoto e parte-me os cornos uma merda! Não sei quem o senhor é, e estou-me nas tintas para o seu camuflado. Para me dar um murro nos cornos é preciso que eu deixe ou julga que vou ficar aqui à espera, de braços cruzados"?!
A partir dali, acabou a nossa guerra a dois. Explicou-me toda a engrenagem e que, as suas milícias podiam ter-nos morto enquanto treinavam situações de fogo e que tivemos sorte por o comandante do grupo de atiradores ter-se apercebido da nossa presença e terem cessado o fogo. Não fosse isso e saíamos de lá como passadores!
A partir desse desentendimento, fomos beber uma bazuca e ficamos amigos mas, nunca mais me esqueci do Daniel Roxo. Ele é o tal homem que tinha entrado no café Planalto e pediu uma cerveja. Bebeu o primeiro gole de cerveja, ouviu tiros, algures junto da cidade, pousou a garrafa e disse para o gajo do balcão: «guarda-me aí a garrafa que ainda venho beber a cerveja fria" e, lá partiu no jipe à procura dos tiros!
Outra peripécia do Roxo foi num voo de Revis, numa DO-27, bem perto de Vila Cabral. A nossa DO-27, o Roxo e o Comandante de Operações do Sector Alpha, um Major porreiro! Eu estava de serviço e, de repente, só ouvia o Roxo a mandar vir com o avião e com a FAP. «A Força Aérea não presta, manda para aqui esta merda desarmada. Nem uma G-3! Assim não podemos fazer nada. Mas que porra! O piloto do DO transmitia-me tudo e perguntou-me se os T-6 podiam actuar. Chamei o Comandante do AM, aviões para o ar e zás! Combinamos um nível de voo para a Do, de maneira a que os T-6 entrassem ao ataque por baixo. O Roxo transfigurou-se quando viu os T-6 lançar os rocketes a atacar forte e feio as posições dos nossos amigos de estimação. Quando regressaram, saiu da DO-27, correu para mim a abraçar-me e só dava louvores à Força Aérea. Foi uma mudança radical. Creio que quem comandou esse ataque foi o Ícaro. O Roxo correu para o Jipe, voltou-se para nós e disse: «Agora vai ser comigo»!
Tantos anos já passaram - 42 anos! Cuidado com a cegonha!!!! Foram danças como esta, as mais lindas que fiz até hoje
Tenho outras situações em que o Roxo era mencionado em locais que nem lá estava. Uma vez o Comandante do Sector Alpha disse ao Capitão que partiu com a sua companhia em socorro da Força Aérea, cerca da meia-noite, nas vésperas do natal de 1969, que esse ataque era das milícias do Roxo e eu que sabia onde andava o Roxo, nessa altura, tirei o telefone das mãos desse capitão e fui eu que fiz a guerra com esse Comandante que, afinal só temia o medo dos civis de Vila Cabral e ficou com uma vontade de me triturar mas não passou disso. Tenho isso mais desenvolvido por aí, num post, e tenho ainda nos ouvidos, as vozes das mulheres de Vila Cabral a pedirem-me, pelo telefone, para resistirmos que iríamos ter um Natal cheio do melhor bolo rei do mundo. Giro, não é? Não foi por falta de vontade que o bolo rei não veio a ser o melhor do mundo!
Mas, anos depois, voltei a saber do Roxo mais uma vez! Quando passava numa Av. de Lisboa, vi um jornal e, em toda ou quase toda a 1ª página, estava escrita uma frase: «adeus Comandante» e vinha lá uma foto como essa.
Era um jornal reaccionário ou até super, que se chamava Rua. Mas eu comprei-o! Foi assim que tive conhecimento da morte do Francisco Daniel Roxo. Tive conhecimento, através desse jornal, da sua morte e tive uma guerra com os meus amigos comunistas e da extrema esquerda que, então, pululavam na minha empresa. Felizmente, tinha tanto medo deles como tinha então das hienas de Marrupa e de Nova Freixo.
E, em resumo, para aqueles que não sabem, dizia o jornal que o Daniel Roxo morreu numa escaramuça entre a Frelimo e a Renamo e, também, segundo o jornal, o homem que se dizia imune às bazukas, foi trucidado por uma.
Este post destina-se a recordar um homem de quem muitos não gostaram mas, que eu vejo, apenas, como mais um dos nossos parceiros de tempos conturbados na nossa caminhada africana. Deixo-lhe aqui a minha homenagem.
PS. Posteriormente, vim a saber que o Francisco Daniel Roxo morreu no sul de Angola, em combate contra cubanos e o MPLA, conforme os comentários a este foto e no Blog - Rio dos Bons Sinais.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Rui Perestrelo Ferreira ...

 Quico e Ventor 29.08.11

... já não vais contar mais Rui, agora, só a tua família e os teus amigos os contarão.

Como eu nunca sei a quantas ando, o meu Malmequer (a nossa princesa, recordas-te?), recordou-me, agora, que fazias anos hoje e recordou-se porque fazes anos um mês depois dela. Por isso, se o nosso amigo, Rui Perestrelo Ferreira, o nosso Louco da Malásia, fazia anos hoje e, como acredito que continuas entre nós, não fosse isso e não estaria aqui a recordar os nossos velhos tempos, aqui deixo, tal como se estivesses junto de nós, de corpo e alma, os nossos parabéns. Não estás entre nós de corpo e alma, mas a tua alma permanecerá sempre entre nós.

Permanecerá tanto entre nós, que também soube agora que a tua netinha está para nascer e, fiquei com a esperança de que ainda possa nascer neste teu dia de aniversário! Assim, nunca serás esquecido por ela e por todos os teus.

Por isso, vou fazer-te um pedido. Não chegaste a conhecer a tua netinha que vem aí mas, sempre podes aparecer junto delas e ouvires o seu primeiro gritinho. Se não tens despensa de saída, eu poderei meter uma cunha ao Senhor da Esfera e, julgo que, atendendo às circunstâncias, Ele te permitirá.

Eu sei que tu não levarás a mal, parece-me que nunca levaste e, não será agora que isso venha a acontecer.



Sempre diferentes, sempre iguais 

Escusado será dizer-te que não vais esperar muito tempo por todos nós. Uns mais cedo, outros mais tarde, iremos chegando como as chuvas. Mas eu, enquanto for podendo, recusar-me-ei a partir. Não é por acaso que montei o meu cavalo, baixei o meu elmo, peguei na lança e estou no ataque. Tenho quatro cavaleiros para destroçar mas, tenho estado esquecido que os gajos estão apoiados por infantaria e eu cada vez mais só.

No entanto, a minha luta não terá tréguas. Vou tentar tudo para ser o último a chegar! Um dia, lá estarás, tu e outros, com o vosso sorriso, para nos abraçarmos.

Olá, Mena! Esperamos que tudo corra bem com o nascimento da tua netinha e muitas felicidades para todos vós.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 11 de junho de 2011

Para sempre, em Alfundão

 Quico e Ventor 11.06.2011


 Chariotys of Fire

Foi assim, como estes, que tudo começou, em Janeiro de 1966, na Base Aérea 2, na Ota. As corridas não eram na praia, mas nas estradas ou no meio do pinhal. Era asim que entrávamos na belíssima vila de Alenquer e sofriam, os olhos que nos viam correr todos encharcados em suor. O pior era dar a volta e subir rumo à Ota. Os Chariots of Fire, de Vangelis, acho que ficam aqui muito bem, enquanto deixarem, para recordarmos os tempos que tivemos naquela terrível 1ª recruta de 1966. Posteriormente, foram mais suave.

"Ninguém bebe água!"

O Major Serra o nosso Comandante da Recruta que eu encontrei muitas vezes no comboio para o Rossio, dizia-me que a nossa recruta tinha sido a pior delas todas e, como achava que era demasiado dura, teve de fazer uma exposição à Direcção dos Serviços de Saúde da Força Aérea.


Companheiros de Guerra, amigos de sempre - no AB6, em Nova Freixo: Ventor, Checa e LM. 

Um amigo que nos deixou. Mais um!

O Senhor da Esfera retirou do nosso convívio, para sempre, o nosso amigo Rui Perestrelo mas ele continuará connosco.

Quando alguém parte do nosso "espaço" ou nosso mundo, para outro espaço que, julgamos, nós, ser um "espaço definitivo", o nosso espaço, e tudo o que resta desse nosso mundo, fica mais estreito e mais triste.

A Gi, a nossa amiga Gi, o meu malmequer, continuará sempre a sorrir a teu lado. Ela chorou e quis arriscar ir dizer-te adeus. Eu é que não deixei. Nesta foto, só eu sei como ela estava doente, mas junto de ti e dos nossos amigos, ela arranjava sempre forças para nos animar

Mais triste, ainda, quando tivemos tempos de glória. Tempos de tristezas, tempos de alegrias mas, também, tempos de glória! Eram os tempos dos sonhos, os tempos em que não era proibido sonhar. Todos nós tivemos os nossos sonhos. Eram sonhos de esperança! A esperança de regressar, de voltarmos a estar com os nossos, a nossa família, os nossos amigos, os nossos cães, os nossos gatos, as galinhas, ... as namoradas ...

Tu também já estavas doente e bem doente, mas tentavas sempre partilhar as tuas alegrias e não as tuas tristezas.

Mais tarde, após essas caminhadas de sonhos, do refazer das nossas vidas, voltamos a caminhar juntos, por grupos. Por aqui, por ali, havia de quando em vez, há, ainda, um grupinho, aqui ou ali, a tentar não deixar morrer esses tempos que por bem ou por mal, marcaram as nossas vidas, as vidas de todos nós. Eu falo pela malta do AB6 e dos seus tentáculos, os AM's (aeródromos de manobras), Marrupa e Vila Cabral. A malta da "guerra" do Niassa. A nossa malta da Força Aérea mas, também tenho, num recanto do meu sótão, os nossos companheiros de outras armas, como a tropa do Exército dos Comandos dos Sectores Alpha e Echo de Vila Cabral e de Marrupa, espalhados por muitos locais daquele belo território do Niassa, bem maior que Portugal. Talvez este nosso Portugal e próximo de mais meio. Também recordo os nossos companheiros da Marinha baseados em Metangula, no lago Niassa e de um ministro de Charles DeGaule, creio que o Schuman, dizer que só uma vontade férrea como a dos portugueses seria capaz de colocar aqueles instrumentos bélicos da Marinha, no Lago Niassa.

Nunca esqueceremos os belos dias em que foi possível partilharmos as alegrias de outrora e relembrar amigos não presentes, como o Checa, então no Hospital de Oncologia, por onde eu passei para levar o seu abraço. Ele e outros, longe, mas sempre presentes   

Depois, mais tarde, com a chegada do 25 de Abril, tivemos saudades de nos voltarmos a encontrar uns quantos nas almoçaradas. Ainda houve uns belos almoços, como aquele da Golegã, no tasco do nosso amigo Tschombé do qual nunca mais soubemos nada. Alguém sabe do Tschombé? Ninguém sabe nada!

Mais um adeus de despedida, ao fim desses dias inesquecíveis de caminhadas sem fim. Tudo o que é bom acaba depressa e, agora, contigo, não haverá mais, embora, eu acredite que estarás sempre presente,

Mais tarde sumimos alguns. Uns partiram para a estranja, outros espalharam-se por aí a tratar da vida e perdemo-nos. No nosso pequeno grupo de amigos, houve dois que não quiseram dar-se por vencidos. O nosso amigo Rui Perestrelo e o nosso amigo Rui Bernardino que, na prática, nunca se perderam. Os companheiros de guerra, nunca se perdem porque eles, estão sempre presentes no nosso cérebro. Nós tropeçamos uns nos outros e não sabemos quem somos porque a imagem tem influência e muita! Os putos das fardas do "café com leite", leves como plumas e rápidos como raios, todos aqueles de há cerca de 40 anos, nunca mais os esquecemos. São essas as imagens que temos nas nossas cabeças. Mas, à nossa frente, hoje, aparecem uns "calhambeques" desarranjados, mais ou menos abarrigados, tal como eu e, salvo raríssimas excepções, ainda verificamos que, dentro daquele invólucro transformado, está um nosso amigo de tantos anos. Há também os que mudaram pouco! Ontem observava o Madruga debaixo daquela cabeleira branca, caída sobre os ombros mas, dentro do invólucro e debaixo da cabeleira, estava o nosso amigo Madruga tal e qual como ele era. Estava ali a sua alma de tantos anos para trás. Tal como o Rui Madeira, o Simões, ... todos! Acho que nenhum de nós vendeu a alma ao diabo. A nossa alma é, exactamente, como era nesses tempos.

Nunca mais teremos dias como esses, juntos, na Ria, com a hospitalidade dos amigos Alex e Tina 

Tudo acaba! As caminhadas acabam e recomeçam sempre até à caminhada final que todos teremos. Mas, aqui, na Ria, tal como em Nova Freixo, em Marrupa e em Vila Cabral, mais uma vez estivemos os três juntos. Longe da guerra, mas juntos

Só que, ontem, foi um dia triste! Não foi dia de galhofas, de brincadeiras, como de costume. Foi o dia em que o nosso amigo Rui, o nosso grande amigo a quem desde a Base da Ota, sempre, na brincadeira, chamávamos o Louco da Malásia, despediu-se de nós e nós dele. Eu sei que ele vai continuar a viver connosco! Ele estará sempre a nosso lado, nas suas eternas brincadeiras. Quando ele descobriu que eu ainda existia, voltou a tentar tudo para me encontrar. Pedi a outro para lhe dar o meu número de telefone e, logo de seguida, o telefone tocou e ele, impávido e sereno, do outro lado, disse apenas isto: "cacei-te"!

Foram dias cheios com as olhadas para o passarinho que te manterá sempre junto de nós

Ele sentia uma grande alegria quando nos via juntos. Não me esqueço da alegria que ele sentiu do nosso primeiro encontro, em Alfundão, quando quis ligar para o outro amigo lá para o fundo de tudo - Maputo! Os nossos amigos estão em todo o lado! "Telefono-te, pá, só para te dizer que também estás aqui. Estás aqui connosco. Diz lá bem alto: «Bom dia, Alfundão»! Era a amizade pura do nosso Louco da Malásia! Fico com a sensação que ele se quis despedir de nós! Mas não consegue porque ele vai ficar sempre connosco! Ontem abri um espaço, ainda maior no meu coração, para Alfundão e Ferreira do Alentejo. Por lá ficou pairando sempre, o nosso amigo "Louco da Malásia" e, sonhando com o passado, caminharei, sempre, no presente, por essas belas terras do Alentejo.

Estaremos sempre contigo no coração, Rui! Eu sei que, o Senhor da Esfera, vai ter de continuar a partilhar-te connosco. 

O "batalhão" de passarinhos que nos vão observando sempre e partilhando das nossas alegrias e tristezas e que acredito, nunca se deixarão de perguntar como é possível tantos anos depois, vivermos a amizade de tantos anos atrás, como se fosse ontem.

Faltam as fotos Sumiram!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 24 de abril de 2011

Feliz Páscoa de 2011

 Quico e Ventor 24.04.11

Uma Páscoa de 2011, com muitas amêndoas para todos os meus velhos amigos conhecidos e para os novos do Facebook. Para todos vós! Esta noite lembrei-me das minhas três amêndoas, na Páscoa de 1968, em Marrupa. Duas brancas e uma rosa ou duas rosas e uma branca.

A minha companheira de muitas caminhadas, tirou o pacote, abriu-o e colocou as amêndoas dentro deste brinquedo de vidro a que chamam taça. Pedi-lhe para tirar três e saíram uma de cada côr. Uma branca, uma rosa e uma azul. Disse-lhe para tirar a azul e colocar outra branca ou rosa. Em Marrupa de 1968 não me tocou nenhuma azul porque não havia.

Tirou as três amêndoas, deu-mas para a mão e eu coloquei-as numa tacinha.

Tira daqui, põe ali e ficaram separadas. 

Depois, meti-as noutra taça mais pequenibha.

Por fim, ficaram as duas tacinhas sobre a mesa.

 

Na taça com mais amêndoas era uma gritaria. Choravam por verem partir as três amiguinhas para serem devoradas mas elas ficaram contentes e cantavam cheias de alegria. Eu não percebia porquê mas, disseram às outras para não chorarem que eram felizes e teriam o privilégio de serem as preferidas do Ventor.

Amanhã, a seguir ao almoço, trincarei essas três e recordarei todos aqueles que se encontravam comigo no "DESTERRO" do norte de Moçambique, centro do Distrito do Niassa. Um DESTERRO, chamado Marrupa, rodeada por "montes da perdição". Ali, sempre que fôssemos longe, nunca regressávamos com  bússola. Estava sempre avariada! Mas, para todos os que lá estivemos, terá sido uma terra linda e digna da nossa presença. 

Belos tempos!

Tal como em 1968 .... para todos os Duros do Niassa e, também, para todos que caminham pelos meus Blogs e para os meus amigos do Facebook, todos sem excepção ...


UMA PÁSCOA FELIZ PARA TODOS VÓS 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

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