Quico e Ventor 17.12.04
A partir de determinada altura, próximo da viragem para o oceano Índico, começamos a avistar a Montanha da Mesa (Table Mountain), a tal que me tinha roubado algum tempo quando eu me dedicava aos meus estudos de geografia africana. Junto com ela, começou a instalar-se mais afincadamente na nossa memória, a sempre presente ameaça do Adamastor. Porém, o mar continuava sereno, os dias continuavam lindos com uma visibilidade de 40 km ou mais, pois dava para, na companhia do meu amigo Apolo, observar bem os contornos das costas sul africanas.
O Adamastor estava presente, mas escondido
Bartolomeu Dias, foi o primeiro europeu a passar este Cabo a que chamou o Cabo das Tempestades mas, D. João II, achou melhor rebaptisa-lo de Cabo da Boa Esperança. Ele acreditava que, rumando para Leste e, uma vez que Bartolomeu Dias, já tinha seguido para leste até 800 km deste Cabo, restava a Esperança de haver continuidade até alcançar o desejo da época. Chegar à Índia!
O Adamastor não se mostrava. Estaria encostado à sombra das rochas com receio do meu amigo Apolo e com a presença do Ventor.
A mim fazia-me confusão ele esconder-se pois conhecia pessoas que viajavam de Moçambique para Portugal e vice-versa e não conhecia ninguém que não tivesse tido problemas com o Adamastor. Pelo que sabia, a passagem do cabo era terrível para todos e estava a ser uma maravilha para mim.
Com o tempo e com algum raciocínio, comecei por perceber que ninguém vinha para Portugal no Inverno. Portanto, para apanharem cá o verão, viajavam na nossa plena Primavera, caminhando nos Outonos africanos. Na nossa viagem, caminhávamos, por lá, em pleno verão.
Ao passar em frente da cidade do Cabo, observando-a do largo, um colega muito observador, de olhos fixos em mim, diz: "oh, Ventor, estás mais encarnado que um tomate"!
Teria de estar! As minhas caminhadas eram feitas no estrado do navio Niassa, sempre ao sol e a observar as costas, as orcas e não só. O meu campo de exercícios era da ré à proa e vice-versa, sempre a observar qualquer coisa, a bombordo ou a estibordo e, mesmo que não dê para acreditarem, quase sempre só, de noite ou de dia. Chegava mesmo a ficar a observar a bandeira durante tempos sem fim, drapejando ao vento e a desfazer as linhas que a constituíam. Não fosse isso e estaria a ler!
Passei a mão pela testa e mais parecia uma cobra a largar a camisa. A pele saía enroladinha, tal como quando compramos uma carpete e a levamos para casa toda enrolada. Tudo isto, frente ao Adamastor! O meu amigo Apolo queria-me ver bem impressionado ao abandonar o Atlântico e ao penetrar no Grande Oceano Índico.
Também o Bartolomeu Dias, o Vasco da Gama e outros, já lá tinham passado, centenas de anos antes pelo Cabo da Boa Esperança
Foi nesse momento que, agarrado às amparas do navio Niassa, observando as águas sem saber se ainda estávamos no Atlântico ou se já navegávamos no Índico, vi um corpo colossal aparecer à superfície da água, uma espécie de monstro de Loch Ness. O mesmo estilo de imagem. Um corpo cilíndrico, tipo cobra gigante com cor de truta salmonídea, com muitos metros de comprimento mas, sem ver ou identificar uma cabeça ou um rabo. Imaginem que sai à superfície do mar um colosso em forma de cobra em que só vemos o cilindro, sem aparecer cabeça nem rabo. Esses mantiveram-se debaixo da água. Pelo menos, não tive tempo para os identificar.
Procurando vídeos e fotos sobre animais marinhos, nunca vi nada semelhante.
A cidade do cabo e a Montanha da Mesa como vista da rota naval
São lindas as costas da África do Sul, vistas do mar largo. Navegando no Oceano Índico, continuamos a observar a beleza das cidades costeiras sul-africanas e as suas enseadas, especialmente Port Elizabeth e Durban (a antiga cidade de Natal).
Até um pouco a seguir ao largo da cidade do Natal, rumando à cidade de Lourenço Marques, o meu amigo Apolo nunca me tinha abandonado. Mas, chegados ali, disse-me apenas isto: "Ventor, agora estás por tua conta. Caminhei contigo até passarmos o Adamastor. Sempre que pudermos, estaremos juntos nas horas difíceis. Mais um pouco e estarás nas tuas águas. Agora, tu rumas para Leste e eu para Oeste"!
Começamos a separar-nos, nesse dia, desde que saí de Lisboa em que ele me acompanhava de manhã à noite. Mas logo que Apolo abalou, pela primeira vez na minha vida, iríamos enfrentar as monções do Oceano Índico. O Adamastor, aquele falsário, afinal, não estava escondido nas rochas das costas sul-africanas. Ele ameaçou-nos em pleno Índico, a algumas milhas da Baía do Espírito Santo, em Lourenço Marques.
A seguir: A cidade das acácias
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