Quico e Ventor 16.12.04
Após a saída de Luanda, deixando para trás a sua bela baía, aquele belo anfiteatro da parte baixa da cidade e a célebre Fortaleza de S. Sebastião, em cujo chão trepidavam as botas cardadas dos nossos para-quedistas, continuamos a afundarmo-nos mais, nos calores estivais do Atlântico Sul.
Saídos da baía e já virados a sul, ao nosso lado esquerdo, a bombordo, se preferirem, situava-se o Continente Africano e, á nossa direita, ou a estibordo, toda a largueza do Atlântico profundo. À medida que a quilha do Niassa cortava as águas frias da corrente de Benguela, para trás ficava o Equador, a saudade, tudo! Também ia ficando Angola, o Sudoeste Africano (Namíbia), a costa atlântica da África do Sul e calculávamos que, ao virar da esquina, lá mais ao fundo, torneando o Cabo que tinha sido, em tempos, o Cabo das Tempestades e depois, o Cabo da Boa Esperança, por ali, algures, esperaria o Adamastor. Seria assim?
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Aí está ele, o Adamastor e o seu Cabo das Tormentas
Entretanto, à medida que realizávamos esse troço da nossa caminhada, dentro do navio Niassa continuava a nossa saga diária. Comer, dormir, jogar, ler, olhar o mar, beber a famosa cuca das nossas gentes angolanas e, já se tinham ido as frutas penduradas, os chouriços, tudo, menos a cuca e a bolacha baunilha que, como suplemento alimentar, continuavam a fazer parte da minha caminhada.
De resto, para ocupar o tempo, lá iam continuando os alertas do Niassa para corrermos a colocar os coletes salva-vidas, os coletes da esperança caso a coisa desse para o torto. Tomar banho nas profundezas do Atlântico de norte a Sul, não seria a mesma coisa que tomar banho nos pocinhos de Adrão, nas praias da Caparica, de Carcavelos, ... e, o colete salva-vidas servia também para nos dar um certo aprumo psicológico. As orcas que nadavam ao lado do Niassa, na corrente fria de Benguela e rumo à cidade do Cabo, escangalhariam qualquer arranjo psicológico que nos traria o célebre colete laranja e mais acreditaríamos na grande caçada que as orcas, organizadas em grupo, fariam se tivéssemos de mergulhar nessas águas com colete ou sem colete. Nem nos valeria pedir o tridente ao meu amigo Neptuno para, com ele, espetar as orcas.
Sempre que espreitava as orcas, via a maioria delas sempre a bombordo, isto é, entre o navio Niassa e o Continente africano. Até parecia que elas saberiam que, se tivéssemos de ir ao mar, a rota escolhida seria rumar para terra, o lado preferido delas. Seria pensado por elas ou mera coincidência?
A seguir: Frente ao Adamastor
Antes: Luanda era uma cidade linda


