quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sonhos verso realidade

 Quico e Ventor 15.10.14

Penso, penso, penso e acabo por sonhar.

Tenho vários posts do Blog "Ventor em África", sem as certezas totais e penso sempre, limpar o meu sótão para ver se o disco rígido funciona perto dos 100%. Mas não consigo.

Quem estava comigo, quem não estava comigo. Sei lá! Já contei aqui duas "histórias" da minha caminhada africana, onde não consigo recordar os meus companheiros de caminhada. São duas histórias independentes mas que se deram na mesma caçada, durante uma tarde.

Na primeira dessas duas, trata-se do meu encontro com um leopardo e na segunda, o meu encontro com um grande facochero. Tudo bem menos identificar os meus companheiros de caminhada. Não havia muitos que quisessem ir comigo à caça, nem em Marrupa, nem em Vila Cabral e, quando isso acontecia as suas imagens dispersaram-se pelo futuro do nosso "out of Africa", tal como eles.

Em Marrupa, o primeiro que foi comigo à caça foi o Maniés. Como não conhecíamos aquilo, fomos os dois, cada um com uma G-3. Azar dos azares, nem eu nem o Maniés, durante os treinos na Ota, tínhamos visto uma G-3 e, em Marrupa, quando colocamos os carregadores foi com toda a meiguice deste mundo. Não caíram por sorte! Para experimentarmos as G-3, preparamos-nos para dar uns tiritos. A bala não entrava na câmara, tirávamos e voltávamos a meter os carregadores e nada. O Maniés, enervado, chateou-se com aquilo, "zás, catrapás, pumba"! Ia-me dando um tiro num pé. Foi a um dedo da sola da bota. Foi assim que ele e eu aprendemos a mexer na G-3. Ele nunca mais quis ir comigo à caça por isso ou porque nunca mais se proporcionou. Depois veio-se embora e eu fiquei em Marrupa.


Leopardo da pixabay

Depois foi um açoriano a que chamávamos "porta-aviões". Só foi uma vez, ele de um lado da lângua e eu do outro. Por fim eu estava lá em cascos de rolhas com os cães e ele, só, cá atrás, a gritar por mim. Não gostou da caminhada, ficou desorientado e disse-me que nunca mais iria comigo à caça. Creio que nunca mais foi, nem comigo, nem com ninguém.

Depois, ou ia sozinho, ou com o Melo, ou com o Coutinho, ou à noite, com um chaimite, eu, o Melo, o Coutinho e um Alferes algarvio, dos Comandos, destacado, em Marrupa. Eu, salvo raras excepções, continuava as minhas caminhadas só, utilizando o lema de "mais vale só do que mal acompanhado". Era assim que eu dizia aos que se recusavam.

Mas nessa tarde, eu e mais três saímos do Aeródromo e descemos pelo lado esquerdo da pista para o mato. O objectivo era uma espécie de perdizes diferentes das nossas, que fugiam do chão, onde se alimentavam, para as árvores e depois, de árvore em árvore. Levávamos duas caçadeiras Browning, semiautomáticas, de cinco tiros, eu levava uma, um outro levava a outra e, os outros dois, levavam G-3. Espalhamos-nos, indo eu na ponta esquerda, mais próximo do vale onde fui topar com o leopardo. Nesse local, tempos atrás, ali perto, quis ver um chango fugir e mandei um tiro para o ar com a G-3 e, imediatamente, fui corrido à pedrada por macacos tão assustados que não me largavam.  Eu, acompanhado pelos cães, fui-me desviando, sempre com a G-3 apontada a um dos mais próximos e só parei na picada de Marrupa. Seriam cerca de 18 macacos. Quando se aproximaram da picada desistiram e deixaram de tentar apanhar pedras, onde também não havia muitas. Acabaram por fugir, infiltrando-se mato dentro. Creio ter sido essa a minha sorte. Pouco faltou para eu tentar matar os macacos que fosse possível. Mas não dei nem um tiro além daquele que tinha servido, antes, para espantar o chango.

No resumo dessa tarde, eu e o leopardo encontramos-nos e observamos-nos, olhos nos olhos, ele lá em baixo e eu cá em cima, a uma distância muito curta. Ele pensava no que ia fazer e eu pensava em trocar os cartuxos com chumbo para perdizes por zégalotes para caça grossa. Há um momento em que o leopardo esteve à mercê de um belo tiro mas eu é que era o intrometido e tinha por finalidade observa-lo enquanto ele mo permitisse. Achei que nunca mais estaria frente a frente com uma beleza daquelas e, quando os vejo no zoo, não passam de uma banalidade.



 Um facochero, foto tirada da Wikipédia, da autoria de Sanjay Ach, Attribution-ShareAlike 3.0 Unported (CC BY-SA 3.0) 

No regresso, voltamos pelo mesmo caminho que tínhamos levado. Eu deixei de caminhar na ponta esquerda e passei a caminhar na ponta direita, sempre com o vale à vista. A paz e a serenidade com que ficamos frente a frente, eu e o leopardo, não tinha nada a ver com que se passou já relativamente perto do Aeródromo com o facochero. Ele disparou como um bólide da minha esquerda e tentou atropelar-me ou terá sido pura coincidência, não sei. O mato era alto e, se calhar, o bicho nem me viu. Sei que eu dei um grande salto e ele passou-me por baixo das pernas. Só sei que saí ileso daquilo tudo e só vi que era um facochero quando tive oportunidade de lhe dar o tiro. Mais tarde vi que era bem grande.

Mas onde está o sonho no meio desta realidade toda?

Tanto tenho pensado nisto que acabei por sonhar. Logo a seguir ao meu tiro sobre o facochero, a malta corre para mim descendo a encosta. Sonhei com esse local, no momento do facochero e, nos três vultos que me observavam e me interrogavam pelo motivo do tiro, só identifiquei um, tal como ele era. O nosso grande amigo Coutinho. Creio que ele quis-me tirar esta dúvida e mostrou-se em sonhos, sorrindo, como sempre fazia.

Acredito ele ser um dos outros três. Fomos várias vezes juntos. Mas, e os outros dois? Um podia ter sido o Louco do Amor, o outro o Melo, os que mais costumavam andar comigo. Como dizem os brasileiros, "sei não"! Vou continuar assim.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sexta-feira, 18 de julho de 2014

T-6 (Texano 6)

  Quico e Ventor 18.07.14

Um dia, caminhava o Ventor nas suas Montanhas Lindas a levar as vacas para a Corga Grande, em Adrão. Teria, então, entre 10 e 12 anos.

Era um dia de Abril muito quente. As vacas, caminhando no monte, por fora do caminho, dentando aqui e ali algumas ervas ou carrascas, enquanto eu ia com a vista fisgada num sítio, por cima do caminho onde, de vez em quando, observava um grande sardão todo verde com a cabeça azulada. Caminhava eu com uma pedra em cada mão e vara debaixo do braço e, sobre uma rocha mais baixa, ao lado de outra maior, já observava a cabeça do sardão.

Eu estava disposto a enviar uma pedra de arremesso contra o sardão mas pouco mais via que uma parte da cabeça. Por fim, tão curioso como eu, o sardão, para me ver, começou a mostrar-se mais. Eu ainda estava afastado e ia-me aproximando lentamente do local onde o sardão apanhava sol ao mesmo tempo que me ia observando.

De repente, desce, vindo do Planalto da Naia, com o motor roncando pela Corga Grande abaixo, um brinquedo destes a que mais tarde viria a chamar T-6, uma máquina que foi, para nunca mais esquecer, minha companheira de guerra.


 

 A pintura de um T-6 no Restaurante Terminal, em S. Jacinto

Eu que nunca tinha tido um brinquedo a não ser os que eu fazia (carrinhos de cortiça e outros), vi passar sobre a minha cabeça um dos mais belos brinquedos com que o mundo me brindara. Lá dentro, não me recordo bem, levava pelo menos uma pessoa. Ao passar junto de mim, o piloto inclinou o avião para me observar a mim e às vacas, seguindo pelo vale abaixo bastante baixo, passando sobre Adrão, rumo ao rio Lima. Fiquei extasiado com tudo aquilo que nunca tinha visto, pois quando passavam aviões sobre Adrão, seguiam sempre muito altos e seriam sempre aviões comerciais.



Foi nesse caminho do lado esquerdo da foto. Belos tempos, talvez 1957-58

Aquele brinquedo fez tamanha faísca no meu cérebro que creio ter sido ele o meu passaporte para a Força Aérea.

Passei 23 meses e meio na Base Aérea 2, na OTA e na DSCTA, em Lisboa mas, só voltei a ver um T-6 como aquele em Adrão, anos depois, em Nacala, no Norte de Moçambique, no dia 25 de Janeiro de 1968, quando ele, com furos de balas (feitos na zona de Mueda), fez uma passagem baixa sobre o navio Niassa já encostado no Porto de Nacala, a desejar-nos as boas vindas. Um Nord-Atlas e um T-6, foram os embaixadores da Força Aérea a dar-nos as boas vindas, voando inclinados junto aos mastros do navio Niassa e sobre nós. Os roncos dos seus motores pareciam dizer-nos: "bem-vindos ao palco da guerra"! A primeira coisa que fizemos à chegada ao AB5, em Nacala, foi ir cumprimentar aquela bela máquina furada pelas anti-aéreas da Frelimo.

No dia 31 de Janeiro de 1968, cerca da meia noite, entrei eu e outros no AB6 e, quando saímos do Hangar e nos dirigimos para o Bar para comermos algo pois estávamos cheios de fome, vimos alguns T-6 lado a lado que no meio do escuro, mais nos pareciam fantasmas do meu brinquedo maravilha.

No dia seguinte de manhã, já em plena luz do dia, lá estavam eles alinhados. Até pareciam que faziam a sua apresentação àqueles que, durante dois anos e tal estavam prontos a conviver com eles e, se necessário, a dar a vida por eles porque eles iriam fazer parte de nós.



No hangar do AB6 quando saíamos pela sua porta, lá estavam os nossos companheiros de metal. Constou-se que, mais de uma vez, viram leopardos junto deles. Este lá vai cruzando os céus de Moçambique

Entrei pela primeira vez dentro de um T-6, em Nova Freixo, no AB6, quando rumei a Marrupa, em 6 de Abril de 1968. Quando o piloto me mostrava, com o T-6 invertido, o monte Mitucué, em Nova Freixo, eu via a Corga Grande, o sardão, as minhas vacas, os carvalhos lá em baixo, e não aquele rochedo que nunca mais acabava. O meu segundo voo de T-6, foi sobre a serra Mecula, o rio Lugenda e sobre parte da margem direita do Rovuma, na zona da confluência do Rio Lugenda. Depois de Adrão, fartei-me de ver T-6 mas não enjoei! No Restaurante Terminal, em S. Jacinto, ao ver esse T-6 pintado na sua parede anos depois de ver T-6 vezes sem conta, fiquei tão extasiado que me parecia voltar a ver o meu brinquedo nos céus de Adrão.



Um T-6 americano sobre Jacksonville ( foto tirada da minha amiga Wiki)

PS. Estes aviões T-6, eram os aviões de instrução das forças armadas americanas, já em 1936, e continuou pelos anos fora. Os Estados Unidos possuíam 1.200 T-6 em 1941. Após o ataque a Pearl Harvor, o presidente Roosevelt, mandou construir aviões e, terá dito numa reunião com os Estados Maiores Americanos, que queria que mandassem construir 50.000 T-6 para dar caça aos japoneses.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 20 de abril de 2014

Boa Páscoa de 2014

  Quico e Ventor 20.04.14

Páscoa de 2014 a minha 69ª Páscoa, algumas delas sem amêndoas. Nos últimos 47 domingos de Páscoa, apenas com três amêndoas para recordar a minha primeira Páscoa em Moçambique - Ano de 1968.


 
Comendo três amêndoas, continuo a recordar todas as caras dos meus companheiro de caminhada nessa Páscoa de 1968.
Boa Páscoa para todos vó
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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Dia de tristeza

 Quico e Ventor 04.04.14

Hoje é mais um dia de tristeza.

Quero aqui deixar a minha homenagem ao meu (nosso) amigo Abílio José Coutinho.

Tantos anos depois, mesmo não nos vendo tão assiduamente como gostaríamos, os nossos corações sempre bateram no mesmo compasso e, a nossa amizade foi indestrutível.

Coutinho e Ventor, em Mafra

Tantos amigos cujos nomes de alguns não recordo, perdidos nas sombras dos tempos, continuamos caminhando, sempre a sonhar com esses tempos passados mas inolvidáveis. Alguns já passaram o limiar que define o Além. Estão para lá da linha imaginária que define o Reino da Luz e o Reino das Trevas. Cá ou lá, lá ou cá, continuaremos sempre juntos até ao dia final.

Depois dos almoços que tivemos durante os anos 70, onde dávamos novas caminhadas na reestruturação das nossas vidas, deixamos de nos ver mas, quis Deus que, pela mão do nosso amigo Checa, nos voltássemos a encontrar. Esse encontro, o nosso encontro final, foi em 21 de Setembro de 2013, em Mafra.



Era assim, nas nossas caminhadas africanas. Marrupa, Nova Freixo, ... . Franqueira e Coutinho



Coutinho, Franqueira, Rui Perestrelo e Checa, em Nova Freixo

Hoje recebi a triste notícia, do nosso amigo Checa de que, mais um de nós, partira hoje de manhã, para junto do Senhor da Esfera. Ele nos trouxe a este mundo e nos vai levando para o outro e, uns atrás dos outros iremos fechando esse ciclo.

Hoje foi a tua vez mas tu não partiste! Ficarás nos nossos corações tal como neles sempre tens estado.

Um dia voltaremos a ter mais um encontro, grande amigo.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Era uma vez no Niassa

  Ventor 22.02.14

Um dia em Marrupa, no Norte de Moçambique, Distrito do Niassa.

Um dia, saído do AB6, em Nova Freixo, cheguei a Marrupa, num T6. Era 6 de Abril de 1968. Já não tenho a certeza quem foi o Piloto. Mas, tenho a certeza que, durante algum tempo, me ia adaptando a Marrupa, especialmente à selva "savánica" em volta e as suas lânguas. Primeiro acompanhado e, como as companhias começaram a falhar (andar não era bom para todos), ia caminhando apenas só, com os nossos rafeiros. Os meus amigos Zorba, Diana e Bolinhas.

Preparado para tudo que eventualmente desse e viesse de fora da cerca do arame farpado, resolvi fazer uma limpeza da secretária do Posto de Rádio onde trabalhávamos. Comecei por retirar todos os papéis ali deixados pelos meus antecessores, colocando no cesto dos papéis os que não tinham interesse e arrumando todos aqueles que teriam justificação. Entre eles estavam alguns que nos ensinavam muito sobre as populações de Moçambique, especialmente as do Norte: Macuas-Lomués, Makondes e os Ajaúas do Niassa, outros que nos proibiam de cantar certas canções como, por exemplo, o Hino do Lunho.

Contava-se ali, também, a história da morte do Tenente Malaquias, cujo indicativo de guerra seria Ana, o nome, se a memória não me falha da sua filhota. Não me recordo bem disso, pois ele teria sido abatido no ano anterior (Outono?) de 1967. Portanto, muito tempo antes de eu chegar a Marrupa.


Da esquerda para a direita, Capitão Filipe Rolando Borges Mantovani, General Ramalho Eanes, então a cumprir comissão em Tenente Valadim, Tenente Malaquias, não recordo o nome da quarta personagem. Pelo perfil, faz-me lembrar o Ícaro, mais tarde, Comadante do 747 da TAP que levou a minha mãe na sua primeira viagem para os Estados Unidos
Hoje lembrei-me de recordar e homenagear estes homens.
Para todos que permanecem entre nós e para todos aqueles que nos deixaram mais cedo, lá ou cá, presto aqui a minha homenagem e, especialmente, ao Capitão Mantovani a quem sempre considerei um amigo. Ele foi morto na Guiné, em 1973, cerca de três anos depois de nos despedirmos, em Nova Freixo. Recebi, então, a notícia da sua morte, na primeira página do Diário de Notícias, numa manhã de 1973. Sentei-me numa mesa do velho café Monumental, coloquei o jornal sobre a mesa e deparei-me com a sua primeira página onde aparecia a fotografia do então Major Mantovani.

Major da FAP, Filipe Rolando Borges Mantovani, morto em combate na Guiné. A guerra continua a fazer-nos chorar.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 31 de março de 2013

As três amendoas do Ventor

  Quico e Vento31.03.2013

Mais um ano, mais um domingo de Páscoa, ....

... mais três amêndoas!

Era uma vez! ...

Era uma vez, um grupo de cerca de 5 a 6 dezenas de homens, numa terra linda a que outros deram o nome de Marrupa (Desterro), eu comi três amêndoas. Outros comeram outras três amêndoas e outros, se calhar porque não gostavam, terão redistribuído os seus quinhões pelos seus parceiros do lado. Seja como for, eu comi três.

Desde então, eu voltei a comer três amêndoas em todos os domingos de Páscoa de todos os anos, tal como já fiz hoje.


Esta é a foto da confusão! Porém, para tudo há soluções 
 
Um dia, convencido ser esta a foto desse domingo de Páscoa, coloquei-a neste meu blog como tal. Eu tinha uma foto do domingo de Páscoa de 1968 e, uma vez que não a encontro, será uma das desaparecidas. Por isso, uma vez que se trata do mesmo local e de todos ou quase todos os velhos amigos desse dia, ela vai continuar a andar por aqui.
Alguns me disseram que esta era, realmente, a foto de domingo de Páscoa de 1968. No entanto, a filha do nosso amigo Furriel Pil Av. Aleixo, que o Senhor da Esfera deverá ter a seu lado, disse-me que o pai chegou a Nova Freixo, em 01 de Julho de 1968.
Também o Alferes Oliveira, sentado frente ao Aleixo, disse que não terá estado em Marrupa nessa Páscoa.
 
Diz mesmo que ..."Em boa verdade, essa foto não foi tirada na Páscoa de 68; foi sim tirada em fins de 68 ou princípios de 69, se calhar na Páscoa deste último ano, que corresponde ao período de tempo em que prestei serviço em Marrupa. Na Páscoa de 68, eu ainda estava na Metrópole, como então se dizia, só chegando ao AB6 em 17 de Maio de 1968".
 
Resumindo: "essa foto, admitindo as razões temporais da Catarina Aleixo e do Alferes Oliveira, não será, de facto, da Páscoa de 1968. Mas também garanto que foi tirada em 1968, pois eu saí de Marrupa, antes do natal de 1968. Esse Natal, ainda hoje não sei porquê, fui passá-lo a Nova Freixo e a foto foi tirada antes disso. Creio que não cheguei a pensar no Natal, porque o nosso Comandante, Ten. Coronel Araújo, tinha-me dito que eu sairia de Marrupa quando quisesse. Creio que parti para Nova Freixo com o olho em Vila Cabral para onde só fui em 7 de Julho de 1969 e onde permaneci até 20 de Janeiro de 1970. Como nunca mais voltei a Marrupa, teria sido impossível eu ter ficado nessa foto".
 

 

As minhas três amêndoas de 2013, na Amadora, homenageando as minhas três amêndoas e os meus companheiros de 1968, em Marrupa, 45 anos depois
 
Mas cá estou eu, mais uma vez a desejar a todos que por lá andaram e, especialmente aos de Marrupa, os votos de uma boa Páscoa. Para já e, enquanto esses votos são transformados em bits e espalhadas pela Net, eu vou trincando as amêndoas que fotografei.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

terça-feira, 10 de abril de 2012

Marrupa 1968

 Quico e Ventor 10/04/2012

Encontros e desencontros da nossa caminhada.



Companheiros de caminhada, senão no domingo de Páscoa de 1968, a maioria destes estaria lá, mas esta foto será posterior a Julho de 1968, data da chegada do "Manecas" a Nova Freixo
 
Tenho tido esta foto por aqui, como se fosse tirada no domingo de Páscoa de 1968, em Marrupa. Eu sei que, algumas vezes almoçávamos cá fora, debaixo do alpendre e isto, para mim, foi durante oito meses e meio. Um desses dias foi nesse domingo de Páscoa. Porém, a foto não é essa! Será outra que nem sei se ainda a terei. A foto a que me refiro, foi tirada com a minha máquina, uma laica que, de certeza, não gostou tanto de Moçambique como eu. Não se deu bem com o calor africano, com o pó, com os tombos e sei lá que mais. Rápidamente ficou inoperacional.
 
Mas nesta foto, está o nosso amigo, Pil. Av. Aleixo que o Senhor da Esfera levou antes de tempo. Como a sua filha Catarina me chamou a atenção, o nosso companheiro Aleixo, segundo rezam os seus documentos, terá chegado a Nova Freixo em Julho de 1968 e, como eu não acredito que os documentos estejam enganados e menos ainda os complementos informativos que a Catarina me deu, só me resta substituir a foto se tiver a outra. Se não tiver, esta ficará por aqui porque, simbolizará uma amizade que não foi construída nem se esgota num domingo de Páscoa com uma, duas ou três amêndoas.
 
Porém, tenho mais um dilema! Agora fico na dúvida se o Aleixo participou da nossa "batalha aérea" sobre o Lugenda, levada a cabo em Julho de 1968, durante 15 dias. Sei que estiveram presentes dois pilotos novatos, que partiram de Vila Cabral para Marrupa e sem a frequência do Rádio Farol de Marrupa.
Estavam quase perdidos na zona do Revia e pediram-me a frequência do Rádio Farol pela Rádio. Perguntei se estavam a brincar comigo e disseram-me que tinham grandes probabilidades de se perderem.
Nesse momento, o Tenente Coronel que comandava essas operações, destacado pelo Comando Avançado para tal, ele e o então Capitão Melo Correia assistiram à conversa pela rádio. O Ten. Coronel disse-me para não cair na tentação de lhes dar a frequência e que iria participar da incúria deles. Eu prolonguei a conversa, via rádio, sempre na brincadeira e consegui que eles apanhassem a frequência sem que os meus parceiros do lado se apercebessem.
 
Quando a coisa estava resolvida, virei-me para o "Clark Gable" (era assim que lhe chamávamos) o Ten. Coronel, e disse-lhe: "vê, como eles estavam na brincadeira"! O Cap. Melo Correia sorriu e, ainda hoje, tenho dúvidas se ele se apercebeu da minha marosca. Se se apercebeu, não me recordo de falarmos nisso. Mas ainda encontrei o Melo Correia, um bom homem, na Av. da liberdade, frente ao Estado Maior da força Aérea, no dia 25 de Novembro, então já como Coronel. Ele subia a Avenida da liberdade num carocha preto da Força Aérea e eu, vindo do meu trabalho, descia a pé a observar os pára-quedistas nas janelas do Estado Maior e no telhado. O carro preto parou, ele cumprimentou-me e disse-me: "lembra-se de mim? Não sei que lhe diga. Isto está muito mau! Se quiser, apareça em Cortegaça"!
Mas o Jaime Neves, resolveu o problema junto à RTP e eu esqueci Cortegaça! Isto foi no 25 de Novembro de 1975.
 
Escrevo aqui para manter as memórias actualizadas. Então fiquei admirado, como um homem que apenas estivera comigo durante 15 dias, em Marrupa, 15 intensos dias e, sete anos e quatro meses depois, me reconheceu numa avenida de Lisboa onde estivemos debaixo das armas dos pára-quedistas que tinham ocupado o edifício do Estado Maior da Força Aérea. Mas havia homens inteligentes, na Força Aérea Portuguesa de então! Eu também o conheci e a primeira coisa que fiz, foi olhar para os seus galões. Hoje não faço ideia nenhuma, quem eram os pilotos que partiram de Vila Cabral para se juntarem aos "Catataus", em Marrupa.
 
Mas volto à foto. Todos os que estamos nela, segundo a informação da Catarina, já somos, quase todos uns velhadas, em Marrupa e essa foto terá no mínimo, mais 3 meses para cima. Sendo assim, o nosso amigo Manecas, ainda era um "checa" e, por portas e travessas, foi fazer uma caminhada por Marrupa. Estivemos por lá tanto tempo que, para mim, era já na Páscoa. Mas não foi.
A única coisa que posso dizer-te Catarina, é que o teu pai, era um grande homem, um amigo verdadeiro e fez a sua vida militar, em Moçambique, parecida com a minha, sempre a brincar. Tanto quanto sei, pois estivemos juntos nos três sítios do Niassa, Marrupa, Nova Freixo e Vila Cabral, ele sabia que a vida seria mais fácil se a levássemos a sorrir e a brincar. Sorrindo, os que estavam junto de nós, teriam o seu "sacrifício" menos pesado.
 

Após 15 dias de assaltos com T-6 e PV2, sobre a zona do rio Lugenda e a dormir, entre a meia-noite e as quatro da manhã, era premente o descanso, na cadeira da guerra. Terei de um dia falar aqui do então nosso Capitão Mantovani que me encarregou de fazer tudo para coordenar os PV2 que sairiam de Nova Freixo, logo após eu carrilar para lá a informação meteorológica que o "sardinha" e o "carapau" me enviavam ao romper do dia, voando sobre o rio Lugenda
 
Mas a foto continua a dizer-me que tive sempre, junto de mim, os melhores dos meus amigos. Mesmo com os encontros e desencontros, da mobilidade da guerra, Marrupa será sempre o meu sítio de preferência. De lá nunca esquecerei todos os amigos que almoçaram e jantaram comigo nessas mesas. Nunca esquecerei, as minhas caminhadas loucas, na perseguição dos perus selvagens. Nunca esquecerei que rolei nessa pista, debaixo da metralha de companheiro nosso que o Senhor da Esfera quis que tivesse a altura mínima para não ser capaz de matar o Ventor e o outro amigo cabo-verdiano, o Melo, que gritava para mim que já não iria conhecer o filho que tinha nascido há dias, na Metrópole. Ainda fui eu que, saído debaixo de tanta fogachada, uma MG furiosa, fui ajudar o gajo que quase nos matou, na escuridão da noite com cerca de 3 kms nas pernas, para virmos pedir ao Comandante do Batalhão de Marrupa, para nos enviar uma Berlier para rebocar o Panhard para fora do lamaçal onde ficamos atolados. O Alferes dos Comandos e penso que o Coutinho, ficaram a guardar o Panhard, eu e o Melo, caminhamos na noite, entre a bicharada selvagem, para virmos tratar do desatolamento. Enfim, éramos uns "malucos" onde o mundo valia tudo ou não valia nada.
 
Obrigado Catarina por me tirares as dúvidas, sobre a foto. Alguns me confirmaram que era mesmo no domingo de Páscoa. Eu dizia para mim, que faltava lá o nosso amigo açoreano a quem chamávamos "porta-aviões" e achava muito cedo os quatro juntos, o nosso "Louco" que Deus tem, o Checa, o Coutinho e eu. Penso que o "Louco" e o "Checa" chegaram depois dessa Páscoa.
São pormenores muito complicados com tantos anos pelo meio. Mas juntos ou espartilhados, tivemos os nossos momentos bons e os nossos momentos maus, todos inesquecíveis, tal como as minhas três amêndoas.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...