sábado, 26 de dezembro de 2020

A fenda africana

 26.12.20    Quico e Ventor 26.12.20

Na África Oriental já está iniciada uma fenda.

Essa fenda está a rachar a África! A conclusão tirada pelos analistas da fenda é que toda aquela região dos Grandes Lagos Africanos vai afundar. Os afluentes que enchem de água o rio Nilo, tais como o rio Azul, o rio Branco, .... vão afundar. Nesse afundamento também afundarão os Massai com os seus gados e os leões que lhe dão caça para tentarem sobreviver. Até as grandes flores do lago Vitória vão afundar! Resumindo: o berço da humanidade que segundo os experts foi colocado pelo Senhor da Esfera no mesmo local irá desaparecer.

Todo aquele cheiro a bebé na África Oriental desaparecerá com o seu afundamento. Nem o cheiro a pó de talco vai sobreviver. Muitos dirão: "quer dizer que estamos tramados"? Nós? Não! os etíopes, os quenianos, os tanzanianos e todos por ali abaixo até ao Zambeze e até sei lá mais onde é que estão tramados. Muitos serão separados mas só se o Sars-Cov-2 os deixar.

Haverá um continente africano mais pequeno, haverá uma ilha e, entre os dois, ficará um mar. E, no final, uns vão querer pertencer à ilha, outros ao continente que restar e ainda haverão aqueles que vão querer viver, tanto do lado da ilha como do continente em palafitas.

A ilha poderá vir a chamar-se Nova Madagáscar e, em volta do novo "mar africano" serão construídas novas aldeias em novas praias: "aldeias palafitas".

Também desaparecerão os novos descendentes do general Norton e do Kitchner, os conquistadores do Cairo até Cartum um e do Cairo ao Cabo o outro.


O Leste de África - zona de afundamento

E comecei eu a pensar nisso tudo quando tomei conhecimento que a Fenda Africana iria dividir a África em três Áreas geográficas. 

Um Continente africano mais pequeno;

Uma ilha, não sei de que tamanho;

Um mar de tamanho desconhecido.

Como já existe o Mar Vermelho a norte do Corno de África, eu pensei em deixar, já aqui, o nome do novo mar africano. Será chamado Mar Azul, pois claro!

Comecei a ler o artigo com toda a minha curiosidade sobre toda a África e vi-me a pensar nos meus amigos Massai e todos os outros. Uma voz vinda dos confins do Universo animou-me! «Nada de grave, Ventor! Não te apoquentes. Daqui por 10 milhões de anos, ou mais, já tudo isso estará esquecido. Daqui por 10 milhões de anos podemos não ter as tuas belezas do Lago Niassa e os outros mas poderemos ter um mar genuinamente africano a enrolar na areia e a bater no coração da África. Mas há coisas que os experts não te contam mas eu te digo: nessa altura e se tu continuares a caminhar sobre o teu Planeta Azul, como tens feito pelos milénios fora, irás ver tudo esventrado, quem sabe, com os pólos na linha do Equador e com o Equador na linha dos pólos.

Até poderás ver nesse novo mar, leões de barbatanas e hienas transformadas em sereias. Mas nunca esquecerás essas tuas amigas "trombeteiras" de Nova Freixo.

Aguarda Ventor. Já viste fendas proporcionalmente maiores que as do Rift Valey»!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A Senhora da Lângua

 Quico e Ventor 09.04.20

Morta pela ilusão do calor que lhe dava vida, e ...

Eu sei que o Ventor ainda hoje lamenta alguns bocados da sua passagem por Moçambique e este é um deles. Mas também em locais tão longe do mundo e escondidos na selva ou quase, como se haviam de entreter? Caminhar, caminhar, caminhar ... e nem todos gostavam disso! A vida deles não era só defenderem-se dos "turras" e continuarem a levantar-se todos os dias. Era necessário continuarem a levantar-se todos os dias mas, continuar, também, a viver a vida!

«Esta é mais uma história verdadeira passada comigo e com Companheiros de Guerra.

Todas as histórias começam com: "era uma vez" ou, "once upon a time"!

Faz muito anos, nas longínquas "lânguas" de Marrupa, quatro marmanjos nascidos neste belo jardim, à beira mar plantado, decidiram ir à caça numa das mais belas terras de África - Marrupa, que significa, em linguagem indígena, Desterro. Não é o Desterro de Belém, não! É mesmo um Desterro na selva!

Partimos direitos à "picada", não no fim ou no princípio, mas no meio de algures, que nos poderia levar até ao fim do mundo, mas logo saímos dela, penetrando num matagal sem fim! Tomamos posições e, como sempre, lá continuava eu na ponta esquerda. Tinha sempre a direita protegida e a esquerda era comigo e, por vezes, as situações tornavam-se bem difíceis!

Neste caso, foi a mim que calhou enfrentar uma grande queimada que partira da lângua para o meu lado e à direita da lângua, para fugirem à queimada, partiam os outros três amigos.

Mas eu tinha tendência para me afastar e a queimada começou a empurrar-me para fora dela, pois apesar de tentar fugir aos matos queimados, já estava pior que um carvoeiro. De repente, enquanto magicava como sair daquela, sem ficar isolado, ouço gritar: "Ventor! ..." Pensei que estavam aflitos, pois de outra maneira não gritavam! Desato numa correria louca sobre o outeiro queimado direito à lângua e lá do alto, vejo lá no fundo, os três com as armas em riste! Mas lá, o mato e o capim não tinham ardido e eu só os via do peito para cima e cada vez mais corria perante o espectáculo da estupefacção daquelas três caras alarmadas!

Quando me viram, gritaram para ter calma e eu, como não tinha ouvido nenhum tiro, achei que, se calhar, encontraram alguém ferido ou, então, deram cabo de algum "turra", à coronhada!

AM 62 - Aeródromo de Manobras 62, Marrupa, em 1968

Bem, à medida que me aproximava e nada via, ouvi um deles dar um tiro. Pum!!! No vale parecia que toda a selva se desmoronava! Pum !!! Outro! Aproximei-me e vejo o que não imaginava! Uma jibóia com 4,70 metros, o que para nós a tornava colossal! Deu-lhe os dois tiros porque, segundo eles diziam, estava a levantar-se em tom ameaçador! Tinha os dois tiros de G-3 na cabeça. Um no centro e outro mais ao lado. Fazia pena ver a bicha ali, estirada, sem razão aparente e eu não gostei nada que ela tivesse sido morta, ali, fora do seu buraco, pois o aquecimento da queimada tinha atirado com ela, cá para fora, como se tivesse havido por ali, um bafo de Primavera.

Mas o mal estava feito! Agora era pega-la e leva-la até ao Aeródromo, como troféu!

Peguei num punhal do mato e cortei um arbusto que o meu amigo Rafael, um Macua de Marrupa, me tinha ensinado como fazer uma corda na selva com a sub-casca de árvore ou arbusto. Atei aquela fitinha em volta da cabeça da jibóia e a um pau; nesse instante, ela levantou aquela cabeçorra a espirrar terror e sangue contra mim e eu só tive tempo de lhe tentar esmagar a cabeça com o tacão da bota. Só parei quando achei que estava bem esmagada, não fosse fazer uma tentativa igual imanada de um terror inimaginável!


Uma boa constritora tirada da Wikipédia

Dei os nós cegos à fita tirada do arbusto e comecei a arrasta-la. Era bem pesada e tivemos que nos revezar para a levar de rastos até à base. Fomos pelo corta-mato até à pista e custou-nos bastante, pois estávamos muito longe. Quando cheguei à pista com ela sempre a fungar sangue e terror, olhei bem os olhos mortíferos do animal e achei que ela se recusava a morrer! Eram cinco horas locais quando chegamos e estavam os pretos civis a abandonar o trabalho que realizavam para os nossos serviços de infra-estruturas.

Pedi a um deles para lhe cortar a cabeça com uma catana mas, o gajo disparou numa correria louca, e outro, e outro e ainda mais outro! Todos fugiam, até que um, bem mais atrevido, se aproximou com uma catana e lhe deu o golpe de misericórdia, cortando-lhe a cabeça. Era uma jibóia média mas já metia muito respeito a qualquer e preparava-se para ser a grande senhora das "lânguas" de Marrupa.

Ainda hoje lamento a morte daquela bela "rapariga" que com dois tiros de G-3 na cabeça, tão valentemente tentou insurgir-se contra a morte e contra os seus carrascos.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 1 de março de 2020

Natal de 1969, em Vila Cabral

  Quic e Ventor 01.03.20

Era uma vez no Niassa.

Na antevéspera de Natal de 1969, no dia 23 de Dezembro, estávamos nós mergulhados numa grande trovoada sobre o AM61. Faz hoje 49 anos este acontecimento que nunca esqueço.

Com a ajuda de Celine Dion, deixo aqui para todas as mulheres de Vila Cabral desse Natal de 1969, os meus votos de Boas Festas, pelo menos para todas que por cá andam, 49 anos depois e espero que sejam muitas

Este saco com que o Pai Natal anda hoje por aí a distribuir prendas, talvez seja o mesmo que nos levou o bolo rei, em Vila Cabral

Os raios e os trovões eram por demais e, de repente, começamos a ouvir cair morteirada para os lados de Nova Madeira, relativamente perto de Vila Cabral e da Força Aérea. Aquela morteirada misturada com o ribombar dos trovões, transformou Vila Cabral numa cidade em pé de guerra e amedrontada. Um capitão que comandava uma companhia que tinha chegado do mato, um ou dois dias antes, estava a beber uma cerveja no café Planalto. Ao ouvir a morteirada correu para o seu batalhão, alertou a sua companhia gritando: “a Força Aérea está a ser atacada, tudo para as berliers”!

Os seus homens vestiram-se e calçaram-se conforme puderam (acabando de o fazer nos seus transportes), pegando as suas armas sempre a correr e atravessando Vila Cabral a toda a velocidade. Eu estava de serviço no Posto de Rádio e, ao ouvir aquela malta entrar pelo AM61 dentro, saí para ajudar a estacionar as viaturas e perguntar o porquê de todo aquele aparato. O tal capitão contou-me tudo e, entretanto, chegou junto de nós mais meia companhia dos comandos que estavam ali perto de nós. Metade ficou para defenderem “a sua casa”, a outra metade foi juntar-se a nós para nos ajudarem a defender a nossa. Todos estavam convictos que o ataque de morteirada caía sobre a Força Aérea e era necessário juntarmos forças para a defesa.

Eu estava todo molhado como um pintainho e o telefone no posto de rádio tocava. Entrei e atendi. Era uma senhora de Vila Cabral que perguntava apenas isto: «vocês estão a ser atacados»? “Não minha senhora aqui ainda não caiu morteirada nenhuma”! «Mas nós estamos a ouvir as explosões e o barulho dos morteiros vem daí»! Fui informando aquela senhora e outras do que se passava mas não acreditavam em mim. Achavam que eu mentia para as acalmar mas eu só dizia a verdade. Não havia, nem tiros de balas na Força Aérea, em Vila Cabral e muito menos tiros de morteiros. Não sabia como lidar com a incredibilidade que elas tinham da minha informação, pois pensavam tratar-se apenas de uma mentira. Mas era a pura verdade.

«Aguemtem-se, que amanhã, as mulheres de Vila Cabral, vão fazer o melhor bolo-rei do mundo para o vosso Natal»

Noite de Natal de 1969, a noite seguinte, lá estou eu a comer o tal melhor bolo rei do mundo

Aqui, o nosso amigo açoriano, Leão, coloca um pouco da cerveja que tinha na garrafa para regar mais um pouco o meu bolo rei. As minhas botas de água, as tais que algum tempo antes me defenderam as pernas das garras da águia enorme que me queria despedaçar aos bocadinhos. Mas teve azar! Ficamos agarrados um ao outro. Ela agarrou-me uma perna com as garras e eu fui-lhe esmagando a cabeça com a outra bota a sufoca-la. Eram as botas da minha salvação! O Sargento Dias nem acreditava no que estava a ver

No dia seguinte, junto ao belo pinheiro que eu roubei ao Engenheiro, grande chefão das florestas do Niassa, que não mo quis dar, comemos o tal bolo rei que seria o melhor do mundo. E então não é que era! Não pelo bolo rei, mas pelo amor com que foi feito. E assim, Trovões, Relâmpagos, Morteiros, Exército, Comandos, Força Aérea e Mulheres de Vila Cabral e o seu bolo rei, estivemos todos unidos no mesmo combate.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Agapornis - os inseparáveis do Niassa

 Quico e Ventor 06.08.18

Isso mesmo! Coisas lindas. Uma espécie de mini-papagaios a que chamam - os inseparáveis do Niassa. E é assim que eu lhes prefiro chamar. Os inseparáveis do Niassa.

Eles têm cerca de 15 cm de comprimento e nem sei se são periquitos ou são papagaios, pois já lhes ouvi chamar as duas coisas. Mas sejam eles o que forem, sei que são penudos, lindos e amorosos.

E mais importante ainda, eu tenho uma história com eles - a história dos agapornis, os meus primeiros amigos de Marrupa.

Agapornis - os inseparáveis do Niassa

Um dia, a 06.04.1968, cheguei a Marupa, cerca do meio dia. Fui visitar o Bar, o edifício do Comando, o Posto de Rádio, cumprimentar amigos e almoçar. Quando dei pela fé era noite e fui jantar. Quando me quiseram fazer a cama, pedi para me colocarem um colchão no chão no topo da camarata, afastado das camas da rapaziada. Não era necessário montar a cama, nem sequer, rebocar o colchão. Um colchão e uma manta azul mas creio que ainda colocaram os lençóis.

Quando começava a dormir, recebi uma visita inesperada. Havia um tipo que tinha uma ratazana branca e, sem pedir licença, ela foi ter comigo. Quando senti os bigodes do rato, debaixo do meu queixo, agarrei a manta com as duas mãos, dei-lhe um safanão e mandei o rato pelo ar para os fundos da camarata. Ouvi uma voz: «o gajo matou-me o rato»! Mas não matei nada. Tudo amainou e o desgraçado do rato não se deve ter achado nada meu amigo. Mas a culpa foi dele!

No dia seguinte instalamos a minha cama onde eu queria - no Posto de Rádio. Sentei-me na cadeira de trabalho, procurei sintonizar os emissores e os receptores o melhor possível, comuniquei com Nova Freixo, Nampula e Vila Cabral e senti que estava operacional, eu e as máquinas.

São uma beleza e adoram-se uns aos outros e os donos

Num ápice e sem dar por isso, senti algo pousado nos meus ombros e a brincarem com os meus caracóis. Eram dois bichinhos desses. Dois penudos. Virei-me para o meu companheiro Melo, um cabo-verdiano que depois de Moçambique nunca mais vi e disse: "o que é isto pá! De onde apareceram estas coisas"? «São os meus periquitos, deixa-os andar que são nossos amigos».

Não sabia como chamar-lhes e eis os agopornis

Fiz uma festa aos periquitos e eles todos encantados, saíram pela janela fora e atravessaram o arame farpado para o mato. Foram comer ao mato porque, dentro de algum tempo, lá estavam eles à fossanga nos meus caracóis e ver se lhes tocava alguma gludice. E assim foi durante alguns dias até desaparecerem. Hoje descobri o nome oficial desses periquitos ou papagaios e por isso os coloco aqui, os meus amigos agapornis. E hoje percebi, também, porque lhes chamam os inseparáveis do Niassa. Porque eles foram umas belezas que iam para o mato e voltavam para estar connosco no posto de rádio durante dias. Depois desapareceram para sempre. Devem ter ido tratar da vida deles nessa bela terra que era deles também.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Escorpião

 Ventor 18.07.2018

Fez anos uns dias atrás, no mês de Julho de 1968, exactamente há 50 anos - meio século!

Eu tinha chegado a Marrupa três meses atrás e planeavam-se umas boas operações sobre o rio Lugenda e seus arredores. O então capitão piloto aviador, Mantovani, deslocou-se a Marrupa para serem planeadas as ditas cujas e acabou por dormir lá, não regressando no mesmo dia a Nova Freixo. Senta-mo-nos em frente à janela do posto de rádio, numas cadeiras e tínhamos as pernas por cima da regueira que apanhava as águas residuais das chuvas e as pingueiras que viriam do telhado do edifício. Porém, o dia estava lindo e nós falávamos sobre assuntos diversos e, na ordem do dia estava a hipótese de sofrermos um eventual ataque à morteirada.

Enfim, conversas diversas sobre a guerra, os «turras», a eventualidade de mais um operador de comunicações para nos ajudar durante esses 15 dias de operações e outras banalidades.

De repente passa por baixo das nossas pernas, vindo da minha esquerda, na tal "vala" das águas, um escorpião negro como esse em baixo.

Um escorpião negro

Quando olho o escorpião todo despachadinho, disse: o meu inimigo anda por aqui e bem dentro do arame farpado, assim como este, as mambas, as melgas, etç. Mas esses não usam morteiros! O capitão Mantovani, levantou a perna, já o escorpião tinha passado por mim e ia-lhe espetar com o tacão em cima. «Não o mate, deixe-o ir à vida dele»!

Ele ficou com a perna no ar a olhar o escorpião e disse: "metem respeito estes gajos"! Não é que não o matou! Levantei-me, peguei no escorpião com um ramo seco, fui em direcção do nosso bar, o Calhambeque, cheguei ao arame farpado e mandei o escorpião lá para fora.


Escorpião predominante em Marrupa

Quando voltei para junto dele, disse-me: "gabo-lhe a paciência, salvar o escorpião". Salvamos - disse eu! Era extraordinário aquele homem. Se fosse outro, nem que fosse só para me chatear, teria, só com um golpe, esmagado o escorpião mas não o fez. Por isso, e muito mais, ele continua vivo no meu coração.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 2 de outubro de 2016

Sonhei com Marrupa mais uma vez

 Quico e Ventor 02.10.2016

Uma noite destas, dei uma das minhas caminhadas de sonhos, por Marrupa. Pois foi! A sonhar, voltei a pisar uma lângua de Marrupa e, ainda por cima, sonhei com uma lângua onde só caminhei uma vez.

Algures, em 1968, caminhei mais três amigos numa lângua de Marrupa e, um deles, era o nosso amigo Coutinho, do Bombarral. Os outros dois não me recordo. Penso que um deles, seria o nosso amigo "Louco do Amor". O Coutinho, infelizmente, já está junto ao Senhor da Esfera mas, o Louco do Amor, ainda poderá andar por aí. Espero que sim.

Saímos de Marrupa e, ao entrar na picada, viramos à direita, em direcção a leste. Já um pouco afastados do AM62, entramos pelo mato dentro e, de seguida, numa lângua. Espalhamos-nos os 4, um pela direita, outro junto à zona da água (o Coutinho) um mais afastado à esquerda da lângua e eu, como sempre, mais à esquerda e tentando fugir a uma queimada, afastei-me ainda mais. Essa história está contada aqui.

Em 1970, conheci um homem que era cunhado daquela que viria a ser minha companheira das minhas caminhadas. Entrei no carro dele e ele perguntou-me onde eu estivera, em Moçambique. Disse-lhe que estive em Nova Freixo, em Marrupa e em Vila Cabral mas, quando ouviu falar em Marrupa, os seus olhos brilharam mais.

"Esteve em Marrupa, é? Eu também estive nessas terras, mas estive mais tempo em Marrupa. Era dos Comandos e estivemos em Marrupa a guardar a malta que construiu a pista. A maioria do tempo andávamos à caça. Nunca viu elefantes em Marrupa"?

Nem um, respondi eu. "Pois não. Nós também nunca mais vimos nenhum. Apareceram lá três e matámos-os. Nunca mais vimos nenhum. Creio que nunca mais ninguém verá elefantes em Marrupa"!

Esse homem foi há dias chamado perante o Senhor da Esfera onde nos esperará. Foi o seu funeral e eu só me recordava dessa nossa conversa de 1970. Tinha-me dito, mais ou menos, onde estariam as ossadas dos elefantes, mas Marrupa ficara para trás e as ossadas dos elefantes eu nunca as cheguei a ver. Mas foi baseado nessa conversa e nesses pixeis da minha memória que voltei a Marrupa, em sonhos. Não éramos quatro mas fui lá eu sozinho. Exactamente o mesmo sitio, mas sem queimada. Caminhava na encosta da esquerda a recordar a jibóia e essa nossa caminhada, perguntando-me a mim mesmo porque nunca mais lá regressei.


Um rinoceronte como o do meu sonho

A encosta era linda, toda verde e eu caminhava a pensar onde estariam as ossadas dos elefantes. Virei-me para trás e estava a ser acompanhado por um rinoceronte. À minha direita havia umas rochas que tenho a certeza não estavam lá quando da caminhada real. Olhei o rinoceronte e ele acelerou para me atacar. Pensei rápido! Não me vale a pena fugir. Vou enfrenta-lo, não vou fugir. Se fujo canso-me e depois não posso lutar. Esperei o rinoceronte que se deslocava em alta velocidade na minha direcção. Quando ele me ia marrar, quando quase me pegava, saltei para a esquerda. O rinoceronte estatelou-se todo pelo chão fora. Eu iniciei uma grande corrida para as rochas, enquanto ele se levantava para me pegar.

Alcancei as rochas, subi para a mais alta deitada sobre outras. Vi um grupo de leões, cerca de uma dúzia, a caminhar em nossa direcção, com os olhos fixos no rinoceronte. Creio que eles a mim não me viram e eu, no topo das rochas, tentava colar-me à pedra fria, com a arma segura sob o meu peito para os leões não me verem. Dali, vi os leões atacarem o rinoceronte, mata-lo e come-lo. Ficou a coluna óssea do rinoceronte na paisagem. Os leões partiram pachorrentos, com toda a calma deste mundo. Perdi-os no horizonte e comecei a procurar como sair dali. Olhava em direcção da picada, campo aberto, sem nada. Olhava a lângua onde o Coutinho matara a jibóia, as árvores onde cortei a fita para prender a jibóia ao pau e no mesmo sitio estava algo que seria um tronco ou, quem sabe, outra jibóia! Estava mesmo com medo de como sair dali. Não me atrevo a ir pela lângua e entrar na floresta. Decidi ir direito à picada e enfrentar o que aparecesse. Pelo lado da jibóia é que não!

Mas não cheguei a sair das rochas. Acordei apavorado na minha cama. Sei é que iria tomar a direcção da picada, por campo aberto, com a browning bem colada às mãos.

Contei o sonho a um amigo dos que andaram por lá comigo, e informou-me que ele, nas suas caçadas, tinha visto, por lá, as ossadas dos elefantes. 

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Forte fo Bom Sucesso

 Quico e Vento16.05.16

Hoje passei por lá. Fui ver os meus amigos e fiquei a conhecer algo de novo.

Fiquei a conhecer a capelinha e o memorial. Já há bastante tempo que não fazia qualquer caminhada junto ao Tejo e hoje lembrei-me de passarmos por lá e ir ver, mais uma vez, o Memorial ao combatente. Gostei muito do novo espaço no Forte do Bom Sucesso (mau sucesso). 

Um espaço só, mas dividido em dois corpos. Um espaço da capelinha, logo à entrada e o outro espaço para o Memorial, saindo pelo fundo da capelinha, descendo uma rampazinha e passando por um corredorzinho. Ai encontramos o nosso Memorial. O melhor é mostrar em fotos porque nem toda a gente terá possibilidades de se deslocar a Lisboa para prestar homenagem à nossa gente que, no ex-Ultramar, por portas e travessas, partiram antes de nós. 

Havia ali uma porta de chapa verde, hoje ao chegar, verifiquei que havia ali uma capelinha e um memorial



 Esta é a Capelinha uma belíssima casinha do Senhor da Esfera onde pode estar entre nós e aqueles de nós que chamou mais cedo



 No altar tem Cristo mutilado dos dois braços


Aqui podemos ver a história desta imagem que nos diz que foi encontrada entre Verdun e o forte S. Michel, em plena 1ª Guerra Mundial


 


Na parede à esquerda, antes de Nossa Senhora de Fátima, temos o S. Miguel Arcanjo

 Aqui tem a placa que nos descreve o Arcanjo S. Miguel



S. Nuno de Santa Maria




Esta placa diz-nos quem é S. Nuno de Santa Maria, Padroeiro da Liga dos Combatentes




Saindo da Capelinha, temos este corredor que nos leva ao Memorial





Aqui jaz um soldado de Portugal caído na Guerra do Ultramar 


Cristo numa situação que nunca tinha visto



Esta placa diz-nos do símbolo de Cristo nas nossas caminhadas


Claro que a minha companheira de caminhadas também esteve presente. E tal como eu, sabe que todos os dias o mundo, o nosso mundo, está em evolução permanente. Para o bem ou para o mal, nós fazemos parte disso. Aqui deixo esta nova faceta do Forte do Bom Sucesso. Muitos ainda não a conhecerão.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Moçambique

AB6 - Nova Freixo Vexiloide de Alexandre Magno O meu amigo de Marrupa Na rota do meu amigo Apolo...