sexta-feira, 15 de outubro de 2004

O Niassa partiu

  Ventor 15.10.04


Costa sul do Tejo, olhando-a, enquanto o Niassa se emproava rio abaixo, eu sonhava que um dia voltaria ali, aos caranguejos e, da costa norte veria descer a Sagres, encantada com as músicas das Tágides

Mais uma vez consegui furar por entre os meus companheiros até um local donde podia abarcar toda a plataforma portuária. Num local onde deixara os meus amigos que se foram despedir de mim, verifiquei que ainda lá se encontravam e apontavam com o braço o local onde me encontrava para os que tinham mais dificuldades a encontrar a tal agulha no palheiro. Tudo me indicava que encontraram a agulha, coisa que mais tarde confirmei, mas eu, lá do alto, nunca os perdera de vista. Coloquei os meus olhos a caminhar sobre a multidão e parei-os no local onde saltara. Voltei a tirar o boné, a acenar e, verifiquei que o Niassa já não tinha escadas e começava a afastar-se. Já tinha cortado o cordão umbilical para mais uma arrancada, mas aqueles braços continuavam estendidos, a fazer de amarras tentando conseguir, no sonho, que o Niassa regressasse ao ponto de partida. Eles perceberam onde eu estava. Naquele local, no meio da rapaziada do exército, eu era o único da Força Aérea. Acenei, acenei, acenei ... até perdê-los de vista. Naquele momento, todos eles eram a minha gente, mesmo aqueles que, quando eu procurava passar para o lado da guerra, me incentivavam a não saltar, a ficar. A gritarem: "não vá"!

Mas eu fui, sempre a pensar em Adrão.

A seguir: Navegando no mar alto

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