sábado, 18 de dezembro de 2004

Frente ao Adamastor

   Quico e Ventor 17.12.04

A partir de determinada altura, próximo da viragem para o oceano Índico, começamos a avistar a Montanha da Mesa (Table Mountain), a tal que me tinha roubado algum tempo quando eu me dedicava aos meus estudos de geografia africana. Junto com ela, começou a instalar-se mais afincadamente na nossa memória, a sempre presente ameaça do Adamastor. Porém, o mar continuava sereno, os dias continuavam lindos com uma visibilidade de 40 km ou mais, pois dava para, na companhia do meu amigo Apolo, observar bem os contornos das costas sul africanas.


O Adamastor estava presente, mas escondido

Bartolomeu Dias, foi o primeiro europeu a passar este Cabo a que chamou o Cabo das Tempestades mas, D. João II, achou melhor rebaptisa-lo de Cabo da Boa Esperança. Ele acreditava que, rumando para Leste e, uma vez que Bartolomeu Dias, já tinha seguido para leste até 800 km deste Cabo, restava a Esperança de haver continuidade até alcançar o desejo da época. Chegar à Índia! 

O Adamastor não se mostrava. Estaria encostado à sombra das rochas com receio do meu amigo Apolo e com a presença do Ventor. 

A mim fazia-me confusão ele esconder-se pois conhecia pessoas que viajavam de Moçambique para Portugal e vice-versa e não conhecia ninguém que não tivesse tido problemas com o Adamastor. Pelo que sabia, a passagem do cabo era terrível para todos e estava a ser uma maravilha para mim.

Com o tempo e com algum raciocínio, comecei por perceber que ninguém vinha para Portugal no Inverno. Portanto, para apanharem cá o verão, viajavam na nossa plena Primavera, caminhando nos Outonos africanos. Na nossa viagem, caminhávamos, por lá, em pleno verão.

Ao passar em frente da cidade do Cabo, observando-a do largo, um colega muito observador, de olhos fixos em mim, diz: "oh, Ventor, estás mais encarnado que um tomate"!

Teria de estar! As minhas caminhadas eram feitas no estrado do navio Niassa, sempre ao sol e a observar as costas, as orcas e não só. O meu campo de exercícios era da ré à proa e vice-versa, sempre a observar qualquer coisa, a bombordo ou a estibordo e, mesmo que não dê para acreditarem, quase sempre só, de noite ou de dia. Chegava mesmo a ficar a observar a bandeira durante tempos sem fim, drapejando ao vento e a desfazer as linhas que a constituíam. Não fosse isso e estaria a ler!

Passei a mão pela testa e mais parecia uma cobra a largar a camisa. A pele saía enroladinha, tal como quando compramos uma carpete e a levamos para casa toda enrolada. Tudo isto, frente ao Adamastor! O meu amigo Apolo queria-me ver bem impressionado ao abandonar o Atlântico e ao penetrar no Grande Oceano Índico.

Também o Bartolomeu Dias, o Vasco da Gama e outros, já lá tinham passado, centenas de anos antes pelo Cabo da Boa Esperança

Foi nesse momento que, agarrado às amparas do navio Niassa, observando as águas sem saber se ainda estávamos no Atlântico ou se já navegávamos no Índico, vi um corpo colossal aparecer à superfície da água, uma espécie de monstro de Loch Ness. O mesmo estilo de imagem. Um corpo cilíndrico, tipo cobra gigante com cor de truta salmonídea, com muitos metros de comprimento mas, sem ver ou identificar uma cabeça ou um rabo. Imaginem que sai à superfície do mar um colosso em forma de cobra em que só vemos o cilindro, sem aparecer cabeça nem rabo. Esses mantiveram-se debaixo da água. Pelo menos, não tive tempo para os identificar.

Procurando vídeos e fotos sobre animais marinhos, nunca vi nada semelhante.

A cidade do cabo e a Montanha da Mesa como vista da rota naval 

São lindas as costas da África do Sul, vistas do mar largo. Navegando no Oceano Índico, continuamos a observar a beleza das cidades costeiras sul-africanas e as suas enseadas, especialmente Port Elizabeth e Durban (a antiga cidade de Natal).

Até um pouco a seguir ao largo da cidade do Natal, rumando à cidade de Lourenço Marques, o meu amigo Apolo nunca me tinha abandonado. Mas, chegados ali, disse-me apenas isto: "Ventor, agora estás por tua conta. Caminhei contigo até passarmos o Adamastor. Sempre que pudermos, estaremos juntos nas horas difíceis. Mais um pouco e estarás nas tuas águas. Agora, tu rumas para Leste e eu para Oeste"!

Começamos a separar-nos, nesse dia, desde que saí de Lisboa em que ele me acompanhava de manhã à noite. Mas logo que Apolo abalou, pela primeira vez na minha vida, iríamos enfrentar as monções do Oceano Índico. O Adamastor, aquele falsário, afinal, não estava escondido nas rochas das costas sul-africanas. Ele ameaçou-nos em pleno Índico, a algumas milhas da Baía do Espírito Santo, em Lourenço Marques.

A seguir: A cidade das acácias

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Entre Luanda e o Cabo

   Quico e Ventor 16.12.04

Após a saída de Luanda, deixando para trás a sua bela baía, aquele belo anfiteatro da parte baixa da cidade e a célebre Fortaleza de S. Sebastião, em cujo chão trepidavam as botas cardadas dos nossos para-quedistas, continuamos a afundarmo-nos mais, nos calores estivais do Atlântico Sul.

Saídos da baía e já virados a sul, ao nosso lado esquerdo, a bombordo, se preferirem, situava-se o Continente Africano e, á nossa direita, ou a estibordo, toda a largueza do Atlântico profundo. À medida que a quilha do Niassa cortava as águas frias da corrente de Benguela, para trás ficava o Equador, a saudade, tudo! Também ia ficando Angola, o Sudoeste Africano (Namíbia), a costa atlântica da África do Sul e calculávamos que, ao virar da esquina, lá mais ao fundo, torneando o Cabo que tinha sido, em tempos, o  Cabo das  Tempestades e depois, o Cabo da Boa Esperança, por ali, algures, esperaria o Adamastor. Seria assim? 


Foto tirada da Wikipédia de autoria de Joseolgon.  A utilização deste ficheiro é regulada nos termos da licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada

Aí está ele, o Adamastor e o seu Cabo das Tormentas

Entretanto, à medida que realizávamos esse troço da nossa caminhada, dentro do navio Niassa continuava a nossa saga diária. Comer, dormir, jogar, ler, olhar o mar, beber a famosa cuca das nossas gentes angolanas e, já se tinham ido as frutas penduradas, os chouriços, tudo, menos a cuca e a bolacha baunilha que, como suplemento alimentar, continuavam a fazer parte da minha caminhada.

De resto, para ocupar o tempo, lá iam continuando os alertas do Niassa para corrermos a colocar os coletes salva-vidas, os coletes da esperança caso a coisa desse para o torto. Tomar banho nas profundezas do Atlântico de norte a Sul, não seria a mesma coisa que tomar banho nos pocinhos de Adrão, nas praias da Caparica, de Carcavelos, ... e, o colete salva-vidas servia também para nos dar um certo aprumo psicológico. As orcas que nadavam ao lado do Niassa, na corrente fria de Benguela e rumo à cidade do Cabo, escangalhariam qualquer arranjo psicológico que nos traria o célebre colete laranja e mais acreditaríamos na grande caçada que as orcas, organizadas em grupo, fariam se tivéssemos de mergulhar nessas águas com colete ou sem colete. Nem nos valeria pedir o tridente ao meu amigo Neptuno para, com ele, espetar as orcas.

Sempre que espreitava as orcas, via a maioria delas sempre a bombordo, isto é, entre o navio Niassa e o Continente africano. Até parecia que elas saberiam que, se tivéssemos de ir ao mar, a rota escolhida seria rumar para terra, o lado preferido delas. Seria pensado por elas ou mera coincidência?

A seguir: Frente ao Adamastor 

Antes: Luanda era uma cidade linda

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Luanda era uma cidade linda

  Ventor 15.11.04

Por fim, Luanda "deitou-se", e depois de verificarmos que Luanda mais parecia uma cidade ocupada militarmente, pois só víamos militares, representantes das três armas, saídos do navio Niassa e cerca de dois dias antes os que saíram do Vera Cruz, muitos ainda andavam por ali, lá fomos encontrar, já perto da meia noite, na hora do fecho, um tasco que nos conseguiu arranjar umas bifanas que, enroladas em cerveja cuca, lá nos apasiguaram corpo e alma.

Por fim, comidos e regadinhos com a cerveja cuca, em vez de descermos até ao Niassa que nos aguardava na Baía, para dormirmos, resolvemos continuar a subir até ao Planalto. Passamos toda a noite a caminhar por uma cidade que dormia. Caminhando pelas ruas de Luanda, passamos uma noite onde o som predominante, além das nossas passadas nas calçadas, eram as chaves dos guardas noturnos.

Ao raiar da aurora, aproximamo-nos do mercado de Luanda e resolvemos fazer, por ali, uma boa caminhada até ele abrir. Nas calçadas de Luanda, além do barulho dos nossos sapatos, começamos a sentir alguma concorrência. Verificamos, então, que as pessoas se tinham deitado cedo e, também, manhã cedo se começaram a dirigir para os seus trabalhos.

Um desses locais era o mercado de Luanda. Escusado será dizer que fomos nós, os primeiros clientes! Entramos e ficamos encantados com algumas das coisas que nos serviriam, belamente, para levar na nossa caminhada até à próxima paragem - Lourenço Marques. Presunto, chouriços, queijo e fruta.
Muita fruta! Ananás, laranjas, bananas, mangas e, algo muito especial - uvas! Uvas, no mês de Janeiro, para nós era um milagre! Vinham da África do Sul e podem crer que eram muito boas. Fomos todos carregados para o Niassa. Nenhum de nós os quatro perdia dinheiro em batotas, uma doença terrível!

Levamos as nossas compras para o Niassa e saímos de seguida para não cometermos o erro de chegar atrasados ao restaurante onde eu estava decidido a matar a fome, nesse dia, 15 de Janeiro de 1968.

Arrumamos as nossas compras mas o espaço era iníquo. Pendurei as frutas por cima da cama e lá fomos nós. Arranjamos um restaurante com uma boa esplanada. Eram 11 horas e começamos a ver o que havia para matar a sede sem ser cerveja. Eu estava enjoado de cerveja e de bolacha baunilha.

Vi uma garrafinha verde, muito bonita, cheia de bolhinhas e, foi então, que bebi o meu primeiro seven up. Aqui ainda não havia. Bebi o seven up mas o calor era tanto que voltamos à cerveja. Depois de bem regados pedimos um frango assado para cada um, acompanhado de batatas fritas! Disse logo ao empregado; não nos traga arroz, senão podemos dar cabo da esplanada! Nunca mais esqueci aquela esplanada! Até já a vi em sonhos mais de uma vez!


 O Ventor e um algarvio a matarem a fome em Luanda

Acabados de almoçar, demos mais uma volta, pela Marginal de Luanda. Tiramos umas fotos e de volta ao Niassa, fomos falando com as pessoas, mortas de saudades do "Puto" (Portugal) que se mostravam tristes quando dizíamos que seguíamos para Moçambique.

Por fim, lá entramos no Niassa, para a nossa segunda etapa, rumo a Lourenço Marques. Quando cheguei ao barco, de barriga bem cheia, assustei-me com aquela fruta toda! Disse logo: "estou lixado se levo com um ananás em cima da cabeça quando estiver a dormir"!

Com a serenidade devida, comecei a imaginar que a fruta tinha sido um mau investimento. E era mesmo! O calor iria estragá-la depressa e, por isso, o melhor era comê-la enquanto fosse viável. Um paraquedista que eu não conhecia de lado nenhum, pediu-me dinheiro emprestado para o seu jogo da lepra. "Escolheste a porta errada, pá! Se quiseres comer fruta, tens aí. Dinheiro para jogo? Do que Deus te livrou"!
Esperei a partida do Niassa, observando Luanda e a sua Baía. O sol estava bem lá para o Oeste do Atlântico, rumo às Américas e nós, preparávamos a partida para a etapa que nos levaria a rodar o Adamastor, um amigo de estimação dos nossos antepassados e gáudio das nossas aulas de Geografia. Com os acenos de angolanos e alguns familiares da tropa que iria avançar para Moçambique, levantamos âncora e começamos a refazer o rumo que trazíamos de trás. Dissemos adeus a Luanda até uma próxima vez que, alguns, nunca mais teriam ...

A seguir: Entre Luanda e o Cabo

Antes: Rumo a Luanda

domingo, 14 de novembro de 2004

Rumo a Luanda

   Ventor 14.11.04

Saídos da paragem equatorial, naquele belo dia de Janeiro, virados a sul, quatro horas depois, o Niassa lá seguiu aprumado, rumo a sul, com a bandeira verde-rubra a esfarrapar-se toda, vassourada pelos ventos que rondavam o mastro.

Ao aproximarmo-nos de Luanda, sentíamos a curiosidade de observarmos a sua baía de sonhos de que muitos de nós já ouvíramos falar. Ali estava ela, à frente do Niassa e, na sua frente, a baixa de Luanda, encostada ao Planalto, por onde a cidade prosseguia mas que, nós estávamos longe de imaginar.

Foi então que me recordei das conversas que tinha com o Senhor Major Costa e outros companheiros da DSCTA, na Av. António Augusto de Aguiar. Dizia ele: "Fox, no mundo só há três maravilhas! A cidade de Rio de Janeiro, a Catedral de Chartres e a Baía de Luanda". 

Cada um tem os seus gostos e o Major Costa tinha os dele. Mas, a verdade, é que eu estava, então, ali, a observar uma das suas maiores belezas deste mundo. A célebre Baía de Luanda.

Luanda - foto tirada da Wikipédia de autoria de Paulo César Santos

A Marginal de Luanda é mesmo linda. Acredito que nesta baía e nesta cidade, batem forte e conjuntamente, os corações de angolanos e portugueses

À medida que o Niassa sulcava as suas águas, os meus olhos tentavam perscrutar tudo que estava ao meu alcance. À nossa  esquerda a cidade, lá no topo, a Fortaleza de S. Sebastião.  Eu apreciava a beleza da Baía, da Av. Marginal e da parte da cidade que vinha dos lados do Planalto e se debruçava sobre a baía. No entanto, o que nós mais queríamos era esquecer o arroz "mofoso" e matar a fome.

O Niassa atracou no cais e logo nos deram autorização para pisarmos a terra firme de Angola. Era Luanda! A capital da parte da mãe negra que estávamos habituados a ouvir gritar: "é nossa"!

Saídos do Niassa com uma enorme vontade de comer algo diferente, lá fomos nós vasculhar a bela cidade de Luanda. Primeiro, direitos aos Correios e tentar pesquisar quaisquer tascos pelo caminho.

Lá fomos quatro "garimpeiros" à procura das nossas pepitas. Chegados aos Correios, as filas eram enormes para colocar selos, para telefonar, para ... consegui comprar uns postais, fugi das filas e fiquei com eles no bolso.

A seguir: Luanda era uma cidade linda

Antes: Entrada mar dentro

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Entrada mar dentro

   Ventor 19.10.04

Mais uma etapa na nossa caminhada rumo a Moçambique

Entrado mar dentro e, perdido o cabo mais ocidental da Europa, na bela serra de Sintra, no meio da longínqua bruma, esfumado todo o nosso mundo, ficamos apenas nós, mil e tal homens, o Niassa, o céu e o mar. Ah! Mas sem esquecer os golfinhos que, pareciam adivinhar que, aquele barco, apenas transportava sonhos.

No entanto, saídos do convés e deixados os golfinhos saltando e procurando dar ânimo àqueles que continuavam a observá-los, como eu, feita a entrada no porão, haviam aqueles que já, com as saudades a miná-los, escreviam às suas gentes, para colocar no correio, à chegada a Luanda.

Luanda 50 anos depois

Dali, acabados os suspiros daqueles que ainda mal acreditavam no que lhes sucedia, até à linha do Equador, as profundezas do Niassa, tornaram-se num autêntico casino onde os jogos eram o caminhar na esperança da continuidade do passado de muitos que nada mais poderiam fazer.

Também eu, depois de me encantar com os golfinhos, desci do convés, observei diversas jogatanas e, deitei-me sobre a cama a ler um livro do Descartes, o "Dez Cartas", como eu lhe chamava!

Perdidos, naquele submundo, lá fomos, jogando, comendo, lendo ou dormindo, pois o cansaço originado naquela euforia, desde o Natal de 1967, até 4 de Janeiro de 1968, fora intenso. Só encontramos mais uma rejuvenescida euforia ao chegarmos à linha imaginária do Equador.

A seguir: Rumo a Luanda

Antes: Atlântico e suas belezas

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Atlântico e suas belezas

   Ventor 18.10.04


             

Esta é a prova da dignidade desta beleza dos mares. Pelo bem ou pelo mal ele e o homem dão tudo o que têm para atingirem soluções bélicas, nem sempre as melhores, mas nem por isso deixam de ser bons companheiros. Os dois juntos tentam dominar os mares, quantas vezes em nome da liberdade dos mesmos

Mas esta viagem deu bem para me divertir, apesar de tudo. Estávamos pelo Equador, rumo a sul, onde uma noite, entre a meia-noite e os 12 minutos seguintes, assisti da proa do Niassa à luta de um grande tubarão com o próprio Niassa. Eu estava só, mas ao ver um militar do exército que vinha apanhar ar e fumar um cigarro, levantei o braço e fiz-lhe sinal para acelerar a ver se ainda conseguia ver aquilo. Estivemos cerca de 12 minutos a ver uma luta terrível entre dois velhos senhores dos mares. Um tubarão e o velho navio Niassa. O tubarão saía debaixo de água e atirava com aquele grande corpanzil contra o Niassa, deixando bem claro que não gostava de o ver nos seus domínios. Foram 12 minutos terríveis. O Niassa sempre a rasgar o mar e aquele senhor dos mares a ataca-lo com tudo que tinha. Dariam 12 minutos de filme incríveis»!

«Que terá acontecido ao tubarão que desapareceu sem deixar rasto? Terá sido troxidado pela hélice do Niassa? Nunca teremos resposta!

 
O que melhor recordo, entre Lisboa e Luanda, foram os golfinhos, belíssimos companheiros de caminhada. Umas vezes à esquerda, outras vezes à direita, eles estavam sempre a saudar o Niassa. Também orcas e tubarões e outros peixes nos ofereceram a sua companhia inesquecível

Na linha do Equador, estivemos parados cerca de quatro horas. Por ali, o Niassa ficou suspenso na sua âncora e eu aproveitei para fazer algo que dignificasse a minha passagem por aquela linha imaginária. Como era Inverno quando parti de Lisboa, levava comigo umas grossas camisolas interiores para lutar contra o frio, mas ao chegar ao Equador comecei a sentir que o meu amigo Apolo já gozava comigo! Nesse intervalo de tempo decidi afogar alguma roupa pouco adequada, nessa linha imaginária. Chateei-me, peguei nelas todas e lancei-as ao mar. Não sei se alguém fez o mesmo, mas junto de mim ninguém fez. Do Equador para baixo era Verão, o calor iria esturricar e depois, em Moçambique, logo se veria.

Eu sabia que nos planaltos do Niassa faria frio mas, nessa altura, eu apenas sabia que ia a caminho da 3ª Região Aérea. O que realmente me pesava eram os livros, mas esses todos se safaram do banho. Todos me seguiram e regressaram comigo».

A seguir: Entrada mar dentro

Antes: Revolta a bordo

domingo, 17 de outubro de 2004

Revolta a bordo

   Ventor 17.10.04

«Às vezes lá aparecia uma alma caridosa que me comprava nas filas do navio Niassa, umas cervejas fresquinhas e uns pacotes de bolachas baunilha. Era necessário ir para filas sem fim para arranjar umas sandes e valia mais passar fome. Para as bolachas, as filas não eram tão grandes e há sempre aqueles que, com dois dedos de conversa, aguentam as mais terríveis das filas. Não é por acaso que lhe chamam "bichas"!

Antes de chegarmos a Luanda, revoltamo-nos. Planeamos um levantamento de rancho. Aquilo começava a ficar terrível para muitos e então, planeamos o primeiro ataque. A Força Aérea e a Marinha decidiram avançar para o levantamento de rancho, sós, uma vez que o maralhal do Exército se encolheu. Por fim, numa terrível guerra de bastidores, os marinheiros também nos deixaram sós.

Por isso, ficando só os técnicos da Força Aérea e os Paraquedistas, cerca de 120, apodados de indisciplinados, decidimos avançar. Para mim sempre entendi que a indisciplina era levada a cabo por aqueles que não cumpriam as regras do jogo e nunca por quem defende os seus direitos dentro dessas regras. O Comando Militar do navio Niassa era exercido por um Coronel do Exército e, a nossa revolta, iria ser uma bronca para o Niassa e para todos os seus responsáveis».

 

As orcas, aqueles bicharocos a que chamam de baleias assassinas, também nos encantaram à medida que rumávamos em direção a sul. Estas meninas são os terrores dos mares. Elas atacam em grupos organizados e nada lhes resiste

«Mas, como dizia o Comandante Militar, nós não éramos ninguém. 120 em mil e não sei quantos, pouco valíamos, mas decidimos avançar!
Mandaram-nos formar frente ao comando, como bonecos e foi então que o Sr. Coronel cometeu um erro enorme. Ameaçou-nos! Teve o descaramento de, gritando, nos dizer que nós não éramos ninguém, que pegava nos seus homens, atirava conosco ao mar e até ninguém daria por isso. O Sr. Coronel substimou o valor de homens revoltados, mesmo que pouco mais que crianças, e decididos a levar a sua luta até ao fim.

Um paraquedista, cheio de coragem, tal como se fosse filho de um qualquer Adamastor ou descendente de Neptuno, colocou-se em sentido e disse: "dá-me  licença meu Coronel"? «Faça favor», disse o Coronel. O Pára deu um passo em frente e disse-lhe: "o Sr. Coronel ameaçou que nos podia lançar ao mar. É só para lhe perguntar se quer tentar. Garanto-lhe que não será o Sr. que me vai atirar ao mar e vai ficar aqui de braços cruzados a ver-me bracejar. Eu vou ao mar, mas garanto-lhe que o Sr. vai comigo. Estamos tão pertinho um do outro"!
Houve um bla-bla-bla do Sr. Coronel e fez a devida correcção desculpando-se como pôde e disse-nos que até Luanda seria assim. Em Luanda cada um fizesse como quisesse, mas não tinha hipótese alguma de melhorar o rancho. Porém ficou claro que só sairíamos de bordo quando chegássemos a Luanda!

A seguir: Atlântico e suas belezas

Antes: Navegando no mar alto

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 16 de outubro de 2004

Navegando no mar alto

    Ventor 14.11.04

E o Ventor continua a descrever-nos a viagem do Niassa com ele e seus companheiros, por mar alto, na sua primeira etapa, rumo a Luanda.

«Ao deixarmos para trás o último elo, o Cabo da Roca e a serra de Sintra, passamos a ter apenas, Niassa, mar e céu. E, entretanto, chegara a hora do almoço. Já não me recordo o que foi o nosso almoço no primeiro dia de Niassa mas duma coisa eu tenho a certeza, fui ver como era mas não comi. Como havia de comer se na véspera tive dois jantares!

Na véspera comi um cozido à portuguesa na hora de jantar normal e na casa onde morava fizeram-me um espargueti fabuloso, um prato que eu aprecio tal como se fosse um italiano vero. Depois de um cozido e de uma caminhada por Alcântara e pela Torre de Belém, regressei a casa porque o dia seguinte não seria para brincadeiras. Só para rebocar a minha mala de livros iria ser bonito!

Ao chegar a casa ainda me esperavam acordados e ainda me fizeram companhia para comer um prato de espargueti. O espargueti guisado com toucinho  intermeado, chouriço e bacon, escorrega, acomoda-se e não faz estrago nenhum. Até parece que não ocupa espaço! Cozido e espargueti entendem-se às mil maravilhas, com o Ventor. Neste caso, eles sabiam que tinham de se acomodar os dois e não incomodar o Ventor. Não satisfeito, comi outro prato de espargueti, na manhã seguinte, ao pequeno almoço».

«Parecia que estava a adivinhar tudo o que estava para vir. Não voltaria a comer um cozido como este tão depressa e, então, espargueti como aquele, não voltaria a ver tão cedo, pensava eu. E assim foi!

Todas estas razões foram suficientes para não me preocupar com o almoço no dia da grande abalada. Levava comigo uns chouriços e outras coisas que me foram valendo até Luanda. Normalmente, nos dias pós-embarque, quando terminava a minha leitura ou os meus passeios pelo convés, a apreciar o mar, perguntava aos mais atentos de que era o almoço ou o jantar, a resposta era invariavelmente a mesma. Ou era estilhaços com arroz, ou era arroz com estilhaços! Ás vezes deslocava-me lá para ver o que me calhava em sorte e se conseguia comer; mas não! O arroz sabia e cheirava a mofo e ia servindo para alimentar os peixinhos. Normalmente havia sempre alguém que comia mais um pouco e também era isso que me fazia ir levantar a minha refeição. Devia fazer algo pela sociedade onde me integrava. Pois eu não podia tragar aquele arroz a saber a mofo. Nunca me tinham calhado pratadas daquelas, nem em Adrão e não seria ali que iria iniciar-me! Foi assim até Luanda, mas eu também tinha as minhas alternativas. Bolacha baunilha com cerveja Sagres ou cerveja Sagres com bolacha baunilha»!

Nos intervalos apreciava os golfinhos em grupos, cavalgando as águas, saudando-nos!

Foram eles das maiores belezas que encontrei nesta grande caminhada de milhares de km, ou milhas náuticas. Belezas inesquecíveis.

A seguir: Revolta a bordo

Antes: O Niassa partiu

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

O Niassa partiu

  Ventor 15.10.04


Costa sul do Tejo, olhando-a, enquanto o Niassa se emproava rio abaixo, eu sonhava que um dia voltaria ali, aos caranguejos e, da costa norte veria descer a Sagres, encantada com as músicas das Tágides

Mais uma vez consegui furar por entre os meus companheiros até um local donde podia abarcar toda a plataforma portuária. Num local onde deixara os meus amigos que se foram despedir de mim, verifiquei que ainda lá se encontravam e apontavam com o braço o local onde me encontrava para os que tinham mais dificuldades a encontrar a tal agulha no palheiro. Tudo me indicava que encontraram a agulha, coisa que mais tarde confirmei, mas eu, lá do alto, nunca os perdera de vista. Coloquei os meus olhos a caminhar sobre a multidão e parei-os no local onde saltara. Voltei a tirar o boné, a acenar e, verifiquei que o Niassa já não tinha escadas e começava a afastar-se. Já tinha cortado o cordão umbilical para mais uma arrancada, mas aqueles braços continuavam estendidos, a fazer de amarras tentando conseguir, no sonho, que o Niassa regressasse ao ponto de partida. Eles perceberam onde eu estava. Naquele local, no meio da rapaziada do exército, eu era o único da Força Aérea. Acenei, acenei, acenei ... até perdê-los de vista. Naquele momento, todos eles eram a minha gente, mesmo aqueles que, quando eu procurava passar para o lado da guerra, me incentivavam a não saltar, a ficar. A gritarem: "não vá"!

Mas eu fui, sempre a pensar em Adrão.

A seguir: Navegando no mar alto

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

No convés do Niassa

  Ventor 11.09.04

Estes lindos casarões, na costa sul do Tejo, sempre me encantaram. Os meus olhos sempre os frequentaram, tal como hoje, eles são abraçados pela minha vista através da minha máquina. Durante algum tempo eu fui um frequentador da costa sul através das minhas caminhadas e da pesca dos caranguejos.
Ao chegar ao convés do Niassa foi a minha vez de voltar a tirar o boné da cabeça e acenar, também, freneticamente. Naquele instante era o Niassa que começara também a dizer adeus. O seu buzinão acordou todas as tágides que permaneciam dormentes tentando não assistirem à nossa partida e ao ouvir aquele som, fiquei com a sensação que chegara a hora de tudo chorar, dentro e fora do Niassa. O Niassa deu mais um buzinão, os seus motores começavam a ganhar força, as cordas estavam a ser retiradas das amarras e o Tejo perfilava-se. Era o momento em que ninguém poderia dormir mais, nem as tágides! Sentia que elas me chamavam muito baixinho: "Ventor ... Ventor ..." Chegara o momento do Niassa, montado nos seus poderosos cavalos, se  emproar. Mais três buzinões do Niassa. Parecia que tudo em volta trepidava e que o mundo inteiro iria submergir-se no Tejo.
A seguir: O Niassa partiu

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Subi ao navio Niassa

   Ventor 11.09.04

O Cristo Rei, como sempre, abraçava todos
Naquela situação todos os olhos marejam. Do seu semblante triste saíram as seguintes palavras: "veja se consegue saltar por aqui meu rapaz"! Fitei-o nos olhos, coloquei a mão sobre o último tubo cilíndrico e todos se encolheram enquanto eu formei um salto apertado, fazendo girar as minhas pernas bastante encolhidas para o lado oposto.

A aglomeração do lado da Rocha Conde de Óbidos era enorme e, ao chegar ao convés, reparei que muitos choravam de braços no ar, acenando com os bonés, num adeus que parecia não ter fim. Em terra, a multidão era ruidosa. Pousei as malas aproveitando para descansar e resolvi, do cimo das escadas, dizer um último adeus a todos aqueles que se foram despedir de mim, pois sabia onde estavam e, mais uma vez, olhei a gente junto ao gradeamento que me voltou a dizer um adeus arrepiante. Eu fiquei com a sensação de que toda a minha gente se instalara ali, ou então, toda aquela gente era uma imensa extensão de um adeus cheio de imprevisões. Mas não! Todos eles sabiam que eu passara ali como que perdido no meio da multidão e eles adotaram-me como um dos seus.

domingo, 12 de setembro de 2004

Ouço o Niassa ranger

   Ventor 11.09.04

Deixei as malas com esse meu amigo e voltei pelo sítio que tinha chegado, procurando caras conhecidas. Procurei, no meio da multidão, pessoas que não vi e encontrei outras de quem já me tinha despedido; mais uns dedos de conversa e mais uma caminhada entre a multidão. Entretanto o Niassa rangia à medida que cerca de mil e tal homens iam subindo as suas escadas. Todos carregavam as suas malas. Uma ou duas malas mais uma pesada carga que transportavam aos ombros. A esperança! A esperança do regresso. Regressar era o grande objetivo de todos que subiam aquelas escadas. Mas, essa esperança, tornava-se maior quando, ao voltarem-se para trás, olhavam os braços levantados com umas mãos que seguravam os lencinhos do adeus. Eram milhares!

O Pavilhão dos descobrimentos, visto de Oeste

Enquanto as escadas do Niassa continuavam a ranger, eu andava fora da área militar, perdido no meio da multidão, furando aqui e ali, atento a todos os movimentos que se desenrolavam à minha volta, mas sem encontrar alguém daqueles que procurava. Não tinha lá família mas tinha alguns amigos e não cheguei a despedir-me de todos que lá foram. Queria dizer a todos uma palavra: "voltarei" ou como a canção torneró!
Voltarei porque o Senhor da Esfera assim o determinara. Eu ouvi-o dizer: "vai Ventor. Vai com confiança, porque tu voltarás a abraçar o Tejo. Este é o teu rio"!
Assim quem não parte confiante?

sábado, 11 de setembro de 2004

Perdido na multidão

   Ventor 11.09.04

Em Adrão, meus pais e meus irmãos, aqueciam-se ao lume na manhã de um dia frio, julgando-me a entrar no Nº 21 da Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa, ou então pelos subterrâneos do G.D.A.C.I. (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção), em Monsanto. Seriam os pensamentos sobre o que liam, do que eu lhes escrevia. Mas não! Eu estava a dar mais umas passadas na minha Grande Caminhada. Nunca os quis atormentar com a minha saída rumo a África. Se fiz bem ou mal, ainda hoje não sei!

Esta é a retaguarda do Pavilhão dos Descobrimentos. Tem na sua vertical a representação de uma espada.
Ela simboliza o tempo em que a vanguarda é garantida pela retaguarda. Sabedoria, determinação e espada!

Não encontrando quem procurava, no meio de tanta gente e, vendo o tempo correr, voltei a olhar as escadas do Niassa por onde, dentro em pouco, iria subir. Na base das escadas, lá estava o meu amigo algarvio esperando-me e guardando as minhas malas junto da dele. Eu levava duas malas, uma das quais, cheia de livros. Pesava que fartava! Mas o meu amigo, lá continuava, debaixo do boné da Força Aérea, não se lhe vendo o rosto. Apenas eu sabia que ele estava lá! Olhando a silhueta do meu amigo algarvio, voltei o meu olhar sobre o Cristo Rei e o meu amigo Apolo que me acenava daqueles lados.
Ao voltar-me para trás, fixei mais uma vez, com um olhar firme, a multidão debruçada da varanda do edifício e, em meu redor, só via rostos tristes olhando o Niassa e de braços no ar, lutando contra o cansaço, acenando. Dirigi-me para o Niassa e quase não conseguia perfurar aquela mole humana que me cercava e bloqueava a passagem rumo à área militar. Entre a multidão e o Niassa havia um gradeamento de tubos que não permitia a passagem para o lado militar e, caminhando com muitas dificuldades, encontrei no meio da multidão, um General do Exército. Com algum esforço devido ao aperto, levantei o braço e fiz-lhe a devida continência a que ele correspondeu e, enquanto isso, verifiquei que os seus olhos marejavam. 

Rihana - Moçambique

Rihana, em Moçambique. Um povo que canta e dança pode ser feliz. Porque Moçambique não é? Eu sei mas não vos digo!