terça-feira, 14 de março de 2006

Companheira de Guerra

 Quico e Ventor 14.03.2006

Em Tempos de Guerra e, integrada neles, uma bela Companheira de Guerra!

Para os Duros do Niassa: imaginem que estão a sonhar com o AM 62 - Aeródromo de Manobras 62, em Marrupa, no ano de 1968 e, estão a vê-lo de noite. Tenho de procurar o nosso Bar - o Calhambeque - para bebermos umas laurentinas.

Pois é amigos, o mundo dos homens é, realmente, muito complicado! Este Ventor põe-me maluco só em fazer-me pensar pelo que eu poderia ter passado se fosse homem, da geração do Ventor, no século que passou!

O Ventor disse-me que podia escrever aqui, parte da sua caminhada por África, em Tempos de Guerra. Mas não devia contar mais que o estritamente necessário para dar a conhecer às gerações futuras, partes inesquecíveis do nosso (vosso, de homens) passado colectivo. Eu sou gato, fico de fora!

Por isso, continuarei a falar da caminhada do Ventor, em Tempos de Guerra, nos seus contactos com os animais de África mas, também, da sua caminhada nos trilhos da Guerra, cheios de alegrias e tristezas, mortes de uns e uma vontade enorme de viver, de outros. Xiu!!!! Aqui para nós, eu sei que o Ventor chorou em África.

Para isso vou começar a falar da Guerra, introduzindo aqui, uma das mais belas companheiras que o Ventor nunca teria imaginado se não fosse real.

Não vou dizer aqui o seu nome mas, ela foi a melhor companheira de guerra que um combatente poderia imaginar! Também tenho uma foto dela mas ai de mim se a colocasse nesta janela para todos olharem!

Como? O Ventor diz que posso dizer que o nome próprio dela é (era) "Íris" e que, quanto à fotografia, posso representa-la por esta flor.

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Imaginem que esta flor foi a Companheira de Guerra do Ventor

Então, o Ventor começa assim:

«Um dia, na Ota, na Base Aérea 2, recebemos uma montanha de cartas de várias universidades americanas. Um dos meus Companheiros de Guerra, conhecia alguém na Embaixada Americana, em Lisboa, creio que o Adido para a Imprensa e, através dele, enviou uma mensagem para um jornal dos States, creio que o New York Times, que rezava assim: "soldados alunos da Força Aérea Portuguesa, da Base Aérea 2, Ota, pretendem corresponder-se com alunas das universidades americanas ... " - em inglês, claro!

Uma tarde, eu entrei na Camarata onde havia uma grande algazarra e, esse meu Companheiro de Guerra, tinha, em cima da cama, literalmente, uma montanha de cartas. Todos mexiam naquele grande bolo de papel e ele, como senhor do dito, dava as suas instruções, no sentido de distribuir, fatia a fatia, por todos. Olhei apressadamente e ele disse-me; "pega aqui numas quantas, lê e escolhe! Eu ri-me, deitei a mão pelo meio delas e apanhei uma à sorte. "Só"! - Perguntou-me ele. "E chega-me" - disse eu. "Pensa que não tenho que fazer"?

Eles continuaram a algazarra que, afinal, era muito simples. Escolher as cartas com origem em determinada Universidade. Uns queriam a, outros queriam b e assim por diante mas, eu, tirei à sorte! Saiu-me uma bela menina da Universidade de S. João de Porto Rico.

Um ou dois dias depois, abri a carta que era uma simpatia para qualquer de nós. Li, reli e voltei a ler e, depois, perguntei-me, a mim mesmo, "porque não"?

Escrevi à menina que se prontificou a ser animadora das nossas juventudes nas guerras africanas e, posteriormente, teve a coragem de me seguir, por correspondência, durante mais de quatro anos. Ela contava-me a sua vida, na Universidade de S. João de Porto Rico e eu, contava-lhe a minha na Força Aérea Portuguesa. Ela falava-me da sua terra e eu da minha. Ela falava-me do que sabia e do que aprendia comigo e eu, falava-lhe do que sabia e do que aprendia com ela. Ela foi uma verdadeira Companheira de Guerra. Eu não tinha Madrinha de Guerra, muito em voga, na altura, não ligava a isso mas, ela, foi a mais bela Madrinha de Guerra que eu podia ter imaginado!

"Ventor, todas as noites choro e rezo por ti. Choro ao ler as tuas cartas de Moçambique e choro ao ler as cartas do meu irmão do Vietname. Todas as noites rezo por ti e por Moçambique, pelo meu irmão e pelo Vietname. Toda as noites ouço as vossas músicas que, com tanta alegria me referenciam. Aqui, na Universidade de S. João de Porto Rico, nós somos contra as guerras. As minhas companheiras mais amigas, nesta Universidade, que me acompanham em algumas leituras de algumas das vossas cartas, choram comigo. Umas vezes choramos de tristeza, outras vezes, choramos de alegria. Ouvimos as vossas músicas quase como uma religião. Eu não te conheço mas, chego a convencer-me que te conheço muito bem e até moramos na mesma rua. Sei que também estás dentro do arame farpado como o meu irmão, neste momento, na Base Aérea de Danang, sítio horroroso do Vietname. Que Deus vos traga de volta às vossas casas, peço sempre à nossa Senhora de Fátima e à Padroeira de Portugal".

Provavelmente, a nossa Padroeira também será a deles porque a Senhora de Fátima já sabemos que também é!

Esta moça tinha um nome bonito que, durante cinquenta e tal meses, foi minha companheira de venturas, através de esferográfica e de folhas de papel.

Ao chegar a Luanda, encantado com a beleza daquela Baía, morto de sede e de fome, dei prioridade às comunicações com familiares e amigos e enviei um postal da cidade para a minha "Companheira de Guerra" de além-Atlântico e depois da minha chegada a Moçambique, reatei os nossos contactos para a minha nova morada, o SPM-Serviço Postal Militar. Sempre que me mexia, contactava-a para não nos perdermos. É engraçado que lhe falava de quase tudo, à posterior e nunca fui incomodado por isso! Para além da Guerra e das minhas tarefas distribuídas, eu fazia grandes caminhadas e tirei algumas fotos com uma bela máquina a preto e branco que era do melhor que havia como marca mas, depressa deixou de funcionar. Os trambolhões, a humidade, as dilatações provocadas pelo calor, o pó e tudo o mais, levou-a a desaparecer do meu convívio, muito rapidamente. Assim, além das caminhadas, o meu passatempo, passou a ser, ainda com mais afinco, a música.

Assim, muitas vezes, ouvia música pela noite dentro, através da Rádio Clube de Moçambique e LM Radio e quantas vezes ao som dessa música e inspirado por ela, escrevia as minhas cartas para a minha "companheira anti-beligerante" que, com armas e bagagens se batia de outra forma, na Universidade de Porto Rico.

Como ela me dizia, quase todas eram contra as guerras mas, ser contra as guerras, não significava que fossem contra aqueles que eram obrigados a combater nelas. Por razões mais que óbvias, se assim fosse, ela teria de ser contra o seu irmão na Guerra do Vietname e contra mim, na Guerra de Moçambique. Eram sim, contra as razões que levavam os homens à guerra e não contra os combatentes em si"!

Diz o Ventor que esta moça, de origem hispânica,, era muito inteligente e teria, certamente, uma miscelânea de sangue espanhol, Azteca, Maia ou dos amigos Incas do Ventor. Os seus olhos negros, saídos de uma tez morena e viva, indicavam ao Ventor, traçados das caminhadas do seu passado que desde há milénios fez entre os Incas, seus companheiro galácticos!

Que a Iris (digo eu) seja muito feliz no seu S. João de Porto Rico ou, algures, em qualquer canto do Mundo.




O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Ainda o Ventor e o Medo

  Ventor 14.02.06

Contar segundos à espera de ir pelos ares!

O medo, de vez em quando, perseguia o Ventor. Ele diz que não fazia nada por isso, mas ele aparecia. Caía do céu e pronto. E olhem que este caiu mesmo do céu! Diz o Ventor que desta vez os cães não lhe meteram medo. Desta vez foi ele que meteu medo aos cães. Então vejam o que me disse o Ventor:

«Eu tinha desafiado alguém para ir à caça, penso que foi o Sargento Dias, mas por qualquer razão, ele ou outro, ou não quis ou não pôde alinhar nesse dia. Chamei a Leoa e o Goldfinger e corri com os seus filhotes para trás para não nos incomodarem, pois muitos cães atrapalham mais que ajudam.

A Leoa, o Goldfinger e eu, seguimos direitos ao centro da pista para atravessar para o lado contrário. Ao atravessar a pista entrei na sua lateral de terra e comecei a penetrar numa zona de ervas e pequenas moitas , tipo carrascos. Como tinha chovido, um ou dois dias antes, nesse dia quente, o meu amigo Apolo secara as margens de terra lamacenta que acompanhavam a pista e já estavam sequinhas. Por essa razão, eu não ia de botas de água e ia ver como a lama ficava de repente dura que fazia parecer que já não chovia há dias, mas tinha chovido na véspera ou antevéspera.

De repente, vi o "cu gordo" de uma granada de morteiro (120mm? Lá grande era ela) enfiada no chão, incrustada na terra dura. Os meus olhos pareciam os olhos de uma ave de rapina quando olha a presa. Devem ter ficado esbugalhados! Chamei os cães para se manterem a meu lado. Pensei, imediatamente,  em fazer uma retirada para o AM 61 e tratar de mandarem tirar dali aquela coisa. Quando inicio a minha retirada, vejo outra coisa daquelas à minha esquerda. Exactamente igual! Quando penso em retirar pela minha direita, vejo outra! Formavam um triângulo quase perfeito. O receio torna-se em medo e o medo em pavor, ou quase! E isto porquê? Apenas porque pensei o pior e o pior para mim, naquele momento, foi pensar que, "os esfrelimos", lançaram a morteirada e não percebiam nada daquilo ou, por avaria, os morteiros não rebentaram. E o pior, seria eles irem lá, pé ante pé e armadilhar aquelas máquinas destruidoras. O pior estava pensado e o pior, leva-nos, sempre, ao medo.

As granadas eram 3 semehantes a esta, enterradas no chão em triângulo

O nosso morteiro era um morteiro 60 ou 81

Assim, os meus olhos continuaram esbugalhados, ou esbugalharam ainda mais, quando comecei a procurar se entre as ervas, ou entre aquelas "sarças não ardentes", se encontrava algum fio que pudesse estar a armadilhar aquelas coisas terríficas, ligando-as. Por mim, se estivesse só, não teria medo, porque tinha muitas possibilidades de sair vencedor de algum eventual fio de Ariadne mas, com os cães à minha volta, comecei a ver a coisa preta. Eu, nessa altura, tinha olhos de lince e o eventual fio não me escaparia, pois se entrei ali sem o ver e as coisas não explodiram, era agora a minha vez de mostrar que teria vantagem sobre a sorte do imponderável anterior. Mas tinha o problema dos cães! Eles estavam estupefactos com a minha reacção e eu apenas queria que eles se mantivessem no chão quietinhos mas, não sabia se eles teriam coragem para me obedecer, enquanto eu procurava o tal fio ainda imaginário, mas provável.

Primeiro, fiz um jogo de guerra com os dois cães. O Gold olhava-me impávido e sereno e a Leoa estava muito nervosa. Virei-me para eles e disse-lhes: "não há aqui coelhos, nem raposas, nem nada. As codornizes já estão ali adiante, no meio do capim. Esta peça de caça só pode ser minha. Vocês não se mexam! Fiquem quietos"!

Eles perceberam que não se podiam mexer, senão, eu ficava chateado e isso eles não queriam. Pelo menos o Goldfinger. Foi pelo local dele que eu comecei a procura. Comecei dos meus pés para o Goldfinger e do Goldfinger para a Leoa. Nós encontrávamos-nos, aproximadamente, na base do triângulo. Se tínhamos passado ali e aquilo não rebentou, a parte pior era a zona da Leoa que era a que estava mais dentro. Disse ao Gold para se manter deitado e quieto e aproximei-me, pé ante pé, da Leoa com os meus olhos a varrer o solo todo até ela. Verifiquei a moita, junto, dela e nem réstia de fios. Pus-lhe a mão na cabeça e disse-lhe: "vem devagarinho comigo para junto do Gold e vamos buscar munições. Juntaram-se a mim e voltamos os três à pista com o Gold a rastejar a meu lado. Ali tive deveras medo quando pensava qual dos dois cães iria dar um tropeção no "fio imaginário" e, enviar tudo pelos ares, nós e a pista. Mas o Senhor da Esfera estava do nosso lado!

Eu adorava aqueles cães que nunca foram ensinados e obedeciam a tudo!

Cheguei ao AM 61 e contei a minha história da última meia hora. O primeiro foi o Sentinela do posto de ligação à pista. "Tem os olhos bem abertos. Qualquer coisa está mal"! Ele agarrou a arma com mãos de ferro, tirou os olhos dos meus e cravou-os na pista. Liguei para o Comando do Sector Alpha e pedi para falar com o Chefe de Operações. Era um Major cujo nome não recordo e pedi-lhe para enviar sapadores para retirar, pelo menos, 3 granadas de morteiros, que pensava serem de 120 mm, das margens da pista de Vila Cabral. Riu-se e parecia-me que estava a gozar comigo! Estava tão incrédulo como eu tinha estado até pensar na hipótese da armadilha e nas patas dos meus fiéis amigos a despoletarem aquilo tudo.

Nessa altura, o barulho seria tal que ninguém teria dúvidas sequer, e os sapadores só retirariam as nossas ossadas ao mesmo tempo que iriam olhando e pensando na virgem do Monte da Capelinha - lá longe - mas bem à vista da pista de Vila Cabral!

Nesse momento, já tinha na mão, uma "bazuca pacifista", uma cerveja MacMahon, garrafa verde e disse ao nosso Major que me conhecia relativamente bem, devido aos contactos que tínhamos pelos apoios da Força Aérea, às suas operações, para ver se os homens dele chegavam lá, enquanto eu bebia a bazuca! Perguntei ao Aeroporto de Vila Cabral se esperavam a chegada de aviões civis e, o nosso amigo Leiria, disse-me que não. Fiquei mais satisfeito, pois ainda não sabia se aquilo estava armadilhado ou não. Eu só tinha procurado o caminho para sairmos dali. Saí por onde entrei e ali não havia fios mas poderia, realmente, estar tudo armadilhado e até para fazerem que rebentasse à passagem de algum avião.

Com os nossos não ia haver problema e com os civis também não. Bebi a cerveja, respirei fundo e pedi ao Senhor da Esfera que ajudasse os sapadores na execução do seu trabalho.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

O Ventor e o Medo

 Ventor 13.01.06

... em Tempos de Guerra

O Ventor nunca foi medricas mas foi sempre muito cauteloso. Mas mesmo não sendo medricas, por algumas vezes, encontrou-se em situações de ter medo. Já me falou de várias dessas situações na sua passagem por África e, algumas, eu colocarei aqui. Hoje falo-vos de uma dessas situações de medo.

Disse-me o Ventor:

«Com a minha chegada a Vila Cabral, no verão de 1969, chegou também o meu vício da "caça". Raramente arranjava voluntários para, juntamente comigo, palmilharmos uns bons quilómetros, em redor da cidade. Por isso, quase sempre executava essa tarefa só. Só não, porque tinha os melhores companheiros que se podem imaginar para caminhar naquelas situações. A Leoa e o Goldfinger, algumas vezes acompanhados pela sua rapaziada, os seus filhotes.

Nos primeiros dias, comecei a rondar a cidade, as suas ruas, as suas tascas e a beber umas laurentinas, no Café Planalto. Depois comecei a afastar-me da cidade e a caminhar pelos seus arredores, atravessando campos de feijões e de milho, pinheiros (muito novos) e eucaliptos (novos e velhadas) capins sem fim, caminhando atrás de rolas, pombos verdes, perdizes, codornizes, patos, etç.

Posteriormente, fui-me afastando mais e entrei no encalço do facochero, uma espécie de javali. Numa destas escapadelas, levava comigo apenas, a Leoa e o Goldfinger e fui para uma lângua onde dias antes tinha visto patadas desses facocheros e disse, cá para mim que, pelo menos, teria de ver um ou mais a correr. A verdade é que quando estava a aproximar-me sorrateiramente do local, a Leoa levantou o pelo no lombo (parecia um campo de centeio a germinar), levantou uma pata dianteira e olhou, firmemente, para o morro, junto de nós, um pouco à direita e o Gold numa pequena corrida, tomou posição a seu lado. Julguei que seriam perdizes e caminhei para o local com a arma pronta a fazer fogo com chumbo para coelho e perdiz. Entrei na base do morro e o capim era da minha altura.

Capim

Um dia destes encontrei um local, topograficamente, muito semelhante a esse de Vila Cabral. Em vez de capim, tinha outro tipo de ervas, também bem altas e em vez de leões imaginários ou até raposas, tinha amigos penudos como rolas, tal como lá e também outros amigos penudos, como pardais, pintassilgos, etç. Lá eram outros. E apesar de, em tempos, ter ouvido falar do leão de Rio Maior, neste morro, nem me passaram pela cabeça raposas e muito menos leões.

Comecei a trepar e quanto mais trepava na base do morro, maior o capim se tornava, ficando em posição de não ver nada à minha volta. Nesse momento, os cães ficaram de tal forma que me pareceu estarem com medo. Reparei na Leoa no meio do capim, duas passadas à frente, um pouco à minha esquerda e o Gold, na mesma posição, um pouco à direita. Disse-lhes baixinho: "venham cá, não se afastem". A Leoa tinha o seu pelo curto todo esticado, pata no ar e parecia que à sua volta só existiria eu, o Gold e o terror, pois a sua pele, com o pelo esticado, até tremia. Olhei o Gold e estava na mesma. Disse cá para mim: "vocês nunca estiveram nesse estado e agora até eu já estou a ficar na mesma. Só me falta o cabelo levantar-se na cabeça. Vou mudar o chumbo"!

Só pensava em algo como isto. Aguardando serenamente a nossa subida

Mudei o chumbo de caça pequena, para chumbo de caça grossa. Fui olhando em redor e substituindo os cartuchos até completar a mudança dos cinco cartuchos da Browning. "De vagarzinho a meu lado", disse eu para os cães. Cheguei a pensar sair dali por onde entrei mas, imaginei tratar-se dos leões que foram roubar os porcos ao Garcez. Retirar seria dizer-lhes para avançarem! O sítio era ideal para os leões controlarem tudo, em redor e o medo denunciado pelos cães mais o cheiro intenso a bravo, a animais selvagens, mais me levava a acreditar tratar-se de caça grossa, ao ponto de, falando com os meus botões, dizer para os cães: "Estamos lixados"! Mas a Leoa, como sempre, estava em pulgas e o Gold também, aguardando que eu desse ordem de ataque!

Fomos subindo, passo a passo e só tentava ver se o capim remexia à nossa volta. Mas à nossa frente só existia capim e cheiro e, o Horizonte, sobre a minha cabeça, onde nunca mais chegava. Nunca mais trepava a subida daqueles meia dúzia de metros sem fim, pois nunca mais acabavam. Com aquele cheiro a bravo que nos rodeava, só imaginava um animal feroz lançar-se, de cima para baixo, sobre mim e os cães e só pensava não perder um segundo na hipótese de eu abrir fogo a tempo. Mais atrás e à minha esquerda, estavam os facocheros. Seria que estavam ali os leões para caçar os facocheros? Seria que fugiram à minha chegada ou estavam prontos para atacar? Perguntas sem fim, fervilhavam na minha cabeça e a resposta estava prestes. O cheiro a bravo era cada vez mais intenso e os meus companheiros não me animavam! Eles estavam como eu ou ainda pior. Imagino as perguntas que também fervilhariam nas suas cabeças. Sentia que eles queriam era receber a ordem esperada. Ataquem! Mas, para os animar a eles e a mim, disse: «Calma, vamos conquistar o morro e ficaremos senhores do planalto e da lângua".

Uma destas não seria e leopardo também não. Onde eles já iriam!

Mais umas passadas e assim foi. O animal selvagem não se lançou sobre nós e, agora, senhores daquele mini planalto, a minha arma, tal como um animal com olhos, procurava tudo à minha volta. Naquele momento, só não queria que a Leoa e o Goldfinger se afastassem de mim para não se colocarem na minha linha de tiro, pois já tinha tido experiências dessas. Confirmei que não havia nada e a minha primeira reacção foi: "seus grandes burros, seus cagarelas, meteram-me mais medo vocês os dois que os leões do Garcez se estivessem aqui"! Mal acabei de falar, foi o sinal de libertação que a Leoa quis ouvir. Deu uma corrida e mandou-se a uma toca esgaravatando tudo em volta da sua entrada. Vi a toca e chamei-a. Ela obedeceu-me e deixou de escavar, enquanto ao Gold só lhe faltou colocar uma pata com um dedo esticado na testa e chamar-lhe maluca.

"Venham cá, vamos ver se adivinhamos o que está aqui"! Eles afastaram-se, eu espreitei a toca. Senti que algo se mexia lá dentro. Meti o cano da arma no buraco até à curva da toca a ver se era atacado e uma raposinha pequenina aproximou-se, cheirou-o e olhou-me. Pareceu-me ouvir: "que raio Ventor, porque vens atrás de mim com esta coisa tão fria"? "Oh, raposinha, a tua mãe deve estar a ver-nos e deve ter ficado aterrorizada. Mas podem ficar descansadas que nada vos fará mal. Hoje, nem a Leoa"!

Foi num buraco assim que meti o cano da Browning, já com chumbo grosso e lá dentro, uma das três. habituada a esper a mãe, foi logo cheirar o cano da arma

Para mim foi uma grande aventura que durou alguns minutos, eternidade que nunca mais esqueço. Ainda hoje vejo aquele focinhinho pequenino a cheirar o cano da Browning e aqueles olhinhos brilhando, fixos nos meus.

Fui embora para o AM61 e contei a peripécia e a maneira como se pode ter medo a qualquer momento. Basta pensar no pior. No dia seguinte um emissário do Governador do Distrito do Niassa pedia-me se indicava o local das raposinhas que o Sr. Governador queria uma. Já não sei bem como foi, mas sei que me chatearem tanto que lá indiquei o local. Se a minha experiência empírica funcionasse, pensei, eles não as encontrariam. Levei lá dois homens armados de pá e pico e transpiraram à farta para encontrar as raposas, escavando um chão que parecia feito de betão. Gozaram comigo e até me disseram que mentia, porque não estava lá raposa nenhuma, como se eu tivesse necessidade de pregar uma aldrabice dessas que, provavelmente, tal coisa, nem pela cabeça me passaria.

Ainda hoje tenho dúvidas se eles acreditaram nas raposas. Dias depois, passei naquela zona com mira nos facocheros e um pouco afastado do mesmo local para não perturbar as meninas e encontrei a mãe e as raposinhas a brincar. Talvez fossem as mesmas, talvez fossem outras mas, a verdade é que cheguei à Base e disse: "desta vez, voltei a ver as raposas e tenho a certeza que são, pelo menos, três pequeninas e uma grande. Mas desta vez, nem que o Kaúlza de Arriaga me pedisse, nunca diria onde estão"!

A mãe deve-me ter cheirado pois, dois dias depois, fui espreitar o local dessa nova toca, com os cães junto de mim para não lhe fazerem nada. Caminhei com os cães junto das minhas pernas para a Leoa não atacar as raposinhas e também já lá não estavam!

Pelo menos tive o prazer de ver aquela família de raposas muito felizes na sua brincadeira de uma tarde quente, sobre outro morro da cor da ferrugem. Um morro rapado, sem capimjunto da toca e, à sombra de árvores frondosas. Essa toca tinha sido toca de hienas. Estive pouco tempo a olha-las porque era difícil fazer a Leoa obedecer-me, muito tempo, sem fazer barulho. Mas eles sabiam que eu estava contente e aguentaram-se. Depois voltei pelo mesmo caminho a pensar qual delas me olhou e cheirou o cano da arma. Seria, certamente, a mais atrevida que brincava tropeçando e caindo enrolada, voltando logo a levantar-se e a mandar-se para cima da mãe. Umas belezas aquelas raposinhas».

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

A Senhora do Lago

 Ventor 10.11.05... 

e a traição do Sael.

Oiçam esta história que o Ventor me contou.

Algures em África, numa zona verde cheia de água, onde predominava um lago com zonas pantanosas, em volta e, perante essas águas, havia fartura de tudo! Capim verde, arbustos e árvores! Nas suas margens pululava toda a fauna selvagem lá da zona. Os elefantes iam lá tomar banho e beber nas suas águas límpidas, os búfalos chafurdavam-se nos lamaçais das suas margens, as gazelas, impalas, gnus (bois cavalos) e toda a gama de mamíferos imaginados por ali, se acercavam das águas e dos campos verdes, em volta - era a lângua!

Nos seus arredores, leões, leopardos, hienas, cães selvagens. Era a terra prometida, junto à savana, onde predominava a família do Newky!

Porém, lá no seu interior das águas mais profundas e por entre os caniçais, passeava-se a Senhora do lago! Ela era gigante, robusta, poderosa! Feia ou bela, conforme as opções de cada um, mas era ela que impunha a ordem naquele lago! Era uma grande jibóia - a Senhora do Lago!

A Senhora do Lago

Foto tirada da Wikipédia

Ela é terrível e mete respeito a toda a gente que a consegue olhar, até ao Ventor. É mesmo a Senhora do lago!

Cada vez mais, à medida que caminhamos para sul, a África vê as suas savanas transformarem-se no Sael e este em deserto!

Cada ano, a desertificação é mais evidente e as "Senhoras dos Lagos" e todos os seres vivos sofrem!

Sempre que a sede apertava os "changos" iam à água matar a sede, sempre alerta, em relação aos seus predadores naturais, mas a fome que por vezes acometia a Senhora do lago, tornava-a num terror bem maior que os leopardos e as chitas! Acossada pela fome, ela saía de dentro da água e zás! Enrolava-se como uma camisa-de-forças sobre o bicho que estava a jeito e os outros animais pressentiam o terror sem o ver. A Senhora do Lago penetrava água dentro, tal como tinha saído. A sua vida era bela, pois vivia numa terra farta e fazia tudo o que queria e todos a temiam!

Mas a Natureza, por vezes, torna-se madrasta e o ontem deixou de o ser e o hoje já se está a tornar na diferença e, essa diferença, aconteceu no grande lago! Durante uns anos, penso que sete, as águas foram secando porque as chuvas afastaram-se para longe e, em volta do lago, as zonas que eram pantanosas passaram a ser preenchidas de lamaçal que, com o tempo, foi-se tornando em rocha dura. No interior dessa rocha lamacenta, os animais continuavam a beber da sua água que continuou estanhando e ficando peganhosa, cheia de mosquitos e lixo e mais se parecia que o mundo se preparava para acabar!

No seu interior, continuava fazendo a sua vida, já um pouco degradada, a Senhora do Lago! Por enquanto, os animais que lhe alimentavam o corpo continuavam a aparecer junto do charco e ela continuava a ter as suas refeições, mas os peixes já afogavam expostos ao ar, enquanto as aves de rapina começavam a ter uma vida melhorada. Os abutres estavam na conquista de novos espaços, de um novo reino. A decadência de uns é caminhada próspera de outros!

O calor aperta e a secagem do resto da água, acelera-se. A Senhora do Lago fica com a sua vida reduzida a um minúsculo poço!

O Sahel avança para sul e à sua frente varre florestas, savanas e lagos. E, tanto quanto me parece, ninguém faz nada para evitar ou atenuar esse avanço

Foto da Wikipédia da autoria de Bgabel. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported2.5 Generic2.0 Generic and 1.0 Genérico license.

Os outros animais já lá não vão, foram à procura de novo lugar com água, pois a Senhora já não tem onde se esconder, está bem à vista, mas as forças que faziam dela um poder muscular sem igual, sumiam-se na desertificação daquela zona que já tinha sido um maravilhoso oásis!

O poço reduz-se e começa a ficar  com margens lodosas e escorregadias. A Senhora do Lago começa a ficar sem espaço e decide sair do seu pequeno cubículo. Começa a tentar tirar a cabeça do lamaçal mas, as margens do poço são cada vez mais escorregadias devido ao seu peso que tritura e transforma a lama numa coisa viscosa de onde nunca mais sairá!

A partir de uma determinada altura a vida que comandava aquele lago, começou a desistir daquilo que não era capaz. Partir para o campo aberto! Ela está presa na sua própria armadilha! A grande Senhora sente-se esmorecer e apodera-se dela o estertor da morte. grita como gritam todas as criaturas desesperadas e desprotegidas. Continuam a gritar, se calhar pela sua mãe como qualquer de nós faria nas mesmas circunstâncias e os sons por ela emitidos eram horrorosos! Todos os horrores do mundo se abatem sobre uns restos de lodo e lama e um animal gigante que sabe que chegou o seu fim!

A lama ficou pedra e abraçou, no seu seio, um corpo definhado a dar os últimos suspiros de vida. Para sempre ficou cravado no lamaçal, o corpo inerte da Senhora do Lago!

Isto é uma história verdadeira e horrorosa e que nos leva até a pensar, seriamente, nas hipóteses de vida que a natureza nos dá e nos tira, tão de repente! E, também como se não bastasse ser a natureza a pregar-nos partidas, quantas vezes somos nós, seres racionais, a encarregarmo-nos disso! Esta história desenrola-se no decorrer da secura da África do Sael do nosso tempo!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 8 de novembro de 2005

As zebras

  Ventor 08.11.05

As belezas listadas

As zebras - segundo a visão do Ventor

As zebras são animais lindos e encantadores que animam os olhos de quem as possa apreciar em plena savana africana misturadas com os gnus, seus companheiros de caminhada, ou mesmo nos Jardins Zoológicos, onde enchem de alegria a pequenada e os seus avós. Apesar de serem animais belos e que nenhum mal fazem ao homem, o espírito assassino deste, tem procurado dar cabo delas e as gerações futuras só poderão continuar a apreciá-las se as gerações presentes soubessem preserva-las e mantê-las para herança dos seus filhos.

O mesmo se poderá dizer de todos os outros animais, incluindo o homem, que vagueiam nesta bola giratória enquanto os elementos o permitirem. Basta dedicarem-se um pouco à Astrofísica para se aperceberem do perigo que todos corremos. O Ventor, por exemplo, anda coxo e, segundo ele me contou, só um raio cósmico o poderá ter atingido na barriga da perna deixando-o a pão e laranja.

Mas ele até é capaz de ter razão. Os raios cósmicos andam aí a fazer fogo ao alvo e são um perigo permanente. Para além desses perigos permanentes temos ainda outras possibilidades de ficarmos tão mal na nossa Caminhada pela nossa Via Láctea que podemos desaparecer num ápice. Vejam o que dizem os cientistas. Há mais de 100 milhões de buracos negros na esfera conhecida e a confusão é tão grande que podemos imaginarmos-nos presos por araminhos, sempre prontos a rebentar. Vejam a seca que nos está a atingir! Diz o Ventor que acredita que sejam coisas do Marduk, porque ele anda aí! Este Marduk, é aquilo a que os cientistas chamam o Planeta X ou "décimo planeta". Pensa o Ventor que pode ser aquele de que ele vos fala na Mesopotâmia! Mas se é, está tudo lixado! Juntando a isto a ambição desmedida do homem, ficamos pendentes do improviso.

Mas continuemos com as nossas amigas zebras. Elas embelezam, de facto, as savanas!

 São uma beleza estas amigas do Ventor

O Ventor diz que, lá em Moçambique, só viu as zebras do ar, quando o avião "caminhava" por cima e elas caminhavam por baixo. Isto acontecia mais quando estas máquinas desciam um pouco deixando os animais atormentados com o barulho desenfreado daquela coisa metálica que, de vez em quando, os incomodava quando aparecia, de repente, nos céus do seu mundo. Mais precisamente, nos céus do Revia e do rio Lugenda onde se podiam avistar boas manadas de zebras e bois cavalos (gnus). Por isso o Ventor tem vontade de voltar a África, ao Moçambique, ao Lugenda!

Mas o Ventor diz que recorda e nunca esquecerá os seus gritos que se fazem ouvir lá longe, na savana. Havia, em Marrupa, uma lângua que se dirigia para ocidente e bastante afastada da nossa zona, do AM62, talvez uns 15 kms, haviam perus selvagens, segundo lhe diziam. Mas o Ventor, que se fartou de trepar esses quilómetros, diz que via realmente aves grandes mas que para ele não passavam de abutres e, ainda hoje, quando a refeição calha peru, diz: "vamos ao abutre"!

Na verdade, à custa dos perus selvagens, ainda hoje, o som típico das zebras anda nos ouvidos do Ventor. Segundo o Ventor e eu acredito nele, o som mais característico dos animais, em África, é o arrulhar das rolas e os estridentes gritos das zebras. Quando nessa lângua de Marrupa os chamados perus selvagens fugiam à frente do Ventor e dos seus amigos, ouvia-se, lá longe, ainda à frente dos perus, o característico grito das zebras a que não podemos chamar relinchar!

Os animais de grande porte, são todos das savanas

Mas as zebras têm uma boa corrida (65 kms por hora) e, quando se apercebem da presença do homem, vão-se afastando sempre e só com um todo o terreno são alcançáveis. Era sempre muito longe que os caçadores profissionais apanhavam os bois cavalos (gnus) que vendiam para serem comidos por pretos e brancos, como para o Exército e a Força Aérea. As carnes que o Ventor e os amigos comiam eram, quase sempre, de caça, como boi cavalo, facochero (uma espécie de javali africano), galinhas do mato, changos (várias espécies de antílopes) e outros.

A propósito de corridas, a velocidade da zebra está cotada em 65 kms/hora, enquanto que a cotação do gnu é bastante mais elevada, 80 kms/hora e como andam sempre juntos, sendo a velocidade do leão de 80kms/hora também, é caso para pensar se, como dizem alguns especialistas, o leão prefere a carne da zebra à do gnu por ser mais saborosa para si ou se será de facto por ter mais possibilidades na caçada? Se calhar é as duas coisas!

Mas voltando à conservação das espécies, diz o Ventor que merecem grande apoio todos aqueles que, de boa fé, tudo fazem para manter, junto de nós, estes belos animais listados. Todos sabemos que os homens tal como todos os outros animais, aprendem com os seus erros. E tem sido baseado nos muitos erros cometidos pelos homens que, muitas das espécies têm desaparecido do nosso convívio. Aqui foco apenas o extermínio das zebras sul-africanas. Segundo os homens amigos do Ventor que zelam pela estabilidade e harmonia de todos os nossos companheiros em vias de extinção, a África do Sul tinha tudo para ser um verdadeiro paraíso na Terra.

Tinha uma grande riqueza de fauna, uma paisagem harmónica e um clima excelente o que fazia deste canto do nosso Planeta uma maravilha para os animais selvagens, incluindo-se as zebras. Mas os colonizadores boers que terão sido um grupo de gente inculta e egoísta, como todos os que atingiram as costas de África, ao penetrarem para o interior do Veld encontraram uma região rica em animais selvagens, cheia de espécies de zebras, manadas de elefantes, girafas, rinocerontes brancos, antílopes, etç. e logo começaram  a chacina!

Os animais selvagens africanos, bem como homens, os Bosquímanos, foram exterminados com a mesma fúria de homens insensatos e hoje, uns e outros, encontram-se quase exclusivamente em parques nacionais.

A quagga deixou-nos para sempre

As zebras quaggas, era assim que os hotentotes lhe chamavam, existiam em grandes bandos pelo Veld onde os colonizadores queriam instalar as suas granjas e por isso, na sua óptica, teriam de as abater o que fizeram até lhes acabarem com a espécie, tendo sido morta, em Aberdeen, em 1758, o último exemplar selvagem. Só em alguns dos jardins zoológicos foram mantidos alguns exemplares, durante cerca de um século, morrendo a última zebra quagga, no jardim zoológico de Amesterdão.

Também a zebra da montanha, assim chamada por só viver nas montanhas no extremo sul da África, a mais parecida com o burro, estará quase extinta se é que ainda existe, pois em 1956 só haviam cerca de 75 exemplares no Parque Nacional da Zebra da Montanha, na Província do Cabo.

Como vêm, o nosso amigo Ventor ensina-me a olhar os nossos amigos selvagens com outros olhos e a preocupar-me com eles. Por isso, eu coloco aqui o que o Ventor me ensina para aqueles que gostam de saber muitas coisas e quando levarem os vossos filhos ou netos aos jardins zoológicos que se encontram por esse mundo fora, não se esqueçam de os ensinar a respeitar os outros animais selvagens.

Para isso, devem começar por os ensinar a respeitar os companheiros de casa! Cães, gatos (pois claro), pássaros, ratinhos e ... todos os outros. Por exemplo, nas touradas, onde o bicho homem teima em divertir-se com o sofrimento do touro, não os ensinem a ir lá. Deixem que a bestice humana termine por frustração, já que ninguém está com vontade de fazer uma lei que meta no bom caminho esses "calhaus" humanos também a passear-se entre nós que nos atingem furiosamente.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

O Facochero

 Quico e Ventor 08.11.05

Outro amigo africano

Nas savanas africanas, diz o Ventor, coexistem facocheros, elefantes, leões, leopardos, chitas e um sem fim de animais. Hoje coloco aqui o que o Ventor me contou do facochero.

«Na mesma tarde que vi o leopardo, na rapada onde a água nascia, depois da peripécia, devido à hora, decidimos regressar ao Aeródromo pelo mesmo caminho que tínhamos levado. Cada um voltou no sentido inverso e eu, que na caminhada anterior era extremo esquerdo, passei, no regresso, a ser extremo direito. Após um bocado de trajecto, caminhávamos no silêncio, na perspectiva de encontrarmos perdizes, daquelas que voam de árvore para árvore que andavam por ali, porque a outra caça teria sido espantada com a nossa passagem.

Eu continuava afastado do companheiro mais próximo que seguiria à minha esquerda e, de repente, sinto um restolhar violento no mato à minha esquerda e sinto um bólide passar junto às minhas pernas que nem sei se deu para as encolher e saltar, à retaguarda, mas creio que foi isso que fiz. Ainda em desequilíbrio, apontei a arma que ainda levava com os zé-galotes que tinha mudado no encontro com o leopardo e disparei. Só no momento do tiro é que me apercebi que o animal que ia tentar abater era um facochero!

Facochero, companheiros do Ventor mas sempre em fuga

Eu não ia disposto a fazer fogo sobre perdizes ou fosse o que fosse mas aquele bruto terá feito tudo para me apanhar à passagem e eu iria fazer tudo para que ele se arrependesse!

Buuuuuummm! Ele ia entrar no mato depois de passar alguns metros de rapada à minha frente e não deu tempo para me esmerar na pontaria e vi que ele foi atingido no quarto direito, mais ou menos a meio, devido à guinada que deu mas, a corrida continuou por entre o mato e penetrou na floresta galeria perdendo-o de vista. Ao som do tiro, os cães saíram do mato em minha direcção e foram atrás do facochero mas, não passou, para eles, de "era uma vez" ...

Chamei os cães de volta e os meus companheiros de caminhada aproximaram-se de mim em correria a perguntar sobre o que fiz fogo. Contei-lhes a peripécia e limitaram-se a olhar os cães que estavam tontos com o cheiro do facochero e com o som bruto de um tiro. Dirigi-me ao local onde atingi o facochero na esperança de encontrar sangue, mas nada! Que ele levou chumbada eu tinha a certeza mas, também, apesar de ser perto, não tive tempo para lhe dar o segundo tiro, pois ele largou o baixio e entrou no mato seguindo para outro local baixo e nunca mais o vi.

Eu nunca me atrevi a ir só, sem os cães, para procurar este tipo de animal africano mas, muitas vezes pensei em fazer isso, no entanto, os cães, eram uma companhia perfeita para um alerta mais completo e, como muitas vezes ia só, sem mais ninguém, a companhia dos cães era para mim mais que desejada e nunca esqueço o Zorba, a Diana, o Bolinhas e depois a outra Diana (ainda cachorrinha), filha da Leoa que foi levada de Vila Cabral para Marrupa e, por vezes, as caminhadas eram tão grandes que, durante espaços razoáveis, tinha de a levar ao colo. Eles foram meus companheiros de caminhadas, sem fim, durante oito meses e meio.

Mas alguns dias depois da investida do facochero, outra rapaziada no helicóptero, um Polícia da Força Aérea, disparou um ou mais tiros de G-3 sobre um facochero que, ferido, com os intestinos de fora, caminhou, pelo menos, cerca de 3 kms até cair exausto. Eu dirigi-me ao helicóptero e observei o bicho e até lhe tirei fotos e ao olhar o local onde julgava ter acertado com os zé-galotes, no tal de há dias atrás, reparei que, aquele animal era o mesmo que me tentou empurrar para o lado, pois tinha as marcas que os zé-galotes lhe deixaram na perna. Eram três sulcos de raspão na pele da perna e era, sem dúvida, aquele o magano que quis atirar-me para as calendas.

 O facochero

Os facocheros são animais poderosos que atingem 90 cm de comprimento (cabeça e tronco), 75 cm de altura no garrote e um peso que vai até 80-95 kg. Eles têm uma cabeça gigantesca e as suas presas chegam a atingir, acompanhando a curva, cerca de 60 cm, embora, na generalidade, meçam cerca de 30 cm.

O facochero é um animal da savana, embora se veja muito nos bordos dos bosques, especialmente, em zonas lamacentas, junto a florestas galerias, em grandes varas, pastando ajoelhados no chão a apanhar raízes e tudo que lhes sirva de alimento. Eles têm as joelheiras das pernas anteriores, por baixo das articulações, calejadas e, embora já nasçam com essa zona calejada, com o caminhar do tempo ficam mais duras. Tudo, ou quase, cria as suas especializações para sua defesa e estes não são excepção mas, os animais que os caçam, também se especializam nas suas caçadas.

Os leões, por exemplo, para apanhar os facocheros, organizam-se em estafetas para os caçar. Assim, o primeiro leão, normalmente são as leoas, ataca-o durante um determinado espaço e, depois, passa a estafeta a outro ficando o primeiro a descansar e continuando o segundo na corrida que, depois, larga para um terceiro e este, depois, para um quarto e assim, sucessivamente, até o animal ficar completamente cansado e exausto quando, um último leão, folgado, o vê sem forças para reagir e o ataca para matar.

Mais tarde, em Vila Cabral, também eu me tentei especializar na procura de grupos de facocheros mas foi trabalho infrutífero. Mesmo caminhando contra o vento para evitar que eles me cheirassem, eles arranjavam sempre maneira de se afastarem de mim. Estes animais são omnívoros, alimentam-se de raízes, frutos, cogumelos, larvas de insectos, pequenos vertebrados e até serpentes. Havia na zona de Vila Cabral, uma lângua onde corria alguma água e formava extensões de lamaçais em cujas margens havia, também, grandes extensões de matagais que mais pareciam extensos silvados, no meio dos quais eles se escondiam e tinham as suas tocas de refúgio. Era impossível penetrar naquela zona e nem os cães lá conseguiam ir. Cheguei a ouvir os barulhos desses animais mas nunca os conseguia ver. Eles penetravam na mata densa e apenas diziam, "adeus Ventor"!

  Facochero ou warthog

Mas nas minhas caminhadas atrás dos facocheros, mais que o objectivo de tentar caça-los, era tentar vê-los bem de perto e observa-los. Nessa zona de Vila Cabral, olhando sobre o local que lhes servia de esconderijo, eu tive oportunidades de ver os "pôr-de-sol" mais lindos da minha vida e enriqueci a minha passagem por África, muito para além das sequências dos chamados "jogos de guerra"».

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...