sábado, 12 de março de 2005

Quatro Dias em Nacala

  Ventor 12.03.05

Após a passagem baixa, primeiro do Nord-Atlas e pouco depois do T-6, sobre o navio Niassa, continuamos a aguardar que o Niassa fosse seguro pelos molhes e, entretanto, continuamos na brincadeira com as "ondas" de camarões que, vindos do fundo da baía Fernão Veloso, se lançavam sobre os bocados de pão que a tropa ia lançando à água. Aquilo era um presságio da fartura dos mariscos que alguns iriam comer, nos próximos dois anos da sua estadia por Moçambique.

Depois lá vieram os transportes para os pára-quedistas do BCP 32 e para nós os técnicos especialistas da Força Aérea que iríamos largar o Niassa por tempo que não fazíamos ideia mas, pelo menos, por dois anos.

Mais uma observação ao Porto de Nacala e lá nos dirigimos ao AB5, Aeródromo Base 5, instalado, podemos assim dizer, cercado de cajueiros. Era Janeiro, se não falhar na memória de tantos anos, 25 de Janeiro de 1968.


Mapa da área de Moçambique que vai de Nacala a Vila Cabral (actual Lichinga), com passagem por Nampula e Nova Freixo (actual Cuamba). Nessa caminhada, de 31 de Janeiro de 1968, a viagem foi de Automotora, entre Nacala e Nova Freixo. Foto tirada da Wikipédia de autoria de André Koehne. A utilização deste ficheiro é regulada nos termos da licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada

O calor já escaldava e fomos ao bar beber umas cervejas Mac-Mahon, a cerveja da garrafa verde e, de seguida, dirigimos-nos para junto do T-6 baleado que passou sobre o Niassa saudando os seus ocupantes. Lá estavam os buraquinhos das balas "turras" a dar-nos uma achega para o combate que se avizinhava. Mas ali e durante quatro dias estávamos em paz.

No dia seguinte, como não tínhamos que fazer, quatro malandrecos, resolvemos ir visitar as belas e famosas praias de Nacala. Estava calor e era preciso descobrir o caminho para a praia por entre matos e cajueiros. Um pretinho, puto com cerca de sete anos que andava infiltrado nos meandros da Força Aérea de Nacala, correu para mim e disse-me que sabia o caminho para a praia. Acreditei nele e aceitamos a oferta. Durante quatro dias ele foi nosso companheiro de caminhadas entre o AB5 e a praia, por trilhos de cajueiros e por entre passarada linda que eu nem sonhava que existisse. Para mim, dos mais lindos eram pretos e vermelhos e ainda hoje não sei o nome deles mas tentarei investigar. No seu seio, apareceu, sobre os cajueiros peneirando, um dos meus amigos falcões peneireiros, semelhante aos que me tinham acompanhado por Adrão, há mais de sete anos atrás.

Nunca fui amigo de praias e, além da Costa da Caparica, onde em 1961, conheci o mar pela primeira vez, a praia de Nacala também contribuiu para isso. Apanhei um escaldão que nunca mais esqueci. Todos os dias vinha uma chuvada e eu abusava dessa chuveirada dentro da água do mar, na zona baixa onde os tubarões não conseguiam penetrar. Naquela extensão de águas baixas, não havia tubarão que se aproximasse sem nós os avistarmos mas, quando caiam aquelas bátegas de água, toda a nossa visão era desfeita pelas covinhas originadas pelos grossos pingos da chuva a penetrar na água serena do mar.

Um dia, o último dos quatro, na esperança de fugir ao escaldão, sentei-me fora da areia numas rochas junto de uma falésia, à sombra da falésia e das árvores frondosas que cresciam sobre ela. Na areia caminhavam o pretinho, os meus 3 amigos e três cães rafeiros da base que nunca nos largaram. Onde eu estiver e houver cães, andam sempre comigo. Os sete, caminhavam pela areia da praia, da minha frente para a minha esquerda e, já um pouco afastados à esquerda, quando voou das árvores da falésia, sobre a minha cabeça, vindo de alguns 10-15 metros de altura ou mais, aterrando na areia à minha frente, dirijindo-se para a água da baía, deixando um sulco na areia da praia, onde parecia que tinha passado um arado, como os de Adrão, na veiga, no mês de Maio. Aos meus gritos, os cães ainda o tentaram perseguir até à água mas, junto dela, terão pensado que ali era o mundo do animal e desistiram da tentativa. Dizia eu que era um grande lagarto verde ou se calhar, um jacaré pequeno.

Iguana - Semelhante à minha iguana de Nacala

Mais tarde, nas minhas pesquisas, vim a saber que havia iguanas no Índico e, teoricamente, estava encontrado o animal que me voou sobre a cabeça, numa praia de Nacala. A "fotografia no meu cérebro" foi de tal ordem que ainda hoje vejo as rochas treparem pela falésia acima, as árvores e a provável iguana que vi da minha vertical até à água do mar. Ela fez um grande barulho ao saltar do meio das árvores que eu virei a cabeça e apanhei-a lá em cima, a alguns 10-15 metros da minha cabeça num autêntico voo rumo ao mar. Passou toda aquela zona de pedras onde eu me encontrava e aterrou em plena areia atravessando a areia da praia a grande velocidade.

Depois da grande chuvada e do respectivo duche, iniciamos a subida até ao AB5 e dirigi-me, mais uma vez, à Enfermaria para me tratarem da minha pele rosadinha a tostada, fazendo lembrar as cascas das bananas bravas que vim a conhecer mais tarde nas caçadas do Niassa.

Quando saí da Enfermaria fui caçado para me entregarem a Guia de Marcha para Nova Freixo e receber instruções para ir receber as rações de combate para a viagem de comboio, no dia seguinte, que seria cerca de 15-18 horas. Resolvi ficar-me nas tintas para as rações de combate pois, em tantas estações e pseudo-estações, sempre haveria de arranjar algo para comer, pensava eu.

Mas Nacala não fora só praia! O Nord-Atlas que chegara de Mueda (Terra da Guerra) e sobrevoara o navio Niassa tinha transportado de Mueda para Nacala, alguns "rufiões" da nossa gente, armados em heróis de "combates" sem fim que, durante a nossa estadia por ali, foram autênticos companheiros de jornada, cantando Mueda, Terra da Guerra ... e armando umas escaramuças com representantes demonstradores de fotos da Sofia Loren, um e da Gina Lollobrigida, outro. As fotos destas belas mulheres eram a flor do hibisco para os incautos a que a malta de Nacala renomeara de Sofia e Fedra. A "Sofia" e a "Fedra", abriam as portas dos armários forradas com as belas fotos daquelas estrelas do cinema. Técnicas! Técnicas que os sisudos e duros chegados de Mueda não gostaram e causaram alguns alvoroços. Mas enfim, na guerra há de tudo.

Chegara pois o momento de reiniciar mais uma caminhada na sondagem de outros mundos novos que se seguirá com essa célebre viagem Nacala-Nova Freixo. Iríamos caminhar no coração das gentes macuas.

quinta-feira, 10 de março de 2005

Chegada a Nacala

     Ventor 10.05.05

O Navio Niassa caminhava rumo a Norte
O Ventor observava as estrelas na escuridão da noite, sob o mesmo tecto do meu amigo Apolo e, escanchado sobre milhas marítimas, sabia que para lá desse horizonte que observava caminhando para norte, havia outros horizontes de sonhos para lá daquele que ele observava. Além de nomes já conhecidos dos seus estudos sobre o chão da guerra em Moçambique, ele recordava a Baía de Pemba, a foz do rio Lúrio que iria ser seu companheiro de caminhadas nas zonas das suas nascentes, ficava a foz do rio Messalo por cujas nascentes o Ventor também caminharia e, mais para norte, ficava a foz do rio Rovuma, que servia de fronteira entre Moçambique e a Tanzânia e que seria o limite, a norte, que o Ventor só chegou a ver do ar mas, mais lá para trás.    

Por ali, tinham passado os barcos do Vasco da Gama, rumando a Norte, com os olhos em Calecute e Cochim, protegidos pelos deuses

De repente o navio Niassa, muda de rumo! O Ventor sabia que estava na hora de mudar de rumo, sabia que estaria na hora de ver o seu amigo Apolo ficar para trás, no momento que o Niassa rumaria para Oeste e o seu amigo Apolo veria por baixo dos seus trilhos, a "caravela de ferro", que transportava o Ventor e seus companheiros rumo a bom porto.

A Baía era larga e comprida e o fim, o objectivo final, onde o navio Niassa iria atracar, ainda estava longe. 

Mas o Ventor não pensava na lonjura da amarração do Niassa e preparar a sua descida sobre as terras do Norte de Moçambique. Ele sonhava! Sonhava com o belo Moçambique que estudara durante cerca de 8 meses, na Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa. Todos esses estudos foram avidamente acompanhados com grandes mapas militares de Moçambique, especialmente, a Norte. O Ventor tinha detalhado tudo para a terra que ele já tanto gostava, mesmo antes de a conhecer. Ele sabia, quando o Niassa voltou para Oeste que, a Norte, ficava Mocimboa da Praia, uma das portas da guerra, no Norte de Moçambique. Foi ali que, em 1917, Portugal colocou a primeira esquadrilha aérea de combate, em todo o Continente africano, em 1917-1918, na 1ª Guerra Mundial contra a Alemanha.
Moçambique foi, assim, o primeiro campo do combate aéreo, em todo o Continente Africano, contra a Alemanha.    
O Canal de Moçambique e a velha ilha de S. Loureço, a actual Madagáscar, ficavam para trás.

Enquanto caminhava no Canal de Moçambique, o Ventor sonhava com a Geografia e com a História, duas áreas que ele, nesses tempos, dominava bem. E, desde Lisboa, sonhava com o Niassa! Sonhava com o Niassa, sonhava com os Lusíadas, sonhava com o Canal de Moçambique, sonhava com Nacala e esse objectivo estava a ser atingido. Agora, à frente do Ventor, estava a Baía dos seus Sonhos. A Baía Fernão Veloso!

A quilha do Niassa continuava a abrir águas e prosseguia a sua caminhada rumo ao molhe do seu encosto. Depois de observar as belas águas desta Baía, as suas margens ao longe ou ao perto, com praias brancas de onde todos os seres observavam aquele pequeno monstro (o navio Niassa) carregado de almas que, choravam, no seu pensamento, tudo o que deixaram para trás.
O Niassa encostou no topo daquela sua curta caminhada pois, de seguida, regressaria ao ponto de viragem e recuperaria a sua rota, rumo a norte, ao local onde esteve concentrada a tal 1ª esquadrilha aérea da 1ª Guerra Mundial, em todo o Continente Africano. Isto, porque houve tempos em que, Portugal, caminhava na dianteira de muitos.  

Um camarão que podia ser do Porto de Nacala
Enquanto o Niassa encosta, o Ventor observa as águas da bela Baía de Nacala, a Baía Fernão Veloso. Os bichinhos de que muitos gostam, os camarões (os belos shrimps), apareciam à superfície das águas. A tropa arranjou um belo entretenimento. Deitava pedaços de pão na água e nuvens de camarões apareciam à superfície. Parecia que diziam: "olá, pessoal! Sabemos que têm o Ventor a bordo"!
Eles são amigos do Ventor! Eles sabem que pelo Ventor a sua vida teria um êxito diferente.
Nesse momento, de aglomeração dos camarões, um ronco rasga os céus. Era um avião Nord-Atlas que descia sobre o navio Niassa e, numa passagem baixa, dava as boas-vindas àqueles que viriam a ser seus novos Companheiros de Guerra.
Logo de seguida, vindo das alturas, rasgando os ares, o ronco a rasgar os céus, desta vez, um T-6 (Texano-6). Ele aproxima-se dos mastros do Niassa, o piloto sorri e acena. O Ventor observa o avião e verifica que está furado. Mais tarde, veio a saber que esteve debaixo de fogo de antiaéreas. mas o AB5 esperava-nos para quatro dias de calma, na nossa caminhada.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 1 de março de 2005

De Loureço Marques a Nacala



Ao sair da bela Baía do Espírito Santo e ao entrar no oceano Índico, as cores das águas de superfície ainda se encontravam bem sujas de tanto esfregarem as areias contra as rochas do fundo do mar, ainda influência da antevéspera, dia da nossa chegada à bela Lourenço Marques, a cidade feiticeira. Encostados aos molhes, ficaram os barcos que se encontravam no dia da chegada. Aquele porto era um rodopio e a monção que nos saudou à chegada, não tinha sido nada agradável.

O Ventor e toda a rapaziada que com ele viajava tiveram uma demonstração num bravo ensaio levado a cabo pelo seu amigo Neptuno. Apolo sorria lá de cima e, através das belas acácias, já tinha mostrado ao Ventor como aquela parte da África, onde a Princesa do Índico se espraiava, era linda e assim continuaria, certamente, depois de mais uma caminhada de cerca de 2.000 km.

Estação dos Caminhos de ferro de Lourenço Marques (Maputo)
Lourenço Marques, já ficara para trás e o Índico continuava sujo e um pouco picado, talvez devido ao reboliço do tridente de Neptuno que tanto gostava de marcar presença perante o Ventor.
À medida que o Niassa ia penetrando as águas do mar, o Ventor, caminhando pelo convés do Niassa ia observando, à sua esquerda, a grande costa moçambicana, por onde nos seus sonhos caminhavam manadas de búfalos, leões, leopardos, chitas, rinocerontes, jibóias, impalas e vários tipos de zebras e gnus, bem como toda a outra bicharada que o Ventor levava na sua cabeça. A bicharada que o Ventor tinha apreciado quando através de livros e revistas, comentários cinematográficos coloridos e filmes, foram trazidos até à presença do Ventor e que, em sonhos, o Ventor os retransportava, agora, para as suas origens.
  

Ilha de Moçambique
Rumando a Norte, vendo a quilha do Niassa cortar as águas, o Ventor verificara que todo o seu mundo ficara para trás. Todo o mundo que o Ventor conhecia, já ficara para trás! A sua última réstia tinha sido a cidade das acácias, o fim de tudo. Ali, os seus amigos tinham feito florir as flores desse outro mundo de sonhos, as suas referências. Eles eram os marcos finais da sua Grande Caminhada africana. A partir dali, tudo seria para desbravar! As referências tinham terminado no sítio a que os ingleses, noutros tempos, tinham chamado Delagoa Bay! Mas nós chamamos Baía do Espírito Santo. Avançando mar fora, as referências do Ventor eram, agora, apenas, as históricas.
Observando o Canal de Moçambique, entre a costa de Moçambique e a ilha de Madagáscar, sonhava como teria sido o "surfar" das caravelas do Gama e de outros, naquela mesma direcção. Recordava-se do rio dos Bons Sinais, da corrida de Fernão Veloso, que afoutadamente aceitara o convite dos indígenas para conhecer as suas palhotas tabancas e que, apercebendo-se de algo que não viria a ser nada bom para a sua caminhada africana, resolveu inverter a caminhada e pôs-se em fuga rumo às naus. Como os seus companheiros, vendo-o em fuga, tiveram de ir em seu auxílio, o Fernão Veloso dizia-lhes que corria por os saber lá longe sem a sua presença para os ajudar! Lindos os Lusíadas, agora, o principal meio das minhas referências do grande Canal de Moçambique e da costa moçambicana! 
Primeira residência do Governo Colonial, na ilha de Moçambique
De vez em quando apreciava umas palmeiras sinalizando ilhas ou reentrâncias no horizonte da costa moçambicana e, perdida na bruma aquilo que, segundo os mais conhecedores do Niassa, diziam ser a Ilha de Moçambique. Ela estaria lá! Um dos nossos mais célebres signos históricos da bela terra de Moçambique. Havia por ali uma ilhota com três palmeiras a que eu chamei "as três Marias"! Para lá delas ficava o "interland" de Moçambique, rumo a oeste.  
Forte de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique
Por ali, à nossa esquerda, junto à costa, estaria a bela ilha de Moçambique, perdida nas brumas do Índico, com a sua fortaleza a que deram o nome de Forte de S. Sebastião. Onde os portugueses acostavam, por tempos indeterminados e que, para eles a área tivesse alguma possível função estratégica de ocupação e defesa, havia um primeiro pensamento. Construir um forte! E, a ilha de Moçambique, não iria ser excepção. Ela lá está, bela, incrustada no Oceano Índico, aguardando pelas caminhadas de homens audazes que lhe dêem o futuro que merece.
Capela de Nossa Senhora do Baluarte, na Ilha de Moçambique
Rezar a Nossa Senhora para acalmar as águas do Índico era uma maneira de estar em Moçambique, durante a nossa estadia de séculos. A capela do Baluarte foi construída, em 1522, a norte da ilha que hoje austenta vários edifícios públicos que a Unesco tornou Património Mundial, em 1991.
 
Deixada para trás, à esquerda, escondida na bruma do Índico, a ilha de Moçambique, era mais uma das minhas referências histórico-geográficas que fazia fervilhar a cabeça, balouçando nas ondas do Índico. 
Eu sabia que mais acima, à esquerda, o Niassa iria entrar numa das maiores Baías de África e com as águas mais profundas que, segundo me contavam, nos meandros da Força Aérea, em Lisboa, dava para guardar e ancorar todas as esquadras de então que a NATO possuía. Era por essa baia que o  Niassa chegaria ao Porto de Nacala.

A seguir: Chegada a Nacala

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Chegada a Lourenç Marques

 Ventor 07.03.05

Com a partida do meu amigo Apolo, rumo a Ocidente, o navio Niassa, devido às informações meteorológicas que lhes chegavam, foi obrigado a lançar âncora no Oceano Índico a poucas milhas da Baía do Espírito Santo que, estaria, segundo as informações da costa sul Moçambicana, num grande pandemónio. Ficamos por ali algum tempo que já não recordo mas foi entre duas a quatro horas, o tempo que durou a tempestade de monções que caiu sobre nós e, pelo menos, sobre o sul de Moçambique e parte da África do Sul. Por fim, lá pelo fim da tarde, foram dadas ordens para o navio Niassa avançar, pois a barra da entrada para a Baía do Espírito Santo estaria em condições de receber o Niassa e o seu recheio. Homens e carga.


 Mapa de Moçambique, obtido pela NASA

Lá fomos nós, rumo à bela Baía com águas alouradas da intervenção do tridente do meu amigo Neptuno que tinha revolvido o areal para permitir a entrada do Ventor e da sua gente. A tempestade tinha sido forte e o acesso da Baía de Lourenço Marques ao Índico estava diluviano, embora o termo não se justifique que não seja pela cor das águas e alguma revolta que o tal Adamastor lhe incutiu, revoltando as águas, julgando, com isso, chatear o Ventor.


Imagem de satélite de Maputo (ex-Lourenço Marques) e da Baía do Espírito Santo 

Dançando um pouco, na crista da onda, o navio Niassa afoitou-se ainda com dia, a entrar no estreito do acesso à Baía onde a ondulação das águas revoltas mais pareciam gestos de saudação daquele nicho de espaço, que tinha sido deteriorado pelo nosso irrequieto Adamastor que caminhou sempre à frente do Niassa para fazer uma espera no local onde o Ventor devia entrar em águas azuis e não em águas revoltas e sujas pela revolta do areal, lá por baixo. Tudo bem até o Niassa passar o centro da Baía. Depois, quando navegava preparando-se para seguir até ao molhe onde iria encostar, todos começamos a ouvir, uma de duas coisas: ou o navio Niassa a roçar no areal da baía ou o ronco do Adamastor todo chateado por não ter conseguido os seus intentos. As sereias a cantar, com som tão roncoso, não eram!

Aquele som diabólico vindo das profundezas da Baía metia o seu respeito. De repente e já de noite, apercebemos que não era o Adamastor mas sim o navio Niassa a gritar com o areal para se desviar do seu caminho. Mas o areal tinha sido encostado nessa ponta da Baía, pelos ventos monçónicos furiosos comandados pelo Adamastor, com cujo trabalho conseguiu encalhar o Niassa, mesmo nas barbas de dois navios mercantes soviéticos, no meio dos quais, o Niassa iria encostar.

Para mim, os navios mercantes soviéticos não eram surpresa porque sabia através de um amigo da Nazaré que trabalhava numa empresa inglesa de estiva, em Lourenço Marques e já me tinha dito que isso, por ali, era o pão nosso de cada dia. Mas a meu lado, vi alguns companheiros de caminhada estupefactos por esses navios não chegarem a Lisboa, salvo autorizações muito especiais, quando o rei fazia anos, mas ainda por cima, nós não tínhamos rei!

De repente, dois potentes rebocadores instalaram-se junto do navio Niassa e começaram a utilizar toda a força que tinham para retirar o Niassa de um banco de areias que o velho Adamastor mandou colocar naquele sítio pelos ventos monçónicos. Mas como isso não era suficiente, uma vos gritou: "todos os que couberem coloquem-se na proa do lado direito do barco para conseguirem concentrar peso nessa área e ajudar os rebocadores. Uma mole humana, como sardinhas em canastra, posicionou-se no local indicado e, com o nosso peso e a força dos rebocadores, o Niassa voltou a gemer. Por fim nos 10 minutos do dia seguinte, meia-noite e 10, julgo eu, ou 10 para a meia noite, não tenho a certeza se 10 minutos antes se 10 minutos depois, lá encostamos nós entre os dois carregueiros soviéticos.

Lourenço Marques - Av. Central, em 1905

A noite onde era esperado caminharmos pelas ruas da bela cidade de Lourenço Marques, acabamos por não sair pois tornara-se tarde para isso. A previsão da chegada com o atraso originado pela tempestade e a espera para o Niassa entrar na baía foi de horas. À hora do lanche ou, o mais tardar do jantar, deveria andar tudo a caminhar pelas avenidas de uma cidade que todos desejávamos conhecer.

A tormenta, se assim preferirmos chamar-lhe, durou horas e eu, que levava Lourenço Marques pintado no meu cérebro, não estava preparado para tanta espera. Quando comecei a ver a baía do Espírito Santo, faltava o meu amigo Apolo e as luzes que via eram as mesmas que conhecia por aqui. Pouco mais estaria no meu cérebro que o mapa e nem sequer tinha a opinião do Major Costa que, apesar de conhecer Lourenço Marques, ficara apaixonado por Luanda e pela sua Baía. Mas tinha outras opiniões! 

Monte Gurué, na Zambézia, zona de plantações de chá onde o Ventor perdeu muitas horas a tentar estudar zonas de todo o Moçambique, especialmente, esta. Não que tivesse algum interesse no seu chá, mas em Moçambique no seu todo 

Pelas perspectivas com que fiquei, à medida que o Niassa ia afastando as águas agitadas, penetrando rumo à bela cidade, já mesmo sem a presença do meu amigo Apolo, tudo aquilo me parecia um encanto. Comecei então a recordar as conversas que, cerca de 5 anos antes, tivera com gente que viera a Lisboa passar entre um e dois meses de férias e me diziam: "Ventor, vais ter de conhecer Moçambique. Mal que chegues lá, eu arranjo-te emprego"! Nessa altura ainda eu não sonhava com a Força Aérea. Foram pessoas simpáticas, uma família constituída por gente da Nazaré, o homem e de Braga, a mulher e mais o seu rebento moçambicano, com idade entre os 18 e os 24 meses. Foram eles, mais outros familiares e amigos que inculcaram no meu cérebro um interesse profundo por Moçambique. Por isso, quando parti para Moçambique, já tinha vários mapas, quase perfeitos, de tudo aquilo.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

A Cidade das Acácias

  Quico e Ventor 03.02.05

Lourenço Marques, a cidade das acácias. Era conhecida, por todos os portugueses que lá viviam, como a cidade das acácias.

Era assim que o Ventor ouvia chamar-lhe. A cidade feiticeira que encantava todos que lá chegavam. A cidade que mais que qualquer outra o Ventor gostaria de conhecer.


O Ventor encontrava-se no centro do mundo, ao sul do Equador

Aquele amigo, de olhos esbugalhados, disse: "Oh, Ventor!!! Que raio estás aqui a fazer, pá? Vieste para Moçambique e não disseste nada à malta!? Já não vou trabalhar hoje! Espera aqui um minuto. O Ventor esperou e foi olhando em volta esse seu amigo e a Baía. Lá estava ele a falar com um negro civil que também tinha entrado e deu-lhe as devidas instruções. Depois, conversando os dois, rumaram para a cidade. O seu amigo ligou para o escritório da Companhia (inglesa) e informou-os da sua situação. Tinha chegado um amigo de Portugal e iria mostra-lhe a cidade das acácias. Esse amigo sempre acreditou que, do modo como o Ventor falava de Lourenço Marques, em particular e de Moçambique, em geral, mesmo antes de ir para a Força Aérea, haveria de chegar o dia de lhe mostrar a cidade que enfeitiçava todos. E mesmo sem o Ventor o ter informado, o Senhor da Esfera quis que assim fosse!

O Ventor ainda tinha cerca de 2.000 km para percorrer, na saga dos Lusíadas ...

Assim foi! Meteu o Ventor no carro e foram direitos à Costa do Sol. Desde essa hora da manhã, até cerca do meio dia, correram Lourenço Marques em todos os sentidos. Depois olhou o relógio e disse: "agora vamos buscar o puto que saiu da escola. Oxalá não nos atrasemos". Chegaram ao local da escola e lá estavam dois putos a jogar ao berlinde. Um lourinho e outro negrinho, assim tipo a publicidade da Benetton, de traulitada no berlinde. "Conheces este Paulo"? O puto pegou no berlinde, levantou-se e olhou com atenção. "Eh, BOY"! «Era assim que ele me chamava, cerca de cinco anos antes. Nunca mais me tinha visto. Mas conheceu-me! Com cerca de dois aninhos, ele pedia-me para o levar à rua ver o eléctrico da Carris. Abraçou-se a mim e não tinha dúvidas nenhumas que tínhamos ficado grandes amigos».

«Depois fomos almoçar num dos melhores restaurantes de Lourenço Marques, na Av. da República. Por fim, fomos até ao Aeroporto e passamos a tarde numa grande azáfama, para trás e para diante. Lá para perto da noite fomos jantar a outro restaurante. Fui ver as outras pessoas que não via há muito tempo. Fomos à casa de uns, à casa de outros e vi toda a gente que julgava só voltar a ver, um dia na Metrópole. Se tivesse informado da minha chegada, se calhar, os encontros não seriam tão efusivos.

Por fim, já acalmados da euforia da cidade das acácias, veio o que eu não esperava»!

"Ventor, vou telefonar para o Estado Maior da Força Aérea, ele é meu compadre e vais ficar connosco, em Lourenço Marques. Ficas na nossa casa e vais trabalhar para o AB8. Como a guerra ainda está longe, aqui não fazes nada. Ficas dois anos em Lourenço Marques, podes usufruir de belas praias e ninguém te vai chatear"!

«Não! Tenho um objectivo, há muito definido que não vou desperdiçar. Já que cheguei até aqui, tenho um rumo e esse rumo é o Niassa. Agradeço muito a disponibilidade, sei que seria ideal para quem não está farto de cidades, mas eu fartei-me de Lisboa. Arranjarei maneira de chegar ao AB6, no Niassa. Tenho a certeza que haverá muita malta que vão preferir qualquer outro local para onde eu vá, para trocar comigo se for caso disso. Mas, para já, o meu objectivo será o AB6». "Mas, sendo assim, se estás tão empenhado, eu falo com o meu compadre e ele mete-te lá, até vais poder ir de avião, se quiseres".

«Não, muito obrigado, mas quero seguir o meu rumo com toda a naturalidade. Quero conhecer toda a logística da guerra e, para isso, vou continuar no navio Niassa, até Nacala, o fim da linha. Dali, por avião ou por linha férrea, arranjarei maneira de chegar a Nova Freixo. Comigo, as águas têm de continuar no seu leito.

Tínhamos ordens de regressar ao Niassa pelas 22 horas onde estaria um oficial da 3ª Região Aérea para fazer a distribuição do nosso pessoal. Conversa daqui, conversa dali, tinha marcado encontro com o meu amigo algarvio, para chegarmos ao barco até às 22 horas como estava determinado. Quando ele chegou, diz o meu amigo para o algarvio»: "está a ver este gajo! Podia ficar aqui no AB8 e quer ir para o Norte, para o Niassa. Dá Deus nozes a quem não tem dentes"!


Lourenço Marques era, de facto, a cidade das acácias

"Pois é. Só eu queria ficar aqui e não vou poder. Este gajo é burro" - disse o algarvio. Conversa daqui, conversa dali, o Capitão da 3ª Região Aérea ficou no Niassa, até à nossa chegada, cerca da meia noite. Foram os dois últimos a chegar ao Niassa!

"Com que então, já vi que gostaram de Lourenço Marques. Mas eu aproveitei para beber aqui umas laurentinas mas não gostei nada. Não! Não foi das laurentinas, podia bebê-las noutro lado! Por isso, como castigo, vocês que até podiam ficar cá, no AB8 ou, onde quisessem, vou enviar-vos para a Base Aérea 10, para a Beira". Virou-se para o Ventor e repetiu: "você tem notas para ir para onde quiser. Era só dizer e, como castigo, vai para a Beira e esse amigo vai consigo"!

«Já pedi desculpa pelo atraso - disse o Ventor - e, quanto a ir para onde quiser, estou-me nas tintas para onde vou. Podia ficar nesta cidade vou para outra. Que interessa»?

"Ai é assim? Então vão para um sítio pior, para o AB5, em Nacala e acabam-se as cidades"!

«Pela informação que tenho, há lá boas praias, se calhar melhores que as da Beira - disse o Ventor. Vou bem na mesma. Virou-se para o algarvio e perguntou-lhe: «e tu, pá»? O algarvio encolheu os ombros.

"Não há nada a fazer. Vou enviar-vos para o pior sítio de Moçambique - o AB6, em Nova Freixo"!

«A mim, por castigo AB6, pronto mas, Sr. Capitão, deixe este gajo ficar em Nacala, ele é algarvio, gostará, certamente, de ficar junto de uma praia».

"Era o ficavas! Vão os dois para o AB6".

«Eu irei - disse o Ventor - eles se calhar não»!

Acabou-se a algazarra no Niassa. Segundo o Ventor, esse Capitão até parecia um tipo porreiro. Se o Ventor não tivesse por objectivo o Niassa, está convencido que faria outro jogo e tudo voltaria à primeira forma. Mas o Ventor tinha o seu objectivo alcançado - AB6, era ali que tudo teria de começar. Foram-se deitar mas o Ventor não dormia. «Por minha causa, aquele gajo vai ter de ir para onde não queria. Ele tinha-me dito»: "não te preocupes comigo, o que não tem remédio, remediado está"!

Mas ele tinha sido amigo do Ventor a valer. Tinha-lhe guardado as malas, em Lisboa, evitara-lhe muitas filas no Niassa, pelas cervejas e bolachas baunilha, e o Ventor achou que, se pudesse fazer algo por ele, tentaria.

De manhã, lá estava o seu amigo que a cidade tinha enfeitiçado. "Não vou trabalhar, vamos passear"!

«Aquele gajo que esteve connosco ontem, que tanto queria ficar aqui, foi empurrado comigo para Nova Freixo e a culpa foi minha. Ele podia ter ficado na Beira mas eu enrolei tudo. Se tiver bastante confiança com esse Coronel tirocinado, o seu compadre, podia pedir ao gajo para ele ficar cá». "Se é isso que tu queres, vou-lhe telefonar e falo com ele".

Daqui por algum tempo, veio a resposta: "fulano não vai partir para Nova Freixo, foi convocado para o AB8".

O Ventor iria perder um amigo para sempre, pois nunca mais o viu. Mas, durante os dois anos, comunicavam por rádio de vez em quando, quando se proporcionava e quando o Ventor transgredia.

O Ventor não se recorda bem dos timings do Niassa mas recorda-se que se despediu daqueles amigos que só voltou a ver, e não todos, dois anos e um mês depois, em Fevereiro de 1970. Só anos depois, encontrou, por casualidade, no Rossio, o seu amigo da Nazaré e já passaram cerca de 30 anos. Nunca mais viu ninguém dessa gente de Lourenço Marques. Foi conhecendo outros.

O Ventor não se importava de seguir, até ao fim, na rota do Vasco da Gama

Entretanto, depois de um dia e meio frenético, em Lourenço Marques, chegou a hora da partida. A próxima meta do Ventor iria ser Nacala. O navio Niassa seguiria mais para Norte, creio que até Mocimboa da Praia, para largar carga e militares do Exército. Para a Força Aérea, Nacala era o fim da picada.

O Ventor viu retirar as amarras ao navio Niassa, viu que ainda estava no mesmo local um dos dois carregueiros soviéticos e que a sua tripulação lhe parecia simpática porque, do convés do seu carregueiro, assistiram ao adeus de gente de Lourenço Marques ao Niassa, os choros de familiares e dos amigos dos que seguiram viagem como ele e, os soviéticos, quando ouviram o Niassa apitar, iniciando o arranque para abandonar a Baía do Espírito Santo e se fazer à largueza do Oceano Índico, partilharam com eles as suas saudações, levantando os braços, acenando e sorrindo.

Cruzando a baía a toda a largura, o Niassa parecia dizer aos areais da antevéspera para se afastarem. Ao sair da Baía do Espírito Santo, o Ventor caminhou para a ré do navio Niassa, voltou a olhar Lourenço Marques e, lembrando-se dos seus amigos, perdendo-a de vista, disse: «adeus, cidade feiticeira, até um dia».

Antes: Lourenço Marques

A Seguir: De Lourenço Marques a Nacala

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Frente ao Adamastor

 Quico e Ventor 16.12.04

Após a saída de Luanda, deixando para trás a sua bela baía, aquele belo anfiteatro da parte baixa da cidade e a célebre Fortaleza de S. Sebastião, em cujo chão trepidavam as botas cardadas dos nossos para-quedistas, continuamos a afundarmo-nos mais, nos calores estivais do Atlântico Sul.

Saídos da baía e já virados a sul, ao nosso lado esquerdo, a bombordo, se preferirem, situava-se o Continente Africano e, á nossa direita, ou a estibordo, toda a largueza do Atlântico profundo. À medida que a quilha do Niassa cortava as águas frias da corrente de Benguela, para trás ficava o Equador, a saudade, tudo! Também ia ficando Angola, o Sudoeste Africano (Namíbia), a costa atlântica da África do Sul e calculávamos que, ao virar da esquina, lá mais ao fundo, torneando o Cabo que tinha sido, em tempos, o  Cabo das  Tempestades e depois, o Cabo da Boa Esperança, por ali, algures, esperaria o Adamastor 


Foto tirada da Wikipédia de autoria de Joseolgon.  A utilização deste ficheiro é regulada nos termos da licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada

Entretanto, à medida que realizávamos esse troço da nossa caminhada, dentro do navio Niassa continuava a nossa saga diária. Comer, dormir, jogar, ler, olhar o mar, beber a famosa cuca das nossas gentes angolanas e, já se tinham ido as frutas penduradas, os chouriços, tudo, menos a cuca e a bolacha baunilha que, como suplemento alimentar, continuavam a fazer parte da minha caminhada.

De resto, para ocupar o tempo, lá iam continuando os alertas do Niassa para corrermos a colocar os coletes salva-vidas, os coletes da esperança caso a coisa desse para o torto. Tomar banho nas profundezas do Atlântico de norte a Sul, não seria a mesma coisa que tomar banho nos pocinhos de Adrão, nas praias da Caparica, de Carcavelos, ... e, o colete salva-vidas servia também para nos dar um certo aprumo psicológico. As orcas que nadavam ao lado do Niassa, na corrente fria de Benguela e rumo à cidade do Cabo, escangalhariam qualquer arranjo psicológico que nos traria o célebre colete laranja e mais acreditaríamos na grande caçada que as orcas, organizadas em grupo, fariam se tivéssemos de mergulhar nessas águas com colete ou sem colete. Nem nos valeria pedir o tridente ao meu amigo Neptuno para, com ele, espetar as orcas.

Sempre que espreitava as orcas, via a maioria delas sempre a bombordo, isto é, entre o navio Niassa e o Continente africano. Até parecia que elas saberiam que, se tivéssemos de ir ao mar, a rota escolhida seria rumar para terra, o lado preferido delas. Seria pensado por elas ou mera coincidência?

A partir de determinada altura, próximo da viragem para o oceano Índico, começamos a avistar a Montanha da Mesa (Table Mountain), a tal que me tinha roubado algum tempo quando eu me dedicava aos meus estudos de geografia africana. Junto com ela, começou a instalar-se mais afincadamente na nossa memória, a sempre presente ameaça do Adamastor. Porém, o mar continuava sereno, os dias continuavam lindos com uma visibilidade de 40 km ou mais, pois dava para, na companhia do meu amigo Apolo, observar bem os contornos das costas sul africanas.


O Adamastor estava presente, mas escondido

Bartolomeu Dias, foi o primeiro europeu a passar este Cabo a que chamou o Cabo das Tempestades mas, D. João II, achou melhor rebaptisa-lo de Cabo da Boa Esperança. Ele acreditava que, rumando para Leste e, uma vez que Bartolomeu Dias, já tinha seguido para leste até 800 km deste Cabo, restava a Esperança de haver continuidade até alcançar o desejo da época. Chegar à Índia! 

O Adamastor não se mostrava. Estaria encostado à sombra das rochas com receio do meu amigo Apolo e com a presença do Ventor. 

A mim fazia-me confusão ele esconder-se pois conhecia pessoas que viajavam de Moçambique para Portugal e vice-versa e não conhecia ninguém que não tivesse tido problemas com o Adamastor. Pelo que sabia, a passagem do cabo era terrível para todos e estava a ser uma maravilha para mim.

Com o tempo e com algum raciocínio, comecei por perceber que ninguém vinha para Portugal no Inverno. Portanto, para apanharem cá o verão, viajavam na nossa plena Primavera, caminhando nos Outonos africanos. Na nossa viagem, caminhávamos, por lá, em pleno verão.

Ao passar em frente da cidade do Cabo, observando-a do largo, um colega muito observador, de olhos fixos em mim, diz: "oh, Ventor, estás mais encarnado que um tomate"!

Teria de estar! As minhas caminhadas eram feitas no estrado do navio Niassa, sempre ao sol e a observar as costas, as orcas e não só. O meu campo de exercícios era da ré à proa e vice-versa, sempre a observar qualquer coisa, a bombordo ou a estibordo e, mesmo que não dê para acreditarem, quase sempre só, de noite ou de dia. Chegava mesmo a ficar a observar a bandeira durante tempos sem fim, drapejando ao vento e a desfazer as linhas que a constituíam. Não fosse isso e estaria a ler!

Passei a mão pela testa e mais parecia uma cobra a largar a camisa. A pele saía enroladinha, tal como quando compramos uma carpete e a levamos para casa toda enrolada. Tudo isto, frente ao Adamastor! O meu amigo Apolo queria-me ver bem impressionado ao abandonar o Atlântico e ao penetrar no Grande Oceano Índico.

Também o Bartolomeu Dias, o Vasco da Gama e outros, já lá tinham passado, centenas de anos antes pelo Cabo da Boa Esperança

Foi nesse momento que, agarrado às amparas do navio Niassa, observando as águas sem saber se ainda estávamos no Atlântico ou se já navegávamos no Índico, vi um corpo colossal aparecer à superfície da água, uma espécie de monstro de Loch Ness. O mesmo estilo de imagem. Um corpo cilíndrico, tipo cobra gigante com cor de truta salmonídea, com muitos metros de comprimento mas, sem ver ou identificar uma cabeça ou um rabo. Imaginem que sai à superfície do mar um colosso em forma de cobra em que só vemos o cilindro, sem aparecer cabeça nem rabo. Esses mantiveram-se debaixo da água. Pelo menos, não tive tempo para os identificar.

Procurando vídeos e fotos sobre animais marinhos, nunca vi nada semelhante.

A cidade do cabo e a Montanha da Mesa como vista da rota naval 

São lindas as costas da África do Sul, vistas do mar largo. Navegando no Oceano Índico, continuamos a observar a beleza das cidades costeiras sul-africanas e as suas enseadas, especialmente Port Elizabeth e Durban (a antiga cidade de Natal).

Até um pouco a seguir ao largo da cidade do Natal, rumando à cidade de Lourenço Marques, o meu amigo Apolo nunca me tinha abandonado. Mas, chegados ali, disse-me apenas isto: "Ventor, agora estás por tua conta. Caminhei contigo até passarmos o Adamastor. Sempre que pudermos, estaremos juntos nas horas difíceis. Mais um pouco e estarás nas tuas águas. Agora, tu rumas para Leste e eu para Oeste"!

Começamos a separar-nos, nesse dia, desde que saí de Lisboa em que ele me acompanhava de manhã à noite. Mas logo que Apolo abalou, pela primeira vez na minha vida, iríamos enfrentar as monções do Oceano Índico. O Adamastor, aquele falsário, afinal, não estava escondido nas rochas das costas sul-africanas. Ele ameaçou-nos em pleno Índico, a algumas milhas da Baía do Espírito Santo, em Lourenço Marques.

Antes: Entre o Equador e Luanda

A seguir: Chegada a Lourenço Marques

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...