Quico e Ventor 20.04.14
Páscoa de 2014 a minha 69ª Páscoa, algumas delas sem amêndoas. Nos últimos 47 domingos de Páscoa, apenas com três amêndoas para recordar a minha primeira Páscoa em Moçambique - Ano de 1968.

Quico e Ventor 20.04.14
Páscoa de 2014 a minha 69ª Páscoa, algumas delas sem amêndoas. Nos últimos 47 domingos de Páscoa, apenas com três amêndoas para recordar a minha primeira Páscoa em Moçambique - Ano de 1968.


Quico e Ventor 04.04.14
Hoje é mais um dia de tristeza.
Quero aqui deixar a minha homenagem ao meu (nosso) amigo Abílio José Coutinho.
Tantos anos depois, mesmo não nos vendo tão assiduamente como gostaríamos, os nossos corações sempre bateram no mesmo compasso e, a nossa amizade foi indestrutível.
Coutinho e Ventor, em Mafra
Tantos amigos cujos nomes de alguns não recordo, perdidos nas sombras dos tempos, continuamos caminhando, sempre a sonhar com esses tempos passados mas inolvidáveis. Alguns já passaram o limiar que define o Além. Estão para lá da linha imaginária que define o Reino da Luz e o Reino das Trevas. Cá ou lá, lá ou cá, continuaremos sempre juntos até ao dia final.
Depois dos almoços que tivemos durante os anos 70, onde dávamos novas caminhadas na reestruturação das nossas vidas, deixamos de nos ver mas, quis Deus que, pela mão do nosso amigo Checa, nos voltássemos a encontrar. Esse encontro, o nosso encontro final, foi em 21 de Setembro de 2013, em Mafra.
Era assim, nas nossas caminhadas africanas. Marrupa, Nova Freixo, ... . Franqueira e Coutinho
Coutinho, Franqueira, Rui Perestrelo e Checa, em Nova Freixo
Hoje recebi a triste notícia, do nosso amigo Checa de que, mais um de nós, partira hoje de manhã, para junto do Senhor da Esfera. Ele nos trouxe a este mundo e nos vai levando para o outro e, uns atrás dos outros iremos fechando esse ciclo.
Hoje foi a tua vez mas tu não partiste! Ficarás nos nossos corações tal como neles sempre tens estado.
Um dia voltaremos a ter mais um encontro, grande amigo.
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Ventor 22.02.14
Um dia em Marrupa, no Norte de Moçambique, Distrito do Niassa.
Um dia, saído do AB6, em Nova Freixo, cheguei a Marrupa, num T6. Era 6 de Abril de 1968. Já não tenho a certeza quem foi o Piloto. Mas, tenho a certeza que, durante algum tempo, me ia adaptando a Marrupa, especialmente à selva "savánica" em volta e as suas lânguas. Primeiro acompanhado e, como as companhias começaram a falhar (andar não era bom para todos), ia caminhando apenas só, com os nossos rafeiros. Os meus amigos Zorba, Diana e Bolinhas.
Preparado para tudo que eventualmente desse e viesse de fora da cerca do arame farpado, resolvi fazer uma limpeza da secretária do Posto de Rádio onde trabalhávamos. Comecei por retirar todos os papéis ali deixados pelos meus antecessores, colocando no cesto dos papéis os que não tinham interesse e arrumando todos aqueles que teriam justificação. Entre eles estavam alguns que nos ensinavam muito sobre as populações de Moçambique, especialmente as do Norte: Macuas-Lomués, Makondes e os Ajaúas do Niassa, outros que nos proibiam de cantar certas canções como, por exemplo, o Hino do Lunho.
Contava-se ali, também, a história da morte do Tenente Malaquias, cujo indicativo de guerra seria Ana, o nome, se a memória não me falha da sua filhota. Não me recordo bem disso, pois ele teria sido abatido no ano anterior (Outono?) de 1967. Portanto, muito tempo antes de eu chegar a Marrupa.
Quico e Ventor 31.03.2013
Mais um ano, mais um domingo de Páscoa, ....
... mais três amêndoas!
Era uma vez! ...
Era uma vez, um grupo de cerca de 5 a 6 dezenas de homens, numa terra linda a que outros deram o nome de Marrupa (Desterro), eu comi três amêndoas. Outros comeram outras três amêndoas e outros, se calhar porque não gostavam, terão redistribuído os seus quinhões pelos seus parceiros do lado. Seja como for, eu comi três.
Desde então, eu voltei a comer três amêndoas em todos os domingos de Páscoa de todos os anos, tal como já fiz hoje.
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Quico e Ventor 10/04/2012
Encontros e desencontros da nossa caminhada.

Quico e Ventor 01.03.12
A minha caminhada africana não se resume à minha estadia de 26 meses no Norte de Moçambique. Não se resume às caminhadas ao lado do rio Lúrio, do rio Messalo, voando sobre o rio Lugenda ou, ao lado do Rovuma;
das minhas caminhadas por Nova Freixo, pelas lânguas de Marrupa, ou em redor de Vila Cabral.
A minha caminhada africana é muito mais longa que essas caminhadas cinegéticas ou dos meus crosses nas pistas da Força Aérea, de Nova Freixo, de Marrupa e de Vila Cabral.
A minha caminhada africana completa-se com uma caminhada, bem longa, antes de chegar lá, e muito mais longa, depois de sair de lá! E, tal como o escritor francês, cujo nome não recordo (não é o Emile Zola), eu posso dizer: J'Acuse"!
Eu acuso o mundo de se esquecer de África! O mundo que só sente os interesses da África, quando sentem que estão lá os interesses deles. Eu acuso todos os que abandonaram a África! Não os que a abandonaram porque tiveram de fugir, porque foram obrigados a fugir, mas todos aqueles que estiveram nos princípios da fuga! E não me refiro apenas aos portugueses que não souberam resolver os problemas que lhe competiam, sobre a África de que fazíamos parte mas, a todos que não souberam olhar pelos interesses da África de norte a sul!
África, onde o povo, para além das misérias causadas pelas guerras, também canta e dança
Eu acuso todos os países que podem e que não tentam fazer mais pela África!
Dito isto, apenas vos digo que tento caminhar sempre, ao lado da África, que voltarei a caminhar com todos os africanos, uma nossa caminhada virtual, muito especial e não apenas com a minha gente de Moçambique, de que nunca me esqueço, mas com toda a gente de África que trabalha, canta e dança, dentro e fora das suas machambas, de norte a sul do continente.
Recordo sempre aquela moça negra que foi obrigada a partir de cá para Moçambique, porque a vida correu mal à sua família e não lhe podia dar tudo o que ela desejava (apenas os estudos - 1970) e como ela gostava do seu Portugal (o puto) e do seu Moçambique e, recordo o seu choro no Aeroporto da Portela, então, virada para trás, olhando a varanda e os muitos amigos que lá tinha, de costas para o avião, gritando: "Ventor, nunca te esqueças do nosso Moçambique"!
Passaram 42 anos e nunca mais esqueci! Não esqueci, Rute! Não esqueço a volta que a tua vida levou no tão pouco tempo que te conheci! E nunca esqueci o "nosso" Moçambique! Nunca esquecerei o "nosso" Moçambique! Moçambique também é meu Rute! Fui sem ele, mas trouxe-o comigo.
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Este é o local onde nos dizem que fica o berço da Humanidade com cerca de 4 milhões de anos
Mas, voltando a África, recordo-me que volto ao berço! Pelo menos, em sentido figurado porque, eu, não sou daqueles que acreditam que todo o mundo nasceu nos desfiladeiros de Olduvai ou arredores! Não vejo porque um sítio que, por bondade da Natureza, nos mostra com mais facilidade o homo erectus e nos faz rechaçar para segundo plano outros que especialistas, também, bem intencionados vão descobrindo aqui e ali, por esse mundo fora. Antes das ossadas do homo erectus, apareceram as ossadas do Hiperião, um cavalo que terá vivido desde os tempos do Mioceno ao Pleistoceno e que seria semelhante ao Mercychippus, outra beleza de então, também cavalo, descoberto no Nebrasca.
Não vou em teorias, que pretendem fundamentar com ossadas mas, também não deixo de reconhecer que as descobertas se fazem transpirando. Seja como for, posso deixar aqui que, segundo os especialistas do início do séc. XX, o desfiladeiro de Olduvai, era um lugar que se previa ideal para investigar o que saísse de sob aquelas camadas sedimentares. Transformações geológicas teriam dado origem a uma falha, há 500.000 anos, que desviou o curso de um pequeno rio e transformou toda aquela área. Ali foram descobertas ossadas de omídios e seria um elo entre o Australopitechus afrerensis de cerca de 3.2 a 4 milhões de anos e o Australopitechus africanus, datado entre 2 e 3 milhões de anos.
Mas há muito para falar de África, dos seus desfiladeiros, dos seus rios, das suas savanas, das suas montanhas, dos seus desertos, das suas florestas e das suas gentes. Tentarei ir brincando com tudo isso, por aqui.

Um dos meus amigos Moçambicanos. Uma espécie de corvos que, em tempos, me disseram que Moçambique os importou da Austrália para limparem as florestas. Verdade? Não sei! Mas eu acreditei em quem mo disse. Gostava de os ver, ao romper do dia, correrem atrás das ratazanas rumo às sargetas, no AB6 - Nova Freixo
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Quico e Ventor 20.12.11
Seja como fôr, foram realidades passadas por uns e por outros. Eu, como todos já sabemos, fui um dos outros! Dos socorristas! Um dia, com 17 anos, vaticinava eu, que teria chegado a hora de dar o meu salto para França. Já tinha alguém que me emprestaria o dinheiro no momento que eu quisesse. Um homem que nunca conheci bem e que tenho pena não ter podido conhecer melhor. Nunca mais o voltei a ver!

Mas um dia, caminhava eu pela Av. da Liberdade, em Lisboa, rumo aos Restauradores e, encontrei junto de uma porta, um grupo de pessoas preparadas para entrarem no belo Palácio Foz. Foi ali que fiquei! Perguntei onde era a bilheteira e disseram-me que a entrada era livre. Foi ali que eu comecei a ver o que era a África e fiquei a conhecer dois anos de guerra, em fotografias, passados, em Angola.
Conheci os terrores dos assaltos às fazendas do Norte de Angola. Assisti a pessoas trucidadas, brancas e pretas. Para estas serem motiladas, bastava que se deixassem ficar ao lado dos seus patrões. Era o passaporte para o inferno ao lado deles. Isso transtornou a minha alma!
Ontem, voltei ao Palácio Foz, assistir a um sarau de artistas de amanhã e recordei esses tempos!
No Natal de 1967, já caminhava eu pelas ruas de Lisboa, com os olhos em Moçambique. Já tinha Guia de Marcha, sobre uma secretária dos Recursos Humanos da Região Aérea Nº 1, para me ser entregue e dar início, no dia 04 de Janeiro de 1968, àquela parte da minha caminhada africana, onde, rumando no Niassa sobre as águas do Atlântico, tive a companhia dos mais belos companheiros que alguma vez podemos imaginar. Sempre à direita do navio Niassa, saíam do fundo das Águas, aquelas maravilhas saltando em arco - os Golfinhos. Do marejar das águas vinha o som por eles proferido: "salve, Ventor"!
Caminhando no Youtube, encontrei este vídeo, um exemplo das muitas mensagens de Natal que a nossa tropa dirigia pelos natais, às suas gentes. Porém este é especial! Encontrei aqui, entre outros, dois homens que fizemos parte do mesmo combate. Os pilotos aviadores, Alferes Relevo e o Furriel Brochado.
Natal de 1967, em Vila Cabral, e Mueda
Caminhava eu por Lisboa, enviavam eles mensagens para a sua família, por aqui e, no ano seguinte, estávamos juntos nas belas terras do Niassa, caminhando nos trilhos do perigo.
O Furriel Brochado e eu, estivemos em apuros na pista do AB6, num dia que o Comandante Araújo, me obrigou a ir de Marrupa para Nova Freixo para ser assistido pelo médico do batalhão de Nova Freixo ou seguir para o Hospital de Nampula. Levei algum tempo a fazer as malas, duas, uma cheia de livros e, no momento da aterragem já se tornara tarde. O Tenente Coronel Araújo foi com o Jipe para a pista tentando iluminá-la com os faróis e nós só víamos a linha branca ao correr da pista. Ela estaria na ponta do nariz ou nos precipícios do Inferno mas, estava lá. Quando a DO bateu com os pneus na pista nós voltamos a escalar o céu e perdemos tudo o que tínhamos. Ficamos penugens pairando na aragem. O Jipe vinha atrás de nós, um pouco ao lado, tentando iluminar a pista e nós no bate e sobe. Eu olhei para trás e só via o nosso Comandante com as mãos na cabeça. Penso que ele chegou a acreditar que estávamos nas mãos de Deus.
Um bom Natal meu grande amigo Brochado! Espero que essa seja a vontade de Deus.
O Alferes Relevo, ainda o voltei a ver no Aeroporto de Lisboa. Caminhava eu à procura de portugueses que pudessem dar uma ajuda à minha mãe, no avião, na sua primeira viagem para os Estados Unidos. Vejo dois pilotos da TAP, a entrarem numa porta que se fechava. Conheci a cara de um mas, não recordava o nome dele. Lancei a escada à Guerra e gritei, no momento em que a porta se fechava: "Ícaro, Fox Oito Fox". A porta voltou-se a abrir e de dentro saía uma cara que eu sabia ser amiga: "não me digas que vou ser eu a levar-te para a América"! «Talvez um dia mas, hoje, não»!
«Queria ver se me indicavas uma Hospedeira do Voo "X" para os Estados Unidos, para dar uma ajuda à minha mãe, ela é que vai»!
"Sou eu o Comandante desse voo. Dá-me o nome dela e está entregue"!
A minha mãe, lá foi acompanhada de uns portugueses que viajavam da Austrália para os Estados Unidos e sentia-se bem com eles. Quando o meu amigo a foi buscar para a levar para o Cockpit e ir junta com eles, observando bem o Atlântico e ver bem o impacto da chegada a Nova Iorque, ela recusou-se!
"Venha comigo minha senhora, eu e o seu filho somos amigos, estivemos juntos na guerra, somos como irmãos. Venha connosco no Cockpit. Lá é muito melhor"!
«Não meu senhor, eu daqui não saio. Não quero copito nenhum»!
Obrigado meus amigos.
Para todos vós um BOM NATAL e um abraço do Fox.
Mas todos teremos passado dois Natais em África. Eu passei o Natal de 1968, o ano da chegada, em Nova Freixo, no AB6. Vim de Marrupa para Nova Freixo e nem me recordo porquê. Podia estar mais tempo em Marrupa e ter passado lá o Natal mas, isso não aconteceu. Creio que não me lembrei do Natal e, como tinha os olhos, em Vila Cabral, apanhei o Nord-Atlas e desci até Nova Freixo.
Em 1969, passei o Natal em Vila Cabral. Este eu nunca vou esquecer! Faz parte das minhas entranhas!
Para aqueles que andam por aqui, todos, como dizem, abesseistas, um Bom Natal, Um Natal cheio de tudo bom, especialmente, saúde.

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...