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terça-feira, 19 de outubro de 2004

Entrada mar dentro

   Ventor 19.10.04

Mais uma etapa na nossa caminhada rumo a Moçambique

Entrado mar dentro e, perdido o cabo mais ocidental da Europa, na bela serra de Sintra, no meio da longínqua bruma, esfumado todo o nosso mundo, ficamos apenas nós, mil e tal homens, o Niassa, o céu e o mar. Ah! Mas sem esquecer os golfinhos que, pareciam adivinhar que, aquele barco, apenas transportava sonhos.

No entanto, saídos do convés e deixados os golfinhos saltando e procurando dar ânimo àqueles que continuavam a observá-los, como eu, feita a entrada no porão, haviam aqueles que já, com as saudades a miná-los, escreviam às suas gentes, para colocar no correio, à chegada a Luanda.

Luanda 50 anos depois

Dali, acabados os suspiros daqueles que ainda mal acreditavam no que lhes sucedia, até à linha do Equador, as profundezas do Niassa, tornaram-se num autêntico casino onde os jogos eram o caminhar na esperança da continuidade do passado de muitos que nada mais poderiam fazer.

Também eu, depois de me encantar com os golfinhos, desci do convés, observei diversas jogatanas e, deitei-me sobre a cama a ler um livro do Descartes, o "Dez Cartas", como eu lhe chamava!

Perdidos, naquele submundo, lá fomos, jogando, comendo, lendo ou dormindo, pois o cansaço originado naquela euforia, desde o Natal de 1967, até 4 de Janeiro de 1968, fora intenso. Só encontramos mais uma rejuvenescida euforia ao chegarmos à linha imaginária do Equador.

A seguir: Rumo a Luanda

Antes: Atlântico e suas belezas

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Atlântico e suas belezas

   Ventor 18.10.04


             

Esta é a prova da dignidade desta beleza dos mares. Pelo bem ou pelo mal ele e o homem dão tudo o que têm para atingirem soluções bélicas, nem sempre as melhores, mas nem por isso deixam de ser bons companheiros. Os dois juntos tentam dominar os mares, quantas vezes em nome da liberdade dos mesmos

Mas esta viagem deu bem para me divertir, apesar de tudo. Estávamos pelo Equador, rumo a sul, onde uma noite, entre a meia-noite e os 12 minutos seguintes, assisti da proa do Niassa à luta de um grande tubarão com o próprio Niassa. Eu estava só, mas ao ver um militar do exército que vinha apanhar ar e fumar um cigarro, levantei o braço e fiz-lhe sinal para acelerar a ver se ainda conseguia ver aquilo. Estivemos cerca de 12 minutos a ver uma luta terrível entre dois velhos senhores dos mares. Um tubarão e o velho navio Niassa. O tubarão saía debaixo de água e atirava com aquele grande corpanzil contra o Niassa, deixando bem claro que não gostava de o ver nos seus domínios. Foram 12 minutos terríveis. O Niassa sempre a rasgar o mar e aquele senhor dos mares a ataca-lo com tudo que tinha. Dariam 12 minutos de filme incríveis»!

«Que terá acontecido ao tubarão que desapareceu sem deixar rasto? Terá sido troxidado pela hélice do Niassa? Nunca teremos resposta!

 
O que melhor recordo, entre Lisboa e Luanda, foram os golfinhos, belíssimos companheiros de caminhada. Umas vezes à esquerda, outras vezes à direita, eles estavam sempre a saudar o Niassa. Também orcas e tubarões e outros peixes nos ofereceram a sua companhia inesquecível

Na linha do Equador, estivemos parados cerca de quatro horas. Por ali, o Niassa ficou suspenso na sua âncora e eu aproveitei para fazer algo que dignificasse a minha passagem por aquela linha imaginária. Como era Inverno quando parti de Lisboa, levava comigo umas grossas camisolas interiores para lutar contra o frio, mas ao chegar ao Equador comecei a sentir que o meu amigo Apolo já gozava comigo! Nesse intervalo de tempo decidi afogar alguma roupa pouco adequada, nessa linha imaginária. Chateei-me, peguei nelas todas e lancei-as ao mar. Não sei se alguém fez o mesmo, mas junto de mim ninguém fez. Do Equador para baixo era Verão, o calor iria esturricar e depois, em Moçambique, logo se veria.

Eu sabia que nos planaltos do Niassa faria frio mas, nessa altura, eu apenas sabia que ia a caminho da 3ª Região Aérea. O que realmente me pesava eram os livros, mas esses todos se safaram do banho. Todos me seguiram e regressaram comigo».

A seguir: Entrada mar dentro

Antes: Revolta a bordo

domingo, 14 de novembro de 2004

Rumo a Luanda

   Ventor 14.11.04

Saídos da paragem equatorial, naquele belo dia de Janeiro, virados a sul, quatro horas depois, o Niassa lá seguiu aprumado, rumo a sul, com a bandeira verde-rubra a esfarrapar-se toda, vassourada pelos ventos que rondavam o mastro.

Ao aproximarmo-nos de Luanda, sentíamos a curiosidade de observarmos a sua baía de sonhos de que muitos de nós já ouvíramos falar. Ali estava ela, à frente do Niassa e, na sua frente, a baixa de Luanda, encostada ao Planalto, por onde a cidade prosseguia mas que, nós estávamos longe de imaginar.

Foi então que me recordei das conversas que tinha com o Senhor Major Costa e outros companheiros da DSCTA, na Av. António Augusto de Aguiar. Dizia ele: "Fox, no mundo só há três maravilhas! A cidade de Rio de Janeiro, a Catedral de Chartres e a Baía de Luanda". 

Cada um tem os seus gostos e o Major Costa tinha os dele. Mas, a verdade, é que eu estava, então, ali, a observar uma das suas maiores belezas deste mundo. A célebre Baía de Luanda.

Luanda - foto tirada da Wikipédia de autoria de Paulo César Santos

A Marginal de Luanda é mesmo linda. Acredito que nesta baía e nesta cidade, batem forte e conjuntamente, os corações de angolanos e portugueses

À medida que o Niassa sulcava as suas águas, os meus olhos tentavam perscrutar tudo que estava ao meu alcance. À nossa  esquerda a cidade, lá no topo, a Fortaleza de S. Sebastião.  Eu apreciava a beleza da Baía, da Av. Marginal e da parte da cidade que vinha dos lados do Planalto e se debruçava sobre a baía. No entanto, o que nós mais queríamos era esquecer o arroz "mofoso" e matar a fome.

O Niassa atracou no cais e logo nos deram autorização para pisarmos a terra firme de Angola. Era Luanda! A capital da parte da mãe negra que estávamos habituados a ouvir gritar: "é nossa"!

Saídos do Niassa com uma enorme vontade de comer algo diferente, lá fomos nós vasculhar a bela cidade de Luanda. Primeiro, direitos aos Correios e tentar pesquisar quaisquer tascos pelo caminho.

Lá fomos quatro "garimpeiros" à procura das nossas pepitas. Chegados aos Correios, as filas eram enormes para colocar selos, para telefonar, para ... consegui comprar uns postais, fugi das filas e fiquei com eles no bolso.

A seguir: Luanda era uma cidade linda

Antes: Entrada mar dentro

Rihana - Moçambique

Rihana, em Moçambique. Um povo que canta e dança pode ser feliz. Porque Moçambique não é? Eu sei mas não vos digo!