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sábado, 11 de setembro de 2004

Perdido na multidão

   Ventor 11.09.04

Em Adrão, meus pais e meus irmãos, aqueciam-se ao lume na manhã de um dia frio, julgando-me a entrar no Nº 21 da Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa, ou então pelos subterrâneos do G.D.A.C.I. (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção), em Monsanto. Seriam os pensamentos sobre o que liam, do que eu lhes escrevia. Mas não! Eu estava a dar mais umas passadas na minha Grande Caminhada. Nunca os quis atormentar com a minha saída rumo a África. Se fiz bem ou mal, ainda hoje não sei!

Esta é a retaguarda do Pavilhão dos Descobrimentos. Tem na sua vertical a representação de uma espada.
Ela simboliza o tempo em que a vanguarda é garantida pela retaguarda. Sabedoria, determinação e espada!

Não encontrando quem procurava, no meio de tanta gente e, vendo o tempo correr, voltei a olhar as escadas do Niassa por onde, dentro em pouco, iria subir. Na base das escadas, lá estava o meu amigo algarvio esperando-me e guardando as minhas malas junto da dele. Eu levava duas malas, uma das quais, cheia de livros. Pesava que fartava! Mas o meu amigo, lá continuava, debaixo do boné da Força Aérea, não se lhe vendo o rosto. Apenas eu sabia que ele estava lá! Olhando a silhueta do meu amigo algarvio, voltei o meu olhar sobre o Cristo Rei e o meu amigo Apolo que me acenava daqueles lados.
Ao voltar-me para trás, fixei mais uma vez, com um olhar firme, a multidão debruçada da varanda do edifício e, em meu redor, só via rostos tristes olhando o Niassa e de braços no ar, lutando contra o cansaço, acenando. Dirigi-me para o Niassa e quase não conseguia perfurar aquela mole humana que me cercava e bloqueava a passagem rumo à área militar. Entre a multidão e o Niassa havia um gradeamento de tubos que não permitia a passagem para o lado militar e, caminhando com muitas dificuldades, encontrei no meio da multidão, um General do Exército. Com algum esforço devido ao aperto, levantei o braço e fiz-lhe a devida continência a que ele correspondeu e, enquanto isso, verifiquei que os seus olhos marejavam. 

África à Vista

   Ventor 11.09.04

No dia 4 de Janeiro de 1968, aí da Rocha de Conde de Óbidos, no rio Tejo. O rumo, era Moçambique, África Oriental a beijar o oceano Índico. 

Era esta a imagem que eu tinha na cabeça. Desceria o Atântico, entraria no Índico, subiria o Canal de Moçambique e iria parar à baia de Fernão Veloso, em Nacala. Depois seria uma bela caminhada por via férrea para o Niassa. Passaria por Nampula e Nova Freixo seria o primeiro destino

A Mariam Makeba, chegaria mais tarde

Estávamos no Inverno de 1968, precisamente, no dia 4 de Janeiro. Era um dia de Inverno, mas estava lindo. O céu estava azul, o rio Tejo imitava-o, as Tágides tinham dormido bem e o meu amigo Apolo brilhava!

Eu saí da zona do Chile, em Lisboa, num táxi, rumo à Rocha Conde de Óbidos onde tinha um encontro marcado com o destino. Quando cheguei, já lá estava muita gente de cara triste. Os militares que iam embarcar no Vera Cruz, rumo a Angola, já tinham destroçado da formatura e já subiam as escadas do barco. A algazarra era enorme! Eu saí do táxi, paguei, peguei nas minhas duas malas e fui-me chegando para o Niassa que estava mesmo ali, em frente do edifício da Rocha Conde de Óbidos. Junto ao Niassa, encontrei os meus companheiros de caminhada da Força Aérea que num grupinho assistiam à formação dos militares do Exército e pedi a um deles, um algarvio, se calhar, descendente longínquo de um qualquer Mohamed (olá amigo Fernandes), para me guardar as malas e me esperar, enquanto eu ia procurar alguns amigos que não tinha encontrado.

O paquete Niassa era um belo barco

O clarim toca a destroçar e, enquanto o Vera Cruz acorda o Tejo com três apitos de alta sonoridade e larga ferros com cerca de 2.000 homens a bordo, eu olhava aqueles que iam ser meus companheiros de viagem, com um semblante enfeitado de uma terrível tristeza. De repente, o Vera Cruz que não se fez rogado, avançou Tejo abaixo e o Niassa aguardava a sua vez.

A seguir: Perdido na multidão

Rihana - Moçambique

Rihana, em Moçambique. Um povo que canta e dança pode ser feliz. Porque Moçambique não é? Eu sei mas não vos digo!