quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma Pantera Negra em Marrupa

 | Ventor 18.05.05

Uma beleza na savana!

Algures por terras de África , mais precisamente no Planalto de Marrupa, encontrei, em plena noite, uma Pantera Negra! Foi no verão de 1968, cerca das duas horas da manhã, numa noite de luar e Diana disse-me: "essa é tua Ventor"!

Na noite da savana, a nossa pantera negra possuía dois olhos como duas lanternas, de costas para Diana e virada para o nosso jipe. Estática, nada enxergaria encandeada pelos faróis máximos que o Tavares apontou sobre ela. Só, na noite do tempo, perante luzes tão fortes, aquele animal, negro e belo, fazia reflectir no pêlo brilhante do seu lombo a luz que Diana sobre ele fazia incidir. Era uma imagem majestática, apenas denegrida pelo despudor do Tavares em atirar com o Jipe para cima daquela imagem inolvidável!

Pantera negra

Uma beleza em África

O Tavares, condutor da FAP no AM62, dava a impressão que morria de pavor frente a esse bicho! Nessa altura, o Tavares, estava habituado a outra Pantera Negra, mas essa era pacífica e imaginária - o nosso Eusébio - e essa outra, que ele tinha, nesse momento, na retina e em frente do nariz, era real, verdadeira e sabe-se lá, perigosa até quanto!

Nessa noite, ouvi, na rádio da Força Aérea, um apelo de guerra! Algures, no meio da selva, lá longe, as nossas tropas pediam ajuda. Eram cerca das duas da manhã de uma noite linda que até fazia dó! Na noite brilhante, Diana espraiava-se sobre a selva, linda como sempre, ou mais linda que nunca! Meti um papel no bolso de uma camisa de café com leite, dirigi-me às camaratas e fui acordar, de mansinho, o Tavares, condutor de serviço no AM62, após várias tentativas de comunicar, por rádio e telefone magnético com o Comando militar mais Central e avançado de Moçambique, sem sucesso. «Tavares, acorda», disse-lhe. "Tens de ir comigo ao comando do Sector Echo"! O Tavares olhou o relógio e nem queria acreditar! "Estás doido? A estas horas? Quem vai mais"?

"Não vai mais ninguém. Vamos os dois e não temos medo. Arranca"! O Tavares era um homem do Norte, algures de Trás-os-Montes e achava, como muitos outros, que estava a desperdiçar a sua juventude, naquela guerra pantanosa de África. A refilar, foi-se levantando, esfregando os olhos, vestindo-se, calçando-se e, mal humorado, ia olhando o relógio, como que com esperança que o nosso amigo Apolo se adiantasse na máquina do tempo!

"És doido! Sozinhos, daqui até ao fim do mundo com leopardos, leões e tantos bichos que, se calhar, nem sabemos que existem; num jipe aberto, em plena selva, numa picada de caca, que nem dá para dar a volta para trás! E aqueles gajos todos a dormir e os meus pais sem saberem os perigos que o filhinho deles corre, nesta noite linda e brilhante de luar mas que, para mim, é mais negra que a África"!

O fim do mundo do Tavares, eram cerca de uns míseros 15kms até à localidade e mais um pedaço até ao comando do Sector E.

A meio da picada, o que o Tavares mais temia! Um leopardo! Só que, destes, ele nunca tinha visto. Preto retinto - "a nossa pantera negra" - disse-lhe. Estava atrapalhada com os faróis do jipe, estática no meio da picada. Pensei não fazer fogo e disse ao Tavares para ter calma e permitir que o bicho fugisse, mas não! Acelerou a fundo e partiu para cima dela! Pareceu-me ouvir o impacto do jipe no bicho mas talvez tenha sido impressão. Apesar do luar, era uma zona de árvores sobre a picada e fazia-se algum escuro com as sombras, mas eu não me apercebi por onde o bicho fugiu. Será que se safou a nossa pantera negra?

Prosseguimos. De arma feita ao fogacho, eu observei a floresta, em volta, mas nunca mais vi nada e voltei-me de repente para trás para defender a nossa retaguarda de uma possível investida, ao mesmo tempo que me apetecia apertar o pescoço ao Tavares pela mariquice de atirar com o jipe para cima de uma raridade daquelas! Pela única vez na minha vida, que tive oportunidade de ver uma pantera negra, na selva, em plena noite, e não tive a oportunidade de melhor apreciar, tão grande e tão raro valor cinegético, para transportar nas minhas retinas, com mais força e clareza, pela vida fora.

Depois de ver um animal semelhante a este e toda a sua desenvoltura à luz do luar de Marrupa, ainda hoje lamento a insensatez do meu companheiro de guerra que era um bom rapaz mas, demasiado insensível para tão bela, embora arriscada, caminhada. A zona era perigosa, relativamente aos animais selvagens e não só, mas era perfeitamente viável deixar a nossa pantera prosseguir na sua caminhada e vê-la reentrar nas lânguas da sua savana!

Imagem trabalhada de uma pantera negra. Na noite de Marrupa, com um luar muito fraquinho, quase só víamos os olhos

O Tavares, tal como eu, sabíamos que o jipe aberto não nos dava a mesma garantia que um jipe fechado. Mas o risco era o pão nosso de cada dia. Naquele local, eu só, armado e quatro cães, em pleno dia, fomos apedrejados por 18 macacos! Consegui recuar e entrar na picada sem dar um único tiro.

Ao chegar à porta do Comando do Exército, o Tavares achava que eles não nos iam abrir a porta, mas enganou-se. Abriram-nos a porta e ainda fizeram do Tavares um herói por tentar atropelar o nosso bicho negro - a nossa pantera! Enquanto eu e o Oficial de Dia decidíamos se devíamos acordar o Comandante do batalhão ou não valia a pena, mas valeu, e tomei nota da ajuda que eles iam precisar da parte da Força Aérea, ao nascer da aurora. O nosso amigo Tavares já tinha quase toda a unidade acordada com a sua história da nossa pantera. Quando me viu sair direito ao jipe e digo "vamos", verifiquei que as suas pupilas estavam atormentadas e que toda a valentia que ali exibira, se tinha esfumado num ápice!

"Sózinhos"!? Perguntou o Tavares. "Sim! temos a pantera à espera", disse-lhe.

Voltamos a fazer o trajecto ao contrário, sem ver mais qualquer pantera negra, cor de rosa ou de outra cor qualquer!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Grandes Vitórias

  Ventor 18.03.05

Tantos combates!!!

Amigos, pedi ao Ventor para me falar da guerra no Ultramar, no caso, Moçambique, e ele não deixou de me falar das suas grandes batalhas.

Depois de andarmos a rebolar pelo chão da sala e de o ouvir, atentamente, arranjei maneira de vir até aqui falar-vos desses "Tempos de Guerra".

Oiçam só!

«Pois, Quico, tempos de guerra!

Lembro-me bem dos tempos que fiz guerra a inimigos visíveis e invisíveis e foram todos os tempos em que o cheiro a pólvora era o cheiro que predominava. Os inimigos eram mais que muitos mas, quase sempre, não eram visíveis à vista desarmada, nem de dia, nem no escuro da noite. Todos eles usavam as técnicas do "bate e foge" e esperavam, pacientemente, a sua vez de caírem sobre a presa ou de bruços, no solo da terra amada, ou terra estranha, conforme os casos. Por vezes, os inimigos tinham muitas facetas, mesmo aquelas que, de repente, não são imaginadas!

Pois vou contar a história dos mais temíveis inimigos que muitos de nós (todos?), tivemos em África, no caso, por terras de Moçambique.

Quando cheguei a Nova Freixo, uma vila bastante linda e progressiva naqueles confins moçambicanos, em pleno mato, não se notavam os inimigos esperados e nós, os que por ali andávamos, estávamos instalados no Aeródromo Base 6 de apoio recuado às linhas da frente, no Distrito do Niassa, só ele, bem maior que Portugal Continental. Cantávamos por lá, mentalmente, uma espécie de canção que os americanos cantaram quando partiram para a Defesa da Europa Democrática das guerras totalitárias de umas outras gentes que eram apodadas de "bochs". - «Over there! Over there»! Isto na primeira Guerra Mundial, muitos anos antes. Ora nós também chegamos ali com o nosso "over there", na mente.

O nosso hangar, em Nova Freixo. Ele serviu de nossos aposentos durante bastante tempo. Era lá dentro que dormíamos, homens, aviões, bombas, melgas, percevejos, pulgas, ... !

Assim era! Dali, nós partíamos sobre o grande Niassa e, no "over there" da nossa imaginação, caminharíamos direitos a perigosos "poços da morte" das zonas mais perigosas das lindas terras do Niassa! Mas, antes, tínhamos um treino! Aprender a conhecer todos os inimigos com que deparássemos. Combater as doenças, como o paludismo, aprender a viver as agruras da África negra e aprendermos, também, a respeitar todos os inimigos que, a qualquer momento, poderíamos enfrentar por aquelas paragens.

Então vou falar-te desses inimigos devastadores - melgas e percevejos!

Nas primeiras noites que chegamos a Nova Freixo e durante os dois meses que lá permaneci, até à minha partida para Marrupa, tivemos de partilhar o Hangar com os aviões e o armamento. Havia um grande Hangar com dois grandes portões corrediços por onde entravam e saíam os aviões. Lá dentro dividia-se em vários espaços. No grande espaço central a seguir aos portões, ficavam alguns aviões. Lá mais ao fundo, ficavam as nossas camaratas. À esquerda ficavam as casas de banho e outras coisas e, à direita, ficavam os serviços de manutenção e de Armamento (a «Academia Bruno» de que te falarei um dia).

Homens a um lado, aviões a outro, bombas a outro! Mais para o interior do arame farpado trabalhava-se, numa grande azáfama, na construção de novas camaratas que viriam a tornar-se em verdadeiros Sheratons para a rapaziada. Reconstruía-se ou alargava-se a cozinha, alargava-se o nosso novo e belo "restaurante", planificava-se mais um Bar, enfim, um autêntico progresso de crescimento no alargamento da ocupação militar que, à época, se julgava eterna.

Este é um dos muitos mosquitos que é amaldiçoado neste mundo - o mosquito do Nilo (já chegou ao Algarve, lembram-se?)

Não havia tiros, mas o pior estava junto de nós. Eu e todos os outros, passamos noites inteiras à estalada nas melgas. Elas pareciam-nos autênticos Scuds a cruzarem o deserto, zzzzzzzzzzzz, picando em direcção à nossa cabeça e nós, pobres coitados, esbofeteávamos nelas e na parede. Meio a dormir, meio acordados, limitávamo-nos a dizer - toma!!!!

Eu cheguei a pensar, perante a nossa impotência que, àqueles bichos, a morte causada por uma chapada desprezível seria a nossa grande afronta a animal tão ruím! ZZZZZZZZ ... Praz!

Mas não era tudo! Havia mais. Percevejos! Já ouviste falar? Não? És um felizardo! A tua guerrinha limita-se a duas ou três pulgas que a tua amiga Tara trás cá para casa, até o Ventor dar cabo delas com uns remedinhos que inventam por aí. Nós, lá, fazíamo-lo com JP1 e C-130, combustíveis de helicópteros e de aviões.


 Outra espécie de mosquitos

Pois! Lá vinham eles Hangar dentro, rastejando, olhando de lado, com aqueles olhos vesgos, a figura dos aviões e pensando que era por causa daquelas máquinas imponentes que, eles, reles animais dos capins, fariam grandes festins à custa do gotejar do nosso sangue!

Coça daqui, coça dali, vira e revira, pelo ar melgas, pelo chão percevejos! Como derrotar estes devassos? Remédios? Dera-os Deus! À chapada era impossível, já nos bastavam as melgas. Então que fazer? Fogo!!!! Para que raio o homem inventou o fogo?

Misturem JP1 com C-130 que dá um belo veneno para os matar! «O caraças! Eu trato-os»! Roupas e colchão fora da cama! Pá, pega nesse lado, vamos levar esta espécie de cama lá para fora. Recipiente com combustível, cama bem regada - fogo!!! "Eu também quero, eu também quero"! E assim por diante. Fogo!!!! Durante alguns dias ficávamos sem percevejos e, de quando em vez, fogo!!!! Derrotávamos parcialmente os nossos inimigos mas, por pouco tempo!

Tinha-me lembrado da Autobiografia da Raposa do Deserto - o Marechal, alemão, Romel, Comandante do África Corps que tinha lido antes. A mulher escrevia-lhe e pedia-lhe que tivesse cuidado que se constava que os ingleses cada vez se reforçavam mais e, por isso, à medida que o inimigo dele se reforçava, ele iria ter mais dificuldades, etç. etç.

E ele respondia-lhe: "querida Lu, não tenho grandes inimigos por aqui! Tenho, realmente, um inimigo terrível, bem pior do que os ingleses e muito mais difícil de enfrentar e, até me parece que nunca seremos capazes de o levar de vencida - o percevejo"!

Mais ou menos isto e dizia também que o tenente "qualquer coisa", estava a travar a maior batalha da vida dele - a luta contra os percevejos. Queria regá-los com gasolina mas ele não podia permitir porque, gasolina para si, era melhor que ouro!

Eu lembrei-me disso e verifiquei que a gasolina sem nós, não teria significado. Por isso, ou chegava para queimarmos os percevejos ou, o melhor seria pegarmos as malas de volta, rumo a casa.

Grandes vitórias, pá»!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Solidão Absoluta

 Ventor 18.04.05

Estávamos no ano de 1968, em Marrupa, no centro Norte de Moçambique - contou o Ventor.

«Tínhamos decidido, à noite, antes de nos irmos deitar, eu e outro amigo cabo-verdiano, levantarmo-nos cedo e irmos fazer uma caçada.  Assim foi. Levantámo-nos cedo mas, a escuridão era total e o nevoeiro quase. Fomos abrangidos pela excitação, mas estava decidido! Preparamos as armas, chamamos os cães e partimos para o desconhecido».

O Ventor prossegue  a narração:

«No nevoeiro escuro, o silêncio era companheiro do capim e irmão da madrugada! O cheiro do mato misturado com o odor da presença dos animais selvagens, era a campainha de alarme no meu cérebro. Ao meu lado, os meus companheiros da caminhada perscrutam tudo que possa servir para a acção defensiva.

Os meus companheiros, naquele momento, eram o meu amigo e colega cabo-verdiano, o Melo, e estes três inesquecíveis, o Bolinhas, o Zorba e a Diana, cães rafeiros, mas amigos a valer!

No silêncio da selva, a escuridão de um nevoeiro denso, cerrado, escuro como breu, no começo da aurora, ainda indecisa mas já com indícios de marcar presença. O capim era um gigante que terminava bem acima das nossas cabeças e, nas suas entranhas, vivia o terror!

As espingardas estavam colocadas em posição de combate e os cães pisavam-nos os calcanhares. O cheiro a "bravo" indiciava possibilidade de algum perigo e a humidade matinal poisava lentamente sobre os nossos bigodes, pestanas e sobrancelhas, em gotículas redondinhas que faziam lembrar bagos de chumbo ligados por magnetismo a uns araminhos de aço.

A selva não era linda, porque não se via, o capim era uma massa uniforme em forma de palha quase seca e nele deixávamos um túnel que se abria à nossa passagem à medida que o baixávamos colocando as botas de lado para o pisar de seguida e caminharmos sobre ele. À nossa volta, víamos nada e, só ouvíamos silêncio.

Lembrei-me então de "The Sound of Silence" do Paul Simon.

Hello, darkness, my old friend,

I've come to talk with you again, . . .

Então, enviei dois tiros de G-3 para o ar e, de repente, parecia que o mundo desabava sobre nós. Os cães sentiram-se mais inspirados e nós, apenas com dois tiros e o "hello darkness" na mente,  sentimos-nos mais seguros a aguardar que Apolo brilhasse sobre a lângua da savana que estaria por ali, algures, escondida no nevoeiro da madrugada.

Continuamos a caminhar pelo romper do dia e entre o nevoeiro, mas não podíamos assobiar ao silêncio porque após aqueles dois estrondos  nós necessitávamos de caminhar, lado a lado, com ele.

A linda visão de uma gazela a comer

À medida que o tempo passava, a luz começou a progredir perante farrapos de névoa que beijava a altura do capim mas, aqui e ali, abria laivos de pinceladas sobre o verde das árvores e o dourado do capim. Sem rumo, completamente à deriva, continuamos na direcção escolhida e acertamos no trajecto. Encontramos a picada e, quando me apercebi onde estava, entramos num carreiro que nos levava ao poço que nos abastecia o Aeródromo de água. Nesse instante, já conseguíamos observar o nosso amigo Apolo de escopro e cinzel a despedaçar a névoa mais alta e, por razões de segurança, trepamos para cima do poço, onde nos deixamos ficar de armas em riste.

Gazelas na lângua

Apolo continuava o seu trabalho de "erosão" e já nos espreitava por aqui e por ali e, numa dessas janelas abertas, avistamos uma gazela. O meu amigo ripou da arma e apontou e, no momento do disparo, uma fracção de segundo, mais cedo, eu, com o cano da minha arma, levantei a dele fazendo com que a função do tiro servisse apenas de arremesso contra o silêncio. Ao estrondo de mais aquele tiro avistámos, lângua abaixo, um grupo de gazelas procurando onde se refugiar, fugindo ao barulho, exactamente o inverso da nossa caminhada anterior, fugindo ao silêncio!

Acolitado pelo silêncio e pelo barulho, decidi, num ápice, que nada devia morrer ali!

Hello, Darkness!!!!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 12 de março de 2005

Quatro Dias em Nacala

  Ventor 12.03.05

Após a passagem baixa, primeiro do Nord-Atlas e pouco depois do T-6, sobre o navio Niassa, continuamos a aguardar que o Niassa fosse seguro pelos molhes e, entretanto, continuamos na brincadeira com as "ondas" de camarões que, vindos do fundo da baía Fernão Veloso, se lançavam sobre os bocados de pão que a tropa ia lançando à água. Aquilo era um presságio da fartura dos mariscos que alguns iriam comer, nos próximos dois anos da sua estadia por Moçambique.

Depois lá vieram os transportes para os pára-quedistas do BCP 32 e para nós os técnicos especialistas da Força Aérea que iríamos largar o Niassa por tempo que não fazíamos ideia mas, pelo menos, por dois anos.

Mais uma observação ao Porto de Nacala e lá nos dirigimos ao AB5, Aeródromo Base 5, instalado, podemos assim dizer, cercado de cajueiros. Era Janeiro, se não falhar na memória de tantos anos, 25 de Janeiro de 1968.


Mapa da área de Moçambique que vai de Nacala a Vila Cabral (actual Lichinga), com passagem por Nampula e Nova Freixo (actual Cuamba). Nessa caminhada, de 31 de Janeiro de 1968, a viagem foi de Automotora, entre Nacala e Nova Freixo. Foto tirada da Wikipédia de autoria de André Koehne. A utilização deste ficheiro é regulada nos termos da licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada

O calor já escaldava e fomos ao bar beber umas cervejas Mac-Mahon, a cerveja da garrafa verde e, de seguida, dirigimos-nos para junto do T-6 baleado que passou sobre o Niassa saudando os seus ocupantes. Lá estavam os buraquinhos das balas "turras" a dar-nos uma achega para o combate que se avizinhava. Mas ali e durante quatro dias estávamos em paz.

No dia seguinte, como não tínhamos que fazer, quatro malandrecos, resolvemos ir visitar as belas e famosas praias de Nacala. Estava calor e era preciso descobrir o caminho para a praia por entre matos e cajueiros. Um pretinho, puto com cerca de sete anos que andava infiltrado nos meandros da Força Aérea de Nacala, correu para mim e disse-me que sabia o caminho para a praia. Acreditei nele e aceitamos a oferta. Durante quatro dias ele foi nosso companheiro de caminhadas entre o AB5 e a praia, por trilhos de cajueiros e por entre passarada linda que eu nem sonhava que existisse. Para mim, dos mais lindos eram pretos e vermelhos e ainda hoje não sei o nome deles mas tentarei investigar. No seu seio, apareceu, sobre os cajueiros peneirando, um dos meus amigos falcões peneireiros, semelhante aos que me tinham acompanhado por Adrão, há mais de sete anos atrás.

Nunca fui amigo de praias e, além da Costa da Caparica, onde em 1961, conheci o mar pela primeira vez, a praia de Nacala também contribuiu para isso. Apanhei um escaldão que nunca mais esqueci. Todos os dias vinha uma chuvada e eu abusava dessa chuveirada dentro da água do mar, na zona baixa onde os tubarões não conseguiam penetrar. Naquela extensão de águas baixas, não havia tubarão que se aproximasse sem nós os avistarmos mas, quando caiam aquelas bátegas de água, toda a nossa visão era desfeita pelas covinhas originadas pelos grossos pingos da chuva a penetrar na água serena do mar.

Um dia, o último dos quatro, na esperança de fugir ao escaldão, sentei-me fora da areia numas rochas junto de uma falésia, à sombra da falésia e das árvores frondosas que cresciam sobre ela. Na areia caminhavam o pretinho, os meus 3 amigos e três cães rafeiros da base que nunca nos largaram. Onde eu estiver e houver cães, andam sempre comigo. Os sete, caminhavam pela areia da praia, da minha frente para a minha esquerda e, já um pouco afastados à esquerda, quando voou das árvores da falésia, sobre a minha cabeça, vindo de alguns 10-15 metros de altura ou mais, aterrando na areia à minha frente, dirijindo-se para a água da baía, deixando um sulco na areia da praia, onde parecia que tinha passado um arado, como os de Adrão, na veiga, no mês de Maio. Aos meus gritos, os cães ainda o tentaram perseguir até à água mas, junto dela, terão pensado que ali era o mundo do animal e desistiram da tentativa. Dizia eu que era um grande lagarto verde ou se calhar, um jacaré pequeno.

Iguana - Semelhante à minha iguana de Nacala

Mais tarde, nas minhas pesquisas, vim a saber que havia iguanas no Índico e, teoricamente, estava encontrado o animal que me voou sobre a cabeça, numa praia de Nacala. A "fotografia no meu cérebro" foi de tal ordem que ainda hoje vejo as rochas treparem pela falésia acima, as árvores e a provável iguana que vi da minha vertical até à água do mar. Ela fez um grande barulho ao saltar do meio das árvores que eu virei a cabeça e apanhei-a lá em cima, a alguns 10-15 metros da minha cabeça num autêntico voo rumo ao mar. Passou toda aquela zona de pedras onde eu me encontrava e aterrou em plena areia atravessando a areia da praia a grande velocidade.

Depois da grande chuvada e do respectivo duche, iniciamos a subida até ao AB5 e dirigi-me, mais uma vez, à Enfermaria para me tratarem da minha pele rosadinha a tostada, fazendo lembrar as cascas das bananas bravas que vim a conhecer mais tarde nas caçadas do Niassa.

Quando saí da Enfermaria fui caçado para me entregarem a Guia de Marcha para Nova Freixo e receber instruções para ir receber as rações de combate para a viagem de comboio, no dia seguinte, que seria cerca de 15-18 horas. Resolvi ficar-me nas tintas para as rações de combate pois, em tantas estações e pseudo-estações, sempre haveria de arranjar algo para comer, pensava eu.

Mas Nacala não fora só praia! O Nord-Atlas que chegara de Mueda (Terra da Guerra) e sobrevoara o navio Niassa tinha transportado de Mueda para Nacala, alguns "rufiões" da nossa gente, armados em heróis de "combates" sem fim que, durante a nossa estadia por ali, foram autênticos companheiros de jornada, cantando Mueda, Terra da Guerra ... e armando umas escaramuças com representantes demonstradores de fotos da Sofia Loren, um e da Gina Lollobrigida, outro. As fotos destas belas mulheres eram a flor do hibisco para os incautos a que a malta de Nacala renomeara de Sofia e Fedra. A "Sofia" e a "Fedra", abriam as portas dos armários forradas com as belas fotos daquelas estrelas do cinema. Técnicas! Técnicas que os sisudos e duros chegados de Mueda não gostaram e causaram alguns alvoroços. Mas enfim, na guerra há de tudo.

Chegara pois o momento de reiniciar mais uma caminhada na sondagem de outros mundos novos que se seguirá com essa célebre viagem Nacala-Nova Freixo. Iríamos caminhar no coração das gentes macuas.

quinta-feira, 10 de março de 2005

Chegada a Nacala

     Ventor 10.05.05

O Navio Niassa caminhava rumo a Norte
O Ventor observava as estrelas na escuridão da noite, sob o mesmo tecto do meu amigo Apolo e, escanchado sobre milhas marítimas, sabia que para lá desse horizonte que observava caminhando para norte, havia outros horizontes de sonhos para lá daquele que ele observava. Além de nomes já conhecidos dos seus estudos sobre o chão da guerra em Moçambique, ele recordava a Baía de Pemba, a foz do rio Lúrio que iria ser seu companheiro de caminhadas nas zonas das suas nascentes, ficava a foz do rio Messalo por cujas nascentes o Ventor também caminharia e, mais para norte, ficava a foz do rio Rovuma, que servia de fronteira entre Moçambique e a Tanzânia e que seria o limite, a norte, que o Ventor só chegou a ver do ar mas, mais lá para trás.    

Por ali, tinham passado os barcos do Vasco da Gama, rumando a Norte, com os olhos em Calecute e Cochim, protegidos pelos deuses

De repente o navio Niassa, muda de rumo! O Ventor sabia que estava na hora de mudar de rumo, sabia que estaria na hora de ver o seu amigo Apolo ficar para trás, no momento que o Niassa rumaria para Oeste e o seu amigo Apolo veria por baixo dos seus trilhos, a "caravela de ferro", que transportava o Ventor e seus companheiros rumo a bom porto.

A Baía era larga e comprida e o fim, o objectivo final, onde o navio Niassa iria atracar, ainda estava longe. 

Mas o Ventor não pensava na lonjura da amarração do Niassa e preparar a sua descida sobre as terras do Norte de Moçambique. Ele sonhava! Sonhava com o belo Moçambique que estudara durante cerca de 8 meses, na Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa. Todos esses estudos foram avidamente acompanhados com grandes mapas militares de Moçambique, especialmente, a Norte. O Ventor tinha detalhado tudo para a terra que ele já tanto gostava, mesmo antes de a conhecer. Ele sabia, quando o Niassa voltou para Oeste que, a Norte, ficava Mocimboa da Praia, uma das portas da guerra, no Norte de Moçambique. Foi ali que, em 1917, Portugal colocou a primeira esquadrilha aérea de combate, em todo o Continente africano, em 1917-1918, na 1ª Guerra Mundial contra a Alemanha.
Moçambique foi, assim, o primeiro campo do combate aéreo, em todo o Continente Africano, contra a Alemanha.    
O Canal de Moçambique e a velha ilha de S. Loureço, a actual Madagáscar, ficavam para trás.

Enquanto caminhava no Canal de Moçambique, o Ventor sonhava com a Geografia e com a História, duas áreas que ele, nesses tempos, dominava bem. E, desde Lisboa, sonhava com o Niassa! Sonhava com o Niassa, sonhava com os Lusíadas, sonhava com o Canal de Moçambique, sonhava com Nacala e esse objectivo estava a ser atingido. Agora, à frente do Ventor, estava a Baía dos seus Sonhos. A Baía Fernão Veloso!

A quilha do Niassa continuava a abrir águas e prosseguia a sua caminhada rumo ao molhe do seu encosto. Depois de observar as belas águas desta Baía, as suas margens ao longe ou ao perto, com praias brancas de onde todos os seres observavam aquele pequeno monstro (o navio Niassa) carregado de almas que, choravam, no seu pensamento, tudo o que deixaram para trás.
O Niassa encostou no topo daquela sua curta caminhada pois, de seguida, regressaria ao ponto de viragem e recuperaria a sua rota, rumo a norte, ao local onde esteve concentrada a tal 1ª esquadrilha aérea da 1ª Guerra Mundial, em todo o Continente Africano. Isto, porque houve tempos em que, Portugal, caminhava na dianteira de muitos.  

Um camarão que podia ser do Porto de Nacala
Enquanto o Niassa encosta, o Ventor observa as águas da bela Baía de Nacala, a Baía Fernão Veloso. Os bichinhos de que muitos gostam, os camarões (os belos shrimps), apareciam à superfície das águas. A tropa arranjou um belo entretenimento. Deitava pedaços de pão na água e nuvens de camarões apareciam à superfície. Parecia que diziam: "olá, pessoal! Sabemos que têm o Ventor a bordo"!
Eles são amigos do Ventor! Eles sabem que pelo Ventor a sua vida teria um êxito diferente.
Nesse momento, de aglomeração dos camarões, um ronco rasga os céus. Era um avião Nord-Atlas que descia sobre o navio Niassa e, numa passagem baixa, dava as boas-vindas àqueles que viriam a ser seus novos Companheiros de Guerra.
Logo de seguida, vindo das alturas, rasgando os ares, o ronco a rasgar os céus, desta vez, um T-6 (Texano-6). Ele aproxima-se dos mastros do Niassa, o piloto sorri e acena. O Ventor observa o avião e verifica que está furado. Mais tarde, veio a saber que esteve debaixo de fogo de antiaéreas. mas o AB5 esperava-nos para quatro dias de calma, na nossa caminhada.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 1 de março de 2005

De Loureço Marques a Nacala



Ao sair da bela Baía do Espírito Santo e ao entrar no oceano Índico, as cores das águas de superfície ainda se encontravam bem sujas de tanto esfregarem as areias contra as rochas do fundo do mar, ainda influência da antevéspera, dia da nossa chegada à bela Lourenço Marques, a cidade feiticeira. Encostados aos molhes, ficaram os barcos que se encontravam no dia da chegada. Aquele porto era um rodopio e a monção que nos saudou à chegada, não tinha sido nada agradável.

O Ventor e toda a rapaziada que com ele viajava tiveram uma demonstração num bravo ensaio levado a cabo pelo seu amigo Neptuno. Apolo sorria lá de cima e, através das belas acácias, já tinha mostrado ao Ventor como aquela parte da África, onde a Princesa do Índico se espraiava, era linda e assim continuaria, certamente, depois de mais uma caminhada de cerca de 2.000 km.

Estação dos Caminhos de ferro de Lourenço Marques (Maputo)
Lourenço Marques, já ficara para trás e o Índico continuava sujo e um pouco picado, talvez devido ao reboliço do tridente de Neptuno que tanto gostava de marcar presença perante o Ventor.
À medida que o Niassa ia penetrando as águas do mar, o Ventor, caminhando pelo convés do Niassa ia observando, à sua esquerda, a grande costa moçambicana, por onde nos seus sonhos caminhavam manadas de búfalos, leões, leopardos, chitas, rinocerontes, jibóias, impalas e vários tipos de zebras e gnus, bem como toda a outra bicharada que o Ventor levava na sua cabeça. A bicharada que o Ventor tinha apreciado quando através de livros e revistas, comentários cinematográficos coloridos e filmes, foram trazidos até à presença do Ventor e que, em sonhos, o Ventor os retransportava, agora, para as suas origens.
  

Ilha de Moçambique
Rumando a Norte, vendo a quilha do Niassa cortar as águas, o Ventor verificara que todo o seu mundo ficara para trás. Todo o mundo que o Ventor conhecia, já ficara para trás! A sua última réstia tinha sido a cidade das acácias, o fim de tudo. Ali, os seus amigos tinham feito florir as flores desse outro mundo de sonhos, as suas referências. Eles eram os marcos finais da sua Grande Caminhada africana. A partir dali, tudo seria para desbravar! As referências tinham terminado no sítio a que os ingleses, noutros tempos, tinham chamado Delagoa Bay! Mas nós chamamos Baía do Espírito Santo. Avançando mar fora, as referências do Ventor eram, agora, apenas, as históricas.
Observando o Canal de Moçambique, entre a costa de Moçambique e a ilha de Madagáscar, sonhava como teria sido o "surfar" das caravelas do Gama e de outros, naquela mesma direcção. Recordava-se do rio dos Bons Sinais, da corrida de Fernão Veloso, que afoutadamente aceitara o convite dos indígenas para conhecer as suas palhotas tabancas e que, apercebendo-se de algo que não viria a ser nada bom para a sua caminhada africana, resolveu inverter a caminhada e pôs-se em fuga rumo às naus. Como os seus companheiros, vendo-o em fuga, tiveram de ir em seu auxílio, o Fernão Veloso dizia-lhes que corria por os saber lá longe sem a sua presença para os ajudar! Lindos os Lusíadas, agora, o principal meio das minhas referências do grande Canal de Moçambique e da costa moçambicana! 
Primeira residência do Governo Colonial, na ilha de Moçambique
De vez em quando apreciava umas palmeiras sinalizando ilhas ou reentrâncias no horizonte da costa moçambicana e, perdida na bruma aquilo que, segundo os mais conhecedores do Niassa, diziam ser a Ilha de Moçambique. Ela estaria lá! Um dos nossos mais célebres signos históricos da bela terra de Moçambique. Havia por ali uma ilhota com três palmeiras a que eu chamei "as três Marias"! Para lá delas ficava o "interland" de Moçambique, rumo a oeste.  
Forte de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique
Por ali, à nossa esquerda, junto à costa, estaria a bela ilha de Moçambique, perdida nas brumas do Índico, com a sua fortaleza a que deram o nome de Forte de S. Sebastião. Onde os portugueses acostavam, por tempos indeterminados e que, para eles a área tivesse alguma possível função estratégica de ocupação e defesa, havia um primeiro pensamento. Construir um forte! E, a ilha de Moçambique, não iria ser excepção. Ela lá está, bela, incrustada no Oceano Índico, aguardando pelas caminhadas de homens audazes que lhe dêem o futuro que merece.
Capela de Nossa Senhora do Baluarte, na Ilha de Moçambique
Rezar a Nossa Senhora para acalmar as águas do Índico era uma maneira de estar em Moçambique, durante a nossa estadia de séculos. A capela do Baluarte foi construída, em 1522, a norte da ilha que hoje austenta vários edifícios públicos que a Unesco tornou Património Mundial, em 1991.
 
Deixada para trás, à esquerda, escondida na bruma do Índico, a ilha de Moçambique, era mais uma das minhas referências histórico-geográficas que fazia fervilhar a cabeça, balouçando nas ondas do Índico. 
Eu sabia que mais acima, à esquerda, o Niassa iria entrar numa das maiores Baías de África e com as águas mais profundas que, segundo me contavam, nos meandros da Força Aérea, em Lisboa, dava para guardar e ancorar todas as esquadras de então que a NATO possuía. Era por essa baia que o  Niassa chegaria ao Porto de Nacala.

A seguir: Chegada a Nacala

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Chegada a Lourenç Marques

 Ventor 07.03.05

Com a partida do meu amigo Apolo, rumo a Ocidente, o navio Niassa, devido às informações meteorológicas que lhes chegavam, foi obrigado a lançar âncora no Oceano Índico a poucas milhas da Baía do Espírito Santo que, estaria, segundo as informações da costa sul Moçambicana, num grande pandemónio. Ficamos por ali algum tempo que já não recordo mas foi entre duas a quatro horas, o tempo que durou a tempestade de monções que caiu sobre nós e, pelo menos, sobre o sul de Moçambique e parte da África do Sul. Por fim, lá pelo fim da tarde, foram dadas ordens para o navio Niassa avançar, pois a barra da entrada para a Baía do Espírito Santo estaria em condições de receber o Niassa e o seu recheio. Homens e carga.


 Mapa de Moçambique, obtido pela NASA

Lá fomos nós, rumo à bela Baía com águas alouradas da intervenção do tridente do meu amigo Neptuno que tinha revolvido o areal para permitir a entrada do Ventor e da sua gente. A tempestade tinha sido forte e o acesso da Baía de Lourenço Marques ao Índico estava diluviano, embora o termo não se justifique que não seja pela cor das águas e alguma revolta que o tal Adamastor lhe incutiu, revoltando as águas, julgando, com isso, chatear o Ventor.


Imagem de satélite de Maputo (ex-Lourenço Marques) e da Baía do Espírito Santo 

Dançando um pouco, na crista da onda, o navio Niassa afoitou-se ainda com dia, a entrar no estreito do acesso à Baía onde a ondulação das águas revoltas mais pareciam gestos de saudação daquele nicho de espaço, que tinha sido deteriorado pelo nosso irrequieto Adamastor que caminhou sempre à frente do Niassa para fazer uma espera no local onde o Ventor devia entrar em águas azuis e não em águas revoltas e sujas pela revolta do areal, lá por baixo. Tudo bem até o Niassa passar o centro da Baía. Depois, quando navegava preparando-se para seguir até ao molhe onde iria encostar, todos começamos a ouvir, uma de duas coisas: ou o navio Niassa a roçar no areal da baía ou o ronco do Adamastor todo chateado por não ter conseguido os seus intentos. As sereias a cantar, com som tão roncoso, não eram!

Aquele som diabólico vindo das profundezas da Baía metia o seu respeito. De repente e já de noite, apercebemos que não era o Adamastor mas sim o navio Niassa a gritar com o areal para se desviar do seu caminho. Mas o areal tinha sido encostado nessa ponta da Baía, pelos ventos monçónicos furiosos comandados pelo Adamastor, com cujo trabalho conseguiu encalhar o Niassa, mesmo nas barbas de dois navios mercantes soviéticos, no meio dos quais, o Niassa iria encostar.

Para mim, os navios mercantes soviéticos não eram surpresa porque sabia através de um amigo da Nazaré que trabalhava numa empresa inglesa de estiva, em Lourenço Marques e já me tinha dito que isso, por ali, era o pão nosso de cada dia. Mas a meu lado, vi alguns companheiros de caminhada estupefactos por esses navios não chegarem a Lisboa, salvo autorizações muito especiais, quando o rei fazia anos, mas ainda por cima, nós não tínhamos rei!

De repente, dois potentes rebocadores instalaram-se junto do navio Niassa e começaram a utilizar toda a força que tinham para retirar o Niassa de um banco de areias que o velho Adamastor mandou colocar naquele sítio pelos ventos monçónicos. Mas como isso não era suficiente, uma vos gritou: "todos os que couberem coloquem-se na proa do lado direito do barco para conseguirem concentrar peso nessa área e ajudar os rebocadores. Uma mole humana, como sardinhas em canastra, posicionou-se no local indicado e, com o nosso peso e a força dos rebocadores, o Niassa voltou a gemer. Por fim nos 10 minutos do dia seguinte, meia-noite e 10, julgo eu, ou 10 para a meia noite, não tenho a certeza se 10 minutos antes se 10 minutos depois, lá encostamos nós entre os dois carregueiros soviéticos.

Lourenço Marques - Av. Central, em 1905

A noite onde era esperado caminharmos pelas ruas da bela cidade de Lourenço Marques, acabamos por não sair pois tornara-se tarde para isso. A previsão da chegada com o atraso originado pela tempestade e a espera para o Niassa entrar na baía foi de horas. À hora do lanche ou, o mais tardar do jantar, deveria andar tudo a caminhar pelas avenidas de uma cidade que todos desejávamos conhecer.

A tormenta, se assim preferirmos chamar-lhe, durou horas e eu, que levava Lourenço Marques pintado no meu cérebro, não estava preparado para tanta espera. Quando comecei a ver a baía do Espírito Santo, faltava o meu amigo Apolo e as luzes que via eram as mesmas que conhecia por aqui. Pouco mais estaria no meu cérebro que o mapa e nem sequer tinha a opinião do Major Costa que, apesar de conhecer Lourenço Marques, ficara apaixonado por Luanda e pela sua Baía. Mas tinha outras opiniões! 

Monte Gurué, na Zambézia, zona de plantações de chá onde o Ventor perdeu muitas horas a tentar estudar zonas de todo o Moçambique, especialmente, esta. Não que tivesse algum interesse no seu chá, mas em Moçambique no seu todo 

Pelas perspectivas com que fiquei, à medida que o Niassa ia afastando as águas agitadas, penetrando rumo à bela cidade, já mesmo sem a presença do meu amigo Apolo, tudo aquilo me parecia um encanto. Comecei então a recordar as conversas que, cerca de 5 anos antes, tivera com gente que viera a Lisboa passar entre um e dois meses de férias e me diziam: "Ventor, vais ter de conhecer Moçambique. Mal que chegues lá, eu arranjo-te emprego"! Nessa altura ainda eu não sonhava com a Força Aérea. Foram pessoas simpáticas, uma família constituída por gente da Nazaré, o homem e de Braga, a mulher e mais o seu rebento moçambicano, com idade entre os 18 e os 24 meses. Foram eles, mais outros familiares e amigos que inculcaram no meu cérebro um interesse profundo por Moçambique. Por isso, quando parti para Moçambique, já tinha vários mapas, quase perfeitos, de tudo aquilo.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...