quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ventor e a águia

 Quico e Ventor 03.09.2015

A águia que queria matar o Ventor, em Vila Cabral, 1969.

Num dia bonito, cheio de sol, eu e o Sargento Dias resolvemos ir à caça de perdizes para fazermos uma caminhada naqueles belos outeiros com zonas cheias de capim. As perdizes saíram do chão e voaram para a nossa esquerda. Disse ao Sargento Dias para ir pela direita que eu iria pela esquerda do local onde as perdizes tinham pousado para as fazer voar para o lado dele. 

Beleza destruidora

Subi um morro onde o capim me dava pelo peito e pelos ombros, ficando, praticamente, apenas com a cabeça de fora. Na minha vertical esvoaçavam, em circo, um grade grupo de aves de rapina, especialmente, abutres e algumas águias. Mandei o Goldfinger e a Leoa pela minha esquerda e o Bolinhas, um cão pequenote, ficou junto de mim. Daquele grupo de rapináceas, destacou-se uma águia que voou quase na vertical, em minha direcção. Enviei um tiro de caçadeira browning, uma semi-automática de 5 tiros. Ela desceu mais e a alta velocidade. Enviei um segundo tiro e ela desce mais. O objectivo dos tiros era espantar a águia mas ela não se atormentou. Ao terceiro tiro, na defesa do Bolinhas, já lhe arranquei algumas penas. Como ela não desarmava, enviei-lhe o quarto tiro e parti-lhe uma asa.

A águia desviou de direcção. Esqueceu o Bolinhas e atacou-me a mim. Não ia ter tempo para lhe apontar o 5º tiro. Levantei a arma em posição de defesa, esperando a oportunidade de lhe dar o 5º tiro e mata-la mas não me deu tempo.

Quase me cobriu com aquele grande manto das suas asas mas, com o cano da arma, desviei-a de mim para a minha frente, caindo a meus pés e agarrando-me uma perna cravando aquelas garras enormes na minha perna esquerda protegida por umas botas de água com borracha e lona. Ela segurou-me a perna e eu coloquei-lhe a outra bota sobre o pescoço. Enquanto ela me tentava furar a bota eu tentava asfixia-la com a outra bota sobre o pescoço, calcando sempre.

Quando o Sargento Dias chegou espavorido junto de mim porque imaginara algo diferente, pois os tiros que eu dera não eram de quem faz fogo sobre perdizes, olhou e não via nada devido ao capim, perguntou-me: "que raio de tiros foram esses"?

Chegue aqui. Quando ele viu a águia com as duas garras cravadas na bota pergunta: "e se ela fura a porra da bota! Não lhe pode dar outro tiro"? Mais um tempinho e a águia estava morta.


Esta é a águia negra africana ou águia de Verreaux. Tirei da Wikipédia esta foto carregada por Orlica. É a águia mais parecida com aquela que matei em Vila Cabral, em 1969

Esta águia é uma grande águia que vai de 75 a 96 cm da ponta do bico à ponta da cauda. Os machos pesam entre 3 a 4 kg mais ou menos e as fêmeas entre 3 a 7 kg. Tem uma envergadura de asas de 1,80 a 2,30 m.

A que eu matei, pisava-lhe a ponta de uma asa com um sapato e o meu braço esticado não chegava à ponta da outra asa. Imaginem esse bicho a alta velocidade a aproximar-se da vossa cabeça! Com um peso razoável e com as penas da cabeça todas eriçadas, tornando-a maior, o impacto dela no cano da minha arma àquela velocidade, acho que o que me safou foi ela ter a asa partida. O estupor da águia foi mesmo suicida!

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Era uma vez no Niassa

  Ventor 22.02.14

Um dia em Marrupa, no Norte de Moçambique, Distrito do Niassa.

Um dia, saído do AB6, em Nova Freixo, cheguei a Marrupa, num T6. Era 6 de Abril de 1968. Já não tenho a certeza quem foi o Piloto. Mas, tenho a certeza que, durante algum tempo, me ia adaptando a Marrupa, especialmente à selva "savánica" em volta e as suas lânguas. Primeiro acompanhado e, como as companhias começaram a falhar (andar não era bom para todos), ia caminhando apenas só, com os nossos rafeiros. Os meus amigos Zorba, Diana e Bolinhas.

Preparado para tudo que eventualmente desse e viesse de fora da cerca do arame farpado, resolvi fazer uma limpeza da secretária do Posto de Rádio onde trabalhávamos. Comecei por retirar todos os papéis ali deixados pelos meus antecessores, colocando no cesto dos papéis os que não tinham interesse e arrumando todos aqueles que teriam justificação. Entre eles estavam alguns que nos ensinavam muito sobre as populações de Moçambique, especialmente as do Norte: Macuas-Lomués, Makondes e os Ajaúas do Niassa, outros que nos proibiam de cantar certas canções como, por exemplo, o Hino do Lunho.

Contava-se ali, também, a história da morte do Tenente Malaquias, cujo indicativo de guerra seria Ana, o nome, se a memória não me falha da sua filhota. Não me recordo bem disso, pois ele teria sido abatido no ano anterior (Outono?) de 1967. Portanto, muito tempo antes de eu chegar a Marrupa.


Da esquerda para a direita, Capitão Filipe Rolando Borges Mantovani, General Ramalho Eanes, então a cumprir comissão em Tenente Valadim, Tenente Malaquias, não recordo o nome da quarta personagem. Pelo perfil, faz-me lembrar o Ícaro, mais tarde, Comadante do 747 da TAP que levou a minha mãe na sua primeira viagem para os Estados Unidos
Hoje lembrei-me de recordar e homenagear estes homens.
Para todos que permanecem entre nós e para todos aqueles que nos deixaram mais cedo, lá ou cá, presto aqui a minha homenagem e, especialmente, ao Capitão Mantovani a quem sempre considerei um amigo. Ele foi morto na Guiné, em 1973, cerca de três anos depois de nos despedirmos, em Nova Freixo. Recebi, então, a notícia da sua morte, na primeira página do Diário de Notícias, numa manhã de 1973. Sentei-me numa mesa do velho café Monumental, coloquei o jornal sobre a mesa e deparei-me com a sua primeira página onde aparecia a fotografia do então Major Mantovani.

Major da FAP, Filipe Rolando Borges Mantovani, morto em combate na Guiné. A guerra continua a fazer-nos chorar.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

General Melo Egídio

 Ventor 07.12.11

... o Governador. O governador do distrito do Niassa, no norte de Moçambique e o Governador Geral de Macau, mais tarde.

Um dia cheguei a Moçambique, segui o rumo e tudo correu como eu queria. Fui parar ao Niassa, Nova Freixo, mais precisamente, AB6 - Aeródromo Base 6. Isso aconteceu no ano de 1968 e a 31 de Janeiro, cerca da meia noite, cheguei a Nova Freixo. Dois meses, em Nova Freixo e rumei a Marrupa ("terra do Desterro", significado indígena de Marrupa) logo de seguida. Por ali, com intervalo de cerca de meio mês, estive oito meses e meio.

Foi em Marrupa que ouvi falar desse homem. Um militar que seria, na altura, Coronel - O Coronel Melo Egídio, Governador Civil do Distrito do Niassa.

Um dia, na minha caminhada por Marrupa, no Aeródromo de Manobras 62 (AM 62), de manhã cedo, estava o meu amigo "Louco da Malásia" de serviço, no Posto de Rádio e eu, dormindo! O dia acordou com uma grande trovoada sobre Marrupa. Na sequência da azáfama do dia anterior, eu dormia e, de repente, senti que o Posto de Rádio da Força Aérea iria abaixo ou ardia!

Um grupo de militares invadiu o Posto de Rádio. O burburinho deles, juntou-se à pedalada dos relâmpagos e dos trovões. Tudo aquilo se tornava insuportável. Eu, que até era bom rapaz, pelo menos fazia por isso, comecei a sentir-me chateado. Sem reparar quem estava, pedi ao meu amigo Louco da Malásia para desligar os equipamentos. Ele assim procedeu mas a pressão sobre ele era muito grande! Um grupo de militares achava que o homem não falhava e que chegaria, mesmo no meio da trovoada! No meio da balbúrdia acabei por acordar e virei-me para o outro lado. Mas a algazarra foi aumentando e eu, sem mais nem menos, metido no meio dela, sem justa causa. Pelos fios que desciam das antenas, desciam também os relâmpagos e o Posto de Rádio parecia incendiar-se.

Por fim, ouvi uma voz dirigida ao Louco da Malásia: "que está você aqui a fazer? Você não está de serviço? Ligue essa merda, senão os homens ainda morrem e nós não sabemos"! O Louco da Malásia que, também era bom rapaz, cedeu e fez a vontade aos cabeças do ar condicionado do Sector Echo, ligando os emissores e chamando Vila Cabral. Um relâmpago endiabrado penetra junto dos fios. Parecia que nos queria destruir o Posto de Rádio e eu não queria o Posto de Rádio destruído. O meu sono sumiu. Endiabrei! Levantei-me, com calma, em slipes, passei no meio dos cabeças de ouro do Sector Echo, espreitei pela janela e, ... sem mais, dirigi o dedo grande do meu pé direito, ao botão geral dos equipamentos de rádio, pressionei e disse: "só gente que não percebe nada disto, julga que um avião entra hoje, em Marrupa, enquanto as circunstâncias se mantiverem. «Chegaste a enviar a informação meteorológica para Vila Cabral»? "Sim, mas já não me chegaram a informar se o avião iria decolar". «Se descolou, quando tiver a área de Marrupa à vista, foge logo para trás».

Virei-me para o meu amigo Louco e disse: «não ligas mais esta coisa, hoje, enquanto eu não te disser, ouviste! E que está esta malta aqui a fazer? Todos lá para fora»! Era fora do Posto de Rádio, abrigados pelo telheiro, que eles deviam guardar, se as houvesse, as comunicações. Ficamos só eu e o Louco da Malásia. Por fim, mais tarde, os nossos amigos do Sector Echo, acabaram por abalar. Chegaram à conclusão que eu tinha razão e desandaram. Pensaram que o avião nunca mais chegaria, como não chegou! Seria impossível e ainda bem para todos, eles e nós!

Soube, na sequência dessa pequena escaramuça, que o Senhor Governador Civil do Niassa, teria informado que, naquele dia, iria fazer uma visita à bela terra do DESTERRO - Marrupa!

Dias depois, fui informado pelo meu Comandante, em Nova Freixo, que havia uma queixa do Comandante do Sector Echo, enviada para Nampula, contra mim e queria saber pela minha boca o que se tinha passado. Disse-lhe que não sabia de nada, tinha de se "esmerar" para me fazer compreender o porquê, pois nunca tivera qualquer mal entendido com o comandante do Sector Echo. Então, o meu comandante lá veio com o meu aparecimento  no meio do Staff de Marrupa em "trajes menores"! Percebi tudo mas, o ataque daquele Maralhal, contra o Fox, saiu baldado. Eu apenas defendi os equipamentos contra casmurros precipitados, dos quais nem vi galões.

Algum tempo de felicidade, nas escaramuças da guerra, com a minha cegonha

Mais tarde, apareci em Vila Cabral e, podem crer, vim a conhecer o Senhor Governador Civil, Melo Egídio e, se alguém tiver dúvidas, podem crer que tivemos sempre um relacionamento exemplar. Para ele, eu era o Ok, OK, ... porque lhe resolvia alguns problemas da sua malta civil, sempre que possível, especialmente, nos transportes para o Hospital de Nampula.

Poderia falar muito sobre esses tempos do Niassa e bastante sobre esse homem que me pareceu muito querido das populações desse Distrito.

Esse homem, o Governador do Distrito do Niassa, em Moçambique, que veio a ser Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas e Governador de Macau e que, por determinação do Senhor da Esfera ou das Parcas, nos deixou hoje, merece toda a minha consideração e votos de simpatia pelo pouco tempo de convivência que tivemos no Niassa, em Vila Cabral. O sorriso dele cativava.

Deixo aqui os meus pêsames a toda a sua família, especialmente, à sua filha Paula, que melhor conheci, se é que ainda existe, neste nosso mundo, neste nosso Planeta Azul.

Que Deus o tenha a seu lado, Senhor General.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

sábado, 3 de setembro de 2011

Francisco Daniel Rocho

  Ventor 03.09.11

... um combatente!

Francisco Daniel Roxo - Comandante das Milícias, em Vila Cabral, no Distrito do Niassa
Nas minhas caminhadas por Marrupa, no ano de 1968, comecei a ouvir falar deste homem e das várias histórias que se contavam dele. Acredito que, a sua vida de caçador ou a sua inocência de homem simples, o tornassem num temerário. Afinal, isso entranha-se em nós, quando caminhamos no mato e, mais ainda, quando estamos preparados para tudo, até para morrer.
Não sei se alguém sabe como vivemos a vida quando estamos preparados para morrer. Eu já passei por isso e não é por acaso que caminhava quilómetros sozinho nos matos de África, especialmente, em Marrupa, e também em Vila Cabral, sem pensar no amanhã! Hoje, não o faria! Isto era no tempo em que o medo não existia no meu cérebro. Posso acreditar que alguns de vós tenha passado por isso pois, certamente, eu não serei excepção a esse estado de espírito.
Nem eu, nem o Daniel Roxo!
Eu sei que ele não tinha medo. Ele dizia que hoje era hoje e, o amanhã, logo se via. Era assim que eu pensava. Tal e qual! Mas depois da minha passagem de 8 meses e meio por Marrupa e pelos seus matos envolventes ao AM62, quantas vezes só, com os rafeiros, amigos a valer, em caminhadas sem fim, algumas vezes perdido de noite, em busca de verylights que me indicassem o caminho para o Aeródromo e, quantas vezes, sem bússola nem verylights, dava sempre com a porta! Ainda hoje, quando penso nisso, parece-me que até cheiro o mato. Aquele cheiro a bravo, nesse mato selvagem. Uma vez matei um bicho sobre uma árvore, quando descia uma lângua a oeste de Marrupa e, no regresso, a pestilência, a bichos bravos, era enorme. Os cães, quatro com a cachorrinha Diana (filha da Leoa de Vila Cabral) que, tanto gostava de ir comigo que andava quase sempre com ela ao colo.
Quando cheguei ao local, já só havia restos de pelo do bicho e o medo dos cães era enorme! Parei, na margem direita da lângua e fui mudando os cartuchos, na Browning, para caça grossa. Os cães pisavam-me os tornozelos e quase não me podia mexer. Limitei-me a ficar ali, durante algum tempo, recuando uns metros até à árvore mais próxima, sempre a olhar o capim intenso à minha frente. Os cães continuavam enroscados em volta das minhas pernas a ganir e eu não tirava os olhos da zona do capim e das árvores a seguir, para onde eles olhavam e do pelo do Zorba, todo eriçado sobre o lombo.
Dei tempo ao animal ou animais que cheiravam a bravo, ali perto e assustavam os cães, para se decidirem a tomar a iniciativa. O chumbo grosso estava ali à espera deles. Mas nada. Por fim, decidi eu. Bummm! Meti outro cartucho! Observei tudo à minha volta e nada! Decidi pôr-me a caminho. O tiro pareceu-me algo de extraordinário. Não vi mexer o capim, não vi nada fugir. Os cães amainaram e, lentamente foram-se afastando das minhas pernas. A Diana pediu-me colo e eu disse-lhe que não. Tinha de fazer um esforcinho e eu olhar para trás e para os lados para defender o meu pelo e o deles. Nunca mais houve problemas até ao AM62. Tive receio durante algum tempo de que as coisas nos corressem mal para mim e para os cães mas, não havia vaga para guardar os medos. Concluí que os animais tinham lá estado e se afastaram à minha aproximação. No dia seguinte, lá estávamos outra vez, e sós!
Recordando os meus receios ou medos, recordo também, como viveria a cabeça do Daniel Roxo com os seus medos do dia. Vou contar-vos o único medo em que o cacei!
Um dia, lá cheguei eu a Vila Cabral, nos princípios de Julho de 1969. Quis logo conhecer a cidade e lá fomos quatro marmanjos com esse objectivo. Vimos aquela represa, lá em baixo, entre os pinheiros e iniciamos uma caminhada até lá. Chegamos junto da água, reparamos nas suas margens e, como o tempo apertava, decidimos voltar ao AM61. Mal iniciamos a subida da picada, já um pouco afastados da represa, ouvimos tiros e as balas a zunir junto dos ouvidos e a baterem no chão, junto de nós. Não tínhamos uma única arma e ficamos ali, de rojos e ainda vi uma bala levantar o pó, bem junto da minha cabeça! O fogo calou-se e nós reiniciamos a caminhada. Pelo caminho pensei que, se quisessem matar-nos, já o teriam feito. Não ouvimos nem mais um tiro!
Chegamos à Pista de Vila Cabral, a malta cheia de sede, dirigiu-se para o Bar. Eu aguardei uma viatura tipo militar, um jipe a alta velocidade, direita a mim, e um tipo espavorido a saltar dele.
«Vocês souberam o que fizeram? Vocês sabiam o risco que corriam e foram para uma zona de reserva onde não se pode entrar sem a minha autorização? Eu espeto-lhe um murro nesses cornos que dou cabo de si»! Eu, estupefacto, vejo aquele gajo fardado à militar com o punho no ar, a ameaçar-me e, ... "calma aí amigo, explique-se melhor que não estou a perceber nada»! «Não está? ...Eu sou transmontano», ... eu faço, eu aconteço, eu, ... "Olhe, sabe um coisa? O senhor é transmontano, eu sou minhoto e parte-me os cornos uma merda! Não sei quem o senhor é, e estou-me nas tintas para o seu camuflado. Para me dar um murro nos cornos é preciso que eu deixe ou julga que vou ficar aqui à espera, de braços cruzados"?!
A partir dali, acabou a nossa guerra a dois. Explicou-me toda a engrenagem e que, as suas milícias podiam ter-nos morto enquanto treinavam situações de fogo e que tivemos sorte por o comandante do grupo de atiradores ter-se apercebido da nossa presença e terem cessado o fogo. Não fosse isso e saíamos de lá como passadores!
A partir desse desentendimento, fomos beber uma bazuca e ficamos amigos mas, nunca mais me esqueci do Daniel Roxo. Ele é o tal homem que tinha entrado no café Planalto e pediu uma cerveja. Bebeu o primeiro gole de cerveja, ouviu tiros, algures junto da cidade, pousou a garrafa e disse para o gajo do balcão: «guarda-me aí a garrafa que ainda venho beber a cerveja fria" e, lá partiu no jipe à procura dos tiros!
Outra peripécia do Roxo foi num voo de Revis, numa DO-27, bem perto de Vila Cabral. A nossa DO-27, o Roxo e o Comandante de Operações do Sector Alpha, um Major porreiro! Eu estava de serviço e, de repente, só ouvia o Roxo a mandar vir com o avião e com a FAP. «A Força Aérea não presta, manda para aqui esta merda desarmada. Nem uma G-3! Assim não podemos fazer nada. Mas que porra! O piloto do DO transmitia-me tudo e perguntou-me se os T-6 podiam actuar. Chamei o Comandante do AM, aviões para o ar e zás! Combinamos um nível de voo para a Do, de maneira a que os T-6 entrassem ao ataque por baixo. O Roxo transfigurou-se quando viu os T-6 lançar os rocketes a atacar forte e feio as posições dos nossos amigos de estimação. Quando regressaram, saiu da DO-27, correu para mim a abraçar-me e só dava louvores à Força Aérea. Foi uma mudança radical. Creio que quem comandou esse ataque foi o Ícaro. O Roxo correu para o Jipe, voltou-se para nós e disse: «Agora vai ser comigo»!
Tantos anos já passaram - 42 anos! Cuidado com a cegonha!!!! Foram danças como esta, as mais lindas que fiz até hoje
Tenho outras situações em que o Roxo era mencionado em locais que nem lá estava. Uma vez o Comandante do Sector Alpha disse ao Capitão que partiu com a sua companhia em socorro da Força Aérea, cerca da meia-noite, nas vésperas do natal de 1969, que esse ataque era das milícias do Roxo e eu que sabia onde andava o Roxo, nessa altura, tirei o telefone das mãos desse capitão e fui eu que fiz a guerra com esse Comandante que, afinal só temia o medo dos civis de Vila Cabral e ficou com uma vontade de me triturar mas não passou disso. Tenho isso mais desenvolvido por aí, num post, e tenho ainda nos ouvidos, as vozes das mulheres de Vila Cabral a pedirem-me, pelo telefone, para resistirmos que iríamos ter um Natal cheio do melhor bolo rei do mundo. Giro, não é? Não foi por falta de vontade que o bolo rei não veio a ser o melhor do mundo!
Mas, anos depois, voltei a saber do Roxo mais uma vez! Quando passava numa Av. de Lisboa, vi um jornal e, em toda ou quase toda a 1ª página, estava escrita uma frase: «adeus Comandante» e vinha lá uma foto como essa.
Era um jornal reaccionário ou até super, que se chamava Rua. Mas eu comprei-o! Foi assim que tive conhecimento da morte do Francisco Daniel Roxo. Tive conhecimento, através desse jornal, da sua morte e tive uma guerra com os meus amigos comunistas e da extrema esquerda que, então, pululavam na minha empresa. Felizmente, tinha tanto medo deles como tinha então das hienas de Marrupa e de Nova Freixo.
E, em resumo, para aqueles que não sabem, dizia o jornal que o Daniel Roxo morreu numa escaramuça entre a Frelimo e a Renamo e, também, segundo o jornal, o homem que se dizia imune às bazukas, foi trucidado por uma.
Este post destina-se a recordar um homem de quem muitos não gostaram mas, que eu vejo, apenas, como mais um dos nossos parceiros de tempos conturbados na nossa caminhada africana. Deixo-lhe aqui a minha homenagem.
PS. Posteriormente, vim a saber que o Francisco Daniel Roxo morreu no sul de Angola, em combate contra cubanos e o MPLA, conforme os comentários a este foto e no Blog - Rio dos Bons Sinais.

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O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Adeus Amigos

 Quico e Ventor 24.09.09

O vosso amigo Quico foi levado pelo Senhor da Esfera.vos as suas histórias e que nunca esqueça os seus amigos de sempre.


O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

domingo, 21 de maio de 2006

Companheira de Guerra - A Especial

 Quico e Ventor 21.05.06

A Especial! E para a Eternidade!

A minha mãe.

Amigos sabem que o Ventor também chora! Um dia destes dei com ele a chorar. Verdade! Perguntei-lhe o que tinha e contou-me! Disse-me tudo isto:

«Às vezes penso, Quico! Penso que todos temos um pai ou uma mãe que se sacrificaram por nós. Todos ou quase, temos um pai e uma mãe que chorou por nós ou que choraram por nós! A minha mãe era uma flor e é assim que eu a recordo.

 

Era uma flor muito linda

Eu recordo-me do que me contavam e do que ainda me contam, desde que parti da minha terra aos 15 anos. Depois fui para a Força Aérea, depois para África e dizem-me que a minha mãe sempre chorou por mim.

Chorava em voz alta, todos os dias no meio dos carvalhos que eu deixei decotados e sempre que tocava em alguma coisa que eu deixei para trás.

Chorava quando apanhava as maçãs das macieiras que eu tinha enxertado.

Chorava a comer as boas peras dadas por pequenas pereiras que eu tinha enxertado em pereiros bravos.

Chorava quando eu lhe perguntava se as videiras americanas que eu tinha desembaraçado das silvas onde estavam atoladas e as pernadas que virei para cima do carvalho junto, e as pernadas que fiz passar sobre estacas de salgueiros que tinha enterrado no chão e pegaram, dando origem a uma latada viva que no primeiro ano, dizia-me ela, toda encantada, dera dois cestos de uvas.

Sempre me falava das minhas coisas, do jeito que eu tinha para a jardinagem, pois desde que me lembro de existir transformava sempre quaisquer cantinhos das nossas lavouras, em autênticos jardins.

Chorava quando eu lhe perguntava  pelos morangos com que lhe enchi uma horta que só dava couves, feijões e pouco mais, passando a dar, também, belos e saborosos morangos.

Chorava, quando já pela fraqueza da sua velhice, lhe dizia por carta ou telefone, o que deviam fazer, para esquecerem as vacas, as lavouras, as videiras, as pereiras, as macieiras, os pessegueiros, etç., tudo que eu também tinha deixado partilhando das suas vidas.

Chorava quando olhava a nossa tapada de matos com quatro lindas árvores grandes que, eu de sacho na mão, havia plantado. Uma delas, a minha canecipe, tinha sido plantada com as unhas e um esgaravato, num dia que não tinha sacho.

Um grande amigo meu, dos meus tempos de criança - um guarda florestal - pois eram todos meus amigos, sabia que eu gostava muito de canecipes e deu-me uma pequenina para plantar na tapada.

Deixa-a na nascente em terra húmida e quando poderes planta-a, pois ela crescerá contigo".


Local de sonhos

Eu deixei e, no dia seguinte, como tive de lá ir e não levei sacho, plantei-a com as ferramentas que Deus me deu, as unhas e um esgaravato. Ainda hoje, sempre que vou à minha terra, vou ver a minha canecipe - a canecipe do Ventor! Junto da minha canecipe, o meu castanheiro, o meu carvalho, o meu vidoeiro. Ali estão perenes e heróicos também porque vão, resistindo a pavorosos incêndios que volta e meia queimam todos os matos em volta, ficando elas ali, autênticas bandeiras, aguardando, ano após ano, que eu me rejubile com a sua heróica resistência e quando eu lhes toco no tronco, parece-me que falam comigo.

Ao lado delas, só resistem as salamandras amarelas e negras que, juntamente comigo, bebiam água na mesma nascente. Quando os fogos passam, elas metem-se na água e esperam que tudo se resolva. Da última vez, os matos estavam molhados e eu não deixei o carro na estrada para subir até elas mas, elas compreenderam e limitaram-se a dizer-me: "volta sempre Ventor. Tu és quem nos dá vida! Quando um dia deixares de regressar, nós não existiremos mais, pois as gentes, apenas olharão para nós como umas árvores.

Senti o apelo daquelas árvores, o seu choro que se juntou ao meu naquela pequenina bomba que continua a nos manter vivos. Eu penso que elas terão um élan divino que as faz esperar por mim, há quase meio século.

A minha irmã, que tinha levado ao Hospital de Ponte de Lima e, no regresso, lhe disse que queria ir pelo outro lado da serra para ver as minhas árvores, ficou com os olhos rasos de lágrimas e, quando parados na estrada, a olhar para os meus grandes monumentos vivos, disse-me: "muito chorou por ti a nossa mãe, em frente daquelas árvores!

 

Tenho um grande castanheiro que chora comigo

Chorava por ti em tudo que era sítio. Ela chorava e o cão uivava e eu só tinha ciúmes! Às vezes achava que não valia nada, nem sabia o que andava aqui a fazer". E abraçou-se a mim a dizer que ficaram magoadas, quando eu na brincadeira, dizia que, por mim, só chorou a Íris, minha madrinha de Guerra, que me acompanhou nas minhas venturas de guerra durante cerca de quatro anos.

E continuou: "mas tu já morreste e já renasceste. Eu sabia que toda a gente chorou por ti na América, devido ao telefonema atarantado da tia Sistela, que pensou que foras tu que morreste em vez do nosso Manel e, a tua madrinha ia morrendo aos gritos, pelo seu Ventor e, informaram as pessoas que tu tinhas morrido e assim foi passando de uns para outros, até o Carrasco recolocar as coisas no sítio. Era o nosso Manel que estava nas mãos de Deus e era por ti que toda a gente de Adrão, pelo mundo, chorava. Muitas pessoas me disseram logo que eu fui para a América que, sentiram, no meio da tristeza a alegria do engano.

Tu foste sempre o mais querido de nós os três, para todas as pessoas, apesar de teres sido um macaquinho para todos, toda a gente era tua amiga. Até sabias ser macaco!

Até posso ter sido macaco para muita gente, mas sei quanto eram meus amigos e também sei que, nenhum dos rapazes do meu tempo, fizeram por eles o que eu fiz. E, assim, não há macaco que não se safe! Também sei que muitos dos que muito me queriam já se foram e os que restam estão para ir. Apesar de tudo, ainda sinto o apelo de todos eles, os que estão e os que já se foram e que, do outro lado, nos esperam.

Tal como a minha mãe e o meu cão, eu sinto o apelo dos carvalhos e dos sobreiros, das imagens sagradas que habitam na minha retina, do chamamento da águia a caminho do ninho, nas fragas que se levantam nas profundezas do rio de Bordença e do voo do açor, quando ainda por lá andava na minha meninice.

Do apelo do gaio esvoaçando sobre os carvalhos e, do cheiro, daquele cheiro a terra que só em África me pareceu igual, nas manhãs húmidas e quentes - talvez fosse o cheiro da saudade!

Tenho na profundidade dos meus ouvidos, os gritos da minha mãe e o latir do meu cão, bem como o assobio de meu pai e o latido do cão, em querer desdobrar-se em metade dele para mim e a outra metade para querer ir caçar, mas só ia quando eu falava com ele a dizer-lhe que o dono esperava e que tinha de ir. Por isso, eu digo: "quem não tem uma mãe que não chore por si? Quem não tem uma mãe ou um pai que tanto sacrifício fazem ou fizeram por nós?

Eu tinha e ainda tenho, na saudade, a minha querida mãe que, no seu leito fúnebre, estava linda, um aspecto natural límpido, que mais parecia viva que morta!

Eu vi desfilar por diante dela, os amigos de todas as aldeias em volta e vi, da aldeia do meu pai, toda aquela gente inclinar-se perante a Teresa, a quem todos diziam: "adeus Teresa, até qualquer dia"!

Vi as pessoas a tentarem esconder de mim as ossadas de meu pai e o cinto quase novo que lhe prendia as calças que levou para o outro mundo.

Talvez aquele fosse o cinto que os iria amarrar para sempre. Ela foi sempre, Quico, a minha Companheira de Guerra e, sabia que junto de si, estava sempre o seu Ventor.



O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Rios de Som

  Quico e Ventor 19.04.2006

Em Tempos de Guerra

Diz-me o Ventor e eu sei disso, pois sou obrigado a ouvir música com ele:

«Sempre fui um atento ouvinte de músicas. Belas músicas! Normalmente, não fixo os nomes dos muitos autores, dos muitos cantores, dos muitos músicos, das muitas empresas gravadoras. Excepcionalmente o faço. As músicas têm de entrar nos meus ouvidos e ficar por lá.

Uma vez entrei numa janela da Net e, no meio de muitas coisas boas, encontrei um tema que se chamava Rios de Som e a que achei muita piada. Caminhei algum tempo entre esses amigos que, por sinal, directa ou indirectamente, me ajudaram a recordar os meus Tempos de Guerra.

E isso fez recordar-me que, pelos meus Tempos de Guerra, também passaram muitos Rios de Som que eram expelidos dos Hamarlunds da Força Aérea, uma extraordinária companhia. Lembro-me de, pelas noites dentro, sintonizar a Rádio Nova Iorque, em ondas curtas, que tinha uma emissão para a América Latina, em espanhol e que, eu, sempre que podia, conseguia ouvir em Moçambique e, pela Rádio Nova Iorque recebia beijinhos de estudantes de várias universidades americanas, da Íris, a minha Companheira de Guerra e de algumas das suas amigas da Universidade de S. João de Porto Rico que atravessavam o éter cheios de Rios de Som. Estes beijinhos eram, apesar de tudo, para o Ventor e para a Força Aérea Portuguesa, no norte de Moçambique. Elas telefonavam para a Rádio Nova Iorque e os locutores encarregavam-se de fazer o resto.

Aqui Rádio Novaiorque! - lá vinham eles! ...

Nos Hamarlunds da Força Aérea, corriam os nossos Rios de Som que, algumas vezes, eu colocava nas cabinas dos pilotos para descomprimirem das agruras da solidão, nos mais belos céus do mundo e, por vezes, os mais temidos também, pelos seus gigantescos cúmulo-nimbos, por vezes mais negros de que a própria África, ajudando assim, no regresso à nossa Lápide de Arame Farpado.

Obladi, Obladá, Hey Jude, Love me do, Penny Lane, All you need is Love, Let it be, Get Back, ... dos Beatles. Reach out, I'll be there, dos Four Tops (uma música das minhas favoritas que utilizei como lema), My Sentimental Song, for my Sentimental Friend, Let him live, ... e, tantas outras! Se isto para muitos de vocês é fuleiro (?), para mim, são Rios de Som que me alegram a alma, que me movem no passado, no presente e no futuro.

Ao ouvirem em plena campanha aérea, o Obladi, Obladá, que partia do nosso centro de operações e entrava nas suas cabinas,

Dizia um piloto - Rima e rimará!

Dizia outro - na nuca do papá!

Ao meu lado, alguém alvitrava:

"Estes, mal aterrem, vão levar já com uma participação, em cima"! Dizia o Clark Gable.

"Não posso admitir coisas destas, senão, sobra para mim"!

Era assim que chamávamos a este Tenente Coronel. Olá, Clark Gable!!!!

Sem música, pode informar o Comando Avançado, que vão fazer a guerra sózinhos!

Quando o Clark Gable, vê no seu estilo de pai macabro, um piloto rodesiano (para os menos atentos, nós também ensinamos os outros) correr para mim, para me perguntar quem era o piloto do avião X e eu lhe disse. "Goldfinger" e apontei-o, o Clark Gable vê o rodesiano abraçado a mim a gritar que éramos extraordinários, que nunca imaginara nada assim e vai a correr abraçar-se ao Goldinger, cheio de alegria espontânea, o nosso Clark Gable, virou-se para mim - são mesmo! Vocês são mesmo extraordiários!

Todos num só, quais mosqueteiros! Obladi, Obladá!

Grita o Clark Gable: "os cornos do papá"!

A guerra continuou de noite e de dia. Cada um a travava conforme os planos traçados ou, conforme as contingências do momento. De Marrupa, voltei a Nova Freixo, de Nova Freixo, parti para Vila Cabral (actual Lichinga). Aqui estive mais seis meses e meio. Seis extraordinários meses e meio! Caminhando a meu lado, sempre a Íris que, entretanto, arranjara um namorado, mais um que começou a acompanhar o nosso trajecto e que poderei chamar, também, Companheiro de Guerra porque nunca se opôs que a íris continuasse a sua correspondência comigo por longos meses e que, mais tarde acabou por casar com ela.

Regressei a Lisboa onde recebi uma carta da Íris a dizer-me que acabara o curso dela e que tinha sido pedida em casamento. Desejei-lhe felicidades e terminamos a nossa correspondência como bons amigos que fomos, durante muito tempo. Ela acabou o curso e ia casar, eu acabei a guerra e ia procurar emprego. Terminaram as razões que nos ligaram mais de quatro anos. Darmos a conhecer os nossos mundos, um ao outro. No entanto, reconheço hoje que foi uma pena termo-nos perdido para sempre. Fomos mudando de vida, mudando de locais e fomos-nos adaptando a novas realidades.

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Uma rosa chamada íris

A íris, tinha sido uma verdadeira Companheira de Guerra! Posso muito bem recorda-la como uma rosa».




O Ventor e a sua amiga cegonha, 1969, em Vila Cabral

Rihana - Moçambique

Rihana, em Moçambique. Um povo que canta e dança pode ser feliz. Porque Moçambique não é? Eu sei mas não vos digo!