quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ventor e a águia

 Quico e Ventor 03.09.2015

A águia que queria matar o Ventor, em Vila Cabral, 1969.

Num dia bonito, cheio de sol, eu e o Sargento Dias resolvemos ir à caça de perdizes para fazermos uma caminhada naqueles belos outeiros com zonas cheias de capim. As perdizes saíram do chão e voaram para a nossa esquerda. Disse ao Sargento Dias para ir pela direita que eu iria pela esquerda do local onde as perdizes tinham pousado para as fazer voar para o lado dele. 

Beleza destruidora

Subi um morro onde o capim me dava pelo peito e pelos ombros, ficando, praticamente, apenas com a cabeça de fora. Na minha vertical esvoaçavam, em circo, um grade grupo de aves de rapina, especialmente, abutres e algumas águias. Mandei o Goldfinger e a Leoa pela minha esquerda e o Bolinhas, um cão pequenote, ficou junto de mim. Daquele grupo de rapináceas, destacou-se uma águia que voou quase na vertical, em minha direcção. Enviei um tiro de caçadeira browning, uma semi-automática de 5 tiros. Ela desceu mais e a alta velocidade. Enviei um segundo tiro e ela desce mais. O objectivo dos tiros era espantar a águia mas ela não se atormentou. Ao terceiro tiro, na defesa do Bolinhas, já lhe arranquei algumas penas. Como ela não desarmava, enviei-lhe o quarto tiro e parti-lhe uma asa.

A águia desviou de direcção. Esqueceu o Bolinhas e atacou-me a mim. Não ia ter tempo para lhe apontar o 5º tiro. Levantei a arma em posição de defesa, esperando a oportunidade de lhe dar o 5º tiro e mata-la mas não me deu tempo.

Quase me cobriu com aquele grande manto das suas asas mas, com o cano da arma, desviei-a de mim para a minha frente, caindo a meus pés e agarrando-me uma perna cravando aquelas garras enormes na minha perna esquerda protegida por umas botas de água com borracha e lona. Ela segurou-me a perna e eu coloquei-lhe a outra bota sobre o pescoço. Enquanto ela me tentava furar a bota eu tentava asfixia-la com a outra bota sobre o pescoço, calcando sempre.

Quando o Sargento Dias chegou espavorido junto de mim porque imaginara algo diferente, pois os tiros que eu dera não eram de quem faz fogo sobre perdizes, olhou e não via nada devido ao capim, perguntou-me: "que raio de tiros foram esses"?

Chegue aqui. Quando ele viu a águia com as duas garras cravadas na bota pergunta: "e se ela fura a porra da bota! Não lhe pode dar outro tiro"? Mais um tempinho e a águia estava morta.


Esta é a águia negra africana ou águia de Verreaux. Tirei da Wikipédia esta foto carregada por Orlica. É a águia mais parecida com aquela que matei em Vila Cabral, em 1969

Esta águia é uma grande águia que vai de 75 a 96 cm da ponta do bico à ponta da cauda. Os machos pesam entre 3 a 4 kg mais ou menos e as fêmeas entre 3 a 7 kg. Tem uma envergadura de asas de 1,80 a 2,30 m.

A que eu matei, pisava-lhe a ponta de uma asa com um sapato e o meu braço esticado não chegava à ponta da outra asa. Imaginem esse bicho a alta velocidade a aproximar-se da vossa cabeça! Com um peso razoável e com as penas da cabeça todas eriçadas, tornando-a maior, o impacto dela no cano da minha arma àquela velocidade, acho que o que me safou foi ela ter a asa partida. O estupor da águia foi mesmo suicida!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sonhos verso realidade

 Quico e Ventor 15.10.14

Penso, penso, penso e acabo por sonhar.

Tenho vários posts do Blog "Ventor em África", sem as certezas totais e penso sempre, limpar o meu sótão para ver se o disco rígido funciona perto dos 100%. Mas não consigo.

Quem estava comigo, quem não estava comigo. Sei lá! Já contei aqui duas "histórias" da minha caminhada africana, onde não consigo recordar os meus companheiros de caminhada. São duas histórias independentes mas que se deram na mesma caçada, durante uma tarde.

Na primeira dessas duas, trata-se do meu encontro com um leopardo e na segunda, o meu encontro com um grande facochero. Tudo bem menos identificar os meus companheiros de caminhada. Não havia muitos que quisessem ir comigo à caça, nem em Marrupa, nem em Vila Cabral e, quando isso acontecia as suas imagens dispersaram-se pelo futuro do nosso "out of Africa", tal como eles.

Em Marrupa, o primeiro que foi comigo à caça foi o Maniés. Como não conhecíamos aquilo, fomos os dois, cada um com uma G-3. Azar dos azares, nem eu nem o Maniés, durante os treinos na Ota, tínhamos visto uma G-3 e, em Marrupa, quando colocamos os carregadores foi com toda a meiguice deste mundo. Não caíram por sorte! Para experimentarmos as G-3, preparamos-nos para dar uns tiritos. A bala não entrava na câmara, tirávamos e voltávamos a meter os carregadores e nada. O Maniés, enervado, chateou-se com aquilo, "zás, catrapás, pumba"! Ia-me dando um tiro num pé. Foi a um dedo da sola da bota. Foi assim que ele e eu aprendemos a mexer na G-3. Ele nunca mais quis ir comigo à caça por isso ou porque nunca mais se proporcionou. Depois veio-se embora e eu fiquei em Marrupa.


Leopardo da pixabay

Depois foi um açoriano a que chamávamos "porta-aviões". Só foi uma vez, ele de um lado da lângua e eu do outro. Por fim eu estava lá em cascos de rolhas com os cães e ele, só, cá atrás, a gritar por mim. Não gostou da caminhada, ficou desorientado e disse-me que nunca mais iria comigo à caça. Creio que nunca mais foi, nem comigo, nem com ninguém.

Depois, ou ia sozinho, ou com o Melo, ou com o Coutinho, ou à noite, com um chaimite, eu, o Melo, o Coutinho e um Alferes algarvio, dos Comandos, destacado, em Marrupa. Eu, salvo raras excepções, continuava as minhas caminhadas só, utilizando o lema de "mais vale só do que mal acompanhado". Era assim que eu dizia aos que se recusavam.

Mas nessa tarde, eu e mais três saímos do Aeródromo e descemos pelo lado esquerdo da pista para o mato. O objectivo era uma espécie de perdizes diferentes das nossas, que fugiam do chão, onde se alimentavam, para as árvores e depois, de árvore em árvore. Levávamos duas caçadeiras Browning, semiautomáticas, de cinco tiros, eu levava uma, um outro levava a outra e, os outros dois, levavam G-3. Espalhamos-nos, indo eu na ponta esquerda, mais próximo do vale onde fui topar com o leopardo. Nesse local, tempos atrás, ali perto, quis ver um chango fugir e mandei um tiro para o ar com a G-3 e, imediatamente, fui corrido à pedrada por macacos tão assustados que não me largavam.  Eu, acompanhado pelos cães, fui-me desviando, sempre com a G-3 apontada a um dos mais próximos e só parei na picada de Marrupa. Seriam cerca de 18 macacos. Quando se aproximaram da picada desistiram e deixaram de tentar apanhar pedras, onde também não havia muitas. Acabaram por fugir, infiltrando-se mato dentro. Creio ter sido essa a minha sorte. Pouco faltou para eu tentar matar os macacos que fosse possível. Mas não dei nem um tiro além daquele que tinha servido, antes, para espantar o chango.

No resumo dessa tarde, eu e o leopardo encontramos-nos e observamos-nos, olhos nos olhos, ele lá em baixo e eu cá em cima, a uma distância muito curta. Ele pensava no que ia fazer e eu pensava em trocar os cartuxos com chumbo para perdizes por zégalotes para caça grossa. Há um momento em que o leopardo esteve à mercê de um belo tiro mas eu é que era o intrometido e tinha por finalidade observa-lo enquanto ele mo permitisse. Achei que nunca mais estaria frente a frente com uma beleza daquelas e, quando os vejo no zoo, não passam de uma banalidade.



 Um facochero, foto tirada da Wikipédia, da autoria de Sanjay Ach, Attribution-ShareAlike 3.0 Unported (CC BY-SA 3.0) 

No regresso, voltamos pelo mesmo caminho que tínhamos levado. Eu deixei de caminhar na ponta esquerda e passei a caminhar na ponta direita, sempre com o vale à vista. A paz e a serenidade com que ficamos frente a frente, eu e o leopardo, não tinha nada a ver com que se passou já relativamente perto do Aeródromo com o facochero. Ele disparou como um bólide da minha esquerda e tentou atropelar-me ou terá sido pura coincidência, não sei. O mato era alto e, se calhar, o bicho nem me viu. Sei que eu dei um grande salto e ele passou-me por baixo das pernas. Só sei que saí ileso daquilo tudo e só vi que era um facochero quando tive oportunidade de lhe dar o tiro. Mais tarde vi que era bem grande.

Mas onde está o sonho no meio desta realidade toda?

Tanto tenho pensado nisto que acabei por sonhar. Logo a seguir ao meu tiro sobre o facochero, a malta corre para mim descendo a encosta. Sonhei com esse local, no momento do facochero e, nos três vultos que me observavam e me interrogavam pelo motivo do tiro, só identifiquei um, tal como ele era. O nosso grande amigo Coutinho. Creio que ele quis-me tirar esta dúvida e mostrou-se em sonhos, sorrindo, como sempre fazia.

Acredito ele ser um dos outros três. Fomos várias vezes juntos. Mas, e os outros dois? Um podia ter sido o Louco do Amor, o outro o Melo, os que mais costumavam andar comigo. Como dizem os brasileiros, "sei não"! Vou continuar assim.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sexta-feira, 18 de julho de 2014

T-6 (Texano 6)

  Quico e Ventor 18.07.14

Um dia, caminhava o Ventor nas suas Montanhas Lindas a levar as vacas para a Corga Grande, em Adrão. Teria, então, entre 10 e 12 anos.

Era um dia de Abril muito quente. As vacas, caminhando no monte, por fora do caminho, dentando aqui e ali algumas ervas ou carrascas, enquanto eu ia com a vista fisgada num sítio, por cima do caminho onde, de vez em quando, observava um grande sardão todo verde com a cabeça azulada. Caminhava eu com uma pedra em cada mão e vara debaixo do braço e, sobre uma rocha mais baixa, ao lado de outra maior, já observava a cabeça do sardão.

Eu estava disposto a enviar uma pedra de arremesso contra o sardão mas pouco mais via que uma parte da cabeça. Por fim, tão curioso como eu, o sardão, para me ver, começou a mostrar-se mais. Eu ainda estava afastado e ia-me aproximando lentamente do local onde o sardão apanhava sol ao mesmo tempo que me ia observando.

De repente, desce, vindo do Planalto da Naia, com o motor roncando pela Corga Grande abaixo, um brinquedo destes a que mais tarde viria a chamar T-6, uma máquina que foi, para nunca mais esquecer, minha companheira de guerra.


 

 A pintura de um T-6 no Restaurante Terminal, em S. Jacinto

Eu que nunca tinha tido um brinquedo a não ser os que eu fazia (carrinhos de cortiça e outros), vi passar sobre a minha cabeça um dos mais belos brinquedos com que o mundo me brindara. Lá dentro, não me recordo bem, levava pelo menos uma pessoa. Ao passar junto de mim, o piloto inclinou o avião para me observar a mim e às vacas, seguindo pelo vale abaixo bastante baixo, passando sobre Adrão, rumo ao rio Lima. Fiquei extasiado com tudo aquilo que nunca tinha visto, pois quando passavam aviões sobre Adrão, seguiam sempre muito altos e seriam sempre aviões comerciais.



Foi nesse caminho do lado esquerdo da foto. Belos tempos, talvez 1957-58

Aquele brinquedo fez tamanha faísca no meu cérebro que creio ter sido ele o meu passaporte para a Força Aérea.

Passei 23 meses e meio na Base Aérea 2, na OTA e na DSCTA, em Lisboa mas, só voltei a ver um T-6 como aquele em Adrão, anos depois, em Nacala, no Norte de Moçambique, no dia 25 de Janeiro de 1968, quando ele, com furos de balas (feitos na zona de Mueda), fez uma passagem baixa sobre o navio Niassa já encostado no Porto de Nacala, a desejar-nos as boas vindas. Um Nord-Atlas e um T-6, foram os embaixadores da Força Aérea a dar-nos as boas vindas, voando inclinados junto aos mastros do navio Niassa e sobre nós. Os roncos dos seus motores pareciam dizer-nos: "bem-vindos ao palco da guerra"! A primeira coisa que fizemos à chegada ao AB5, em Nacala, foi ir cumprimentar aquela bela máquina furada pelas anti-aéreas da Frelimo.

No dia 31 de Janeiro de 1968, cerca da meia noite, entrei eu e outros no AB6 e, quando saímos do Hangar e nos dirigimos para o Bar para comermos algo pois estávamos cheios de fome, vimos alguns T-6 lado a lado que no meio do escuro, mais nos pareciam fantasmas do meu brinquedo maravilha.

No dia seguinte de manhã, já em plena luz do dia, lá estavam eles alinhados. Até pareciam que faziam a sua apresentação àqueles que, durante dois anos e tal estavam prontos a conviver com eles e, se necessário, a dar a vida por eles porque eles iriam fazer parte de nós.



No hangar do AB6 quando saíamos pela sua porta, lá estavam os nossos companheiros de metal. Constou-se que, mais de uma vez, viram leopardos junto deles. Este lá vai cruzando os céus de Moçambique

Entrei pela primeira vez dentro de um T-6, em Nova Freixo, no AB6, quando rumei a Marrupa, em 6 de Abril de 1968. Quando o piloto me mostrava, com o T-6 invertido, o monte Mitucué, em Nova Freixo, eu via a Corga Grande, o sardão, as minhas vacas, os carvalhos lá em baixo, e não aquele rochedo que nunca mais acabava. O meu segundo voo de T-6, foi sobre a serra Mecula, o rio Lugenda e sobre parte da margem direita do Rovuma, na zona da confluência do Rio Lugenda. Depois de Adrão, fartei-me de ver T-6 mas não enjoei! No Restaurante Terminal, em S. Jacinto, ao ver esse T-6 pintado na sua parede anos depois de ver T-6 vezes sem conta, fiquei tão extasiado que me parecia voltar a ver o meu brinquedo nos céus de Adrão.



Um T-6 americano sobre Jacksonville ( foto tirada da minha amiga Wiki)

PS. Estes aviões T-6, eram os aviões de instrução das forças armadas americanas, já em 1936, e continuou pelos anos fora. Os Estados Unidos possuíam 1.200 T-6 em 1941. Após o ataque a Pearl Harvor, o presidente Roosevelt, mandou construir aviões e, terá dito numa reunião com os Estados Maiores Americanos, que queria que mandassem construir 50.000 T-6 para dar caça aos japoneses.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 20 de abril de 2014

Boa Páscoa de 2014

  Quico e Ventor 20.04.14

Páscoa de 2014 a minha 69ª Páscoa, algumas delas sem amêndoas. Nos últimos 47 domingos de Páscoa, apenas com três amêndoas para recordar a minha primeira Páscoa em Moçambique - Ano de 1968.


 
Comendo três amêndoas, continuo a recordar todas as caras dos meus companheiro de caminhada nessa Páscoa de 1968.
Boa Páscoa para todos vó
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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Dia de tristeza

 Quico e Ventor 04.04.14

Hoje é mais um dia de tristeza.

Quero aqui deixar a minha homenagem ao meu (nosso) amigo Abílio José Coutinho.

Tantos anos depois, mesmo não nos vendo tão assiduamente como gostaríamos, os nossos corações sempre bateram no mesmo compasso e, a nossa amizade foi indestrutível.

Coutinho e Ventor, em Mafra

Tantos amigos cujos nomes de alguns não recordo, perdidos nas sombras dos tempos, continuamos caminhando, sempre a sonhar com esses tempos passados mas inolvidáveis. Alguns já passaram o limiar que define o Além. Estão para lá da linha imaginária que define o Reino da Luz e o Reino das Trevas. Cá ou lá, lá ou cá, continuaremos sempre juntos até ao dia final.

Depois dos almoços que tivemos durante os anos 70, onde dávamos novas caminhadas na reestruturação das nossas vidas, deixamos de nos ver mas, quis Deus que, pela mão do nosso amigo Checa, nos voltássemos a encontrar. Esse encontro, o nosso encontro final, foi em 21 de Setembro de 2013, em Mafra.



Era assim, nas nossas caminhadas africanas. Marrupa, Nova Freixo, ... . Franqueira e Coutinho



Coutinho, Franqueira, Rui Perestrelo e Checa, em Nova Freixo

Hoje recebi a triste notícia, do nosso amigo Checa de que, mais um de nós, partira hoje de manhã, para junto do Senhor da Esfera. Ele nos trouxe a este mundo e nos vai levando para o outro e, uns atrás dos outros iremos fechando esse ciclo.

Hoje foi a tua vez mas tu não partiste! Ficarás nos nossos corações tal como neles sempre tens estado.

Um dia voltaremos a ter mais um encontro, grande amigo.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Era uma vez no Niassa

  Ventor 22.02.14

Um dia em Marrupa, no Norte de Moçambique, Distrito do Niassa.

Um dia, saído do AB6, em Nova Freixo, cheguei a Marrupa, num T6. Era 6 de Abril de 1968. Já não tenho a certeza quem foi o Piloto. Mas, tenho a certeza que, durante algum tempo, me ia adaptando a Marrupa, especialmente à selva "savánica" em volta e as suas lânguas. Primeiro acompanhado e, como as companhias começaram a falhar (andar não era bom para todos), ia caminhando apenas só, com os nossos rafeiros. Os meus amigos Zorba, Diana e Bolinhas.

Preparado para tudo que eventualmente desse e viesse de fora da cerca do arame farpado, resolvi fazer uma limpeza da secretária do Posto de Rádio onde trabalhávamos. Comecei por retirar todos os papéis ali deixados pelos meus antecessores, colocando no cesto dos papéis os que não tinham interesse e arrumando todos aqueles que teriam justificação. Entre eles estavam alguns que nos ensinavam muito sobre as populações de Moçambique, especialmente as do Norte: Macuas-Lomués, Makondes e os Ajaúas do Niassa, outros que nos proibiam de cantar certas canções como, por exemplo, o Hino do Lunho.

Contava-se ali, também, a história da morte do Tenente Malaquias, cujo indicativo de guerra seria Ana, o nome, se a memória não me falha da sua filhota. Não me recordo bem disso, pois ele teria sido abatido no ano anterior (Outono?) de 1967. Portanto, muito tempo antes de eu chegar a Marrupa.


Da esquerda para a direita, Capitão Filipe Rolando Borges Mantovani, General Ramalho Eanes, então a cumprir comissão em Tenente Valadim, Tenente Malaquias, não recordo o nome da quarta personagem. Pelo perfil, faz-me lembrar o Ícaro, mais tarde, Comadante do 747 da TAP que levou a minha mãe na sua primeira viagem para os Estados Unidos
Hoje lembrei-me de recordar e homenagear estes homens.
Para todos que permanecem entre nós e para todos aqueles que nos deixaram mais cedo, lá ou cá, presto aqui a minha homenagem e, especialmente, ao Capitão Mantovani a quem sempre considerei um amigo. Ele foi morto na Guiné, em 1973, cerca de três anos depois de nos despedirmos, em Nova Freixo. Recebi, então, a notícia da sua morte, na primeira página do Diário de Notícias, numa manhã de 1973. Sentei-me numa mesa do velho café Monumental, coloquei o jornal sobre a mesa e deparei-me com a sua primeira página onde aparecia a fotografia do então Major Mantovani.

Major da FAP, Filipe Rolando Borges Mantovani, morto em combate na Guiné. A guerra continua a fazer-nos chorar.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 31 de março de 2013

As três amendoas do Ventor

  Quico e Vento31.03.2013

Mais um ano, mais um domingo de Páscoa, ....

... mais três amêndoas!

Era uma vez! ...

Era uma vez, um grupo de cerca de 5 a 6 dezenas de homens, numa terra linda a que outros deram o nome de Marrupa (Desterro), eu comi três amêndoas. Outros comeram outras três amêndoas e outros, se calhar porque não gostavam, terão redistribuído os seus quinhões pelos seus parceiros do lado. Seja como for, eu comi três.

Desde então, eu voltei a comer três amêndoas em todos os domingos de Páscoa de todos os anos, tal como já fiz hoje.


Esta é a foto da confusão! Porém, para tudo há soluções 
 
Um dia, convencido ser esta a foto desse domingo de Páscoa, coloquei-a neste meu blog como tal. Eu tinha uma foto do domingo de Páscoa de 1968 e, uma vez que não a encontro, será uma das desaparecidas. Por isso, uma vez que se trata do mesmo local e de todos ou quase todos os velhos amigos desse dia, ela vai continuar a andar por aqui.
Alguns me disseram que esta era, realmente, a foto de domingo de Páscoa de 1968. No entanto, a filha do nosso amigo Furriel Pil Av. Aleixo, que o Senhor da Esfera deverá ter a seu lado, disse-me que o pai chegou a Nova Freixo, em 01 de Julho de 1968.
Também o Alferes Oliveira, sentado frente ao Aleixo, disse que não terá estado em Marrupa nessa Páscoa.
 
Diz mesmo que ..."Em boa verdade, essa foto não foi tirada na Páscoa de 68; foi sim tirada em fins de 68 ou princípios de 69, se calhar na Páscoa deste último ano, que corresponde ao período de tempo em que prestei serviço em Marrupa. Na Páscoa de 68, eu ainda estava na Metrópole, como então se dizia, só chegando ao AB6 em 17 de Maio de 1968".
 
Resumindo: "essa foto, admitindo as razões temporais da Catarina Aleixo e do Alferes Oliveira, não será, de facto, da Páscoa de 1968. Mas também garanto que foi tirada em 1968, pois eu saí de Marrupa, antes do natal de 1968. Esse Natal, ainda hoje não sei porquê, fui passá-lo a Nova Freixo e a foto foi tirada antes disso. Creio que não cheguei a pensar no Natal, porque o nosso Comandante, Ten. Coronel Araújo, tinha-me dito que eu sairia de Marrupa quando quisesse. Creio que parti para Nova Freixo com o olho em Vila Cabral para onde só fui em 7 de Julho de 1969 e onde permaneci até 20 de Janeiro de 1970. Como nunca mais voltei a Marrupa, teria sido impossível eu ter ficado nessa foto".
 

 

As minhas três amêndoas de 2013, na Amadora, homenageando as minhas três amêndoas e os meus companheiros de 1968, em Marrupa, 45 anos depois
 
Mas cá estou eu, mais uma vez a desejar a todos que por lá andaram e, especialmente aos de Marrupa, os votos de uma boa Páscoa. Para já e, enquanto esses votos são transformados em bits e espalhadas pela Net, eu vou trincando as amêndoas que fotografei.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...