sábado, 11 de junho de 2011

Para sempre, em Alfundão

 Quico e Ventor 11.06.2011


 Chariotys of Fire

Foi assim, como estes, que tudo começou, em Janeiro de 1966, na Base Aérea 2, na Ota. As corridas não eram na praia, mas nas estradas ou no meio do pinhal. Era asim que entrávamos na belíssima vila de Alenquer e sofriam, os olhos que nos viam correr todos encharcados em suor. O pior era dar a volta e subir rumo à Ota. Os Chariots of Fire, de Vangelis, acho que ficam aqui muito bem, enquanto deixarem, para recordarmos os tempos que tivemos naquela terrível 1ª recruta de 1966. Posteriormente, foram mais suave.

"Ninguém bebe água!"

O Major Serra o nosso Comandante da Recruta que eu encontrei muitas vezes no comboio para o Rossio, dizia-me que a nossa recruta tinha sido a pior delas todas e, como achava que era demasiado dura, teve de fazer uma exposição à Direcção dos Serviços de Saúde da Força Aérea.


Companheiros de Guerra, amigos de sempre - no AB6, em Nova Freixo: Ventor, Checa e LM. 

Um amigo que nos deixou. Mais um!

O Senhor da Esfera retirou do nosso convívio, para sempre, o nosso amigo Rui Perestrelo mas ele continuará connosco.

Quando alguém parte do nosso "espaço" ou nosso mundo, para outro espaço que, julgamos, nós, ser um "espaço definitivo", o nosso espaço, e tudo o que resta desse nosso mundo, fica mais estreito e mais triste.

A Gi, a nossa amiga Gi, o meu malmequer, continuará sempre a sorrir a teu lado. Ela chorou e quis arriscar ir dizer-te adeus. Eu é que não deixei. Nesta foto, só eu sei como ela estava doente, mas junto de ti e dos nossos amigos, ela arranjava sempre forças para nos animar

Mais triste, ainda, quando tivemos tempos de glória. Tempos de tristezas, tempos de alegrias mas, também, tempos de glória! Eram os tempos dos sonhos, os tempos em que não era proibido sonhar. Todos nós tivemos os nossos sonhos. Eram sonhos de esperança! A esperança de regressar, de voltarmos a estar com os nossos, a nossa família, os nossos amigos, os nossos cães, os nossos gatos, as galinhas, ... as namoradas ...

Tu também já estavas doente e bem doente, mas tentavas sempre partilhar as tuas alegrias e não as tuas tristezas.

Mais tarde, após essas caminhadas de sonhos, do refazer das nossas vidas, voltamos a caminhar juntos, por grupos. Por aqui, por ali, havia de quando em vez, há, ainda, um grupinho, aqui ou ali, a tentar não deixar morrer esses tempos que por bem ou por mal, marcaram as nossas vidas, as vidas de todos nós. Eu falo pela malta do AB6 e dos seus tentáculos, os AM's (aeródromos de manobras), Marrupa e Vila Cabral. A malta da "guerra" do Niassa. A nossa malta da Força Aérea mas, também tenho, num recanto do meu sótão, os nossos companheiros de outras armas, como a tropa do Exército dos Comandos dos Sectores Alpha e Echo de Vila Cabral e de Marrupa, espalhados por muitos locais daquele belo território do Niassa, bem maior que Portugal. Talvez este nosso Portugal e próximo de mais meio. Também recordo os nossos companheiros da Marinha baseados em Metangula, no lago Niassa e de um ministro de Charles DeGaule, creio que o Schuman, dizer que só uma vontade férrea como a dos portugueses seria capaz de colocar aqueles instrumentos bélicos da Marinha, no Lago Niassa.

Nunca esqueceremos os belos dias em que foi possível partilharmos as alegrias de outrora e relembrar amigos não presentes, como o Checa, então no Hospital de Oncologia, por onde eu passei para levar o seu abraço. Ele e outros, longe, mas sempre presentes   

Depois, mais tarde, com a chegada do 25 de Abril, tivemos saudades de nos voltarmos a encontrar uns quantos nas almoçaradas. Ainda houve uns belos almoços, como aquele da Golegã, no tasco do nosso amigo Tschombé do qual nunca mais soubemos nada. Alguém sabe do Tschombé? Ninguém sabe nada!

Mais um adeus de despedida, ao fim desses dias inesquecíveis de caminhadas sem fim. Tudo o que é bom acaba depressa e, agora, contigo, não haverá mais, embora, eu acredite que estarás sempre presente,

Mais tarde sumimos alguns. Uns partiram para a estranja, outros espalharam-se por aí a tratar da vida e perdemo-nos. No nosso pequeno grupo de amigos, houve dois que não quiseram dar-se por vencidos. O nosso amigo Rui Perestrelo e o nosso amigo Rui Bernardino que, na prática, nunca se perderam. Os companheiros de guerra, nunca se perdem porque eles, estão sempre presentes no nosso cérebro. Nós tropeçamos uns nos outros e não sabemos quem somos porque a imagem tem influência e muita! Os putos das fardas do "café com leite", leves como plumas e rápidos como raios, todos aqueles de há cerca de 40 anos, nunca mais os esquecemos. São essas as imagens que temos nas nossas cabeças. Mas, à nossa frente, hoje, aparecem uns "calhambeques" desarranjados, mais ou menos abarrigados, tal como eu e, salvo raríssimas excepções, ainda verificamos que, dentro daquele invólucro transformado, está um nosso amigo de tantos anos. Há também os que mudaram pouco! Ontem observava o Madruga debaixo daquela cabeleira branca, caída sobre os ombros mas, dentro do invólucro e debaixo da cabeleira, estava o nosso amigo Madruga tal e qual como ele era. Estava ali a sua alma de tantos anos para trás. Tal como o Rui Madeira, o Simões, ... todos! Acho que nenhum de nós vendeu a alma ao diabo. A nossa alma é, exactamente, como era nesses tempos.

Nunca mais teremos dias como esses, juntos, na Ria, com a hospitalidade dos amigos Alex e Tina 

Tudo acaba! As caminhadas acabam e recomeçam sempre até à caminhada final que todos teremos. Mas, aqui, na Ria, tal como em Nova Freixo, em Marrupa e em Vila Cabral, mais uma vez estivemos os três juntos. Longe da guerra, mas juntos

Só que, ontem, foi um dia triste! Não foi dia de galhofas, de brincadeiras, como de costume. Foi o dia em que o nosso amigo Rui, o nosso grande amigo a quem desde a Base da Ota, sempre, na brincadeira, chamávamos o Louco da Malásia, despediu-se de nós e nós dele. Eu sei que ele vai continuar a viver connosco! Ele estará sempre a nosso lado, nas suas eternas brincadeiras. Quando ele descobriu que eu ainda existia, voltou a tentar tudo para me encontrar. Pedi a outro para lhe dar o meu número de telefone e, logo de seguida, o telefone tocou e ele, impávido e sereno, do outro lado, disse apenas isto: "cacei-te"!

Foram dias cheios com as olhadas para o passarinho que te manterá sempre junto de nós

Ele sentia uma grande alegria quando nos via juntos. Não me esqueço da alegria que ele sentiu do nosso primeiro encontro, em Alfundão, quando quis ligar para o outro amigo lá para o fundo de tudo - Maputo! Os nossos amigos estão em todo o lado! "Telefono-te, pá, só para te dizer que também estás aqui. Estás aqui connosco. Diz lá bem alto: «Bom dia, Alfundão»! Era a amizade pura do nosso Louco da Malásia! Fico com a sensação que ele se quis despedir de nós! Mas não consegue porque ele vai ficar sempre connosco! Ontem abri um espaço, ainda maior no meu coração, para Alfundão e Ferreira do Alentejo. Por lá ficou pairando sempre, o nosso amigo "Louco da Malásia" e, sonhando com o passado, caminharei, sempre, no presente, por essas belas terras do Alentejo.

Estaremos sempre contigo no coração, Rui! Eu sei que, o Senhor da Esfera, vai ter de continuar a partilhar-te connosco. 

O "batalhão" de passarinhos que nos vão observando sempre e partilhando das nossas alegrias e tristezas e que acredito, nunca se deixarão de perguntar como é possível tantos anos depois, vivermos a amizade de tantos anos atrás, como se fosse ontem.

Faltam as fotos Sumiram!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 24 de abril de 2011

Feliz Páscoa de 2011

 Quico e Ventor 24.04.11

Uma Páscoa de 2011, com muitas amêndoas para todos os meus velhos amigos conhecidos e para os novos do Facebook. Para todos vós! Esta noite lembrei-me das minhas três amêndoas, na Páscoa de 1968, em Marrupa. Duas brancas e uma rosa ou duas rosas e uma branca.

A minha companheira de muitas caminhadas, tirou o pacote, abriu-o e colocou as amêndoas dentro deste brinquedo de vidro a que chamam taça. Pedi-lhe para tirar três e saíram uma de cada côr. Uma branca, uma rosa e uma azul. Disse-lhe para tirar a azul e colocar outra branca ou rosa. Em Marrupa de 1968 não me tocou nenhuma azul porque não havia.

Tirou as três amêndoas, deu-mas para a mão e eu coloquei-as numa tacinha.

Tira daqui, põe ali e ficaram separadas. 

Depois, meti-as noutra taça mais pequenibha.

Por fim, ficaram as duas tacinhas sobre a mesa.

 

Na taça com mais amêndoas era uma gritaria. Choravam por verem partir as três amiguinhas para serem devoradas mas elas ficaram contentes e cantavam cheias de alegria. Eu não percebia porquê mas, disseram às outras para não chorarem que eram felizes e teriam o privilégio de serem as preferidas do Ventor.

Amanhã, a seguir ao almoço, trincarei essas três e recordarei todos aqueles que se encontravam comigo no "DESTERRO" do norte de Moçambique, centro do Distrito do Niassa. Um DESTERRO, chamado Marrupa, rodeada por "montes da perdição". Ali, sempre que fôssemos longe, nunca regressávamos com  bússola. Estava sempre avariada! Mas, para todos os que lá estivemos, terá sido uma terra linda e digna da nossa presença. 

Belos tempos!

Tal como em 1968 .... para todos os Duros do Niassa e, também, para todos que caminham pelos meus Blogs e para os meus amigos do Facebook, todos sem excepção ...


UMA PÁSCOA FELIZ PARA TODOS VÓS 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 1 de março de 2011

A Minha Caminhada Africana

 Quico e Ventor   01.03.12

A minha caminhada africana não se resume à minha estadia de 26 meses no Norte de Moçambique. Não se resume às caminhadas ao lado do rio Lúrio, do rio Messalo, voando sobre o rio Lugenda ou, ao lado do Rovuma;

das minhas caminhadas por Nova Freixo, pelas lânguas de Marrupa, ou em redor de Vila Cabral.

A minha caminhada africana é muito mais longa que essas caminhadas cinegéticas ou dos meus crosses nas pistas da Força Aérea, de Nova Freixo, de Marrupa e de Vila Cabral.

A minha caminhada africana completa-se com uma caminhada, bem longa, antes de chegar lá, e muito mais longa, depois de sair de lá! E, tal como o escritor francês, cujo nome não recordo (não é o Emile Zola), eu posso dizer: J'Acuse"!

Eu acuso o mundo de se esquecer de África! O mundo que só sente os interesses da África, quando sentem que estão lá os interesses deles. Eu acuso todos os que abandonaram a África! Não os que a abandonaram porque tiveram de fugir, porque foram obrigados a fugir, mas todos aqueles que estiveram nos princípios da fuga! E não me refiro apenas aos portugueses que não souberam resolver os problemas que lhe competiam, sobre a África de que fazíamos parte mas, a todos que não souberam olhar pelos interesses da África de norte a sul!

África, onde o povo, para além das misérias causadas pelas guerras, também canta e dança

Eu acuso todos os países que podem e que não tentam fazer mais pela África!

Dito isto, apenas vos digo que tento caminhar sempre, ao lado da África, que voltarei a caminhar com todos os africanos, uma nossa caminhada virtual, muito especial e não apenas com a minha gente de Moçambique, de que nunca me esqueço, mas com toda a gente de África que trabalha, canta e dança, dentro e fora das suas machambas, de norte a sul do continente.

Recordo sempre aquela moça negra que foi obrigada a partir de cá para Moçambique, porque a vida correu mal à sua família e não lhe podia dar tudo o que ela desejava (apenas os estudos - 1970) e como ela gostava do seu Portugal (o puto) e do seu Moçambique e, recordo o seu choro no Aeroporto da Portela, então, virada para trás, olhando a varanda e os muitos amigos que lá tinha, de costas para o avião, gritando: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"!

Passaram 42 anos e nunca mais esqueci! Não esqueci, Rute! Não esqueço a volta que a tua vida levou no tão pouco tempo que te conheci! E nunca esqueci o "nosso" Moçambique! Nunca esquecerei o "nosso" Moçambique! Moçambique também é meu Rute! Fui sem ele, mas trouxe-o comigo.

Este é o local onde nos dizem que fica o berço da Humanidade com cerca de 4 milhões de anos

Mas, voltando a África, recordo-me que volto ao berço! Pelo menos, em sentido figurado porque, eu, não sou daqueles que acreditam que todo o mundo nasceu nos desfiladeiros de Olduvai ou arredores! Não vejo porque um sítio que, por bondade da Natureza, nos mostra com mais facilidade o homo erectus e nos faz rechaçar para segundo plano outros que especialistas, também, bem intencionados vão descobrindo aqui e ali, por esse mundo fora. Antes das ossadas do homo erectus, apareceram as ossadas do Hiperião, um cavalo que terá vivido desde os tempos do Mioceno ao Pleistoceno e que seria semelhante ao Mercychippus, outra beleza de então, também cavalo, descoberto no Nebrasca.

Não vou em teorias, que pretendem fundamentar com ossadas mas, também não deixo de reconhecer que as descobertas se fazem transpirando. Seja como for, posso deixar aqui que, segundo os especialistas do início do séc. XX, o desfiladeiro de Olduvai, era um lugar que se previa ideal para investigar o que saísse de sob aquelas camadas sedimentares. Transformações geológicas teriam dado origem a uma falha, há 500.000 anos, que desviou o curso de um pequeno rio e transformou toda aquela área. Ali foram descobertas ossadas de omídios e seria um elo entre o Australopitechus afrerensis de cerca de 3.2 a 4 milhões de anos e o Australopitechus africanus, datado entre 2 e 3 milhões de anos.

Mas há muito para falar de África, dos seus desfiladeiros, dos seus rios, das suas savanas, das suas montanhas, dos seus desertos, das suas florestas e das suas gentes. Tentarei ir brincando com tudo isso, por aqui.

Um dos meus amigos Moçambicanos. Uma espécie de corvos que, em tempos, me disseram que Moçambique os importou da Austrália para limparem as florestas. Verdade? Não sei! Mas eu acreditei em quem mo disse. Gostava de os ver, ao romper do dia, correrem atrás das ratazanas rumo às sargetas, no AB6 - Nova Freixo

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cahora Bassa, nasceu e cresceu

 Quico e Ventor 21.02.11

Cahora Bassa (na língua local nhungué, significa: onde acaba o trabalho), nasceu e cresceu, no rio Zambeze, a cerca de 120-150 km de Tete.

No ano de 1969, quando eu caminhava por Nova Freixo e Vila Cabral, mais tarde chamadas de Cuamba e Lichinga, ouvi, pela primeira vez, falar na obra a que chamavam Cabora Bassa.

Em honra do que viria a ser essa grande barragem, tinha sido construída na zona de Vila Cabral (Lichinga), para os lados de Nova Madeira, uma barragem para irrigação a que chamaram Mini Cabora.

Podem ver aqui, no Shutterfly, as fotos de Cahora Bassa e arredores.

Um dia, eu e mais três mangas, saímos da Força Aérea de Vila Cabral (AM 61), armados de G-3 e apeteceu-nos caminhar até essa nova barragem e tinha sido aquilo a que eu poderei chamar, uma das grandes caminhadas do Ventor. Atingimos a barragem e depois hesitamos em subir pelo pico mais íngreme até ao monte da Capelinha. Só que por aí, ninguém subia para o monte da Capelinha, a não ser doidos! Mais ainda, quando dias atrás, conversando com um preto das milícias de Daniel Roxo e outro popular da cidade que conheciam aquela zona, me dissuadiram de subir aquela encosta, pois no seu seio haveria uma Pitão (vulgo jibóia), que seria do maior que existiria, em África. Nenhum deles me deu a certeza, mas era o que se constava e perante as incertezas, devemos sempre ser precavidos.



Barragem de Cahora Bassa, vista cá de cima 

Nesse dia, das margens da barragem Mini Cabora, olhei a tal encosta mas não havia nada a fazer e subimos pelo lado contrário, em direcção a Vila Cabral, ao nosso Aeródromo. Na picada, do lado de Vila Cabral, começamos aos tiros aos patos com G-3. Os patos, coitados dos patos, não corriam perigo algum a não ser o barulho dos tiros. Eles voavam de ponta a ponta da barragem e, cada vez que a bala de G-3 entrava na água, eles, para nosso gáudio, faziam a sua demonstração de voo.

O então Inspector da PIDE/DGS, em Vila Cabral, Gonçalves Dias, apareceu de jipe, acompanhado por um dos seus agentes, deixando atrás um lastro de pó, no engodo do barulho das nossas célebres G-3.

Depois de uma valente reprimenda em que acho que só lhe faltou chamar-nos tarados, acabou por nos oferecer boleia para a Base no seu jipe, ocupado à frente por ele e o seu agente e com 4 lugares nos bancos laterais atrás (dois de cada lado).


 Uma espécie de gralha (?) na Barragem de Cahora Bassa

Eu, olhei para os cães, cheios de sede, com língua de palmo e meio de fora e disse: "aceitamos a boleia mas temos de levar os cães também"! Os cães eram 4 latagões, o Goldfinger, a Leoa e mais dois do seu tamanho. O Inspector olhou para mim e disse: «os cães vão atrás, a pé. Eles não se perderão»! Eu com toda a calma deste mundo: "está bem! Vão vocês que eu vou a pé com os cães"! O Inspector, Gonçalves Dias, já a ficar furioso: «vai a pé só? Já viu quantos km são? Você regula bem da cabeça? Sem água, com kms pela frente, com um calor destes na picada e nem tem onde beber! Se acha que os cães cabem, por mim até os podem levar ao colo, metam-nos dentro»! Lá nos amanhamos e dentro do jipe, lá trás, os 4 marmanjos e os 4 cães, colados uns aos outros, lá seguimos rumo ao AM 61.

Esta e outras caminhadas, umas vezes acompanhado, outras vezes só, são experiências de vida que nunca esqueço. Esta caminhada foi pelo monte da Capelinha, pela Mini Cabora e por conta da tal gibóia.

Cahora Bassa, nos tempos de chuva, tem água a rodos

Para mim, aquela pequena barragem já era grande, pois bem nos custou dar a volta a mais ou menos, entre 1/2 a 3/4 da sua periferia. Mas, mais tarde, fiquei siderado pelo tamanho dos números da grande barragem da Cabora Bassa! Eu que até estava habituado a deslocar-me ao LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), em Lisboa, para observar os estudos de mini-hídrica ali levados a cabo sobre algumas das maiores barragens do mundo de então, onde não tínhamos nada a aprender com ninguém.

Mais tarde, acordei para os números de Cabora Bassa:

então, a segunda maior barragem do Continente Africano e a quinta a nível mundial;

uma albufeira com um comprimento de 250 kms e uma largura máxima de 38 km, com uma superfície de cerca de 2.700 km2 e uma capacidade de 63.000 milhões de m3 de água;

é uma barragem de tipo abóboda com uma altura de 163 m acima das fundações;

é detentora de uma capacidade de vazão de 13.600m3 por segundo;

possui uma potência com um grupo de 5 geradores de 415 Mw cada, podendo produzir 2075 gigawatts por hora, podendo a sua capacidade vir a ser aumentada;

as suas linhas de transporte de energia atingem cerca de 1.400 km, 860 km dentro de Moçambique;

foram escavados, 1.500.000 m3 de materiais, dos quais:


 - 200.000 m3 para a fundação da barragem;

 - 1.300.000 m3 para a abertura da Central, túneis de acesso, galerias da condução e sala de transformadores;

são mais de 2,5 kms as galerias, túneis e cavernas escavadas;

os 5 geradores de 415 Mw cada, estão albergados numa caverna de 217 m de comprimento, 29 m de largura e 57 m de altura;

As chaminés de equilíbrio, duas, têm comprimentos de de 242 e 342 m, por 15m de largura e 18 m de altura;

Foram empregues 600.000 m3 de betão ou concreto, dos quais, cerca de 450.000 m3 para a barragem e 150.000 m3 para obras subterrâneas;

Cabora Bassa foi a maior barragem de betão ou concreto, construída em África.

 

Se o Quico estivesse aui aposto que me perguntaria como este gajo me borrou a camisola ou, então se ele caíu numa lata de tinta de rabo para o ar

São números que nos falam de uma grandeza descomunal e, essa barragem, pode ser uma catapulta para outras vontades no levantamento de um Moçambique com a grandeza que merece.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cabora Bassa ou Cahora Bassa

 Quico e Ventor 15.02.2011

Coloco aqui, no Shutterfly, algumas fotos de Moçambique, todas elas se reportam a uma caminhada que amigos fizeram entre Maputo, Tete, Songo, a Barragem de Cahora Bassa e Chitima. Como não poderá deixar de ser, não vou deixar de fora descendentes de velhos amigos que um dia tive por Moçambique.

A barragem de Cahora Bassa (em língua nhungé, significa, o fim dos trabalhos), é o símbolo da vontade e da determinação que, no século passado, Portugal e o povo português, tiveram no desenvolvimento daquele grande território a que um dia, os homens, deram o nome de Moçambique.

Moçambique, é um velho território e um dos mais jovens Estados de África que obteve a independência de Portugal após 10 anos de uma guerra de guerrilhas, a guerra do "bate e foge", após a Revolução de Abril de 1974.


 

Aeroporto de Maputo, antiga Lourenço Marques, um centro de grandes caminhadas de portugueses e de moçambicanos que por ali transitam, também, nas suas caminhadas de sonhos, para cá e para lá, para lá e para cá

Para infortúnio de Moçambique e por ganância política, de incompetentes, influenciados e orientados por comunistas e capitalistas das grandes potências internacionais, bem pior do que a guerra do "bate e foge", os moçambicanos desgastaram-se em guerras intestinas que esventraram o país e o paralisaram, transformando o seu povo num dos povos mais pobres deste planeta, segundo estatísticas das Nações Unidas. E é pena! Autodestruíram as suas capacidades de produção, do tempo do chamado colonialismo português e, de um modo geral, pelas províncias de Moçambique, o seu povo genuíno, nascido e criado longe das chamadas "centrais internacionais", continuou na sua "tanga" de séculos, à espera de melhores dias.


Um dos muitos amigos que, em tempos, eu deixei por Moçambique. Ele e muitos outros, fazem parte das memórias das minhas caminhadas pelo trilhos do continente mágico

Também nós por cá, com o dito 25 de Abril, sofremos das mesmas influências dessas mesmas "centrais", de onde mentecaptos trouxeram novas ideias de produção, desfazendo o pouco que possuíamos, através de sistemas caducos em que só acreditavam aqueles que quiseram destruir para voltarem a construir a seu modo e mando. Ficamos de tanga e a chamada Libertação, apenas nos trouxe a chamada liberdade a nós e aos novos países africanos mas, sempre, nós e eles, numa rampa de plano inclinado em todos os campos da economia. 

Felizmente, que o povo português não era constituído pelos tansos que essas gentes esperavam e, com o brio proporcionado pela tão apregoada liberdade, acabaram por recolocar essas abencerragens políticas no lugar que, só em nome da dita liberdade, eles mereceram.  



Por entre estas montanhas escorre o rio Zambeze, rumo ao Oceano Índico. Entre elas, foi construída uma das maiores barragens do mundo, Cahora Bassa, cujos estudos iniciais terão começado com o levantamento cartográfico desta área do Zambeze, levado a cabo, noutros tempos, por voos aéreos  realizados por Gago Coutinho

Sempre, por aqui, me ouviram dizer bem de Moçambique e do seu povo e só lamento que os seus políticos continuem a bater na tecla da libertação do papão colonial, tal como a propaganda política fez quando do negócio da passagem da maioria do capital de Cahora Bassa para a soberania do Estado Moçambicano. Até dá a impressão que o papão português era o seu grande inimigo .... mas, Moçambique, está, de facto, cheio de papões que se escudam na sombra colonial. Portugal foi substituído por outros colonizadores da conveniência dos "dictacts" políticos daqueles que, em nome de Moçambique, se assenhoraram do seu território e das suas gentes. Pelo que sei, de muitas conversas destes últimos anos de tréguas, o amor do povo de Moçambique por Portugal e pelos portugueses, pouco ou nada tem a ver com a mensagem deixada pela classe política de Moçambique como se notou quando da entrega de Cahora Bassa.


 

Nesta barragem de Cahora Bassa, foram utilizados, na sua construção, 600.000 m3 de betão, sendo, nessa área, a maior de África

Mas os anos destroem tudo, ou então, se preferirem uma notação mais soft, os anos destruirão tudo o que haja de negativo entre os moçambicanos e os portugueses e reforçarão a amizade que sempre perdurará nos nossos corações. Isto foi o que eu sempre notei desde que um dia deixei o território de Moçambique e, desde que, uma moçambicana, estudante, em Lisboa, por razões económicas familiares, teve de regressar a Moçambique. No meio dos seus amigos portugueses, onde teve algum tempo para sonhar e após alguns dias de tristezas, teve de partir na rota que outrora o Gama levara mas, na turbulência da tristeza da sua vida, no dia fatídico da partida, no Aeroporto de Lisboa, quando se dirigia para o avião, voltou-se para nós na velha varanda das despedidas que então havia virada para a pista e gritou lá de baixo: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"! Ela tinha percebido, em meia dúzia de dias que, a maneira como eu falava da sua terra, junto de si e dos seus amigos, só podia representar o amor puro, que trouxe no meu coração por Moçambique e pela sua gente.



Trata-se de uma grandeza colossal, a maior barragem construída por Portugal, até hoje

Tudo isto, para vos dizer que, desde então, me tenho apercebido que, a tal guerra do "bate e foge", nunca foi suficientemente grande para inculcar ódio entre nós. Seria essa a génese da vontade que levara Portugal, então, a apostar muito do que tinha e podia, na construção dessa grande barragem que na língua do povo da região onde se integra, os nhungés, se veio a chamar Cahora Bassa, ao tempo, em português, Cabora Bassa.

Voltarei aqui para falar da tal obra.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 16 de janeiro de 2011

Chita ou Cheetah

 Quico e Ventor 16.01.11

A chita, é um dos encantos do Continente mágico - África.

A chita, é um dos Big Cats que corre perigo de fazer parte do livro dos animais em vias de extinção. Tal como o leão, o leopardo, o jaguar, o puma, ... a vida deste belo animal, a que chamamos chita ou guepardo (gato pardo), corre perigo e, perigo redobrado por ser o mais frágil de todos. Eu nem me recordo se, alguma vez vi, mesmo em cativeiro, este belo animal vivo. Recordo-me, isso sim, de alguns dos outros Big Cats com os quais já tive várias conversas no Zoo mas, de chitas, não.

Este apenas o vejo em filmes e comentários, além das fotos.


 Vós sois, certamente, uma das maiores maravilhas das savanas africanas (foto wiki)

Mas tenho de reconhecer que este animal, para mim, é mesmo lindo. E tal como o Ventor de outros tempos, leve como uma pluma e rápido como um raio. Claro que ele tem apenas velocidade de ponta, não tem a caminhada quase "perene" do cão selvagem, caçador infatigável das savanas africanas.

A chita é um animal esbelto, com uma velocidade de ponta comparável a um Fórmula 1. 


Estarás, certamente, a imaginar como seria a tua vida na savana. Lá terias de caçar, aí, alguém andará a caçar por ti. Não é a mesma coisa, pois não amiguinha? (foto wiki)

É um animal que tem por habitat primordial as savanas africanas, embora ainda tente resistir noutros lugares, como na Península Arábica, no Irão e no Afeganistão, correndo riscos de extinção em todos esses locais, incluindo as savanas africanas. As almofadas das patas das chitas são constituídas por ranhuras que servem para forçar uma melhor tracção em altas velocidades e a sua cauda comprida serve de leme, orientando a sua alta velocidade quando curva. Também, para ajudar nessa alta velocidade, tem uma cabeça curta, aerodinâmica, de orelhas redondas e uma flexibilidade da coluna adequada para essa velocidade de ponta, extraordinária, que faz da chita o animal mamífero mais veloz da terra, caçando sempre em velocidade de ponta, sem aplicar tácticas ou técnicas de grupo, como os leões, as hienas ou os cães selvagens. Normalmente, faz uma caçada numa distância média de cerca de 400 a 600 metros ou, então, falha.


 Levas aí a tua ração e estarás sempre a magicar se, na próxima, terás a mesma ração. Todos nós somos prisioneiros de algo ... (foto wiki)

As chitas, tal como todos os animais, podem atingir diversos tamanhos, alcançando cumprimentos do corpo de 1.10 a 1.50, metros e tamanhos de cauda de 60 a 80 cm e atingir pesos totais de 30 a 85 kgs. Isto significa que há chitas que atingem o tamanho dos maiores leopardos das savanas onde já foram encontrados leopardos com 80 kg de peso.

 Uma de vós terá de ser mais lesta para alcançar esse pedaço de carne, mas isso sempre vos fará correr, sem perigos (foto wiki)

Eu sei que todos vós, tal como eu, gostais de ver as chitas na televisão mas, depois, esquecemo-nos delas porque, elas têm outro mundo, pertencem a outros azimutes e vivem a milhares de km de distância dos nossos corrais ou dos nossos quintais. Por isso, normalmente, esquecemos e nem queremos saber se são mortas selvaticamente, se há muitas, se há poucas, se um dia elas ficam por aí a mostrar a sua beleza às gerações futuras ou se, as gerações futuras, à medida que caminhem por este mundo que vão herdar, começam a espreitar as fotos dos livros, das revistas, ... a espreitar estas janelas, as televisões ou a ver os velhos filmes de seus avós, ... poderão gritar alto: "e chamavam-lhes, eles bestas"! 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Mais um amigo que parte

 Quico e Ventor 17.11.10

David "o inglês"


 

Mais um companheiro que nos abandonou. O da direita, de nome David, a quem chamávamos "o inglês". À esquerda o Sousa e ao centro o Alex

À nossa esquerda, o Sousa, um companheiro de guerra com quem bebi a minha primeira cerveja, numa tasca de Vila Cabral, sem ser o Café Planalto;

Ao Centro, o nosso amigo Alex, que o Senhor da Esfera quis que nos voltássemos a encontrar, muitos anos depois, em 2008, pela mão do nosso amigo comum, o Louco da Malásia. (Olá, Rui")!

À nossa direita, o nosso amigo David "o inglês", sobre o qual tenho uma pequena história:

Saímos da Base Aérea 2, Ota, com destino a Monsanto, Lisboa - o GDACI (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção);

Levaram-nos para os subterrâneos de Monsanto, onde fomos apresentados ao Oficial de Dia, um Capitão, cujo nome não recordo e nem interessa. Esse Capitão olhou-nos um a um, com incidência nos nossos cabelos e voltou a fixar o olhar no nosso amigo "inglês".

De repente, o tipo deu um grande grito: "Fascina, a tesoura! Traga-me uma tesoura"!

Voltou a olhar o "inglês" e disse-lhe: "vou-lhe cortar o cabelo e depois vai acertá-lo à barbearia"!

O nosso amigo "inglês", com toda a calma deste mundo, olhou o Oficial de Dia e disse-lhe: "pode mandar vir as tesouras que quiser, mas no meu cabelo não toca"!

O capitão vira-se para mim e grita: "está a ouvi-lo"?

Eu que, tal como os meus colegas éramos um grupo de Especialistas da FAP que tínhamos chegado a Monsanto e era apenas o número mais antigo do grupo a que me coube fazer a apresentação, disparei a arma que tinha: "chegamos da Base Aérea 2, onde nos apresentamos ao Major Tomás para nos despedirmos e nos fez a respectiva revista para quem estávamos em condições. Por isso, recebemos a Ordem de Marcha para o GDACI e aqui estamos. Penso que o cabelo do David "o inglês", aprovado por oficial superior, não cresceu o suficiente, da Ota até aqui, para sofrer qualquer reparo. Acho que o melhor é desistir"

O Capitão saíu a barafustar, porta fora, e alguém foi incumbido de nos levar aos nossos destinos. Depois disto, eu voltei a ter outro problema com esse capitão que, talvez um dia fale nele e venci mais essa guerra.

Hoje todos estaremos tristes pela perda desse nosso amigo David, "o inglês", que já estará ao lado do Senhor da Esfera.

O Senhor vai-te guardar David. 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

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