domingo, 28 de abril de 2024

Base Aéra 2

  Ventor 28.04.24

E lá cheguei eu e os outros à Base Aérea 2 na Ota. Fomos apresentar a guia de marcha e em fila indiana. Eu fui o número 68 e os alentejanos que se encontravam atrás de mim tentaram empurrar um alentejano para a frente para ser o 68 e eu ser o 69. Pobrezitos! Se calhar achavam que eu tinha nascido num qualquer subúrbio de uma cidade alentejana. Mas enganaram-se porque eu nasci na serra de Soajo e habituei-me a olhar as coisas de cima para baixo.

Porém, esse alentejano que iria ser empurrado para a minha frente, era um bom rapaz e fomos bons amigos. Poseram-lhe a alcunha de Chaparro e essa é a razão porque agora não recordo o nome dele. Mas ainda nos vimos pouco tempo antes de ele falecer, há cerca de dois, três anos. Nem imaginam as chicotadas que apanhamos quando recebemos estas más notícias.

Recebemos as fardas e o calçado e só tive sorte com um par de botas. O resto foi tudo numa espécie de feira de trocas baldrocas. E lá iniciamos a nossa recruta a 1ª de 66.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Quase de abalada

 Ventor 28.04.24

Agora sim! África à Vista. Estava na DSCTA e fui mobilizado a 1ª vez para a Guiné, a Sub-Região Aérea da Guiné e Cabo Verde. Mas toda a gente sabia que eu queri era ser mobilizado para Moçambique. Chegou o Cap. Mota Santos com a mensagem na mão, muito triste porque não era para onde eu queria. Fui desmobilizado e algum tempo depois voltei a ser mobilizado para a Base Aérea 9, em Luanda, Angola. O Cap. Mota Santos já vinha mis satisfeito porque Luanda seria melhor para mim.

Voltei a ser desmobilizado e mais tarde, fim de Novembro, princípios de Dezembro, voltei a ser mobilizado para Moçambique.

Agora é que é! Eu que estudava tudo o que se relacionava com Moçambique, estava preparado para colocar pés no ar ou no mar e ala que se faz tarde.

E pronto! Estou quase a colocar os pés em Moçambique e onde exactamente eu queria - o Niassa. Daqui em diante vou contar-vos a minha história por Moçambique e pela mãe Negra. Mama Sumé!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Durante o tempo da Ota

  Ventor 28.04.24

Fizemos uma recruta terrível no inverno de 1966. Não vale a pena falar aqui da recruta, do curso de telecomunicações, do estágio e de todas as peripécias relacionadas com esses 14 meses ou à volta disso. Só isso dava para escrever uma bíblia do meu mau e bom comportamento como me dizia o Major Tomás.

Depois de tudo isso ter acabado, escolhemos os nosso destinos. O meu destino foi o Grupo GDACI em Monsanto, pois havia três. Monsanto, em Lisboa, Montejunto, na mesma serra, na serra da Estrela e outro lá pelo Porto.

Do GDACI (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção), éramos distribuídos pelo Estado Maior da Força Aérea e pelas várias Direcções da Força Aérea. A mim tocou-me a DSCTA (Direcção dos Serviços de Comunicações e Tráfego Aéreo) na Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa. Por ali andei cerca de 8 meses e utilizava um Tele-impressora. Quer isso dizer que quando fui mobilizado para Moçambique já estava quase esquecido do código Morse.

Mas quando parti, deixei nessa direcção grandes amigos. Os, à altura, major Mota Martins, o major Costa, o Cap. Valdaque e outros cujos nomes perdi nas brumas do tempo.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Foram 52 meses de Força Aérea

 Ventor 28.04.24

Foram 52 meses da minha caminhada na Força Aérea Portuguesa. Ia fazer 20 anos.

Estudei, em contra relógio, como maior, num externato chamado Eça de Queiroz, onde joje fica o edifício sede da Caixa Gera de Depósitos, em Lisboa. Ali conheci alguma rapaziada que perdi com o tempo. Havia um rapaz que tinha desaparecido por não se apresentar às aulas. Enfim, disse para os meus botões: deve ter desistido.

Cerca de um ano e tal depois, encontrei-o na Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa e perguntei-lhe: porque desististe? E que raio de farda é essa que trazes vestida?

Ele disse-me que tinha ido para a Força Aérea e que foi tirar um curso de especialistas na Base Aérea 2, na Ota. Bla, bla, bla, ... despedimo-nos, até sempre. Nunca mais o vi. Mas comecei a magicar na Força Aérea. Ele já estava mobilizado, para África e vestia aquela farda cor café com leite que punha muitas moças malucas.

No mês de novembro de 1965 passei na rua Newton, em Lisboa, onde estava intalado um gabinete de recutamento da Força Aérea. Entrei e fui perguntar como aquilo era. Fui atendido por um Sargento que me explicou o essencial da engrenagem. Disse-lhe: eu faço 20 anos em Janeiro que bem, posso inscrever-me? Pode. Se quiser pode fazê-lo já. A Força Aérea só aceita voluntários.

Também ainda não dei o nome para o exército, quero dizer que estou a transgredir, o que posso fazer? Nada, mas pode esquecer que eles existem, nós tratamos dessa parte.

Inscrevi-me. Recebi instruções para dar o primeiro passo. Fazer um raio X no Chile e entregá-lo lá para a inscrição ser aceite.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabra

Dia das Inspecções para a FAP

| Ventor 28.04.24

Veio o dia das inspecções, 17 de Janeiro de 1966. À medida que sabiam que eu tinha optado pela Força Aérea, as críticas foram subindo de tom.

Entre os que se opunham, foi a Força Aérea que pagou. Os aviões não prestam, está tudo velho, estão ligados por arames, é muito provável que vás mas já não voltes, etç.

Mas em Monsanto foi o diabo! Debaixo do chão, embrulhados em betão (até nos diziam que aquilo era à prova da bomba atómica). Mas o pior foi o frio! Ficamos em cuecas o dia todo. Só nos vestimos para almoçar e depois para o jantar e ir embora. Havia um tipo do Porto mal dos ouvidos e fizeram-lhe uma lavagem. Gritou perdidamente.

No meu caso, um capitão médico, verificou que eu tinha tido um reumático quando era pequenino mas que não me preocupasse porque aquele nunca mais se repetia. E muitos outros, na inspecção, tiveram uma série de problemas. No fim formamos dois grupos. Um grupo A, pequeno, onde eu pertencia e um grupo B bem maior.

Chegou lá um tenente e uns sargentos que apareceram depois do jantar com umas pastas cheias de papéis e começaram a tirar nabos da púcara. Diz um: "entraram todos juntos e agora vão sair daqui em dois grupos. Um dos grupos vai receber guia de marcha para a Base Aérea 2 e o outro recebe guia de marcha para casa".

"Ora vamos lá ver como isto fica".

Eu comecei logo a pensar qual dos dois grupos iria para a Base Aérea 2. Eu pertencia ao grupo mais pequeno e pelo que se passara com o tipo dos ouvidos esfrangalhados pela cera e outras coisas, concluí que a minha guia de marcha seria para casa. 

Chegou a hora das certezas. "Grupo A, venham receber a guia de marcha para a Base Aérea 2 (Ota). Grupo B, venham receber a guia de marcha para casa.

Eu já me estava a ficar nas tintas mas mal recebi a ordem de marcha para a Ota, percebi logo que eu estava mesmo com muita vontade de ir para a Força Aérea. E fui!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Faz hoje 55 anos

 Quico e Ventor 01.02.2023

Isso mesmo! Faz hoje 55 anos.

Em 31 de Janeiro de 1968, saímos de Nacala (AB5), manhã muito cedo, apanhar o comboio para Nova Freixo (actual Cuamba). Saímos do AB5 e fomos apanhar o comboio para o AB6 (na velha Nova Freixo).

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AB6

Recebemos ordens para levantar as rações de combate porque, se não o fizéssemos, iríamos ter uma viagem com fome. Claro que nós éramos todos rapazes muito abelidosos e era um sonho demasiado bronco passarmos fome num comboio que iria passar por muita estações onde, certamente, haveria sandes e cervejas para nos aguentarmos até ao AB6. Foi realmente um sonho que não fez grande sentido depois de acordados.

Fiz compras na estação de Nampula de coisas que nem imaginava o que seriam. Comprei uma espécie de salgados a pensar que eram bolos e frutas demasiado maduras, intragáveis. Nos calores africanos nem tudo se aproveita. Ninguém comeu e eu levei comer quase para todos pois dos 18, estavam quase todos tesinhos que nem carapaus.

Depois as estações estavam quase todas encavalitadas umas sobre as outras na sua azáfama de trocas e valdrocas, em que entravam e saíam dos comboios tirando coisas, entrando coisas, muitas dessas coisas embrulhadas numa espécie de sacos ou melhor, panos a fazer de sacos, embrulhando-as. Era gente que vivia muito das trocas realizadas através dos comboios. Assim uma espécie do Robert Redford, em África Minha, a meter os dentes dos elefantes no comboio, neste caso, sem sacos nem panos.

E lá chegamos! 

Chegamos à estação de Nova Freixo, cheia de bobinas de cabos rodeadas de capim, onde nos esperava meio de transporte para o Aérodromo. Chegamos esfomeados mas tivemos logo crédito e abertura do bar para comermos umas sanduiches e beber umas cervejas, como se estivéssemos no Wallala do meu amigo Odin.

E assim foi no dia 31 de Janeiro de 1968. As camas estavam situadas no Hangar no meio de aviões, de bombas, de melgas de percevejos, de .... tudo. Era a nossa África, no caso, o nosso Moçambique, o nosso AB6.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral


domingo, 14 de fevereiro de 2021

Faz hoje 51 anos

 Quico e Ventor 14.02.2021

Faz hoje 51 anos que, pela última vez, me despedi de Nova Freixo (actual Cuamba), no distrito do Niassa, em Moçambique.

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AB6 em Nova Freixo, no Distrito do Niassa Moçambique

Era o fim da minha comissão no Niassa, em Moçambique, já iam 26 meses. O fim da minha comissão e de mais 17 mangas que o nosso comandante prometera que sairíamos logo no primeiro transporte que houvesse para Nampula, mesmo que não fossemos substituídos. O primeiro transporte era o avião que levou a Nova Freixo o General Kaúlza de Arriaga com para-quedistas e acompanhado dum heli-canhão.

Nos últimos dias as coisas começaram a complicar-se e preparava-se um ataque na fronteira com o Malawi a homens da Frelimo que estavam a invadir Moçambique, rumo a Nova Freixo. Eles atravessavam em pirogas pelo lago Chirua. Nós, os felizardos que iríamos partir para Portugal oferecemos-nos voluntários para ficar. Já pela tardinha, com tempo apenas para chegarmos a Nampula com dia, caminhamos para o avião Nord-Atlas que nos transportaria para Nampula, divididos entre o querer partir e o não querer deixar os nossos companheiros numa embrulhada.

O nosso Comandante Araújo disse-me: "sou um homem de palavra. Prometi e vou cumprir. Se não forem substituídos rapidamente eu serei mais um, mais não seja, sei arquivar mensagens. Portanto, ajudarei. Desejo-vos um bom regresso a todos, bem o merecem". Fui o último a entrar no avião. Um Capitão piloto que comandava o avião gritava da porta: "ou vem ou fica"! Ainda alguém me gritou. As medalhas, pá! «Que se lixem as medalhas». Foi assim que eu me despedi de Nova Freixo.

Momentos antes, tinha deixado o Capitão Rita André a chorar no T-6 que pilotava sobre o lago Chirua porque, em nome dos meus 17 companheiros de caminhada, lhe disse que "iríamos ficar mais o tempo que fosse necessário", não os iríamos deixar nas condições que se avizinhavam. 

"Vão rapazes, que Deus vos dê a sorte que todos necessitamos. O Lobo tinha razão, vocês foram dos melhores companheiros que nem imaginava que existissem. Que Deus vos acompanhe e que olhe por nós também."

Dos companheiros que me acompanharam na saída de Nova Freixo, alguns, infelizmente, já morreram, outros ainda andarão por aí. Para eles, os que já foram e os que ainda estão, o meu abraço.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...