sábado, 16 de outubro de 2004

Navegando no mar alto

    Ventor 14.11.04

E o Ventor continua a descrever-nos a viagem do Niassa com ele e seus companheiros, por mar alto, na sua primeira etapa, rumo a Luanda.

«Ao deixarmos para trás o último elo, o Cabo da Roca e a serra de Sintra, passamos a ter apenas, Niassa, mar e céu. E, entretanto, chegara a hora do almoço. Já não me recordo o que foi o nosso almoço no primeiro dia de Niassa mas duma coisa eu tenho a certeza, fui ver como era mas não comi. Como havia de comer se na véspera tive dois jantares!

Na véspera comi um cozido à portuguesa na hora de jantar normal e na casa onde morava fizeram-me um espargueti fabuloso, um prato que eu aprecio tal como se fosse um italiano vero. Depois de um cozido e de uma caminhada por Alcântara e pela Torre de Belém, regressei a casa porque o dia seguinte não seria para brincadeiras. Só para rebocar a minha mala de livros iria ser bonito!

Ao chegar a casa ainda me esperavam acordados e ainda me fizeram companhia para comer um prato de espargueti. O espargueti guisado com toucinho  intermeado, chouriço e bacon, escorrega, acomoda-se e não faz estrago nenhum. Até parece que não ocupa espaço! Cozido e espargueti entendem-se às mil maravilhas, com o Ventor. Neste caso, eles sabiam que tinham de se acomodar os dois e não incomodar o Ventor. Não satisfeito, comi outro prato de espargueti, na manhã seguinte, ao pequeno almoço».

«Parecia que estava a adivinhar tudo o que estava para vir. Não voltaria a comer um cozido como este tão depressa e, então, espargueti como aquele, não voltaria a ver tão cedo, pensava eu. E assim foi!

Todas estas razões foram suficientes para não me preocupar com o almoço no dia da grande abalada. Levava comigo uns chouriços e outras coisas que me foram valendo até Luanda. Normalmente, nos dias pós-embarque, quando terminava a minha leitura ou os meus passeios pelo convés, a apreciar o mar, perguntava aos mais atentos de que era o almoço ou o jantar, a resposta era invariavelmente a mesma. Ou era estilhaços com arroz, ou era arroz com estilhaços! Ás vezes deslocava-me lá para ver o que me calhava em sorte e se conseguia comer; mas não! O arroz sabia e cheirava a mofo e ia servindo para alimentar os peixinhos. Normalmente havia sempre alguém que comia mais um pouco e também era isso que me fazia ir levantar a minha refeição. Devia fazer algo pela sociedade onde me integrava. Pois eu não podia tragar aquele arroz a saber a mofo. Nunca me tinham calhado pratadas daquelas, nem em Adrão e não seria ali que iria iniciar-me! Foi assim até Luanda, mas eu também tinha as minhas alternativas. Bolacha baunilha com cerveja Sagres ou cerveja Sagres com bolacha baunilha»!

Nos intervalos apreciava os golfinhos em grupos, cavalgando as águas, saudando-nos!

Foram eles das maiores belezas que encontrei nesta grande caminhada de milhares de km, ou milhas náuticas. Belezas inesquecíveis.

A seguir: Revolta a bordo

Antes: O Niassa partiu

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

O Niassa partiu

  Ventor 15.10.04


Costa sul do Tejo, olhando-a, enquanto o Niassa se emproava rio abaixo, eu sonhava que um dia voltaria ali, aos caranguejos e, da costa norte veria descer a Sagres, encantada com as músicas das Tágides

Mais uma vez consegui furar por entre os meus companheiros até um local donde podia abarcar toda a plataforma portuária. Num local onde deixara os meus amigos que se foram despedir de mim, verifiquei que ainda lá se encontravam e apontavam com o braço o local onde me encontrava para os que tinham mais dificuldades a encontrar a tal agulha no palheiro. Tudo me indicava que encontraram a agulha, coisa que mais tarde confirmei, mas eu, lá do alto, nunca os perdera de vista. Coloquei os meus olhos a caminhar sobre a multidão e parei-os no local onde saltara. Voltei a tirar o boné, a acenar e, verifiquei que o Niassa já não tinha escadas e começava a afastar-se. Já tinha cortado o cordão umbilical para mais uma arrancada, mas aqueles braços continuavam estendidos, a fazer de amarras tentando conseguir, no sonho, que o Niassa regressasse ao ponto de partida. Eles perceberam onde eu estava. Naquele local, no meio da rapaziada do exército, eu era o único da Força Aérea. Acenei, acenei, acenei ... até perdê-los de vista. Naquele momento, todos eles eram a minha gente, mesmo aqueles que, quando eu procurava passar para o lado da guerra, me incentivavam a não saltar, a ficar. A gritarem: "não vá"!

Mas eu fui, sempre a pensar em Adrão.

A seguir: Navegando no mar alto

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

No convés do Niassa

  Ventor 11.09.04

Estes lindos casarões, na costa sul do Tejo, sempre me encantaram. Os meus olhos sempre os frequentaram, tal como hoje, eles são abraçados pela minha vista através da minha máquina. Durante algum tempo eu fui um frequentador da costa sul através das minhas caminhadas e da pesca dos caranguejos.
Ao chegar ao convés do Niassa foi a minha vez de voltar a tirar o boné da cabeça e acenar, também, freneticamente. Naquele instante era o Niassa que começara também a dizer adeus. O seu buzinão acordou todas as tágides que permaneciam dormentes tentando não assistirem à nossa partida e ao ouvir aquele som, fiquei com a sensação que chegara a hora de tudo chorar, dentro e fora do Niassa. O Niassa deu mais um buzinão, os seus motores começavam a ganhar força, as cordas estavam a ser retiradas das amarras e o Tejo perfilava-se. Era o momento em que ninguém poderia dormir mais, nem as tágides! Sentia que elas me chamavam muito baixinho: "Ventor ... Ventor ..." Chegara o momento do Niassa, montado nos seus poderosos cavalos, se  emproar. Mais três buzinões do Niassa. Parecia que tudo em volta trepidava e que o mundo inteiro iria submergir-se no Tejo.
A seguir: O Niassa partiu

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Subi ao navio Niassa

   Ventor 11.09.04

O Cristo Rei, como sempre, abraçava todos
Naquela situação todos os olhos marejam. Do seu semblante triste saíram as seguintes palavras: "veja se consegue saltar por aqui meu rapaz"! Fitei-o nos olhos, coloquei a mão sobre o último tubo cilíndrico e todos se encolheram enquanto eu formei um salto apertado, fazendo girar as minhas pernas bastante encolhidas para o lado oposto.

A aglomeração do lado da Rocha Conde de Óbidos era enorme e, ao chegar ao convés, reparei que muitos choravam de braços no ar, acenando com os bonés, num adeus que parecia não ter fim. Em terra, a multidão era ruidosa. Pousei as malas aproveitando para descansar e resolvi, do cimo das escadas, dizer um último adeus a todos aqueles que se foram despedir de mim, pois sabia onde estavam e, mais uma vez, olhei a gente junto ao gradeamento que me voltou a dizer um adeus arrepiante. Eu fiquei com a sensação de que toda a minha gente se instalara ali, ou então, toda aquela gente era uma imensa extensão de um adeus cheio de imprevisões. Mas não! Todos eles sabiam que eu passara ali como que perdido no meio da multidão e eles adotaram-me como um dos seus.

domingo, 12 de setembro de 2004

Ouço o Niassa ranger

   Ventor 11.09.04

Deixei as malas com esse meu amigo e voltei pelo sítio que tinha chegado, procurando caras conhecidas. Procurei, no meio da multidão, pessoas que não vi e encontrei outras de quem já me tinha despedido; mais uns dedos de conversa e mais uma caminhada entre a multidão. Entretanto o Niassa rangia à medida que cerca de mil e tal homens iam subindo as suas escadas. Todos carregavam as suas malas. Uma ou duas malas mais uma pesada carga que transportavam aos ombros. A esperança! A esperança do regresso. Regressar era o grande objetivo de todos que subiam aquelas escadas. Mas, essa esperança, tornava-se maior quando, ao voltarem-se para trás, olhavam os braços levantados com umas mãos que seguravam os lencinhos do adeus. Eram milhares!

O Pavilhão dos descobrimentos, visto de Oeste

Enquanto as escadas do Niassa continuavam a ranger, eu andava fora da área militar, perdido no meio da multidão, furando aqui e ali, atento a todos os movimentos que se desenrolavam à minha volta, mas sem encontrar alguém daqueles que procurava. Não tinha lá família mas tinha alguns amigos e não cheguei a despedir-me de todos que lá foram. Queria dizer a todos uma palavra: "voltarei" ou como a canção torneró!
Voltarei porque o Senhor da Esfera assim o determinara. Eu ouvi-o dizer: "vai Ventor. Vai com confiança, porque tu voltarás a abraçar o Tejo. Este é o teu rio"!
Assim quem não parte confiante?

sábado, 11 de setembro de 2004

Perdido na multidão

   Ventor 11.09.04

Em Adrão, meus pais e meus irmãos, aqueciam-se ao lume na manhã de um dia frio, julgando-me a entrar no Nº 21 da Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa, ou então pelos subterrâneos do G.D.A.C.I. (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intersecção), em Monsanto. Seriam os pensamentos sobre o que liam, do que eu lhes escrevia. Mas não! Eu estava a dar mais umas passadas na minha Grande Caminhada. Nunca os quis atormentar com a minha saída rumo a África. Se fiz bem ou mal, ainda hoje não sei!

Esta é a retaguarda do Pavilhão dos Descobrimentos. Tem na sua vertical a representação de uma espada.
Ela simboliza o tempo em que a vanguarda é garantida pela retaguarda. Sabedoria, determinação e espada!

Não encontrando quem procurava, no meio de tanta gente e, vendo o tempo correr, voltei a olhar as escadas do Niassa por onde, dentro em pouco, iria subir. Na base das escadas, lá estava o meu amigo algarvio esperando-me e guardando as minhas malas junto da dele. Eu levava duas malas, uma das quais, cheia de livros. Pesava que fartava! Mas o meu amigo, lá continuava, debaixo do boné da Força Aérea, não se lhe vendo o rosto. Apenas eu sabia que ele estava lá! Olhando a silhueta do meu amigo algarvio, voltei o meu olhar sobre o Cristo Rei e o meu amigo Apolo que me acenava daqueles lados.
Ao voltar-me para trás, fixei mais uma vez, com um olhar firme, a multidão debruçada da varanda do edifício e, em meu redor, só via rostos tristes olhando o Niassa e de braços no ar, lutando contra o cansaço, acenando. Dirigi-me para o Niassa e quase não conseguia perfurar aquela mole humana que me cercava e bloqueava a passagem rumo à área militar. Entre a multidão e o Niassa havia um gradeamento de tubos que não permitia a passagem para o lado militar e, caminhando com muitas dificuldades, encontrei no meio da multidão, um General do Exército. Com algum esforço devido ao aperto, levantei o braço e fiz-lhe a devida continência a que ele correspondeu e, enquanto isso, verifiquei que os seus olhos marejavam. 

África à Vista

   Ventor 11.09.04

No dia 4 de Janeiro de 1968, aí da Rocha de Conde de Óbidos, no rio Tejo. O rumo, era Moçambique, África Oriental a beijar o oceano Índico. 

Era esta a imagem que eu tinha na cabeça. Desceria o Atântico, entraria no Índico, subiria o Canal de Moçambique e iria parar à baia de Fernão Veloso, em Nacala. Depois seria uma bela caminhada por via férrea para o Niassa. Passaria por Nampula e Nova Freixo seria o primeiro destino

A Mariam Makeba, chegaria mais tarde

Estávamos no Inverno de 1968, precisamente, no dia 4 de Janeiro. Era um dia de Inverno, mas estava lindo. O céu estava azul, o rio Tejo imitava-o, as Tágides tinham dormido bem e o meu amigo Apolo brilhava!

Eu saí da zona do Chile, em Lisboa, num táxi, rumo à Rocha Conde de Óbidos onde tinha um encontro marcado com o destino. Quando cheguei, já lá estava muita gente de cara triste. Os militares que iam embarcar no Vera Cruz, rumo a Angola, já tinham destroçado da formatura e já subiam as escadas do barco. A algazarra era enorme! Eu saí do táxi, paguei, peguei nas minhas duas malas e fui-me chegando para o Niassa que estava mesmo ali, em frente do edifício da Rocha Conde de Óbidos. Junto ao Niassa, encontrei os meus companheiros de caminhada da Força Aérea que num grupinho assistiam à formação dos militares do Exército e pedi a um deles, um algarvio, se calhar, descendente longínquo de um qualquer Mohamed (olá amigo Fernandes), para me guardar as malas e me esperar, enquanto eu ia procurar alguns amigos que não tinha encontrado.

O paquete Niassa era um belo barco

O clarim toca a destroçar e, enquanto o Vera Cruz acorda o Tejo com três apitos de alta sonoridade e larga ferros com cerca de 2.000 homens a bordo, eu olhava aqueles que iam ser meus companheiros de viagem, com um semblante enfeitado de uma terrível tristeza. De repente, o Vera Cruz que não se fez rogado, avançou Tejo abaixo e o Niassa aguardava a sua vez.

A seguir: Perdido na multidão

Rihana - Moçambique

Rihana, em Moçambique. Um povo que canta e dança pode ser feliz. Porque Moçambique não é? Eu sei mas não vos digo!