domingo, 28 de abril de 2024

Foram 52 meses de Força Aérea

 Ventor 28.04.24

Foram 52 meses da minha caminhada na Força Aérea Portuguesa. Ia fazer 20 anos.

Estudei, em contra relógio, como maior, num externato chamado Eça de Queiroz, onde joje fica o edifício sede da Caixa Gera de Depósitos, em Lisboa. Ali conheci alguma rapaziada que perdi com o tempo. Havia um rapaz que tinha desaparecido por não se apresentar às aulas. Enfim, disse para os meus botões: deve ter desistido.

Cerca de um ano e tal depois, encontrei-o na Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa e perguntei-lhe: porque desististe? E que raio de farda é essa que trazes vestida?

Ele disse-me que tinha ido para a Força Aérea e que foi tirar um curso de especialistas na Base Aérea 2, na Ota. Bla, bla, bla, ... despedimo-nos, até sempre. Nunca mais o vi. Mas comecei a magicar na Força Aérea. Ele já estava mobilizado, para África e vestia aquela farda cor café com leite que punha muitas moças malucas.

No mês de novembro de 1965 passei na rua Newton, em Lisboa, onde estava intalado um gabinete de recutamento da Força Aérea. Entrei e fui perguntar como aquilo era. Fui atendido por um Sargento que me explicou o essencial da engrenagem. Disse-lhe: eu faço 20 anos em Janeiro que bem, posso inscrever-me? Pode. Se quiser pode fazê-lo já. A Força Aérea só aceita voluntários.

Também ainda não dei o nome para o exército, quero dizer que estou a transgredir, o que posso fazer? Nada, mas pode esquecer que eles existem, nós tratamos dessa parte.

Inscrevi-me. Recebi instruções para dar o primeiro passo. Fazer um raio X no Chile e entregá-lo lá para a inscrição ser aceite.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabra

Dia das Inspecções para a FAP

| Ventor 28.04.24

Veio o dia das inspecções, 17 de Janeiro de 1966. À medida que sabiam que eu tinha optado pela Força Aérea, as críticas foram subindo de tom.

Entre os que se opunham, foi a Força Aérea que pagou. Os aviões não prestam, está tudo velho, estão ligados por arames, é muito provável que vás mas já não voltes, etç.

Mas em Monsanto foi o diabo! Debaixo do chão, embrulhados em betão (até nos diziam que aquilo era à prova da bomba atómica). Mas o pior foi o frio! Ficamos em cuecas o dia todo. Só nos vestimos para almoçar e depois para o jantar e ir embora. Havia um tipo do Porto mal dos ouvidos e fizeram-lhe uma lavagem. Gritou perdidamente.

No meu caso, um capitão médico, verificou que eu tinha tido um reumático quando era pequenino mas que não me preocupasse porque aquele nunca mais se repetia. E muitos outros, na inspecção, tiveram uma série de problemas. No fim formamos dois grupos. Um grupo A, pequeno, onde eu pertencia e um grupo B bem maior.

Chegou lá um tenente e uns sargentos que apareceram depois do jantar com umas pastas cheias de papéis e começaram a tirar nabos da púcara. Diz um: "entraram todos juntos e agora vão sair daqui em dois grupos. Um dos grupos vai receber guia de marcha para a Base Aérea 2 e o outro recebe guia de marcha para casa".

"Ora vamos lá ver como isto fica".

Eu comecei logo a pensar qual dos dois grupos iria para a Base Aérea 2. Eu pertencia ao grupo mais pequeno e pelo que se passara com o tipo dos ouvidos esfrangalhados pela cera e outras coisas, concluí que a minha guia de marcha seria para casa. 

Chegou a hora das certezas. "Grupo A, venham receber a guia de marcha para a Base Aérea 2 (Ota). Grupo B, venham receber a guia de marcha para casa.

Eu já me estava a ficar nas tintas mas mal recebi a ordem de marcha para a Ota, percebi logo que eu estava mesmo com muita vontade de ir para a Força Aérea. E fui!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Faz hoje 55 anos

 Quico e Ventor 01.02.2023

Isso mesmo! Faz hoje 55 anos.

Em 31 de Janeiro de 1968, saímos de Nacala (AB5), manhã muito cedo, apanhar o comboio para Nova Freixo (actual Cuamba). Saímos do AB5 e fomos apanhar o comboio para o AB6 (na velha Nova Freixo).

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AB6

Recebemos ordens para levantar as rações de combate porque, se não o fizéssemos, iríamos ter uma viagem com fome. Claro que nós éramos todos rapazes muito abelidosos e era um sonho demasiado bronco passarmos fome num comboio que iria passar por muita estações onde, certamente, haveria sandes e cervejas para nos aguentarmos até ao AB6. Foi realmente um sonho que não fez grande sentido depois de acordados.

Fiz compras na estação de Nampula de coisas que nem imaginava o que seriam. Comprei uma espécie de salgados a pensar que eram bolos e frutas demasiado maduras, intragáveis. Nos calores africanos nem tudo se aproveita. Ninguém comeu e eu levei comer quase para todos pois dos 18, estavam quase todos tesinhos que nem carapaus.

Depois as estações estavam quase todas encavalitadas umas sobre as outras na sua azáfama de trocas e valdrocas, em que entravam e saíam dos comboios tirando coisas, entrando coisas, muitas dessas coisas embrulhadas numa espécie de sacos ou melhor, panos a fazer de sacos, embrulhando-as. Era gente que vivia muito das trocas realizadas através dos comboios. Assim uma espécie do Robert Redford, em África Minha, a meter os dentes dos elefantes no comboio, neste caso, sem sacos nem panos.

E lá chegamos! 

Chegamos à estação de Nova Freixo, cheia de bobinas de cabos rodeadas de capim, onde nos esperava meio de transporte para o Aérodromo. Chegamos esfomeados mas tivemos logo crédito e abertura do bar para comermos umas sanduiches e beber umas cervejas, como se estivéssemos no Wallala do meu amigo Odin.

E assim foi no dia 31 de Janeiro de 1968. As camas estavam situadas no Hangar no meio de aviões, de bombas, de melgas de percevejos, de .... tudo. Era a nossa África, no caso, o nosso Moçambique, o nosso AB6.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral


domingo, 14 de fevereiro de 2021

Faz hoje 51 anos

 Quico e Ventor 14.02.2021

Faz hoje 51 anos que, pela última vez, me despedi de Nova Freixo (actual Cuamba), no distrito do Niassa, em Moçambique.

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AB6 em Nova Freixo, no Distrito do Niassa Moçambique

Era o fim da minha comissão no Niassa, em Moçambique, já iam 26 meses. O fim da minha comissão e de mais 17 mangas que o nosso comandante prometera que sairíamos logo no primeiro transporte que houvesse para Nampula, mesmo que não fossemos substituídos. O primeiro transporte era o avião que levou a Nova Freixo o General Kaúlza de Arriaga com para-quedistas e acompanhado dum heli-canhão.

Nos últimos dias as coisas começaram a complicar-se e preparava-se um ataque na fronteira com o Malawi a homens da Frelimo que estavam a invadir Moçambique, rumo a Nova Freixo. Eles atravessavam em pirogas pelo lago Chirua. Nós, os felizardos que iríamos partir para Portugal oferecemos-nos voluntários para ficar. Já pela tardinha, com tempo apenas para chegarmos a Nampula com dia, caminhamos para o avião Nord-Atlas que nos transportaria para Nampula, divididos entre o querer partir e o não querer deixar os nossos companheiros numa embrulhada.

O nosso Comandante Araújo disse-me: "sou um homem de palavra. Prometi e vou cumprir. Se não forem substituídos rapidamente eu serei mais um, mais não seja, sei arquivar mensagens. Portanto, ajudarei. Desejo-vos um bom regresso a todos, bem o merecem". Fui o último a entrar no avião. Um Capitão piloto que comandava o avião gritava da porta: "ou vem ou fica"! Ainda alguém me gritou. As medalhas, pá! «Que se lixem as medalhas». Foi assim que eu me despedi de Nova Freixo.

Momentos antes, tinha deixado o Capitão Rita André a chorar no T-6 que pilotava sobre o lago Chirua porque, em nome dos meus 17 companheiros de caminhada, lhe disse que "iríamos ficar mais o tempo que fosse necessário", não os iríamos deixar nas condições que se avizinhavam. 

"Vão rapazes, que Deus vos dê a sorte que todos necessitamos. O Lobo tinha razão, vocês foram dos melhores companheiros que nem imaginava que existissem. Que Deus vos acompanhe e que olhe por nós também."

Dos companheiros que me acompanharam na saída de Nova Freixo, alguns, infelizmente, já morreram, outros ainda andarão por aí. Para eles, os que já foram e os que ainda estão, o meu abraço.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 26 de dezembro de 2020

A fenda africana

 26.12.20    Quico e Ventor 26.12.20

Na África Oriental já está iniciada uma fenda.

Essa fenda está a rachar a África! A conclusão tirada pelos analistas da fenda é que toda aquela região dos Grandes Lagos Africanos vai afundar. Os afluentes que enchem de água o rio Nilo, tais como o rio Azul, o rio Branco, .... vão afundar. Nesse afundamento também afundarão os Massai com os seus gados e os leões que lhe dão caça para tentarem sobreviver. Até as grandes flores do lago Vitória vão afundar! Resumindo: o berço da humanidade que segundo os experts foi colocado pelo Senhor da Esfera no mesmo local irá desaparecer.

Todo aquele cheiro a bebé na África Oriental desaparecerá com o seu afundamento. Nem o cheiro a pó de talco vai sobreviver. Muitos dirão: "quer dizer que estamos tramados"? Nós? Não! os etíopes, os quenianos, os tanzanianos e todos por ali abaixo até ao Zambeze e até sei lá mais onde é que estão tramados. Muitos serão separados mas só se o Sars-Cov-2 os deixar.

Haverá um continente africano mais pequeno, haverá uma ilha e, entre os dois, ficará um mar. E, no final, uns vão querer pertencer à ilha, outros ao continente que restar e ainda haverão aqueles que vão querer viver, tanto do lado da ilha como do continente em palafitas.

A ilha poderá vir a chamar-se Nova Madagáscar e, em volta do novo "mar africano" serão construídas novas aldeias em novas praias: "aldeias palafitas".

Também desaparecerão os novos descendentes do general Norton e do Kitchner, os conquistadores do Cairo até Cartum um e do Cairo ao Cabo o outro.


O Leste de África - zona de afundamento

E comecei eu a pensar nisso tudo quando tomei conhecimento que a Fenda Africana iria dividir a África em três Áreas geográficas. 

Um Continente africano mais pequeno;

Uma ilha, não sei de que tamanho;

Um mar de tamanho desconhecido.

Como já existe o Mar Vermelho a norte do Corno de África, eu pensei em deixar, já aqui, o nome do novo mar africano. Será chamado Mar Azul, pois claro!

Comecei a ler o artigo com toda a minha curiosidade sobre toda a África e vi-me a pensar nos meus amigos Massai e todos os outros. Uma voz vinda dos confins do Universo animou-me! «Nada de grave, Ventor! Não te apoquentes. Daqui por 10 milhões de anos, ou mais, já tudo isso estará esquecido. Daqui por 10 milhões de anos podemos não ter as tuas belezas do Lago Niassa e os outros mas poderemos ter um mar genuinamente africano a enrolar na areia e a bater no coração da África. Mas há coisas que os experts não te contam mas eu te digo: nessa altura e se tu continuares a caminhar sobre o teu Planeta Azul, como tens feito pelos milénios fora, irás ver tudo esventrado, quem sabe, com os pólos na linha do Equador e com o Equador na linha dos pólos.

Até poderás ver nesse novo mar, leões de barbatanas e hienas transformadas em sereias. Mas nunca esquecerás essas tuas amigas "trombeteiras" de Nova Freixo.

Aguarda Ventor. Já viste fendas proporcionalmente maiores que as do Rift Valey»!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A Senhora da Lângua

 Quico e Ventor 09.04.20

Morta pela ilusão do calor que lhe dava vida, e ...

Eu sei que o Ventor ainda hoje lamenta alguns bocados da sua passagem por Moçambique e este é um deles. Mas também em locais tão longe do mundo e escondidos na selva ou quase, como se haviam de entreter? Caminhar, caminhar, caminhar ... e nem todos gostavam disso! A vida deles não era só defenderem-se dos "turras" e continuarem a levantar-se todos os dias. Era necessário continuarem a levantar-se todos os dias mas, continuar, também, a viver a vida!

«Esta é mais uma história verdadeira passada comigo e com Companheiros de Guerra.

Todas as histórias começam com: "era uma vez" ou, "once upon a time"!

Faz muito anos, nas longínquas "lânguas" de Marrupa, quatro marmanjos nascidos neste belo jardim, à beira mar plantado, decidiram ir à caça numa das mais belas terras de África - Marrupa, que significa, em linguagem indígena, Desterro. Não é o Desterro de Belém, não! É mesmo um Desterro na selva!

Partimos direitos à "picada", não no fim ou no princípio, mas no meio de algures, que nos poderia levar até ao fim do mundo, mas logo saímos dela, penetrando num matagal sem fim! Tomamos posições e, como sempre, lá continuava eu na ponta esquerda. Tinha sempre a direita protegida e a esquerda era comigo e, por vezes, as situações tornavam-se bem difíceis!

Neste caso, foi a mim que calhou enfrentar uma grande queimada que partira da lângua para o meu lado e à direita da lângua, para fugirem à queimada, partiam os outros três amigos.

Mas eu tinha tendência para me afastar e a queimada começou a empurrar-me para fora dela, pois apesar de tentar fugir aos matos queimados, já estava pior que um carvoeiro. De repente, enquanto magicava como sair daquela, sem ficar isolado, ouço gritar: "Ventor! ..." Pensei que estavam aflitos, pois de outra maneira não gritavam! Desato numa correria louca sobre o outeiro queimado direito à lângua e lá do alto, vejo lá no fundo, os três com as armas em riste! Mas lá, o mato e o capim não tinham ardido e eu só os via do peito para cima e cada vez mais corria perante o espectáculo da estupefacção daquelas três caras alarmadas!

Quando me viram, gritaram para ter calma e eu, como não tinha ouvido nenhum tiro, achei que, se calhar, encontraram alguém ferido ou, então, deram cabo de algum "turra", à coronhada!

AM 62 - Aeródromo de Manobras 62, Marrupa, em 1968

Bem, à medida que me aproximava e nada via, ouvi um deles dar um tiro. Pum!!! No vale parecia que toda a selva se desmoronava! Pum !!! Outro! Aproximei-me e vejo o que não imaginava! Uma jibóia com 4,70 metros, o que para nós a tornava colossal! Deu-lhe os dois tiros porque, segundo eles diziam, estava a levantar-se em tom ameaçador! Tinha os dois tiros de G-3 na cabeça. Um no centro e outro mais ao lado. Fazia pena ver a bicha ali, estirada, sem razão aparente e eu não gostei nada que ela tivesse sido morta, ali, fora do seu buraco, pois o aquecimento da queimada tinha atirado com ela, cá para fora, como se tivesse havido por ali, um bafo de Primavera.

Mas o mal estava feito! Agora era pega-la e leva-la até ao Aeródromo, como troféu!

Peguei num punhal do mato e cortei um arbusto que o meu amigo Rafael, um Macua de Marrupa, me tinha ensinado como fazer uma corda na selva com a sub-casca de árvore ou arbusto. Atei aquela fitinha em volta da cabeça da jibóia e a um pau; nesse instante, ela levantou aquela cabeçorra a espirrar terror e sangue contra mim e eu só tive tempo de lhe tentar esmagar a cabeça com o tacão da bota. Só parei quando achei que estava bem esmagada, não fosse fazer uma tentativa igual imanada de um terror inimaginável!


Uma boa constritora tirada da Wikipédia

Dei os nós cegos à fita tirada do arbusto e comecei a arrasta-la. Era bem pesada e tivemos que nos revezar para a levar de rastos até à base. Fomos pelo corta-mato até à pista e custou-nos bastante, pois estávamos muito longe. Quando cheguei à pista com ela sempre a fungar sangue e terror, olhei bem os olhos mortíferos do animal e achei que ela se recusava a morrer! Eram cinco horas locais quando chegamos e estavam os pretos civis a abandonar o trabalho que realizavam para os nossos serviços de infra-estruturas.

Pedi a um deles para lhe cortar a cabeça com uma catana mas, o gajo disparou numa correria louca, e outro, e outro e ainda mais outro! Todos fugiam, até que um, bem mais atrevido, se aproximou com uma catana e lhe deu o golpe de misericórdia, cortando-lhe a cabeça. Era uma jibóia média mas já metia muito respeito a qualquer e preparava-se para ser a grande senhora das "lânguas" de Marrupa.

Ainda hoje lamento a morte daquela bela "rapariga" que com dois tiros de G-3 na cabeça, tão valentemente tentou insurgir-se contra a morte e contra os seus carrascos.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 1 de março de 2020

Natal de 1969, em Vila Cabral

  Quic e Ventor 01.03.20

Era uma vez no Niassa.

Na antevéspera de Natal de 1969, no dia 23 de Dezembro, estávamos nós mergulhados numa grande trovoada sobre o AM61. Faz hoje 49 anos este acontecimento que nunca esqueço.

Com a ajuda de Celine Dion, deixo aqui para todas as mulheres de Vila Cabral desse Natal de 1969, os meus votos de Boas Festas, pelo menos para todas que por cá andam, 49 anos depois e espero que sejam muitas

Este saco com que o Pai Natal anda hoje por aí a distribuir prendas, talvez seja o mesmo que nos levou o bolo rei, em Vila Cabral

Os raios e os trovões eram por demais e, de repente, começamos a ouvir cair morteirada para os lados de Nova Madeira, relativamente perto de Vila Cabral e da Força Aérea. Aquela morteirada misturada com o ribombar dos trovões, transformou Vila Cabral numa cidade em pé de guerra e amedrontada. Um capitão que comandava uma companhia que tinha chegado do mato, um ou dois dias antes, estava a beber uma cerveja no café Planalto. Ao ouvir a morteirada correu para o seu batalhão, alertou a sua companhia gritando: “a Força Aérea está a ser atacada, tudo para as berliers”!

Os seus homens vestiram-se e calçaram-se conforme puderam (acabando de o fazer nos seus transportes), pegando as suas armas sempre a correr e atravessando Vila Cabral a toda a velocidade. Eu estava de serviço no Posto de Rádio e, ao ouvir aquela malta entrar pelo AM61 dentro, saí para ajudar a estacionar as viaturas e perguntar o porquê de todo aquele aparato. O tal capitão contou-me tudo e, entretanto, chegou junto de nós mais meia companhia dos comandos que estavam ali perto de nós. Metade ficou para defenderem “a sua casa”, a outra metade foi juntar-se a nós para nos ajudarem a defender a nossa. Todos estavam convictos que o ataque de morteirada caía sobre a Força Aérea e era necessário juntarmos forças para a defesa.

Eu estava todo molhado como um pintainho e o telefone no posto de rádio tocava. Entrei e atendi. Era uma senhora de Vila Cabral que perguntava apenas isto: «vocês estão a ser atacados»? “Não minha senhora aqui ainda não caiu morteirada nenhuma”! «Mas nós estamos a ouvir as explosões e o barulho dos morteiros vem daí»! Fui informando aquela senhora e outras do que se passava mas não acreditavam em mim. Achavam que eu mentia para as acalmar mas eu só dizia a verdade. Não havia, nem tiros de balas na Força Aérea, em Vila Cabral e muito menos tiros de morteiros. Não sabia como lidar com a incredibilidade que elas tinham da minha informação, pois pensavam tratar-se apenas de uma mentira. Mas era a pura verdade.

«Aguemtem-se, que amanhã, as mulheres de Vila Cabral, vão fazer o melhor bolo-rei do mundo para o vosso Natal»

Noite de Natal de 1969, a noite seguinte, lá estou eu a comer o tal melhor bolo rei do mundo

Aqui, o nosso amigo açoriano, Leão, coloca um pouco da cerveja que tinha na garrafa para regar mais um pouco o meu bolo rei. As minhas botas de água, as tais que algum tempo antes me defenderam as pernas das garras da águia enorme que me queria despedaçar aos bocadinhos. Mas teve azar! Ficamos agarrados um ao outro. Ela agarrou-me uma perna com as garras e eu fui-lhe esmagando a cabeça com a outra bota a sufoca-la. Eram as botas da minha salvação! O Sargento Dias nem acreditava no que estava a ver

No dia seguinte, junto ao belo pinheiro que eu roubei ao Engenheiro, grande chefão das florestas do Niassa, que não mo quis dar, comemos o tal bolo rei que seria o melhor do mundo. E então não é que era! Não pelo bolo rei, mas pelo amor com que foi feito. E assim, Trovões, Relâmpagos, Morteiros, Exército, Comandos, Força Aérea e Mulheres de Vila Cabral e o seu bolo rei, estivemos todos unidos no mesmo combate.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...