quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Escorpião

 Ventor 18.07.2018

Fez anos uns dias atrás, no mês de Julho de 1968, exactamente há 50 anos - meio século!

Eu tinha chegado a Marrupa três meses atrás e planeavam-se umas boas operações sobre o rio Lugenda e seus arredores. O então capitão piloto aviador, Mantovani, deslocou-se a Marrupa para serem planeadas as ditas cujas e acabou por dormir lá, não regressando no mesmo dia a Nova Freixo. Senta-mo-nos em frente à janela do posto de rádio, numas cadeiras e tínhamos as pernas por cima da regueira que apanhava as águas residuais das chuvas e as pingueiras que viriam do telhado do edifício. Porém, o dia estava lindo e nós falávamos sobre assuntos diversos e, na ordem do dia estava a hipótese de sofrermos um eventual ataque à morteirada.

Enfim, conversas diversas sobre a guerra, os «turras», a eventualidade de mais um operador de comunicações para nos ajudar durante esses 15 dias de operações e outras banalidades.

De repente passa por baixo das nossas pernas, vindo da minha esquerda, na tal "vala" das águas, um escorpião negro como esse em baixo.

Um escorpião negro

Quando olho o escorpião todo despachadinho, disse: o meu inimigo anda por aqui e bem dentro do arame farpado, assim como este, as mambas, as melgas, etç. Mas esses não usam morteiros! O capitão Mantovani, levantou a perna, já o escorpião tinha passado por mim e ia-lhe espetar com o tacão em cima. «Não o mate, deixe-o ir à vida dele»!

Ele ficou com a perna no ar a olhar o escorpião e disse: "metem respeito estes gajos"! Não é que não o matou! Levantei-me, peguei no escorpião com um ramo seco, fui em direcção do nosso bar, o Calhambeque, cheguei ao arame farpado e mandei o escorpião lá para fora.


Escorpião predominante em Marrupa

Quando voltei para junto dele, disse-me: "gabo-lhe a paciência, salvar o escorpião". Salvamos - disse eu! Era extraordinário aquele homem. Se fosse outro, nem que fosse só para me chatear, teria, só com um golpe, esmagado o escorpião mas não o fez. Por isso, e muito mais, ele continua vivo no meu coração.

______________________________________________________________

O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 2 de outubro de 2016

Sonhei com Marrupa mais uma vez

 Quico e Ventor 02.10.2016

Uma noite destas, dei uma das minhas caminhadas de sonhos, por Marrupa. Pois foi! A sonhar, voltei a pisar uma lângua de Marrupa e, ainda por cima, sonhei com uma lângua onde só caminhei uma vez.

Algures, em 1968, caminhei mais três amigos numa lângua de Marrupa e, um deles, era o nosso amigo Coutinho, do Bombarral. Os outros dois não me recordo. Penso que um deles, seria o nosso amigo "Louco do Amor". O Coutinho, infelizmente, já está junto ao Senhor da Esfera mas, o Louco do Amor, ainda poderá andar por aí. Espero que sim.

Saímos de Marrupa e, ao entrar na picada, viramos à direita, em direcção a leste. Já um pouco afastados do AM62, entramos pelo mato dentro e, de seguida, numa lângua. Espalhamos-nos os 4, um pela direita, outro junto à zona da água (o Coutinho) um mais afastado à esquerda da lângua e eu, como sempre, mais à esquerda e tentando fugir a uma queimada, afastei-me ainda mais. Essa história está contada aqui.

Em 1970, conheci um homem que era cunhado daquela que viria a ser minha companheira das minhas caminhadas. Entrei no carro dele e ele perguntou-me onde eu estivera, em Moçambique. Disse-lhe que estive em Nova Freixo, em Marrupa e em Vila Cabral mas, quando ouviu falar em Marrupa, os seus olhos brilharam mais.

"Esteve em Marrupa, é? Eu também estive nessas terras, mas estive mais tempo em Marrupa. Era dos Comandos e estivemos em Marrupa a guardar a malta que construiu a pista. A maioria do tempo andávamos à caça. Nunca viu elefantes em Marrupa"?

Nem um, respondi eu. "Pois não. Nós também nunca mais vimos nenhum. Apareceram lá três e matámos-os. Nunca mais vimos nenhum. Creio que nunca mais ninguém verá elefantes em Marrupa"!

Esse homem foi há dias chamado perante o Senhor da Esfera onde nos esperará. Foi o seu funeral e eu só me recordava dessa nossa conversa de 1970. Tinha-me dito, mais ou menos, onde estariam as ossadas dos elefantes, mas Marrupa ficara para trás e as ossadas dos elefantes eu nunca as cheguei a ver. Mas foi baseado nessa conversa e nesses pixeis da minha memória que voltei a Marrupa, em sonhos. Não éramos quatro mas fui lá eu sozinho. Exactamente o mesmo sitio, mas sem queimada. Caminhava na encosta da esquerda a recordar a jibóia e essa nossa caminhada, perguntando-me a mim mesmo porque nunca mais lá regressei.


Um rinoceronte como o do meu sonho

A encosta era linda, toda verde e eu caminhava a pensar onde estariam as ossadas dos elefantes. Virei-me para trás e estava a ser acompanhado por um rinoceronte. À minha direita havia umas rochas que tenho a certeza não estavam lá quando da caminhada real. Olhei o rinoceronte e ele acelerou para me atacar. Pensei rápido! Não me vale a pena fugir. Vou enfrenta-lo, não vou fugir. Se fujo canso-me e depois não posso lutar. Esperei o rinoceronte que se deslocava em alta velocidade na minha direcção. Quando ele me ia marrar, quando quase me pegava, saltei para a esquerda. O rinoceronte estatelou-se todo pelo chão fora. Eu iniciei uma grande corrida para as rochas, enquanto ele se levantava para me pegar.

Alcancei as rochas, subi para a mais alta deitada sobre outras. Vi um grupo de leões, cerca de uma dúzia, a caminhar em nossa direcção, com os olhos fixos no rinoceronte. Creio que eles a mim não me viram e eu, no topo das rochas, tentava colar-me à pedra fria, com a arma segura sob o meu peito para os leões não me verem. Dali, vi os leões atacarem o rinoceronte, mata-lo e come-lo. Ficou a coluna óssea do rinoceronte na paisagem. Os leões partiram pachorrentos, com toda a calma deste mundo. Perdi-os no horizonte e comecei a procurar como sair dali. Olhava em direcção da picada, campo aberto, sem nada. Olhava a lângua onde o Coutinho matara a jibóia, as árvores onde cortei a fita para prender a jibóia ao pau e no mesmo sitio estava algo que seria um tronco ou, quem sabe, outra jibóia! Estava mesmo com medo de como sair dali. Não me atrevo a ir pela lângua e entrar na floresta. Decidi ir direito à picada e enfrentar o que aparecesse. Pelo lado da jibóia é que não!

Mas não cheguei a sair das rochas. Acordei apavorado na minha cama. Sei é que iria tomar a direcção da picada, por campo aberto, com a browning bem colada às mãos.

Contei o sonho a um amigo dos que andaram por lá comigo, e informou-me que ele, nas suas caçadas, tinha visto, por lá, as ossadas dos elefantes. 

_____________________________________________

O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Forte fo Bom Sucesso

 Quico e Vento16.05.16

Hoje passei por lá. Fui ver os meus amigos e fiquei a conhecer algo de novo.

Fiquei a conhecer a capelinha e o memorial. Já há bastante tempo que não fazia qualquer caminhada junto ao Tejo e hoje lembrei-me de passarmos por lá e ir ver, mais uma vez, o Memorial ao combatente. Gostei muito do novo espaço no Forte do Bom Sucesso (mau sucesso). 

Um espaço só, mas dividido em dois corpos. Um espaço da capelinha, logo à entrada e o outro espaço para o Memorial, saindo pelo fundo da capelinha, descendo uma rampazinha e passando por um corredorzinho. Ai encontramos o nosso Memorial. O melhor é mostrar em fotos porque nem toda a gente terá possibilidades de se deslocar a Lisboa para prestar homenagem à nossa gente que, no ex-Ultramar, por portas e travessas, partiram antes de nós. 

Havia ali uma porta de chapa verde, hoje ao chegar, verifiquei que havia ali uma capelinha e um memorial



 Esta é a Capelinha uma belíssima casinha do Senhor da Esfera onde pode estar entre nós e aqueles de nós que chamou mais cedo



 No altar tem Cristo mutilado dos dois braços


Aqui podemos ver a história desta imagem que nos diz que foi encontrada entre Verdun e o forte S. Michel, em plena 1ª Guerra Mundial


 


Na parede à esquerda, antes de Nossa Senhora de Fátima, temos o S. Miguel Arcanjo

 Aqui tem a placa que nos descreve o Arcanjo S. Miguel



S. Nuno de Santa Maria




Esta placa diz-nos quem é S. Nuno de Santa Maria, Padroeiro da Liga dos Combatentes




Saindo da Capelinha, temos este corredor que nos leva ao Memorial





Aqui jaz um soldado de Portugal caído na Guerra do Ultramar 


Cristo numa situação que nunca tinha visto



Esta placa diz-nos do símbolo de Cristo nas nossas caminhadas


Claro que a minha companheira de caminhadas também esteve presente. E tal como eu, sabe que todos os dias o mundo, o nosso mundo, está em evolução permanente. Para o bem ou para o mal, nós fazemos parte disso. Aqui deixo esta nova faceta do Forte do Bom Sucesso. Muitos ainda não a conhecerão.

_______________________________


O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 5 de abril de 2016

Escravatura e beleza

 Quico e Ventor 05.04.16

Escravatura!

Pois foi em tempos que se deram estas bestices, ainda por cima numa das mais belas terras do mundo. Parece impossível, depois de olharmos a serra de Mecula, a foz do Lugenda, o Rovuma, os "incelbergs", saídos do chão da mãe negra, fazendo alguns deles, lembrar lombos de elefantes e, onde nos dizem existirem pinturas rupestres, que tenha havido, provocadas por homens, sobre outros homens, coisas como esta pintura nos mostra.


Traficantes de escravos árabes e seus cativos ao longo do rio Rovuma

O rio Rovuma, nasce perto do Lago Niassa, na Tanzânia e segue rumo ao oceano Índico numa extensão de 760 km até à sua foz no oceano Índico, junto a Cabo Delgado. Recebe como afluente o rio Messinge que nasce entre Lichinga (a velha Vila Cabral) e Maniamba. Possui alguns afluentes, três do lado da Tanzânia e cinco do lado de Moçambique, o maior deles, o rio Lugenda.

O rio Lugenda, que percorre umas centenas de quilómetros até à sua confluência com o Rovuma, junto a Negomano, nasce no lago Chirua, que serve de fronteira entre Moçambique e o Malawi, atravessa o lago Maniamba, e segue todo o interland do Niassa.

Estes rios são pontos fulcrais do norte de Moçambique. Entre o rio Rovuma e o Lugenda e a leste deste, abrangendo parte de Cabo Delgado, foi constituída uma das maiores reservas nacionais de Áfrca e a maior de Moçambique. Esta reserva abrange a serra de Mecula com 1.441 metros de altura (mais 25m que a minha Pedrada), à esquerda do rio Lugenda em parte de Cabo Delgado, à direita do Lugenda e tem uma superfície de 42.400 quilómetros quadrados sendo (para dar uma ideia) duas vezes superior ao Parque Nacional Kruger, na África do Sul. A limitação a norte, é feita pelo rio Rovuma.


 Os Mabecos correm risco de desaparecer do nosso convívio. Recordo Newky - o Mabeco

Foto tirada da Wikipédia, da autoria de Masteraah. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license.

Esta reserva do Niassa era constituída, em 2012, segundo as estatísticas, por muitos animais, entre os quais, cerca de 12.000 elefantes, dos maiores de África, cerca de 12.000 palancas negras cerca de 200 mabecos (animais que correm perigo de extinção), 800 leões e toda uma panóplia dos maiores animais de África, entre eles, Búfalos, gnus (bois cavalos), impalas, leopardos, hienas e muitos outros, sem esquecer hipopótamos e jacarés.

______________________________________________________________

O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ventor e a águia

 Quico e Ventor 03.09.2015

A águia que queria matar o Ventor, em Vila Cabral, 1969.

Num dia bonito, cheio de sol, eu e o Sargento Dias resolvemos ir à caça de perdizes para fazermos uma caminhada naqueles belos outeiros com zonas cheias de capim. As perdizes saíram do chão e voaram para a nossa esquerda. Disse ao Sargento Dias para ir pela direita que eu iria pela esquerda do local onde as perdizes tinham pousado para as fazer voar para o lado dele. 

Beleza destruidora

Subi um morro onde o capim me dava pelo peito e pelos ombros, ficando, praticamente, apenas com a cabeça de fora. Na minha vertical esvoaçavam, em circo, um grade grupo de aves de rapina, especialmente, abutres e algumas águias. Mandei o Goldfinger e a Leoa pela minha esquerda e o Bolinhas, um cão pequenote, ficou junto de mim. Daquele grupo de rapináceas, destacou-se uma águia que voou quase na vertical, em minha direcção. Enviei um tiro de caçadeira browning, uma semi-automática de 5 tiros. Ela desceu mais e a alta velocidade. Enviei um segundo tiro e ela desce mais. O objectivo dos tiros era espantar a águia mas ela não se atormentou. Ao terceiro tiro, na defesa do Bolinhas, já lhe arranquei algumas penas. Como ela não desarmava, enviei-lhe o quarto tiro e parti-lhe uma asa.

A águia desviou de direcção. Esqueceu o Bolinhas e atacou-me a mim. Não ia ter tempo para lhe apontar o 5º tiro. Levantei a arma em posição de defesa, esperando a oportunidade de lhe dar o 5º tiro e mata-la mas não me deu tempo.

Quase me cobriu com aquele grande manto das suas asas mas, com o cano da arma, desviei-a de mim para a minha frente, caindo a meus pés e agarrando-me uma perna cravando aquelas garras enormes na minha perna esquerda protegida por umas botas de água com borracha e lona. Ela segurou-me a perna e eu coloquei-lhe a outra bota sobre o pescoço. Enquanto ela me tentava furar a bota eu tentava asfixia-la com a outra bota sobre o pescoço, calcando sempre.

Quando o Sargento Dias chegou espavorido junto de mim porque imaginara algo diferente, pois os tiros que eu dera não eram de quem faz fogo sobre perdizes, olhou e não via nada devido ao capim, perguntou-me: "que raio de tiros foram esses"?

Chegue aqui. Quando ele viu a águia com as duas garras cravadas na bota pergunta: "e se ela fura a porra da bota! Não lhe pode dar outro tiro"? Mais um tempinho e a águia estava morta.


Esta é a águia negra africana ou águia de Verreaux. Tirei da Wikipédia esta foto carregada por Orlica. É a águia mais parecida com aquela que matei em Vila Cabral, em 1969

Esta águia é uma grande águia que vai de 75 a 96 cm da ponta do bico à ponta da cauda. Os machos pesam entre 3 a 4 kg mais ou menos e as fêmeas entre 3 a 7 kg. Tem uma envergadura de asas de 1,80 a 2,30 m.

A que eu matei, pisava-lhe a ponta de uma asa com um sapato e o meu braço esticado não chegava à ponta da outra asa. Imaginem esse bicho a alta velocidade a aproximar-se da vossa cabeça! Com um peso razoável e com as penas da cabeça todas eriçadas, tornando-a maior, o impacto dela no cano da minha arma àquela velocidade, acho que o que me safou foi ela ter a asa partida. O estupor da águia foi mesmo suicida!

______________________________________________________________


O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sonhos verso realidade

 Quico e Ventor 15.10.14

Penso, penso, penso e acabo por sonhar.

Tenho vários posts do Blog "Ventor em África", sem as certezas totais e penso sempre, limpar o meu sótão para ver se o disco rígido funciona perto dos 100%. Mas não consigo.

Quem estava comigo, quem não estava comigo. Sei lá! Já contei aqui duas "histórias" da minha caminhada africana, onde não consigo recordar os meus companheiros de caminhada. São duas histórias independentes mas que se deram na mesma caçada, durante uma tarde.

Na primeira dessas duas, trata-se do meu encontro com um leopardo e na segunda, o meu encontro com um grande facochero. Tudo bem menos identificar os meus companheiros de caminhada. Não havia muitos que quisessem ir comigo à caça, nem em Marrupa, nem em Vila Cabral e, quando isso acontecia as suas imagens dispersaram-se pelo futuro do nosso "out of Africa", tal como eles.

Em Marrupa, o primeiro que foi comigo à caça foi o Maniés. Como não conhecíamos aquilo, fomos os dois, cada um com uma G-3. Azar dos azares, nem eu nem o Maniés, durante os treinos na Ota, tínhamos visto uma G-3 e, em Marrupa, quando colocamos os carregadores foi com toda a meiguice deste mundo. Não caíram por sorte! Para experimentarmos as G-3, preparamos-nos para dar uns tiritos. A bala não entrava na câmara, tirávamos e voltávamos a meter os carregadores e nada. O Maniés, enervado, chateou-se com aquilo, "zás, catrapás, pumba"! Ia-me dando um tiro num pé. Foi a um dedo da sola da bota. Foi assim que ele e eu aprendemos a mexer na G-3. Ele nunca mais quis ir comigo à caça por isso ou porque nunca mais se proporcionou. Depois veio-se embora e eu fiquei em Marrupa.


Leopardo da pixabay

Depois foi um açoriano a que chamávamos "porta-aviões". Só foi uma vez, ele de um lado da lângua e eu do outro. Por fim eu estava lá em cascos de rolhas com os cães e ele, só, cá atrás, a gritar por mim. Não gostou da caminhada, ficou desorientado e disse-me que nunca mais iria comigo à caça. Creio que nunca mais foi, nem comigo, nem com ninguém.

Depois, ou ia sozinho, ou com o Melo, ou com o Coutinho, ou à noite, com um chaimite, eu, o Melo, o Coutinho e um Alferes algarvio, dos Comandos, destacado, em Marrupa. Eu, salvo raras excepções, continuava as minhas caminhadas só, utilizando o lema de "mais vale só do que mal acompanhado". Era assim que eu dizia aos que se recusavam.

Mas nessa tarde, eu e mais três saímos do Aeródromo e descemos pelo lado esquerdo da pista para o mato. O objectivo era uma espécie de perdizes diferentes das nossas, que fugiam do chão, onde se alimentavam, para as árvores e depois, de árvore em árvore. Levávamos duas caçadeiras Browning, semiautomáticas, de cinco tiros, eu levava uma, um outro levava a outra e, os outros dois, levavam G-3. Espalhamos-nos, indo eu na ponta esquerda, mais próximo do vale onde fui topar com o leopardo. Nesse local, tempos atrás, ali perto, quis ver um chango fugir e mandei um tiro para o ar com a G-3 e, imediatamente, fui corrido à pedrada por macacos tão assustados que não me largavam.  Eu, acompanhado pelos cães, fui-me desviando, sempre com a G-3 apontada a um dos mais próximos e só parei na picada de Marrupa. Seriam cerca de 18 macacos. Quando se aproximaram da picada desistiram e deixaram de tentar apanhar pedras, onde também não havia muitas. Acabaram por fugir, infiltrando-se mato dentro. Creio ter sido essa a minha sorte. Pouco faltou para eu tentar matar os macacos que fosse possível. Mas não dei nem um tiro além daquele que tinha servido, antes, para espantar o chango.

No resumo dessa tarde, eu e o leopardo encontramos-nos e observamos-nos, olhos nos olhos, ele lá em baixo e eu cá em cima, a uma distância muito curta. Ele pensava no que ia fazer e eu pensava em trocar os cartuxos com chumbo para perdizes por zégalotes para caça grossa. Há um momento em que o leopardo esteve à mercê de um belo tiro mas eu é que era o intrometido e tinha por finalidade observa-lo enquanto ele mo permitisse. Achei que nunca mais estaria frente a frente com uma beleza daquelas e, quando os vejo no zoo, não passam de uma banalidade.



 Um facochero, foto tirada da Wikipédia, da autoria de Sanjay Ach, Attribution-ShareAlike 3.0 Unported (CC BY-SA 3.0) 

No regresso, voltamos pelo mesmo caminho que tínhamos levado. Eu deixei de caminhar na ponta esquerda e passei a caminhar na ponta direita, sempre com o vale à vista. A paz e a serenidade com que ficamos frente a frente, eu e o leopardo, não tinha nada a ver com que se passou já relativamente perto do Aeródromo com o facochero. Ele disparou como um bólide da minha esquerda e tentou atropelar-me ou terá sido pura coincidência, não sei. O mato era alto e, se calhar, o bicho nem me viu. Sei que eu dei um grande salto e ele passou-me por baixo das pernas. Só sei que saí ileso daquilo tudo e só vi que era um facochero quando tive oportunidade de lhe dar o tiro. Mais tarde vi que era bem grande.

Mas onde está o sonho no meio desta realidade toda?

Tanto tenho pensado nisto que acabei por sonhar. Logo a seguir ao meu tiro sobre o facochero, a malta corre para mim descendo a encosta. Sonhei com esse local, no momento do facochero e, nos três vultos que me observavam e me interrogavam pelo motivo do tiro, só identifiquei um, tal como ele era. O nosso grande amigo Coutinho. Creio que ele quis-me tirar esta dúvida e mostrou-se em sonhos, sorrindo, como sempre fazia.

Acredito ele ser um dos outros três. Fomos várias vezes juntos. Mas, e os outros dois? Um podia ter sido o Louco do Amor, o outro o Melo, os que mais costumavam andar comigo. Como dizem os brasileiros, "sei não"! Vou continuar assim.

______________________________________________________________

O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sexta-feira, 18 de julho de 2014

T-6 (Texano 6)

  Quico e Ventor 18.07.14

Um dia, caminhava o Ventor nas suas Montanhas Lindas a levar as vacas para a Corga Grande, em Adrão. Teria, então, entre 10 e 12 anos.

Era um dia de Abril muito quente. As vacas, caminhando no monte, por fora do caminho, dentando aqui e ali algumas ervas ou carrascas, enquanto eu ia com a vista fisgada num sítio, por cima do caminho onde, de vez em quando, observava um grande sardão todo verde com a cabeça azulada. Caminhava eu com uma pedra em cada mão e vara debaixo do braço e, sobre uma rocha mais baixa, ao lado de outra maior, já observava a cabeça do sardão.

Eu estava disposto a enviar uma pedra de arremesso contra o sardão mas pouco mais via que uma parte da cabeça. Por fim, tão curioso como eu, o sardão, para me ver, começou a mostrar-se mais. Eu ainda estava afastado e ia-me aproximando lentamente do local onde o sardão apanhava sol ao mesmo tempo que me ia observando.

De repente, desce, vindo do Planalto da Naia, com o motor roncando pela Corga Grande abaixo, um brinquedo destes a que mais tarde viria a chamar T-6, uma máquina que foi, para nunca mais esquecer, minha companheira de guerra.


 

 A pintura de um T-6 no Restaurante Terminal, em S. Jacinto

Eu que nunca tinha tido um brinquedo a não ser os que eu fazia (carrinhos de cortiça e outros), vi passar sobre a minha cabeça um dos mais belos brinquedos com que o mundo me brindara. Lá dentro, não me recordo bem, levava pelo menos uma pessoa. Ao passar junto de mim, o piloto inclinou o avião para me observar a mim e às vacas, seguindo pelo vale abaixo bastante baixo, passando sobre Adrão, rumo ao rio Lima. Fiquei extasiado com tudo aquilo que nunca tinha visto, pois quando passavam aviões sobre Adrão, seguiam sempre muito altos e seriam sempre aviões comerciais.



Foi nesse caminho do lado esquerdo da foto. Belos tempos, talvez 1957-58

Aquele brinquedo fez tamanha faísca no meu cérebro que creio ter sido ele o meu passaporte para a Força Aérea.

Passei 23 meses e meio na Base Aérea 2, na OTA e na DSCTA, em Lisboa mas, só voltei a ver um T-6 como aquele em Adrão, anos depois, em Nacala, no Norte de Moçambique, no dia 25 de Janeiro de 1968, quando ele, com furos de balas (feitos na zona de Mueda), fez uma passagem baixa sobre o navio Niassa já encostado no Porto de Nacala, a desejar-nos as boas vindas. Um Nord-Atlas e um T-6, foram os embaixadores da Força Aérea a dar-nos as boas vindas, voando inclinados junto aos mastros do navio Niassa e sobre nós. Os roncos dos seus motores pareciam dizer-nos: "bem-vindos ao palco da guerra"! A primeira coisa que fizemos à chegada ao AB5, em Nacala, foi ir cumprimentar aquela bela máquina furada pelas anti-aéreas da Frelimo.

No dia 31 de Janeiro de 1968, cerca da meia noite, entrei eu e outros no AB6 e, quando saímos do Hangar e nos dirigimos para o Bar para comermos algo pois estávamos cheios de fome, vimos alguns T-6 lado a lado que no meio do escuro, mais nos pareciam fantasmas do meu brinquedo maravilha.

No dia seguinte de manhã, já em plena luz do dia, lá estavam eles alinhados. Até pareciam que faziam a sua apresentação àqueles que, durante dois anos e tal estavam prontos a conviver com eles e, se necessário, a dar a vida por eles porque eles iriam fazer parte de nós.



No hangar do AB6 quando saíamos pela sua porta, lá estavam os nossos companheiros de metal. Constou-se que, mais de uma vez, viram leopardos junto deles. Este lá vai cruzando os céus de Moçambique

Entrei pela primeira vez dentro de um T-6, em Nova Freixo, no AB6, quando rumei a Marrupa, em 6 de Abril de 1968. Quando o piloto me mostrava, com o T-6 invertido, o monte Mitucué, em Nova Freixo, eu via a Corga Grande, o sardão, as minhas vacas, os carvalhos lá em baixo, e não aquele rochedo que nunca mais acabava. O meu segundo voo de T-6, foi sobre a serra Mecula, o rio Lugenda e sobre parte da margem direita do Rovuma, na zona da confluência do Rio Lugenda. Depois de Adrão, fartei-me de ver T-6 mas não enjoei! No Restaurante Terminal, em S. Jacinto, ao ver esse T-6 pintado na sua parede anos depois de ver T-6 vezes sem conta, fiquei tão extasiado que me parecia voltar a ver o meu brinquedo nos céus de Adrão.



Um T-6 americano sobre Jacksonville ( foto tirada da minha amiga Wiki)

PS. Estes aviões T-6, eram os aviões de instrução das forças armadas americanas, já em 1936, e continuou pelos anos fora. Os Estados Unidos possuíam 1.200 T-6 em 1941. Após o ataque a Pearl Harvor, o presidente Roosevelt, mandou construir aviões e, terá dito numa reunião com os Estados Maiores Americanos, que queria que mandassem construir 50.000 T-6 para dar caça aos japoneses.

______________________________________________________________

O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...