sábado, 6 de agosto de 2005

Hienas, em Nova Freixo

  Ventor 06.08.05

Hienas malhadas, as belas amigas do Ventor!

Uma história com o Ventor, em Nova Freixo que contou ao vosso amigo Quico.

Imaginem-se a ver o AB6 (Aeródromo Base 6) quase de noite!

Quando o Ventor caminhava, nos Trilhos da Guerra, por terras de Moçambique, passou, no início, dois meses, em Nova Freixo, no AB6, antes de partir para Marrupa, a 06 de Abril de 1968. Às vezes, estava de serviço, à noite e, nas suas proximidades, apareciam três fabulosos animais africanos.

- Os leões, que roubaram duas vacas guardadas dentro de um redondel, com uma paliçada de tábuas de 2,10 metros de altura, terminadas em forma de lança. Eles andavam por ali e os seus rugidos chegaram a colocar em polvorosa muitos dos habitantes das machambas dos arredores de Nova Freixo.

 - Os leopardos que colegas do Ventor chegaram a ver junto aos aviões, num local onde tinham de passar de noite, junto ao término da luz dos holofotes. Saíam do hangar onde dormiam para o espaço em frente onde, ao relento, ficavam os aviões. Encostavam-se ao arame farpado e só depois entravam no arame farpado, seguindo para o bar, as camaratas e o edifício do Comando.

O AB6, em Nova Freixo em 1968-1970

As hienas que choravam fora do arame farpado atirando para o ar os seus gritos típicos que tão bem se ouvem nas belas noites africanas, diz o Ventor que, ainda hoje, quando ouve o som das hienas, em algum programa de TV, recorda estas belas amigas e as suas caminhadas reais.

Numa tarde de descanso, o Ventor e alguns amigos, decidiram ir até à vila de Nova Freixo onde acabaram de ficar para jantar, pela noite dentro e em festa. Foi uma festa onde só pararam quando constituíram as iniciais da Força Aérea Portuguesa "F.A.P.", em que só cada pontinho tinha quatro garrafas de cerveja de litro, as célebres bazucas!

Como o Ventor sempre gostou de caminhar e, como o Maralhal sempre está disposto a beber mais um copo, disse aos amigos que ia andando até ao batalhão de Nova Freixo, onde eles o apanhariam com o jipe para atravessar aquele espaço terrível, escuro na área central, até à Força Aérea.

Era de noite e de noite não se brinca com animais selvagens!

Estavam todos com os copos e, nesse dia, o Ventor não era excepção e, chegando ao batalhão, vendo que os outros não vinham com o jipe, nem sem o jipe, foi andando devagar e começou a faltar-lhe a paciência para a espera. O jipe não chegava para o pegar até à Força Aérea e ele foi andando sempre, mas de noite, só e desarmado, era muito arriscado mas, como devem saber, com os copos, não há riscos!

Ora a impaciência é inimiga do bom senso e a copofonia era mais poderosa que a paciência, o Ventor deitou o resto do bom senso que lhe restava fora, arriscou fazer a travessia só, pensava ele, mas teve a belíssima companhia de um grupo de hienas que lhe massacraram os ouvidos com a sua tão célebre choradinha!

Hiena, de olho na presa

Na escuridão, fora do alcance das luzes do exército que deixara para trás e longe das luzes da Força Aérea, ainda muito lá para diante, o Ventor foi acompanhado pelas hienas e, algumas vezes, quando tropeçava e caía nos buracos da picada descontrolado pela cabeça toldada pelas laurentinas e os whiskies, elas cercavam-no mas, mal ele se levantava e insultava as hienas com os belos nomes tão utilizados, persistentemente, hoje, nas nossas estradas, ao mesmo tempo que abria os braços em tom ameaçador, elas afastavam-se espavoridas para voltarem à carga seguindo atrás, pelo mato à esquerda e pelo meio do milho à direita, sempre ameaçadoras. 

Depois, já mais perto do Segurança da Força Aérea, junto à Porta de Armas, o soldado da Polícia Aérea, de serviço, ouvia o barulho das hienas e alguém a mandar vir com elas, mas o sentinela, receoso de fazer fogo para o ar, não fossem os seus colegas abrir fogo para o local, manteve o sangue frio suficiente, assistindo ao barulho das hienas e ao "fora daqui, suas ..."

 Hienas em Nova Freixo

Mas o Ventor, ao chegar à Porta de Armas, acompanhado daquelas belíssimas guarda-costas, enquanto houve escuro, olhou para trás e, não vendo nada, perguntou ao sentinela: "onde é que essas cabras se meteram"?

Hoje o Ventor, ainda se pergunta, a si próprio, porque será que as hienas não lhe quiseram dar umas dentadas!

Seria pela sua indiferença perante aqueles terrores de África, levantando-se sempre com os braços abertos e a voz ameaçadora ou seria porque o corpo do Ventor estaria demasiado temperado de sabor a álcool e o seu bafo as desorientava?

Eu sei que ele gostava de saber e eu também!

Vejam no que dão os copos! O Ventor estava habituado a ir da vila para a Força Aérea de noite, às vezes por esse trajecto, o mais adequado e, outras vezes, ia direito às pistas, passando por tabancas onde, nos sábados à noite, os negros dançavam a MARRABENTA, numa doidice tal que, chegavam com os pés, junto ao nariz do Ventor. Depois de sair do meio de toda essa euforia, ainda tinha de atravessar a pista, sítio por onde os leões, os leopardos e as "belinhas" das suas amigas, andavam à babugem de conseguir um bom jantar.

O Ventor diz que, hoje, não faria isso por dinheiro nenhum e eu, só de o ouvir, fico com este meu lindo fatinho peludo que o Senhor da Esfera me deu, todo arrepiado. Mas eu já há muito me apercebi que o Ventor deve ter tido uma tara qualquer. Mas não lhe digam, senão estou lixado!

Mas não! a explicação foi-me dada em sonhos por uma hiena, já mais instruída. E diz a hiena:

Hiena espertalhona

O Ventor julga que uns quantos dos meus antepassados, na velha Nova Freixo (actual Cuamba), não o comeram, talvez porque cheirava a cerveja e a whisky. Francamente, a mim, custa-me a acreditar que fosse por isso. Nós, as hienas, quando atacamos, começamos com umas ladeinhas (nhe, nhe, nhe, nhe ... ) para ver se os animais fogem, mas este animal a que chamam Ventor não fugiu e isso fê-las pensar que a coisa não seria fácil. Para a chefe do grupo, como o Ventor não demonstrou medo o ataque teria de ser mais bem ponderado  não se atrevendo a desencadear as hostilidades porque cada vez que o Ventor caía, virava-se de repente e ameaçava-as e, tal como o Ventor diz, elas só pensavam em fugir, retirando. 

E cada vez que o Ventor se reencaminhava para a base, elas voltavam a querer segui-lo para o atacar. Seja como for a chefe do grupo acabou por desistir, concluindo que os animais de duas patas têm a carne podre, até para hienas.

Foi isso que aconteceu.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Newky, o Mabeco

  Ventor 06.07.05

Uma família quase perfeita ...

... e mais uma história na savana

Newky, o Mabeco

Segundo o Ventor, Newky, era o herói da família, do grupo, da espécie!

Na savana, a luta pela sobrevivência, era total. O mundo da savana é constituído por quilómetros e quilómetros de ervedos pardos e secos, o capim, em clareiras abióticas e pequenas depressões, onde, os animais selvagens, numa luta terrível, jogam, constantemente, a sua sobrevivência! Vou falar-vos dos cães caçadores, Lycaon pictus, de pêlo malhado, olhos cor de âmbar, orelhas grandes, arredondadas e erectas, adornando os seus crânios maciços, com masseteres fortes e poderosas maxilas, de pelagem hirsuta, de caudas erguidas como bandeiras ao vento, beijam-se (lambendo-se) como se tudo que há de interesse na sua vida, fosse uma permanente parada de amor. Agitam as caudas golpeando o ar numa saudação comunal e tumultuosa com um ar social e disciplinado.

Diz o Ventor que os cães selvagens ou mua muitu (nome swaíli) são os caçadores sociais mais comunitários e interessantes de África!

A savana é o mundo dos cães selvagens

Este foto da autoria de Brian Gratwickle, foi tirada da Wikipédia.This file is licensed under the Creative Commons Attribution 2.0 Generic

São corredores infatigáveis e campeões da resistência entre a fauna africana. Numa toca, algures numa savana de África, foi criada uma nova matilha de 12 animais dessa espécie. No seu seio apareceu, bem determinado, desde o seu tempo de meninice, o Newky.

Newky estava sempre alerta contra os perigos e era sempre o primeiro a dar as boas vindas ao clã que partira determinado para as caçadas, meio único para a sobrevivência da família e do grupo e, agora, vinha com o "farnel" para os mais pequenos e os seus "monitores da creche". Na porta da toca, a mãe sempre a chamar-lhe a atenção para os perigos que rondavam, por terra e pelo ar, como hienas, leopardos, chacais, leões e águias, nos seus primeiros tempos de vida. Mas ele estava no seu mundo.

Estão a chegar, mais uma vez, os caçadores do grupo e, lá vai o Newky, sempre na frente, para recebê-los, numa sempre gloriosa festa de boas-vindas! Recebe o seu quinhão de carne e é beijado (lambido), persistentemente, por todos os que se aproximam das tocas, eufóricos, dando graças ao "seu Deus" por lhes ter sido permitido, mais uma vez, congratularem-se todos juntos por continuarem a existir nesta vida dura e atribulada que lhe foi predestinada. Newky, salta, empoleira-se no seu Maralhal e dá graças ao Senhor da Esfera por continuar, dia após dia, na expectativa de fazer parte deste grupo destemido que cruza distâncias sem fim, na procura de continuar a ver Apolo aparecer, disfarçado de bola de fogo, por entre o capim do horizonte, no meio das acácias!

Newky, sempre alerta

Newky, cresceu e está a fazer-se um autêntico mabeco e já começa a acompanhar os caçadores mais velhos, sempre na expectativa do perigo, sempre determinado na luta colectiva, pela sobrevivência da sua comunidade. Mas a comida começa a faltar, a seca empurrou os outros animais selvagens para longe e a sua existência e do grupo, começa a correr perigo. Assim, vão ter de recorrer à caçada do gado doméstico! O Newky aproxima-se do arame farpado. Torneia-o e tenta entrar mas, apercebe-se do perigo e, com mais ou menos audácia tenta levar a família a sobreviver durante os tempos difíceis de um ano de seca.

Porém, diz o Ventor, algo correu mal! Uma moléstia ataca a família e Newky faz cálculos e mais cálculos, achando por bem manter-se um pouco afastado mas, sempre tanto quanto possível, tentando, conjuntamente com os mais capazes, arranjar comer para a comunidade que começa a definhar.

Newky, na sua solidão.

Ele era um lutador destemido que nunca esquecia o seu grupo

Doentes e fracos, pouco podem fazer para restabelecer as forças do grupo e Newky, sem descurar o ambiente comunitário em que foi treinado, começa por se manter à distância, uma vez que se apercebe de que espécie está em perigo. Vê morrer todos, um a um e, por fim, sente-se só e triste, no mundo miserável que herdou. Foram-se os latidos dos pais, dos irmãos, dos tios, das tias e de todos os seus companheiros e sente que tudo acabou. Mas, determinado, avança, só, pela savana e procura companhia da mesma espécie. Durante algum tempo, sobrevive sozinho, nada fácil, no meio de tantos inimigos. Mas os outros grupos também tiveram os seus problemas.

Newky acaba por ser bem recebido por outra comunidade e acabou por tomar o seu comando. No seu novo grupo, arranjou uma companheira e passou, no meio de grandes dificuldades, a organizar o clã!

O Newky, começou a organizar as caçadas pela sobrevivência do seu novo grupo que se tornou temível em toda a savana. Eles atacavam gazelas, gnus e até zebras, de preferência, os poderosos machos territoriais, aqueles que lutam pela defesa do seu território e que, por isso, por não fugirem das zonas demarcadas, eram os mais fáceis de apanhar! Lutavam pela família e não queriam perder uma polegada do que era seu.

Zebras, como no Revia

Newky, era determinado. Deu luta às hienas e até aos leões que lhe roubavam a caça. Por isso, organizava batidas e vencia tudo o que se lhe opunha porque, era um chefe organizado e destemido. Mas uma vez, numa refrega entre cães selvagens comandados por Newky e um grande grupo de leões, as coisas correram mal. O seu companheiro, tido como o seus braço direito, nunca mais voltou e, pensa-se que terá sido morto na luta e Newky ficou com a sua parte esquerda do peito, no externo, junto ao coração, todo dilacerado, pela dentada de um leão muito feroz. Newky foi todo lambido pelos companheiros numa missão de tratamento medicinal e aguentou-se, mas os tempos de fome voltaram e a luta pela sobrevivência tornou-se atroz. Newky, ainda combalido daquela terrível dentada, levou a sua matilha à procura de sobrevivência para os lados dos gados domésticos!

Newky, morreu só, num cantinho da savana

Mais uma vez, as dificuldades, o horror da fome e, provavelmente, a doença, a raiva propagada pelos cães domésticos dos pastores, recomeçou a dizimar a família de Newky. Algures, numa depressão da savana, tombou, para sempre, o destemido Newky - o Mabeco - por quem as gerações futuras continuam a chorar e vão passando latidos de geração em geração, na tentativa de não deixar morrer o nome e a glória daquele que sempre tudo fez para manter unido aquele grupo da comunidade mais social de todas quantas há por terras de África!

Assim, tal como o Ventor, eu Quico, digo adeus ao Newky!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 5 de junho de 2005

Duelo na Savana

 Ventor 05.06.05

História de um búfalo, a que o Ventor chamou Lumi

Olá, amigos!

Lumi era um búfalo amigo do Ventor.

O Ventor e o Lumi conheceram-se nas margens do Rio Lugenda.

Agora, o vosso amigo Quico, vai contar-vos esta história, tão linda quanto terrível, que ouviu ao Ventor. Como já sabem, ele esteve naquela famigerada guerrinha. Foi ali que aprendeu muito na vida! Só vos posso contar algumas coisas porque o Ventor não gosta muito de falar disso. Mas vai-me contando algumas histórias e eu filtro-as para vocês!

Contou-me, por exemplo, esta história a que chamou - Duelo na Savana

Diz o Ventor que histórias na savana se desenrolam todos os dias e há poucos que as contam porque, para além dos entretimentos nos safaris, há pouca capacidade para dar a conhecer aquele mundo belo, mesmo que selvagem.

A vida dos safaris é para ricos, tipos com grana, como dizem os nossos irmãos de além Atlântico. Depois dos safaris, o que querem é sopas e descanso e partir para outras caçadas que, o Ventor, a partir de uma certa altura, repudiou!

Mas, nas savanas, a vida é dura para os nossos lindos amigos que por lá caminham todos os dias. E, desta vez, eu vou contar-vos a história do Lumi, um búfalo de que o Ventor muito gostava.

Imaginem-se a olhar leões nas margens do rio Lugenda, olhando-vos, já ao cair da noite!

Lumi, nasceu no meio do capim, num vale da serra de Mecula, bem juntinho ao rio Lugenda, no norte de Moçambique. E, Lumi, poderia ter-nos deixado muitas histórias da sua vida se, por acaso, soubesse ler e escrever mas, os búfalos, ainda só têm a escola da vida. Vida dura, embora o seu trabalho seja só comer e dormir, pensarão muitos de nós. Mas não! A vida do Lumi foi como a vida de todos os búfalos e como a de todos os animais da savana, uma luta permanente! Ele nasceu lindo! Sua mãe começou logo a limpar-lhe o "fato" com que se apresentou perante Apolo, o amigo do Ventor e de todos nós e, ao ver o céu azul, "a tenda de Apolo", terá exclamado: «assim vale a pena»!

Este pequenino, podia ser o Lumi

Reparou que, à sua frente, os pastos eram verdes e, terá pensado que, no meio daqueles vales, tudo continuaria lindo e valeria a pena viver a vida de búfalo. Quando olhava para a sua mãe considerava-a uma bisarma, cheia de grandeza e força. Imbatível!

De repente, Apolo, o amigo do Ventor, na sequência da sua caminhada, partiu e Lumi apercebeu-se que à sua volta a escuridão era enorme. O terror apossou-se de Lumi. A sua segurança era apenas o cheiro de sua mãe e Lumi, sempre com a cabeça encostada à sua perna dianteira, nunca a largava no meio daquela escuridão horrenda. Ao fim dessa tormenta, começa a raiar, no horizonte, uma ténue luzinha e Lumi começava a observar os pontinhos brancos, no tecto da tenda. De repente, a leste, no horizonte, voltou a nascer outro sol e, ao romper da manhã, toda a família e amigos se espalhou, a comer a erva tenra. Lumi só tinha sentido para os tetos da mãe e não percebia aquele menear de cabeças à sua frente, pelo vale que desce encostas até às águas límpidas do rio Lugenda, numa azáfama permanente e sempre a dar ao dente.

O calor começou a subir e todo o seu Maralhal se começou a encostar pelas sombras frescas do grande arvoredo. Ali, mais em baixo, as águas do Lugenda, caminhavam ao encontro do seu receptor, o rio Rovuma e reflectiam nos grandes montes, a gloriosa luz de Apolo, o amigo do ventor.

Búfalos, sempre alerta!

Assim, por trilhos maravilhosos, Lumi ia crescendo e caminhando, dia após dia, ano após ano, ao lado de sua mãe, a quem prometera ser seu guardião e, também, ao lado dos perigos que povoam a savana.

Quando os aviões de guerra se aproximavam, fazendo passagens baixas sobre os vales e montes que se debruçavam sobre o Lugenda, o seu ronco, demoníaco, quebrava a monotonia e sossego à família de Lumi. Mas Lumi aprendeu que os aviões do Ventor não faziam mal à sua família e, por fim, ele já se levantava num pulo, sacudindo-se todo, cabriolando, à passagem do Ventor e seus amigos e orneava num som semelhante às vacas da Assureira do Ventor, como que a dizer: «salvé Ventor, verdadeiro rei das savanas, amigo da minha "gente" e da nossa terra que se espalha por todos os vales do Lugenda»!

A velhice, companheira da solidão. É na solidão que o búfalo perde o seu último combate

Nas margens do Lugenda, cheio de água pura nos tempos secos, ou nos lamaçais das suas margens nos tempos de águas revoltas provocadas pelas chuvas, os búfalos, companheiros do Lumi, sabem que devem permanecer sempre alerta, em defesa individual e do grupo, para tentar permanecer tanto tempo, quanto possível, a pisar os capins da savana.

Os anos foram passando e Lumi e os seus, tinham por adversários terríveis, os poderosos leões que, sós, em nada os atemorizavam mas, em grupos, eram demoníacos. Assim, desde pequenino, Lumi viu ficar para trás os menos capazes, por velhice, por doença ou feridos em lutas nupciais, tal como os bois fazem pelos vales da serra de Soajo. Sua mãe, que muito bem o soube tratar e ensinar, tinha-o preparado para a vida de terror que se vivia na savana. Mas sua mãe, já tinha deixado o grupo para sempre e Lumi recordava como ela tinha sido trucidada por um grupo de leões com os quais travara a sua maior luta de sempre em defesa daquela que lhe dera a alegria de se tornar o grande búfalo, "senhor" da savana.

Luta de morte - tudo à volta são leões

Foto tirada da Wikipédia de autoria de Caelio. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license

Lumi cresceu, no meio dos seus, nessa luta permanente, entre os vários habitantes que, juntos, disputavam o seio da savana e, mais tarde, constituiu família que ajudou a alargar o seu grupo e com outros grupos acabaram de povoar, bem povoada, de belas manadas, as montanhas da região de Mecula e de todo o Lugenda que, em grandes manadas, como as "vezeiras", no Soajo, caminhavam ao sabor do crescimento do capim, como verdadeiras máquinas enfardadeiras!

Quando as máquinas do Ventor apareciam nos ares dos seus domínios as manadas constituídas por búfalos novos e outros mais atemorizados, corriam por baixo, por entre árvores e arbustos, deixando para trás um lastro de pó que subia, no ar, como o fumo de uma queimada!

Lumi, durante os seus anos de uma vida forte, caminhava sempre, junto dos seus, velando pela segurança de todos, estando sempre na frente da manada, na luta contra os leões esfomeados. O grupo do Lumi, numa terrível luta com leões, na defesa de sua mãe, chegou a isolar um leão de um grupo de 12 e desfazê-lo à cornada, lançando-o pelos ares de cabeça para cabeça, como se fosse uma bola, até o desfazerem todo. Esta foi a maior luta do Lumi! Mas a vida, na sua caminhada pelo tempo, prega-nos partidas a todos e Lumi não foi excepção. A velhice começou a apoderar-se de Lumi e, nas suas pernas, começou a faltar-lhe a força de outrora. Começou a ficar para trás, isolado, tentando apanhar mais umas ervas, deixando de acompanhar a manada, como sempre deveria ser feito. A velhice é meio caminho para o isolamento, para a solidão e, desta, para a morte.


Mais um pouco e apanh

Apanhámo-lo

Faltam as forças e com elas a vontade de prosseguir nos mesmos trilhos da vida e isso leva a que um grupo de leões cerque o Lumi e não lhe dê oportunidade de fuga porque, à sua volta, estava a força da morte constituída por 10-12 leões e as suas pernas já não podiam partir para as lutas de que sempre tinha feito parte para salvação de todos. Agora, Lumi, estava só!

Lumi tenta defender-se à cornada, mas este gesto que obriga os leões a um movimento permanente, também o vai cansando. De repente um leão salta-lhe para cima do lombo e começa a morder-lhe a coluna, outro agarra-lhe o rabo, outros vão mordendo por onde podem e, as últimas forças das pernas do Lumi são para se manter de pé, não se deixar cair porque, logo que caia, tudo terminará! Lumi consegue berrar alto pelos seus companheiros e, dois deles, filhos do Lumi, voltam para trás, em direcção do chamamento e vêm Lumi, de pé, com seis leões agarrados a ele e outros tantos a tentarem tomar posição.

Os dois búfalos investem furiosamente sobre os leões, enquanto outros se aproximam. Os leões debandam espavoridos e o velho Lumi a sangrar por vários pontos do seu corpo, sem nunca ter caído, não tendo dado chances de lhe agarrarem a garganta, tenta ainda investir contra os leões, mas mal se mexe. Os dois filhos e outros amigos levaram-no a tentar apanhar a manada e os leões, já cansados, ficaram para trás a vê-los partir.

Quando no chão, já pouco ou nada há a fazer

Lumi foi metido no meio da família e dos amigos mas, o calor apertava e, ao cair da tarde, têm de ir beber água às margens lamacentas do rio Lugenda. Descem todos rumo ao rio e empanturram-se de água. Sede saciada, preparam-se para partir mas o grupo dos leões acompanharam-nos ficando na sua retaguarda, deitados, a vê-los beber. Sai tudo da água e tomam o seu rumo mas, na saída dos últimos, estava o Lumi.

O Lumi tinha dificuldades em sair da água. As pernas estavam atoladas nos lamaçais, continuava a sangrar das dentadas dos leões e o seu corpo tornava-se cada vez mais pesado. Quando os últimos búfalos estavam a sair da água, os leões continuavam com o olhar no Lumi.

Alguns búfalos voltam atrás para ajudar o Lumi, mas ele não tem forças para sair. Um búfalo investe sobre os leões, outro segue-lhe o encalço e outros preparam-se para lhes seguir o exemplo, os leões que eram muitos fogem, mas duas leoas intrépidas entram, água dentro, e atacam o Lumi dentro de água pela última vez. Lumi sem forças e com as pernas presas nos lamaçais, não aguenta o impacto e cai. Uma leoa ferra-lhe os dentes na grande garganta e a outra segue-lhe o exemplo e, Lumi, debate-se, mas preso no lamaçal pisado, cheio de buracos, nada consegue fazer.

Foto tirada da Wikipédia de autoria de Corinata. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license

Morte de uns, satisfação de outros. É este o lema na savana onde a luta é atroz. Na savana, até os mais fortes caem nas garras dos mais fracos. Apenas é necessário saber aguardar o timing

Os búfalos que foram atrás dos leões regressam, olham a água e vêm que já nada conseguem fazer pelo seu velhadas. Enquanto a sua veia jugular se esvai em sangue, Lumi ainda os vê quando o branco do seu olho começa a tomar posição sobre a pupila negro-castanha. Ele olha as árvores da margem, olha os amigos e vê, pela última vez, o céu azul daquele que tinha sido o seu mundo. No seu último suspiro ainda terá dito: "adeus companheiros"!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma Pantera Negra em Marrupa

 | Ventor 18.05.05

Uma beleza na savana!

Algures por terras de África , mais precisamente no Planalto de Marrupa, encontrei, em plena noite, uma Pantera Negra! Foi no verão de 1968, cerca das duas horas da manhã, numa noite de luar e Diana disse-me: "essa é tua Ventor"!

Na noite da savana, a nossa pantera negra possuía dois olhos como duas lanternas, de costas para Diana e virada para o nosso jipe. Estática, nada enxergaria encandeada pelos faróis máximos que o Tavares apontou sobre ela. Só, na noite do tempo, perante luzes tão fortes, aquele animal, negro e belo, fazia reflectir no pêlo brilhante do seu lombo a luz que Diana sobre ele fazia incidir. Era uma imagem majestática, apenas denegrida pelo despudor do Tavares em atirar com o Jipe para cima daquela imagem inolvidável!

Pantera negra

Uma beleza em África

O Tavares, condutor da FAP no AM62, dava a impressão que morria de pavor frente a esse bicho! Nessa altura, o Tavares, estava habituado a outra Pantera Negra, mas essa era pacífica e imaginária - o nosso Eusébio - e essa outra, que ele tinha, nesse momento, na retina e em frente do nariz, era real, verdadeira e sabe-se lá, perigosa até quanto!

Nessa noite, ouvi, na rádio da Força Aérea, um apelo de guerra! Algures, no meio da selva, lá longe, as nossas tropas pediam ajuda. Eram cerca das duas da manhã de uma noite linda que até fazia dó! Na noite brilhante, Diana espraiava-se sobre a selva, linda como sempre, ou mais linda que nunca! Meti um papel no bolso de uma camisa de café com leite, dirigi-me às camaratas e fui acordar, de mansinho, o Tavares, condutor de serviço no AM62, após várias tentativas de comunicar, por rádio e telefone magnético com o Comando militar mais Central e avançado de Moçambique, sem sucesso. «Tavares, acorda», disse-lhe. "Tens de ir comigo ao comando do Sector Echo"! O Tavares olhou o relógio e nem queria acreditar! "Estás doido? A estas horas? Quem vai mais"?

"Não vai mais ninguém. Vamos os dois e não temos medo. Arranca"! O Tavares era um homem do Norte, algures de Trás-os-Montes e achava, como muitos outros, que estava a desperdiçar a sua juventude, naquela guerra pantanosa de África. A refilar, foi-se levantando, esfregando os olhos, vestindo-se, calçando-se e, mal humorado, ia olhando o relógio, como que com esperança que o nosso amigo Apolo se adiantasse na máquina do tempo!

"És doido! Sozinhos, daqui até ao fim do mundo com leopardos, leões e tantos bichos que, se calhar, nem sabemos que existem; num jipe aberto, em plena selva, numa picada de caca, que nem dá para dar a volta para trás! E aqueles gajos todos a dormir e os meus pais sem saberem os perigos que o filhinho deles corre, nesta noite linda e brilhante de luar mas que, para mim, é mais negra que a África"!

O fim do mundo do Tavares, eram cerca de uns míseros 15kms até à localidade e mais um pedaço até ao comando do Sector E.

A meio da picada, o que o Tavares mais temia! Um leopardo! Só que, destes, ele nunca tinha visto. Preto retinto - "a nossa pantera negra" - disse-lhe. Estava atrapalhada com os faróis do jipe, estática no meio da picada. Pensei não fazer fogo e disse ao Tavares para ter calma e permitir que o bicho fugisse, mas não! Acelerou a fundo e partiu para cima dela! Pareceu-me ouvir o impacto do jipe no bicho mas talvez tenha sido impressão. Apesar do luar, era uma zona de árvores sobre a picada e fazia-se algum escuro com as sombras, mas eu não me apercebi por onde o bicho fugiu. Será que se safou a nossa pantera negra?

Prosseguimos. De arma feita ao fogacho, eu observei a floresta, em volta, mas nunca mais vi nada e voltei-me de repente para trás para defender a nossa retaguarda de uma possível investida, ao mesmo tempo que me apetecia apertar o pescoço ao Tavares pela mariquice de atirar com o jipe para cima de uma raridade daquelas! Pela única vez na minha vida, que tive oportunidade de ver uma pantera negra, na selva, em plena noite, e não tive a oportunidade de melhor apreciar, tão grande e tão raro valor cinegético, para transportar nas minhas retinas, com mais força e clareza, pela vida fora.

Depois de ver um animal semelhante a este e toda a sua desenvoltura à luz do luar de Marrupa, ainda hoje lamento a insensatez do meu companheiro de guerra que era um bom rapaz mas, demasiado insensível para tão bela, embora arriscada, caminhada. A zona era perigosa, relativamente aos animais selvagens e não só, mas era perfeitamente viável deixar a nossa pantera prosseguir na sua caminhada e vê-la reentrar nas lânguas da sua savana!

Imagem trabalhada de uma pantera negra. Na noite de Marrupa, com um luar muito fraquinho, quase só víamos os olhos

O Tavares, tal como eu, sabíamos que o jipe aberto não nos dava a mesma garantia que um jipe fechado. Mas o risco era o pão nosso de cada dia. Naquele local, eu só, armado e quatro cães, em pleno dia, fomos apedrejados por 18 macacos! Consegui recuar e entrar na picada sem dar um único tiro.

Ao chegar à porta do Comando do Exército, o Tavares achava que eles não nos iam abrir a porta, mas enganou-se. Abriram-nos a porta e ainda fizeram do Tavares um herói por tentar atropelar o nosso bicho negro - a nossa pantera! Enquanto eu e o Oficial de Dia decidíamos se devíamos acordar o Comandante do batalhão ou não valia a pena, mas valeu, e tomei nota da ajuda que eles iam precisar da parte da Força Aérea, ao nascer da aurora. O nosso amigo Tavares já tinha quase toda a unidade acordada com a sua história da nossa pantera. Quando me viu sair direito ao jipe e digo "vamos", verifiquei que as suas pupilas estavam atormentadas e que toda a valentia que ali exibira, se tinha esfumado num ápice!

"Sózinhos"!? Perguntou o Tavares. "Sim! temos a pantera à espera", disse-lhe.

Voltamos a fazer o trajecto ao contrário, sem ver mais qualquer pantera negra, cor de rosa ou de outra cor qualquer!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Grandes Vitórias

  Ventor 18.03.05

Tantos combates!!!

Amigos, pedi ao Ventor para me falar da guerra no Ultramar, no caso, Moçambique, e ele não deixou de me falar das suas grandes batalhas.

Depois de andarmos a rebolar pelo chão da sala e de o ouvir, atentamente, arranjei maneira de vir até aqui falar-vos desses "Tempos de Guerra".

Oiçam só!

«Pois, Quico, tempos de guerra!

Lembro-me bem dos tempos que fiz guerra a inimigos visíveis e invisíveis e foram todos os tempos em que o cheiro a pólvora era o cheiro que predominava. Os inimigos eram mais que muitos mas, quase sempre, não eram visíveis à vista desarmada, nem de dia, nem no escuro da noite. Todos eles usavam as técnicas do "bate e foge" e esperavam, pacientemente, a sua vez de caírem sobre a presa ou de bruços, no solo da terra amada, ou terra estranha, conforme os casos. Por vezes, os inimigos tinham muitas facetas, mesmo aquelas que, de repente, não são imaginadas!

Pois vou contar a história dos mais temíveis inimigos que muitos de nós (todos?), tivemos em África, no caso, por terras de Moçambique.

Quando cheguei a Nova Freixo, uma vila bastante linda e progressiva naqueles confins moçambicanos, em pleno mato, não se notavam os inimigos esperados e nós, os que por ali andávamos, estávamos instalados no Aeródromo Base 6 de apoio recuado às linhas da frente, no Distrito do Niassa, só ele, bem maior que Portugal Continental. Cantávamos por lá, mentalmente, uma espécie de canção que os americanos cantaram quando partiram para a Defesa da Europa Democrática das guerras totalitárias de umas outras gentes que eram apodadas de "bochs". - «Over there! Over there»! Isto na primeira Guerra Mundial, muitos anos antes. Ora nós também chegamos ali com o nosso "over there", na mente.

O nosso hangar, em Nova Freixo. Ele serviu de nossos aposentos durante bastante tempo. Era lá dentro que dormíamos, homens, aviões, bombas, melgas, percevejos, pulgas, ... !

Assim era! Dali, nós partíamos sobre o grande Niassa e, no "over there" da nossa imaginação, caminharíamos direitos a perigosos "poços da morte" das zonas mais perigosas das lindas terras do Niassa! Mas, antes, tínhamos um treino! Aprender a conhecer todos os inimigos com que deparássemos. Combater as doenças, como o paludismo, aprender a viver as agruras da África negra e aprendermos, também, a respeitar todos os inimigos que, a qualquer momento, poderíamos enfrentar por aquelas paragens.

Então vou falar-te desses inimigos devastadores - melgas e percevejos!

Nas primeiras noites que chegamos a Nova Freixo e durante os dois meses que lá permaneci, até à minha partida para Marrupa, tivemos de partilhar o Hangar com os aviões e o armamento. Havia um grande Hangar com dois grandes portões corrediços por onde entravam e saíam os aviões. Lá dentro dividia-se em vários espaços. No grande espaço central a seguir aos portões, ficavam alguns aviões. Lá mais ao fundo, ficavam as nossas camaratas. À esquerda ficavam as casas de banho e outras coisas e, à direita, ficavam os serviços de manutenção e de Armamento (a «Academia Bruno» de que te falarei um dia).

Homens a um lado, aviões a outro, bombas a outro! Mais para o interior do arame farpado trabalhava-se, numa grande azáfama, na construção de novas camaratas que viriam a tornar-se em verdadeiros Sheratons para a rapaziada. Reconstruía-se ou alargava-se a cozinha, alargava-se o nosso novo e belo "restaurante", planificava-se mais um Bar, enfim, um autêntico progresso de crescimento no alargamento da ocupação militar que, à época, se julgava eterna.

Este é um dos muitos mosquitos que é amaldiçoado neste mundo - o mosquito do Nilo (já chegou ao Algarve, lembram-se?)

Não havia tiros, mas o pior estava junto de nós. Eu e todos os outros, passamos noites inteiras à estalada nas melgas. Elas pareciam-nos autênticos Scuds a cruzarem o deserto, zzzzzzzzzzzz, picando em direcção à nossa cabeça e nós, pobres coitados, esbofeteávamos nelas e na parede. Meio a dormir, meio acordados, limitávamo-nos a dizer - toma!!!!

Eu cheguei a pensar, perante a nossa impotência que, àqueles bichos, a morte causada por uma chapada desprezível seria a nossa grande afronta a animal tão ruím! ZZZZZZZZ ... Praz!

Mas não era tudo! Havia mais. Percevejos! Já ouviste falar? Não? És um felizardo! A tua guerrinha limita-se a duas ou três pulgas que a tua amiga Tara trás cá para casa, até o Ventor dar cabo delas com uns remedinhos que inventam por aí. Nós, lá, fazíamo-lo com JP1 e C-130, combustíveis de helicópteros e de aviões.


 Outra espécie de mosquitos

Pois! Lá vinham eles Hangar dentro, rastejando, olhando de lado, com aqueles olhos vesgos, a figura dos aviões e pensando que era por causa daquelas máquinas imponentes que, eles, reles animais dos capins, fariam grandes festins à custa do gotejar do nosso sangue!

Coça daqui, coça dali, vira e revira, pelo ar melgas, pelo chão percevejos! Como derrotar estes devassos? Remédios? Dera-os Deus! À chapada era impossível, já nos bastavam as melgas. Então que fazer? Fogo!!!! Para que raio o homem inventou o fogo?

Misturem JP1 com C-130 que dá um belo veneno para os matar! «O caraças! Eu trato-os»! Roupas e colchão fora da cama! Pá, pega nesse lado, vamos levar esta espécie de cama lá para fora. Recipiente com combustível, cama bem regada - fogo!!! "Eu também quero, eu também quero"! E assim por diante. Fogo!!!! Durante alguns dias ficávamos sem percevejos e, de quando em vez, fogo!!!! Derrotávamos parcialmente os nossos inimigos mas, por pouco tempo!

Tinha-me lembrado da Autobiografia da Raposa do Deserto - o Marechal, alemão, Romel, Comandante do África Corps que tinha lido antes. A mulher escrevia-lhe e pedia-lhe que tivesse cuidado que se constava que os ingleses cada vez se reforçavam mais e, por isso, à medida que o inimigo dele se reforçava, ele iria ter mais dificuldades, etç. etç.

E ele respondia-lhe: "querida Lu, não tenho grandes inimigos por aqui! Tenho, realmente, um inimigo terrível, bem pior do que os ingleses e muito mais difícil de enfrentar e, até me parece que nunca seremos capazes de o levar de vencida - o percevejo"!

Mais ou menos isto e dizia também que o tenente "qualquer coisa", estava a travar a maior batalha da vida dele - a luta contra os percevejos. Queria regá-los com gasolina mas ele não podia permitir porque, gasolina para si, era melhor que ouro!

Eu lembrei-me disso e verifiquei que a gasolina sem nós, não teria significado. Por isso, ou chegava para queimarmos os percevejos ou, o melhor seria pegarmos as malas de volta, rumo a casa.

Grandes vitórias, pá»!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

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