sábado, 22 de fevereiro de 2014

Era uma vez no Niassa

  Ventor 22.02.14

Um dia em Marrupa, no Norte de Moçambique, Distrito do Niassa.

Um dia, saído do AB6, em Nova Freixo, cheguei a Marrupa, num T6. Era 6 de Abril de 1968. Já não tenho a certeza quem foi o Piloto. Mas, tenho a certeza que, durante algum tempo, me ia adaptando a Marrupa, especialmente à selva "savánica" em volta e as suas lânguas. Primeiro acompanhado e, como as companhias começaram a falhar (andar não era bom para todos), ia caminhando apenas só, com os nossos rafeiros. Os meus amigos Zorba, Diana e Bolinhas.

Preparado para tudo que eventualmente desse e viesse de fora da cerca do arame farpado, resolvi fazer uma limpeza da secretária do Posto de Rádio onde trabalhávamos. Comecei por retirar todos os papéis ali deixados pelos meus antecessores, colocando no cesto dos papéis os que não tinham interesse e arrumando todos aqueles que teriam justificação. Entre eles estavam alguns que nos ensinavam muito sobre as populações de Moçambique, especialmente as do Norte: Macuas-Lomués, Makondes e os Ajaúas do Niassa, outros que nos proibiam de cantar certas canções como, por exemplo, o Hino do Lunho.

Contava-se ali, também, a história da morte do Tenente Malaquias, cujo indicativo de guerra seria Ana, o nome, se a memória não me falha da sua filhota. Não me recordo bem disso, pois ele teria sido abatido no ano anterior (Outono?) de 1967. Portanto, muito tempo antes de eu chegar a Marrupa.


Da esquerda para a direita, Capitão Filipe Rolando Borges Mantovani, General Ramalho Eanes, então a cumprir comissão em Tenente Valadim, Tenente Malaquias, não recordo o nome da quarta personagem. Pelo perfil, faz-me lembrar o Ícaro, mais tarde, Comadante do 747 da TAP que levou a minha mãe na sua primeira viagem para os Estados Unidos
Hoje lembrei-me de recordar e homenagear estes homens.
Para todos que permanecem entre nós e para todos aqueles que nos deixaram mais cedo, lá ou cá, presto aqui a minha homenagem e, especialmente, ao Capitão Mantovani a quem sempre considerei um amigo. Ele foi morto na Guiné, em 1973, cerca de três anos depois de nos despedirmos, em Nova Freixo. Recebi, então, a notícia da sua morte, na primeira página do Diário de Notícias, numa manhã de 1973. Sentei-me numa mesa do velho café Monumental, coloquei o jornal sobre a mesa e deparei-me com a sua primeira página onde aparecia a fotografia do então Major Mantovani.

Major da FAP, Filipe Rolando Borges Mantovani, morto em combate na Guiné. A guerra continua a fazer-nos chorar.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 31 de março de 2013

As três amendoas do Ventor

  Quico e Vento31.03.2013

Mais um ano, mais um domingo de Páscoa, ....

... mais três amêndoas!

Era uma vez! ...

Era uma vez, um grupo de cerca de 5 a 6 dezenas de homens, numa terra linda a que outros deram o nome de Marrupa (Desterro), eu comi três amêndoas. Outros comeram outras três amêndoas e outros, se calhar porque não gostavam, terão redistribuído os seus quinhões pelos seus parceiros do lado. Seja como for, eu comi três.

Desde então, eu voltei a comer três amêndoas em todos os domingos de Páscoa de todos os anos, tal como já fiz hoje.


Esta é a foto da confusão! Porém, para tudo há soluções 
 
Um dia, convencido ser esta a foto desse domingo de Páscoa, coloquei-a neste meu blog como tal. Eu tinha uma foto do domingo de Páscoa de 1968 e, uma vez que não a encontro, será uma das desaparecidas. Por isso, uma vez que se trata do mesmo local e de todos ou quase todos os velhos amigos desse dia, ela vai continuar a andar por aqui.
Alguns me disseram que esta era, realmente, a foto de domingo de Páscoa de 1968. No entanto, a filha do nosso amigo Furriel Pil Av. Aleixo, que o Senhor da Esfera deverá ter a seu lado, disse-me que o pai chegou a Nova Freixo, em 01 de Julho de 1968.
Também o Alferes Oliveira, sentado frente ao Aleixo, disse que não terá estado em Marrupa nessa Páscoa.
 
Diz mesmo que ..."Em boa verdade, essa foto não foi tirada na Páscoa de 68; foi sim tirada em fins de 68 ou princípios de 69, se calhar na Páscoa deste último ano, que corresponde ao período de tempo em que prestei serviço em Marrupa. Na Páscoa de 68, eu ainda estava na Metrópole, como então se dizia, só chegando ao AB6 em 17 de Maio de 1968".
 
Resumindo: "essa foto, admitindo as razões temporais da Catarina Aleixo e do Alferes Oliveira, não será, de facto, da Páscoa de 1968. Mas também garanto que foi tirada em 1968, pois eu saí de Marrupa, antes do natal de 1968. Esse Natal, ainda hoje não sei porquê, fui passá-lo a Nova Freixo e a foto foi tirada antes disso. Creio que não cheguei a pensar no Natal, porque o nosso Comandante, Ten. Coronel Araújo, tinha-me dito que eu sairia de Marrupa quando quisesse. Creio que parti para Nova Freixo com o olho em Vila Cabral para onde só fui em 7 de Julho de 1969 e onde permaneci até 20 de Janeiro de 1970. Como nunca mais voltei a Marrupa, teria sido impossível eu ter ficado nessa foto".
 

 

As minhas três amêndoas de 2013, na Amadora, homenageando as minhas três amêndoas e os meus companheiros de 1968, em Marrupa, 45 anos depois
 
Mas cá estou eu, mais uma vez a desejar a todos que por lá andaram e, especialmente aos de Marrupa, os votos de uma boa Páscoa. Para já e, enquanto esses votos são transformados em bits e espalhadas pela Net, eu vou trincando as amêndoas que fotografei.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 10 de abril de 2012

Marrupa 1968

 Quico e Ventor 10/04/2012

Encontros e desencontros da nossa caminhada.



Companheiros de caminhada, senão no domingo de Páscoa de 1968, a maioria destes estaria lá, mas esta foto será posterior a Julho de 1968, data da chegada do "Manecas" a Nova Freixo
 
Tenho tido esta foto por aqui, como se fosse tirada no domingo de Páscoa de 1968, em Marrupa. Eu sei que, algumas vezes almoçávamos cá fora, debaixo do alpendre e isto, para mim, foi durante oito meses e meio. Um desses dias foi nesse domingo de Páscoa. Porém, a foto não é essa! Será outra que nem sei se ainda a terei. A foto a que me refiro, foi tirada com a minha máquina, uma laica que, de certeza, não gostou tanto de Moçambique como eu. Não se deu bem com o calor africano, com o pó, com os tombos e sei lá que mais. Rápidamente ficou inoperacional.
 
Mas nesta foto, está o nosso amigo, Pil. Av. Aleixo que o Senhor da Esfera levou antes de tempo. Como a sua filha Catarina me chamou a atenção, o nosso companheiro Aleixo, segundo rezam os seus documentos, terá chegado a Nova Freixo em Julho de 1968 e, como eu não acredito que os documentos estejam enganados e menos ainda os complementos informativos que a Catarina me deu, só me resta substituir a foto se tiver a outra. Se não tiver, esta ficará por aqui porque, simbolizará uma amizade que não foi construída nem se esgota num domingo de Páscoa com uma, duas ou três amêndoas.
 
Porém, tenho mais um dilema! Agora fico na dúvida se o Aleixo participou da nossa "batalha aérea" sobre o Lugenda, levada a cabo em Julho de 1968, durante 15 dias. Sei que estiveram presentes dois pilotos novatos, que partiram de Vila Cabral para Marrupa e sem a frequência do Rádio Farol de Marrupa.
Estavam quase perdidos na zona do Revia e pediram-me a frequência do Rádio Farol pela Rádio. Perguntei se estavam a brincar comigo e disseram-me que tinham grandes probabilidades de se perderem.
Nesse momento, o Tenente Coronel que comandava essas operações, destacado pelo Comando Avançado para tal, ele e o então Capitão Melo Correia assistiram à conversa pela rádio. O Ten. Coronel disse-me para não cair na tentação de lhes dar a frequência e que iria participar da incúria deles. Eu prolonguei a conversa, via rádio, sempre na brincadeira e consegui que eles apanhassem a frequência sem que os meus parceiros do lado se apercebessem.
 
Quando a coisa estava resolvida, virei-me para o "Clark Gable" (era assim que lhe chamávamos) o Ten. Coronel, e disse-lhe: "vê, como eles estavam na brincadeira"! O Cap. Melo Correia sorriu e, ainda hoje, tenho dúvidas se ele se apercebeu da minha marosca. Se se apercebeu, não me recordo de falarmos nisso. Mas ainda encontrei o Melo Correia, um bom homem, na Av. da liberdade, frente ao Estado Maior da força Aérea, no dia 25 de Novembro, então já como Coronel. Ele subia a Avenida da liberdade num carocha preto da Força Aérea e eu, vindo do meu trabalho, descia a pé a observar os pára-quedistas nas janelas do Estado Maior e no telhado. O carro preto parou, ele cumprimentou-me e disse-me: "lembra-se de mim? Não sei que lhe diga. Isto está muito mau! Se quiser, apareça em Cortegaça"!
Mas o Jaime Neves, resolveu o problema junto à RTP e eu esqueci Cortegaça! Isto foi no 25 de Novembro de 1975.
 
Escrevo aqui para manter as memórias actualizadas. Então fiquei admirado, como um homem que apenas estivera comigo durante 15 dias, em Marrupa, 15 intensos dias e, sete anos e quatro meses depois, me reconheceu numa avenida de Lisboa onde estivemos debaixo das armas dos pára-quedistas que tinham ocupado o edifício do Estado Maior da Força Aérea. Mas havia homens inteligentes, na Força Aérea Portuguesa de então! Eu também o conheci e a primeira coisa que fiz, foi olhar para os seus galões. Hoje não faço ideia nenhuma, quem eram os pilotos que partiram de Vila Cabral para se juntarem aos "Catataus", em Marrupa.
 
Mas volto à foto. Todos os que estamos nela, segundo a informação da Catarina, já somos, quase todos uns velhadas, em Marrupa e essa foto terá no mínimo, mais 3 meses para cima. Sendo assim, o nosso amigo Manecas, ainda era um "checa" e, por portas e travessas, foi fazer uma caminhada por Marrupa. Estivemos por lá tanto tempo que, para mim, era já na Páscoa. Mas não foi.
A única coisa que posso dizer-te Catarina, é que o teu pai, era um grande homem, um amigo verdadeiro e fez a sua vida militar, em Moçambique, parecida com a minha, sempre a brincar. Tanto quanto sei, pois estivemos juntos nos três sítios do Niassa, Marrupa, Nova Freixo e Vila Cabral, ele sabia que a vida seria mais fácil se a levássemos a sorrir e a brincar. Sorrindo, os que estavam junto de nós, teriam o seu "sacrifício" menos pesado.
 

Após 15 dias de assaltos com T-6 e PV2, sobre a zona do rio Lugenda e a dormir, entre a meia-noite e as quatro da manhã, era premente o descanso, na cadeira da guerra. Terei de um dia falar aqui do então nosso Capitão Mantovani que me encarregou de fazer tudo para coordenar os PV2 que sairiam de Nova Freixo, logo após eu carrilar para lá a informação meteorológica que o "sardinha" e o "carapau" me enviavam ao romper do dia, voando sobre o rio Lugenda
 
Mas a foto continua a dizer-me que tive sempre, junto de mim, os melhores dos meus amigos. Mesmo com os encontros e desencontros, da mobilidade da guerra, Marrupa será sempre o meu sítio de preferência. De lá nunca esquecerei todos os amigos que almoçaram e jantaram comigo nessas mesas. Nunca esquecerei, as minhas caminhadas loucas, na perseguição dos perus selvagens. Nunca esquecerei que rolei nessa pista, debaixo da metralha de companheiro nosso que o Senhor da Esfera quis que tivesse a altura mínima para não ser capaz de matar o Ventor e o outro amigo cabo-verdiano, o Melo, que gritava para mim que já não iria conhecer o filho que tinha nascido há dias, na Metrópole. Ainda fui eu que, saído debaixo de tanta fogachada, uma MG furiosa, fui ajudar o gajo que quase nos matou, na escuridão da noite com cerca de 3 kms nas pernas, para virmos pedir ao Comandante do Batalhão de Marrupa, para nos enviar uma Berlier para rebocar o Panhard para fora do lamaçal onde ficamos atolados. O Alferes dos Comandos e penso que o Coutinho, ficaram a guardar o Panhard, eu e o Melo, caminhamos na noite, entre a bicharada selvagem, para virmos tratar do desatolamento. Enfim, éramos uns "malucos" onde o mundo valia tudo ou não valia nada.
 
Obrigado Catarina por me tirares as dúvidas, sobre a foto. Alguns me confirmaram que era mesmo no domingo de Páscoa. Eu dizia para mim, que faltava lá o nosso amigo açoreano a quem chamávamos "porta-aviões" e achava muito cedo os quatro juntos, o nosso "Louco" que Deus tem, o Checa, o Coutinho e eu. Penso que o "Louco" e o "Checa" chegaram depois dessa Páscoa.
São pormenores muito complicados com tantos anos pelo meio. Mas juntos ou espartilhados, tivemos os nossos momentos bons e os nossos momentos maus, todos inesquecíveis, tal como as minhas três amêndoas.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Minha Caminhada Africana

 Quico e Ventor 01.03.12 

A minha caminhada africana não se resume à minha estadia de 26 meses no Norte de Moçambique. Não se resume às caminhadas ao lado do rio Lúrio, do rio Messalo, voando sobre o rio Lugenda ou, ao lado do Rovuma;

das minhas caminhadas por Nova Freixo, pelas lânguas de Marrupa, ou em redor de Vila Cabral.

A minha caminhada africana é muito mais longa que essas caminhadas cinegéticas ou dos meus crosses nas pistas da Força Aérea, de Nova Freixo, de Marrupa e de Vila Cabral.

A minha caminhada africana completa-se com uma caminhada, bem longa, antes de chegar lá, e muito mais longa, depois de sair de lá! E, tal como o escritor francês, cujo nome não recordo (não é o Emile Zola), eu posso dizer: J'Acuse"!

Eu acuso o mundo de se esquecer de África! O mundo que só sente os interesses da África, quando sentem que estão lá os interesses deles. Eu acuso todos os que abandonaram a África! Não os que a abandonaram porque tiveram de fugir, porque foram obrigados a fugir, mas todos aqueles que estiveram nos princípios da fuga! E não me refiro apenas aos portugueses que não souberam resolver os problemas que lhe competiam, sobre a África de que fazíamos parte mas, a todos que não souberam olhar pelos interesses da África de norte a sul!

África, onde o povo, para além das misérias causadas pelas guerras, também canta e dança

Eu acuso todos os países que podem e que não tentam fazer mais pela África!

Dito isto, apenas vos digo que tento caminhar sempre, ao lado da África, que voltarei a caminhar com todos os africanos, uma nossa caminhada virtual, muito especial e não apenas com a minha gente de Moçambique, de que nunca me esqueço, mas com toda a gente de África que trabalha, canta e dança, dentro e fora das suas machambas, de norte a sul do continente.

Recordo sempre aquela moça negra que foi obrigada a partir de cá para Moçambique, porque a vida correu mal à sua família e não lhe podia dar tudo o que ela desejava (apenas os estudos - 1970) e como ela gostava do seu Portugal (o puto) e do seu Moçambique e, recordo o seu choro no Aeroporto da Portela, então, virada para trás, olhando a varanda e os muitos amigos que lá tinha, de costas para o avião, gritando: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"!

Passaram 42 anos e nunca mais esqueci! Não esqueci, Rute! Não esqueço a volta que a tua vida levou no tão pouco tempo que te conheci! E nunca esqueci o "nosso" Moçambique! Nunca esquecerei o "nosso" Moçambique! Moçambique também é meu Rute! Fui sem ele, mas trouxe-o comigo.

Este é o local onde nos dizem que fica o berço da Humanidade com cerca de 4 milhões de anos

Mas, voltando a África, recordo-me que volto ao berço! Pelo menos, em sentido figurado porque, eu, não sou daqueles que acreditam que todo o mundo nasceu nos desfiladeiros de Olduvai ou arredores! Não vejo porque um sítio que, por bondade da Natureza, nos mostra com mais facilidade o homo erectus e nos faz rechaçar para segundo plano outros que especialistas, também, bem intencionados vão descobrindo aqui e ali, por esse mundo fora. Antes das ossadas do homo erectus, apareceram as ossadas do Hiperião, um cavalo que terá vivido desde os tempos do Mioceno ao Pleistoceno e que seria semelhante ao Mercychippus, outra beleza de então, também cavalo, descoberto no Nebrasca.

Não vou em teorias, que pretendem fundamentar com ossadas mas, também não deixo de reconhecer que as descobertas se fazem transpirando. Seja como for, posso deixar aqui que, segundo os especialistas do início do séc. XX, o desfiladeiro de Olduvai, era um lugar que se previa ideal para investigar o que saísse de sob aquelas camadas sedimentares. Transformações geológicas teriam dado origem a uma falha, há 500.000 anos, que desviou o curso de um pequeno rio e transformou toda aquela área. Ali foram descobertas ossadas de omídios e seria um elo entre o Australopitechus afrerensis de cerca de 3.2 a 4 milhões de anos e o Australopitechus africanus, datado entre 2 e 3 milhões de anos.

Mas há muito para falar de África, dos seus desfiladeiros, dos seus rios, das suas savanas, das suas montanhas, dos seus desertos, das suas florestas e das suas gentes. Tentarei ir brincando com tudo isso, por aqui.

Um dos meus amigos Moçambicanos. Uma espécie de corvos que, em tempos, me disseram que Moçambique os importou da Austrália para limparem as florestas. Verdade? Não sei! Mas eu acreditei em quem mo disse. Gostava de os ver, ao romper do dia, correrem atrás das ratazanas rumo às sargetas, no AB6 - Nova Freixo

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Bom Natal para Todos do AB6

  Quico e Ventor  20.12.11

Áfriica!
O continente onde centenas de milhares de portugueses deixaram de sonhar e muitos milhares deles sonhavam com as aldeias graníticas de onde foram obrigados a partir, para os defender, segundo diziam, então!

Seja como fôr, foram realidades passadas por uns e por outros. Eu, como todos já sabemos, fui um dos outros! Dos socorristas! Um dia, com 17 anos, vaticinava eu, que teria chegado a hora de dar o meu salto para França. Já tinha alguém que me emprestaria o dinheiro no momento que eu quisesse. Um homem que nunca conheci bem e que tenho pena não ter podido conhecer melhor. Nunca mais o voltei a ver!

 
Palácio Foz

Mas um dia, caminhava eu pela Av. da Liberdade, em Lisboa, rumo aos Restauradores e, encontrei junto de uma porta, um grupo de pessoas preparadas para entrarem no belo Palácio Foz. Foi ali que fiquei! Perguntei onde era a bilheteira e disseram-me que a entrada era livre. Foi ali que eu comecei a ver o que era a África e fiquei a conhecer dois anos de guerra, em fotografias, passados, em Angola.

Conheci os terrores dos assaltos às fazendas do Norte de Angola. Assisti a pessoas trucidadas, brancas e pretas. Para estas serem motiladas, bastava que se deixassem ficar ao lado dos seus patrões. Era o passaporte para o inferno ao lado deles. Isso transtornou a minha alma!

Ontem, voltei ao Palácio Foz, assistir a um sarau de artistas de amanhã e recordei esses tempos!

No Natal de 1967, já caminhava eu pelas ruas de Lisboa, com os olhos em Moçambique. Já tinha Guia de Marcha, sobre uma secretária dos Recursos Humanos da Região Aérea Nº 1, para me ser entregue e dar início, no dia 04 de Janeiro de 1968, àquela parte da minha caminhada africana, onde, rumando no Niassa sobre as águas do Atlântico, tive a companhia dos mais belos companheiros que alguma vez podemos imaginar. Sempre à direita do navio Niassa, saíam do fundo das Águas, aquelas maravilhas saltando em arco - os Golfinhos. Do marejar das águas vinha o som por eles proferido: "salve, Ventor"!

Caminhando no Youtube, encontrei este vídeo, um exemplo das muitas mensagens de Natal que a nossa tropa dirigia pelos natais, às suas gentes. Porém este é especial! Encontrei aqui, entre outros, dois homens que fizemos parte do mesmo combate. Os pilotos aviadores, Alferes Relevo e o Furriel Brochado.

Natal de 1967, em Vila Cabral, e Mueda

Caminhava eu por Lisboa, enviavam eles mensagens para a sua família, por aqui e, no ano seguinte, estávamos juntos nas belas terras do Niassa, caminhando nos trilhos do perigo.

O Furriel Brochado e eu, estivemos em apuros na pista do AB6, num dia que o Comandante Araújo, me obrigou a ir de Marrupa para Nova Freixo para ser assistido pelo médico do batalhão de Nova Freixo ou seguir para o Hospital de Nampula. Levei algum tempo a fazer as malas, duas, uma cheia de livros e, no momento da aterragem já se tornara tarde. O Tenente Coronel Araújo foi com o Jipe para a pista tentando iluminá-la com os faróis e nós só víamos a linha branca ao correr da pista. Ela estaria na ponta do nariz ou nos precipícios do Inferno mas, estava lá. Quando a DO bateu com os pneus na pista nós voltamos a escalar o céu e perdemos tudo o que tínhamos. Ficamos penugens pairando na aragem. O Jipe vinha atrás de nós, um pouco ao lado, tentando iluminar a pista e nós no bate e sobe. Eu olhei para trás e só via o nosso Comandante com as mãos na cabeça. Penso que ele chegou a acreditar que estávamos nas mãos de Deus. 

Um bom Natal meu grande amigo Brochado! Espero que essa seja a vontade de Deus.

O Alferes Relevo, ainda o voltei a ver no Aeroporto de Lisboa. Caminhava eu à procura de portugueses que pudessem dar uma ajuda à minha mãe, no avião, na sua primeira viagem para os Estados Unidos. Vejo dois pilotos da TAP, a entrarem numa porta que se fechava. Conheci a cara de um mas, não recordava o nome dele. Lancei a escada à Guerra e gritei, no momento em que a porta se fechava: "Ícaro, Fox Oito Fox". A porta voltou-se a abrir e de dentro saía uma cara que eu sabia ser amiga: "não me digas que vou ser eu a levar-te para a América"! «Talvez um dia mas, hoje, não»!

«Queria ver se me indicavas uma Hospedeira do Voo "X" para os Estados Unidos, para dar uma ajuda à minha mãe, ela é que vai»!

"Sou eu o Comandante desse voo. Dá-me o nome dela e está entregue"!

A minha mãe, lá foi acompanhada de uns portugueses que viajavam da Austrália para os Estados Unidos e sentia-se bem com eles. Quando o meu amigo a foi buscar para a levar para o Cockpit e ir junta com eles, observando bem o Atlântico e ver bem o impacto da chegada a Nova Iorque, ela recusou-se!

"Venha comigo minha senhora, eu e o seu filho somos amigos, estivemos juntos na guerra, somos como irmãos. Venha connosco no Cockpit. Lá é muito melhor"!

«Não meu senhor, eu daqui não saio. Não quero copito nenhum»!

Obrigado meus amigos.

Para todos vós um BOM NATAL e um abraço do Fox.

Mas todos teremos passado dois Natais em África. Eu passei o Natal de 1968, o ano da chegada, em Nova Freixo, no AB6. Vim de Marrupa para Nova Freixo e nem me recordo porquê. Podia estar mais tempo em Marrupa e ter passado lá o Natal mas, isso não aconteceu. Creio que não me lembrei do Natal e, como tinha os olhos, em Vila Cabral, apanhei o Nord-Atlas e desci até Nova Freixo.

Em 1969, passei o Natal em Vila Cabral. Este eu nunca vou esquecer! Faz parte das minhas entranhas!

Para aqueles que andam por aqui, todos, como dizem, abesseistas, um Bom Natal, Um Natal cheio de tudo bom, especialmente, saúde.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

General Melo Egídio

 Ventor 07.12.11

... o Governador. O governador do distrito do Niassa, no norte de Moçambique e o Governador Geral de Macau, mais tarde.

Um dia cheguei a Moçambique, segui o rumo e tudo correu como eu queria. Fui parar ao Niassa, Nova Freixo, mais precisamente, AB6 - Aeródromo Base 6. Isso aconteceu no ano de 1968 e a 31 de Janeiro, cerca da meia noite, cheguei a Nova Freixo. Dois meses, em Nova Freixo e rumei a Marrupa ("terra do Desterro", significado indígena de Marrupa) logo de seguida. Por ali, com intervalo de cerca de meio mês, estive oito meses e meio.

Foi em Marrupa que ouvi falar desse homem. Um militar que seria, na altura, Coronel - O Coronel Melo Egídio, Governador Civil do Distrito do Niassa.

Um dia, na minha caminhada por Marrupa, no Aeródromo de Manobras 62 (AM 62), de manhã cedo, estava o meu amigo "Louco da Malásia" de serviço, no Posto de Rádio e eu, dormindo! O dia acordou com uma grande trovoada sobre Marrupa. Na sequência da azáfama do dia anterior, eu dormia e, de repente, senti que o Posto de Rádio da Força Aérea iria abaixo ou ardia!

Um grupo de militares invadiu o Posto de Rádio. O burburinho deles, juntou-se à pedalada dos relâmpagos e dos trovões. Tudo aquilo se tornava insuportável. Eu, que até era bom rapaz, pelo menos fazia por isso, comecei a sentir-me chateado. Sem reparar quem estava, pedi ao meu amigo Louco da Malásia para desligar os equipamentos. Ele assim procedeu mas a pressão sobre ele era muito grande! Um grupo de militares achava que o homem não falhava e que chegaria, mesmo no meio da trovoada! No meio da balbúrdia acabei por acordar e virei-me para o outro lado. Mas a algazarra foi aumentando e eu, sem mais nem menos, metido no meio dela, sem justa causa. Pelos fios que desciam das antenas, desciam também os relâmpagos e o Posto de Rádio parecia incendiar-se.

Por fim, ouvi uma voz dirigida ao Louco da Malásia: "que está você aqui a fazer? Você não está de serviço? Ligue essa merda, senão os homens ainda morrem e nós não sabemos"! O Louco da Malásia que, também era bom rapaz, cedeu e fez a vontade aos cabeças do ar condicionado do Sector Echo, ligando os emissores e chamando Vila Cabral. Um relâmpago endiabrado penetra junto dos fios. Parecia que nos queria destruir o Posto de Rádio e eu não queria o Posto de Rádio destruído. O meu sono sumiu. Endiabrei! Levantei-me, com calma, em slipes, passei no meio dos cabeças de ouro do Sector Echo, espreitei pela janela e, ... sem mais, dirigi o dedo grande do meu pé direito, ao botão geral dos equipamentos de rádio, pressionei e disse: "só gente que não percebe nada disto, julga que um avião entra hoje, em Marrupa, enquanto as circunstâncias se mantiverem. «Chegaste a enviar a informação meteorológica para Vila Cabral»? "Sim, mas já não me chegaram a informar se o avião iria decolar". «Se descolou, quando tiver a área de Marrupa à vista, foge logo para trás».

Virei-me para o meu amigo Louco e disse: «não ligas mais esta coisa, hoje, enquanto eu não te disser, ouviste! E que está esta malta aqui a fazer? Todos lá para fora»! Era fora do Posto de Rádio, abrigados pelo telheiro, que eles deviam guardar, se as houvesse, as comunicações. Ficamos só eu e o Louco da Malásia. Por fim, mais tarde, os nossos amigos do Sector Echo, acabaram por abalar. Chegaram à conclusão que eu tinha razão e desandaram. Pensaram que o avião nunca mais chegaria, como não chegou! Seria impossível e ainda bem para todos, eles e nós!

Soube, na sequência dessa pequena escaramuça, que o Senhor Governador Civil do Niassa, teria informado que, naquele dia, iria fazer uma visita à bela terra do DESTERRO - Marrupa!

Dias depois, fui informado pelo meu Comandante, em Nova Freixo, que havia uma queixa do Comandante do Sector Echo, enviada para Nampula, contra mim e queria saber pela minha boca o que se tinha passado. Disse-lhe que não sabia de nada, tinha de se "esmerar" para me fazer compreender o porquê, pois nunca tivera qualquer mal entendido com o comandante do Sector Echo. Então, o meu comandante lá veio com o meu aparecimento  no meio do Staff de Marrupa em "trajes menores"! Percebi tudo mas, o ataque daquele Maralhal, contra o Fox, saiu baldado. Eu apenas defendi os equipamentos contra casmurros precipitados, dos quais nem vi galões.

Algum tempo de felicidade, nas escaramuças da guerra, com a minha cegonha

Mais tarde, apareci em Vila Cabral e, podem crer, vim a conhecer o Senhor Governador Civil, Melo Egídio e, se alguém tiver dúvidas, podem crer que tivemos sempre um relacionamento exemplar. Para ele, eu era o Ok, OK, ... porque lhe resolvia alguns problemas da sua malta civil, sempre que possível, especialmente, nos transportes para o Hospital de Nampula.

Poderia falar muito sobre esses tempos do Niassa e bastante sobre esse homem que me pareceu muito querido das populações desse Distrito.

Esse homem, o Governador do Distrito do Niassa, em Moçambique, que veio a ser Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas e Governador de Macau e que, por determinação do Senhor da Esfera ou das Parcas, nos deixou hoje, merece toda a minha consideração e votos de simpatia pelo pouco tempo de convivência que tivemos no Niassa, em Vila Cabral. O sorriso dele cativava.

Deixo aqui os meus pêsames a toda a sua família, especialmente, à sua filha Paula, que melhor conheci, se é que ainda existe, neste nosso mundo, neste nosso Planeta Azul.

Que Deus o tenha a seu lado, Senhor General.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Olá AB6! --- .-.. .- .- -... -....

 Quico e Ventor  28.09.11

Bom dia AB6

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Longa vida a todos nós  

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Eu sou o corvo de raça australiana amigo do Ventor 
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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...