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domingo, 12 de setembro de 2004

Ouço o Niassa ranger

   Ventor 11.09.04

Deixei as malas com esse meu amigo e voltei pelo sítio que tinha chegado, procurando caras conhecidas. Procurei, no meio da multidão, pessoas que não vi e encontrei outras de quem já me tinha despedido; mais uns dedos de conversa e mais uma caminhada entre a multidão. Entretanto o Niassa rangia à medida que cerca de mil e tal homens iam subindo as suas escadas. Todos carregavam as suas malas. Uma ou duas malas mais uma pesada carga que transportavam aos ombros. A esperança! A esperança do regresso. Regressar era o grande objetivo de todos que subiam aquelas escadas. Mas, essa esperança, tornava-se maior quando, ao voltarem-se para trás, olhavam os braços levantados com umas mãos que seguravam os lencinhos do adeus. Eram milhares!

O Pavilhão dos descobrimentos, visto de Oeste

Enquanto as escadas do Niassa continuavam a ranger, eu andava fora da área militar, perdido no meio da multidão, furando aqui e ali, atento a todos os movimentos que se desenrolavam à minha volta, mas sem encontrar alguém daqueles que procurava. Não tinha lá família mas tinha alguns amigos e não cheguei a despedir-me de todos que lá foram. Queria dizer a todos uma palavra: "voltarei" ou como a canção torneró!
Voltarei porque o Senhor da Esfera assim o determinara. Eu ouvi-o dizer: "vai Ventor. Vai com confiança, porque tu voltarás a abraçar o Tejo. Este é o teu rio"!
Assim quem não parte confiante?

sábado, 11 de setembro de 2004

Perdido na multidão

   Ventor 11.09.04

Em Adrão, meus pais e meus irmãos, aqueciam-se ao lume na manhã de um dia frio, julgando-me a entrar no Nº 21 da Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa, ou então pelos subterrâneos do G.D.A.C.I. (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção), em Monsanto. Seriam os pensamentos sobre o que liam, do que eu lhes escrevia. Mas não! Eu estava a dar mais umas passadas na minha Grande Caminhada. Nunca os quis atormentar com a minha saída rumo a África. Se fiz bem ou mal, ainda hoje não sei!

Esta é a retaguarda do Pavilhão dos Descobrimentos. Tem na sua vertical a representação de uma espada.
Ela simboliza o tempo em que a vanguarda é garantida pela retaguarda. Sabedoria, determinação e espada!

Não encontrando quem procurava, no meio de tanta gente e, vendo o tempo correr, voltei a olhar as escadas do Niassa por onde, dentro em pouco, iria subir. Na base das escadas, lá estava o meu amigo algarvio esperando-me e guardando as minhas malas junto da dele. Eu levava duas malas, uma das quais, cheia de livros. Pesava que fartava! Mas o meu amigo, lá continuava, debaixo do boné da Força Aérea, não se lhe vendo o rosto. Apenas eu sabia que ele estava lá! Olhando a silhueta do meu amigo algarvio, voltei o meu olhar sobre o Cristo Rei e o meu amigo Apolo que me acenava daqueles lados.
Ao voltar-me para trás, fixei mais uma vez, com um olhar firme, a multidão debruçada da varanda do edifício e, em meu redor, só via rostos tristes olhando o Niassa e de braços no ar, lutando contra o cansaço, acenando. Dirigi-me para o Niassa e quase não conseguia perfurar aquela mole humana que me cercava e bloqueava a passagem rumo à área militar. Entre a multidão e o Niassa havia um gradeamento de tubos que não permitia a passagem para o lado militar e, caminhando com muitas dificuldades, encontrei no meio da multidão, um General do Exército. Com algum esforço devido ao aperto, levantei o braço e fiz-lhe a devida continência a que ele correspondeu e, enquanto isso, verifiquei que os seus olhos marejavam. 

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Subi ao navio Niassa

   Ventor 11.09.04

O Cristo Rei, como sempre, abraçava todos
Naquela situação todos os olhos marejam. Do seu semblante triste saíram as seguintes palavras: "veja se consegue saltar por aqui meu rapaz"! Fitei-o nos olhos, coloquei a mão sobre o último tubo cilíndrico e todos se encolheram enquanto eu formei um salto apertado, fazendo girar as minhas pernas bastante encolhidas para o lado oposto.

A aglomeração do lado da Rocha Conde de Óbidos era enorme e, ao chegar ao convés, reparei que muitos choravam de braços no ar, acenando com os bonés, num adeus que parecia não ter fim. Em terra, a multidão era ruidosa. Pousei as malas aproveitando para descansar e resolvi, do cimo das escadas, dizer um último adeus a todos aqueles que se foram despedir de mim, pois sabia onde estavam e, mais uma vez, olhei a gente junto ao gradeamento que me voltou a dizer um adeus arrepiante. Eu fiquei com a sensação de que toda a minha gente se instalara ali, ou então, toda aquela gente era uma imensa extensão de um adeus cheio de imprevisões. Mas não! Todos eles sabiam que eu passara ali como que perdido no meio da multidão e eles adotaram-me como um dos seus.

Rihana - Moçambique

Rihana, em Moçambique. Um povo que canta e dança pode ser feliz. Porque Moçambique não é? Eu sei mas não vos digo!