Ventor 17.10.04
«Às vezes lá aparecia uma alma caridosa que me comprava nas filas do navio Niassa, umas cervejas fresquinhas e uns pacotes de bolachas baunilha. Era necessário ir para filas sem fim para arranjar umas sandes e valia mais passar fome. Para as bolachas, as filas não eram tão grandes e há sempre aqueles que, com dois dedos de conversa, aguentam as mais terríveis das filas. Não é por acaso que lhe chamam "bichas"!
Antes de chegarmos a Luanda, revoltamo-nos. Planeamos um levantamento de rancho. Aquilo começava a ficar terrível para muitos e então, planeamos o primeiro ataque. A Força Aérea e a Marinha decidiram avançar para o levantamento de rancho, sós, uma vez que o maralhal do Exército se encolheu. Por fim, numa terrível guerra de bastidores, os marinheiros também nos deixaram sós.
Por isso, ficando só os técnicos da Força Aérea e os Paraquedistas, cerca de 120, apodados de indisciplinados, decidimos avançar. Para mim sempre entendi que a indisciplina era levada a cabo por aqueles que não cumpriam as regras do jogo e nunca por quem defende os seus direitos dentro dessas regras. O Comando Militar do navio Niassa era exercido por um Coronel do Exército e, a nossa revolta, iria ser uma bronca para o Niassa e para todos os seus responsáveis».
«Mas, como dizia o Comandante Militar, nós não éramos ninguém. 120 em mil e não sei quantos, pouco valíamos, mas decidimos avançar!
Mandaram-nos formar frente ao comando, como bonecos e foi então que o Sr. Coronel cometeu um erro enorme. Ameaçou-nos! Teve o descaramento de, gritando, nos dizer que nós não éramos ninguém, que pegava nos seus homens, atirava conosco ao mar e até ninguém daria por isso. O Sr. Coronel substimou o valor de homens revoltados, mesmo que pouco mais que crianças, e decididos a levar a sua luta até ao fim.
Um paraquedista, cheio de coragem, tal como se fosse filho de um qualquer Adamastor ou descendente de Neptuno, colocou-se em sentido e disse: "dá-me licença meu Coronel"? «Faça favor», disse o Coronel. O Pára deu um passo em frente e disse-lhe: "o Sr. Coronel ameaçou que nos podia lançar ao mar. É só para lhe perguntar se quer tentar. Garanto-lhe que não será o Sr. que me vai atirar ao mar e vai ficar aqui de braços cruzados a ver-me bracejar. Eu vou ao mar, mas garanto-lhe que o Sr. vai comigo. Estamos tão pertinho um do outro"!
Houve um bla-bla-bla do Sr. Coronel e fez a devida correcção desculpando-se como pôde e disse-nos que até Luanda seria assim. Em Luanda cada um fizesse como quisesse, mas não tinha hipótese alguma de melhorar o rancho. Porém ficou claro que só sairíamos de bordo quando chegássemos a Luanda!
A seguir: Atlântico e suas belezas
Antes: Navegando no mar alto
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